Irônico
1 "Ou Talvez..." - Capítulo Único
Notas iniciais
Olhando por fora, ela era arrogante, bruta, grossa e muito ignorante, segura de si, confiante, orgulhosa. E por dentro? Quem estava lá para vê-la por dentro? Talvez nem ela mesma se visse, mas talvez ela não tenha querido ver. Devia estar ocupada demais tendo pena de si mesma para notar que o mau humor de seu pai é característico de um marido que não quer manter a interação de seus filhos com sua ex-esposa, mas o faz a contragosto, pois perderia a tutela deles para a mãe se fossem a um tribunal; Que os cachorros latindo no quintal não eram para irritá-la nem acordar ninguém, mas sim pra dizer que o gato que corria sobre o muro, encarando o perigo que os animais no chão representavam sem ao menos pestanejar, era mais vívido do que aquela jovem no auge de seus 16 anos; Que o fato de ainda dividir a cama com sua avó, às vezes com seu pai, não era por uma opção deles, disso ela sabia, mas ela não sabia que o pai não mudava nada porquê via ali uma forma da filha prezar a presença deles. Mas como o pai saberia que, depois de voltar pra casa após alguns dias dormindo na casa de sua mãe, dado de cara com o mau humor vitimista de seu pai e o desgosto de sua avó por não ter levado seu irmão junto com ela, que ela não se sentiria encaixada mais naquela casa, que seu corpo não se sentiria mais a vontade de se acomodar no pouco da cama que sua avó deixava e depois se afastava quando notava a tênue presença da neta, e que também não se sentiria mais a vontade empurrando o pesado corpo adormecido de seu pai para que ocupasse apenas um lado da cama, para que ela pudesse deita-se, mesmo sabendo que ele logo se acomodaria novamente e a empurraria levemente para o chão, e que sua mente não mais classificaria como sorte o pai gostar de dormir em um colchão de casal no chão, pois assim não quedaria? Ela estava cansada. Cansada de não se encaixar onde queria, ou até mesmo onde se via obrigada a se encaixar. Não queria lutar pelo seu espaço, isso ela nunca quis fazer. Ela sempre quis foi apenas uma coisa: Reconhecimento. Ela apenas queria que a reconhecessem como parte do lugar, como pertencente àquele recinto, e deixasse pra ela o lugar que era dela por direito, o direito de simplesmente estar ali. Era assim que ela pensava, foi assim que ela cresceu pensando. Arrogância não era seu ponto forte. Ela nem sabia o que essa palavra realmente significava, ou talvez só não quisesse pesquisar. Ao mesmo tempo em que seu complexo de inferioridade limitava sua confiança em si mesmo, e a rispidez em se auto avaliar, sem nenhuma intenção, transparecia em suas palavras em voz alta, o que a classificava como ignorante e grossa, e talvez sua falta de modos e interesse em se concertar fossem a causa de sua brutalidade, além da de natureza, claro. Seu orgulho poderia ser explicado como o ZERO em uma conta de resultado 0,50, ninguém se importa com o ZERO depois do “5”, ele é dispensável, relevante e ninguém o considera realmente, ele é apenas usado para depois ser descartado, já que apenas o importante é chegar ao resultado, em suma, seu orgulho era algo do qual ela fazia uso para tirar um sorriso nos piores momentos, quando ela precisava, devido às circunstâncias, sorrir e não conseguia, ou simplesmente algo para usar como desculpa de algo, explicação esfarrapada e dada sem solicitação, sendo que na verdade nunca existiu. O que seria confiança? Ela não sabia. Desconhecia mais, ou menos?, que arrogância, uma vez que não lhe interessavam estas palavras. Aliás, o que a interessava? Seu Hobbie obsessivo, resultado de um amor platônico somado a uma carência abísmica que não deveria existir, era sua maior fonte de interesse, o centro de seu pequeno e doloroso mundinho, e, incrivelmente, era, segundo ela, o único edifício em pé desde que começou a sonoplastia dos horrores, talvez não tão horrorizante assim. Os gritos de sua mente vociferando, suplicando e gemendo por morte, por suicídio, não a impediam de sorrir quando lhe choravam, nem de aconselhar quando lhe requerido, nunca interferiram em nada. Nada no presente. De quantas coisas no futuro será que esses gritos a privaram? Acho que de todo um universo de chances e possibilidades. Ela poderia ter chegado onde quisesse, seja lá onde fosse isso. Ah, ela queria ser psicóloga. Irônico? Muito. Mas e agora? Aonde ela chegou? Dizer que ela chegou ao