Iocum
5 Capítulo 5 - Primeira marca
Notas iniciais
Luiza tentava a todo custo se esquecer do que havia presenciado no banheiro. Seu cérebro, de tanto pensar no assunto, criava explicações para o que ocorrera, diluindo cada vez mais a lembrança até ela se convencer de que tudo não passara de uma pegadinha. Era incrível o modo com que a maioria das pessoas simplesmente não aceitava as coisas que não fossem deste mundo. A racionalidade era tamanha que tudo precisava ter uma explicação senão a maioria pensava que havia se confundido.
Como, por exemplo, ouvir passos no corredor à noite enquanto todos dormem e você é o único acordado. É tão difícil acreditar que é um espírito vagueando sem rumo procurando algo ou alguém?
Isabel estava estranhando o comportamento da amiga desde que ela havia voltado e falado com a maior grosseria que aceitava mudar de filme, já que ela e Maria eram duas bebês choronas. Após pouco mais de uma hora rindo com a película Quero matar meu chefe 2, as três amigas mal se lembravam da Loira e de suas brincadeiras.
Porém, o espírito não gostava de ser esquecido.
Aquelas fedelhas realmente pensavam que era só ver um filminho de comédia que estaria tudo bem? Há! Não havia nada melhor do que pegá-las de surpresa. A brincadeira se torna bem menos interessante quando o alvo já está esperando um movimento. Neste momento, as garotas eram como peças de xadrez e toda a cidade o tabuleiro. Para ganhar e se divertir, a Loira tinha que analisar as futuras jogadas e a respostas das adversárias – não que esperava algo delas. Aquelas meninas eram mais animais enjaulados do uma real ameaça. O que poderiam fazer? Chorar e chamar a mamãe?
Elas precisavam de uma marca que ficaria sempre lembrando-as do jogo em que estavam.
Assim que chegou a sua casa, Luiza logo tomou um banho rápido e colocou um pijama que consistia em uma regata branca e um short rosa de bolinhas. Por ser filha única e a mãe estar no trabalho, a garota estava sozinha em seu quarto com sua gata, Mel. Ao contrário de seu nome, a felina de pelo castanho claro e olhos pretos não era nem um pouco doce, arranhava o sofá e a perna de qualquer um que ficasse por tempo suficiente em seu caminho. Andava vagarosamente como se fosse a dona da residência e quando sentia fome não se importava em atrapalhar os donos para pedir alimento.
– Saia da frente do computador, gato irritante! – ralhou Luiza tirando Mel da mesa em frente a tela.
O seu quarto possuía alguns pôsteres de filmes e uma estante repleta de livros dos mais variados gêneros. Somente alguns sabiam, mas sua maior paixão era escrever de modo amador e ler. A cama de solteiro estava perfeitamente arrumada com uma fronha lilás, uma sacada permitia que a menina tivesse uma ótima vista do parque ecológico e das belas árvores.
Pelo espelho de uma belíssima penteadeira rosa desbotado que fora presente de sua vó, a Loira observava cada movimento de Luiza.
O espírito procurava novas e divertidas maneiras de enlouquecer aquela garota. Ah, sim. Enlouquecer era a melhor coisa a se fazer, só perturbar um pouco estava fora de questão. Ele queria mais almas para brincar enquanto aguardava as próximas vítimas invoca-lo. As almas que possuía presas consigo já estavam fracas de tanto terem suas forças vitais drenadas para tornar a Loira mais poderosa. Caso não encontrasse substitutas para elas, ficaria tão fraca que nem mesmo sendo invocada poderia aparecer no mundo dos vivos.
O gato, já no chão, olhou para a porta de madeira branca do quarto e seu pelo se arrepio completamente ao mesmo tempo em que ficou em posição de ataque. Seu chiado animalesco chamou atenção de Luiza, que interrompeu seu jogo no computador.
– O que está fazendo Mel? Não tem nada aí, pare de graça. – falou com tom de voz bravo.
Com os olhos, Luiza acompanhou sua gata ir mudando de direção, virando como se seguisse alguém que caminhava pelo quarto. Mas, claro, aquilo era somente algo de sua cabeça. Ou ela pensava que fosse. Sentiu um frio descer por sua coluna ao mesmo tempo que o felino ficou de frente para si ainda com o pelo arrepiado e as costas envergadas.
Era como se algo estivesse atrás dela.
– Você está me assustando, Melequenta. Pare! – disse sentindo um verdadeiro medo se apossar de seu corpo.
A Loira estendeu sua mão gélida e apodrecida em direção ao ombro de Luiza de modo lento, como se a cena estivesse em câmera lenta. Aquele bichano estava irritando-a, mas pelo menos serviu para deixar a fedelha ainda mais assustada. Saber que os animais de estimação – principalmente os gatos – conseguiam ver com muita clareza o mundo espiritual era realmente um saco. Os latidos e miados que seguiam logo após aparecer em um lugar deixava o espírito com raiva.
Um dos dedos da mulher roçou delicadamente no ombro de Luiza fazendo com que a garota paralisasse de pavor.
Seus olhos se arregalaram e parecia que suas cordas vocais foram costuradas, pois não conseguiria nem se fosse para salvar sua vida emitir qualquer som além de um chiado abafado. Prendeu a respiração, temendo que qualquer ato fizesse o que quer que estivesse atrás de si avançar sobre ela para feri-la. Seus pelos se arrepiaram com o frio intenso que sentiu e seu corpo tremeu.
De repente, a mão inteira da Loira apertou seu ombro de modo firme.
As unhas quebradas e um pouco afiadas fincaram a pele fina da garota e ela impulsionou seu corpo para frente tentando se livrar da mão em seu ombro. Com o coração acelerado e a respiração ofegante ficou encarando o nada atrás da cadeira giratória que rodava pelo movimento rápido da garota ao levantar.
A cadeira parou. Mas não foi naturalmente, algo simplesmente a segurou quando estava de frente para Luiza. O gato avançou para o ar e o encarou com os olhos felinos fixos em um único ponto perto de onde a garota estivera. Olhou para sua penteadeira e notou que algo a encarada do vidro. Abriu a boca gritando desesperadamente quando a mulher sorriu para ela e estendeu seu indicador em sua direção dobrando-o duas vezes como se estivesse chamando-a.
Luiza acordou com um pulo.
Seu coração batia de modo acelerado no peito e percebeu que havia dormido sentada na cadeira com o rosto apoiado nos braços em cima da mesa de seu computador. Passou os olhos pelo quarto e tudo parecia normal. Mel dormia tranquilamente na cama da garota, bem diferente do comportamento no sonho. Isso mesmo, sonho. Tudo não passava de sua imaginação cruel. Talvez fosse culpa do stress da aproximação das provas finais.
Luiza foi em direção ao banheiro, precisava jogar uma água no rosto para despertar totalmente e tirar aquelas cenas horripilantes de seu cérebro. Assim que entrou, ligou a torneira, fez uma concha com ambas as mãos e mergulhou seu rosto na água. Já mais dispersa, pegou a toalha felpuda vermelha e se secou. Encarou seu reflexo no espelho e sentiu o mais puro pânico invadi-la com o que viu.
Havia uma marca arroxeada no formato de mão em seu ombro.
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