fundo do poço não explicaria sua situação, mas acho que dizer que ela cavou mais pra baixo ainda poderia começar a parecer, no mínimo, razoável. Os amores que perdeu, ou eles que a perderam?, permanecem vivos e seguindo suas vidas, indiferentes à sua ausência. É incrível como as engrenagens de um relógio, não importando o quão minúsculas sejam, são todas necessárias umas as outras, mas nas grandes engrenagens da vida, de que adianta, já que quanto menor for, maior é o número de substitutos? O que não falta são pessoas no fundo dos poços. Os poços devem estar vomitando pessoas, coitados, e com uma baita azia humana. Seres humanos não devem ser fáceis de digerir. Não há muito que fazer, já que muitos estão lá porquê são incapazes de verem por outros ângulos. Se essa menina visse que sua avó apenas se esticou mais na cama para o impacto das fortes tosses em seu corpo serem menores, que seu pai estava tentando brigar com o sono e acabou adormecendo sem perceber, que sua avó apenas não soube expressar seu descontentamento com a ausência de seu neto mais novo em sua casa e afirmar mais sutilmente que a presença dela ali não importava mesmo, que seu pai estava de mau humor vitimista porquê a ama e só queria chamar sua atenção, seus olhos seriam mais iluminados. Talvez isso tivesse mudado tudo. Ou talvez ela só demorasse mais a tomar a atitude que tomou, já que uma hora tudo despenca, e ela não era forte, não como antes, e ela já havia notado, mas os acontecimentos e as ocorrências apenas faziam com que ela se sentisse mais e mais responsável e carregasse todo o fardo sozinha e não dividisse com ninguém e, ainda assim, levasse um sorriso brilhante em seu rosto. Ela deixou de ser forte quando deixou de se crer forte, quando se entregou ao abissal da vida e se deixou levar pela comodidade da sofreguidão do escuro, já que a dor era algo rotineiro para ela. Pois agora, não importa mais tudo que foi, ou que talvez pudesse ter ido, ou o que se perdeu n caminho. Ela deu ouvidos às súplicas de morte em sua cabeça, as abraçou e acariciou como um pequeno e adorável animal, alimentou-as sem notar, as cultivou, enquanto tudo o que queria era acabar com todas elas. Ela tomou então sua decisão. Subiu na cadeira. Amarrou a corda numa das vigas do teto escroto de sua casa escrota de sua vida escrota. Lembrou-se das lições de laço com seu pai. Sorriu, e os gritos se intensificaram. Ela morreria ali, sem que ninguém soubesse, uma vez que havia engolido todos os prelúdios sozinha, sem que ninguém desse falta, uma vez que fizera questão de afastar todos de si mesma. Por que ela tinha apenas êxito em afastar pessoas, e não pensamentos? Ela escreveu num bilhete que mataria quem a estava matando. Irônico. Saltou da cadeira com, literalmente, a corda no pescoço. Irônico de novo. Fingiu-se criança, fingiu voar, fingiu-se livre e num voo aberto para a imensidão desconhecida que tanto ansiou. Fingiu-se feliz, fingiu-se não mais carente e contente com o futuro sucesso de sua empreitada. Mas apenas fingiu mesmo. Enquanto suas células morriam lentamente, uma a uma, o desespero era evidente em cada músculo de seu ser. Não queria morrer. Não queria ir, não queria. Num lampejo, notou tudo o que precisava ter notado antes, mas não conseguiu. Notou tudo o que foi necessário e fundamental, mas agora era inútil. Num último ato, tentou alcançar o nó e o desfazer, mas sua falta de destreza já não permitia. Ela queria partir a corda, mas a corda a partiu. Irônico, mais uma vez. Talvez ela realmente quisesse ter partido, ou talvez tenha sido só uma fixação passageira a qual ela valorizou demais. E como será que ela está agora, pendurada no quarto por uma corda no pescoço? Como será que ficarão ao encontrar, quando descobrir, quando o tempo passar e quando ela deixar de existir nas memórias de todos? Em tudo, ela não estava errada. Todos seremos esquecidos um dia, seremos apagados da memória. Mas ela será para sempre lembrada como a menina escrota do quarto escroto, morta por motivos escrotos e sendo escrotamente fraca. Tenho certeza que não ganhou essa fama a partir de alguém que a conhecia. Mas alguém a conhecia? Ela se conhecia? Será que era assim que ela queria ser lembrada? Talvez não, ou talvez ela nem tivesse pensado nisso. Mas acho que isso não mais poderemos saber...
Notas finais
Até uma próximo vez.
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