Inútil Tentar

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Basicamente, Clarissa Wayne não conheceu os pais e cresceu no orfanato de Gothan City. Sabendo que ambos eram heróis, os renegou completamente, adentrando o mundo do crime.Essas são apenas algumas memórias de um passado nem tão distante...

Lição 3: Se escolher o mundo do crime como objetivo de vida, deve conhecer os principais meios de tráfico existentes, e o que virá a ser útil (indispensável) em sua vida nessa nova busca pela sobrevivência. Entre tantos outros, existem três grandes tráficos lucrativos em nosso mundo; o de drogas, o humano, e o de armas.

Ao menos os anos na Liga das Sombras —diga-se de passagem, suportando um treinamento rigoroso nas mãos de Ra’s Al Ghul —serviram para alguma coisa.

Nunca deixo de agradecer mentalmente por ter sido tão atenta e obediente às suas maravilhosas lições de vida.

Um dos capangas avançou para cima de mim, mas simplesmente girei meu corpo para o lado, puxando a cabeça dele e acertando-a contra meu joelho erguido. Sangue espirrou de seu nariz atualmente quebrado, e o babaca caiu no chão junto de seus fiéis companheiros.

Meus olhos vagaram por cada milímetro do galpão abandonado, desde os caixotes de madeira até os caminhões estacionados no pátio imundo.

—Clarissa Wayne! — Stanley Jefferson, o chefe da máfia, surgiu em uma das portas à minha frente, com os braços abertos em um gesto mais do que receptivo. Ainda excessivamente bajulador com relação à mim. — Como sempre, linda...

— Onde está o que pedi? — Passei por ele, os saltos de minhas botas atingindo o piso com um sonoro baque.

Naquela época — que não faz mais do que um ano e alguns meses — Stanley não era um completo tolo. Ele ainda não tinha cometido o maior erro de sua vida — ficar contra mim — e eu não passava da “Wayne bandida”, sem ter assumido a forma da Lady Assassina oficialmente. Resumindo, eram os bons e velhos tempos da minha doce e trágica vida.

— Eles trouxeram hoje pela manhã — informou o moreno, ajeitando o chapéu em sua cabeça. — A mercadoria é boa e você vai adorar...

— Eu decido isso... Lembra? — falei, silenciando-o na mesma hora.

Alcançamos uma sala escura e úmida, onde Stanley guardava a encomenda que chegava especialmente para mim do exterior, e que futuramente geraria grana, mortes e todo aquele blábláblá poético que eu costumava ouvir da S.H.I.E.L.D e dos heróis salvadores da pátria.

— Sei bem — ironizou o Jefferson, mas não lhe dei atenção alguma, ou acabaria perdendo a pouca paciência que ainda tinha.

Naquele momento, observei dois outros capangas guardando os caixotes de forma zeloza, armados com submetralhadoras e carregando facas em seus coldres. Com um simples estalar de dedos, Stanley fez com que eles se aprontassem obedientemente, abrindo o caixote sem delongas com suas facas.

O tráfico de drogas e o tráfico humano não me são úteis; as pessoas atrapalham, e as drogas tiram sua esperteza.

Não. Sempre preferi as armas. Elas são fiéis ao seu dono, se mantém obedientes até o fim, e podem ser tanto sua salvação, quanto sua desgraça iminente. O que mais alguém como eu poderia querer?

Stanley tratou de retirar cada uma das armas embrulhadas em vários plásticos, depositando-as em cima de uma mesa de mármore no centro da sala.

De pequeno porte — que eu poderia usar diariamente — havia uma Jackal-B automática e duas Glocks (uma 380 e outra g25). Maiores e mais potentes, estavam o clássico fuzil de assalto AK-47, e as submetralhadoras SMT 9, 9 C, 40 e 40 C. Algumas granadas temporizadas vinham inclusas, juntamente de uma simples PT 740 SLIM.

Encarei Stanley com certa incredulidade.

— É só isso? — perguntei, quase que esperando por mais alguma coisa que realmente me surpreendesse.

Ele meramente deu de ombros.

— Sabe que faço o máximo por você, Clary — disse, em um claro tom de desculpas. — Mas o nosso negociante não parece mais tão interessado em verder suas armas para uma garota de quinze anos. Talvez ele pense que... Você pode colocar todo o negócio à perder.

Revirei os olhos para tal idiotice.

— Então o convença a vender para mim — ameacei, mantendo a Glock 380 segura entre meus dedos, observando seus detalhes com apreciação. — Estou construindo meu próprio império agora, e é bom ter gente importante ao meu lado.

Stanley estendeu a maleta prateada, e coloquei apenas as duas Glocks e a Jackal-B automática. O chefe da máfia colocou um papel e uma caneta na mesa, e assinei meu nome rapidamente.

— Faça o trabalho burocrático — sorri cinicamente, e Stanley guardou o papel com minha assinatura no bolso.

Mesmo sendo chefe de uma máfia conceituada no mundo do crime, Stanley fazia os serviços “sujos” para mim sempre que eu precisava. Naquele tempo eu ainda tinha o desejo de constituir um império criminoso tão forte e resistente quanto o do venerado Rei do Crime; eu queria ser conhecida, e principalmente temida.

Mas por que Stanley Jefferson trabalhava para mim afinal? Por que me auxiliava com o tráfico de armas, sendo que seu maior interesse eram as drogas? Ele estava no auge de seus vinte e poucos anos, e com tantos capangas poderia muito bem me despachar para o reino de “São Nunca” na hora que quisesse, certo?

O motivo dele ter feito tanto por mim, fora pela promessa que fizera a um antigo colega de infância meu, que ele temia até a raiz dos cabelos.

James Turner (ou o Ilusionista) deixara um presentinho antes de desaparecer no mundo, assim que saímos da Liga das Sombras.

Uma longa e entediante história que não merece ser relembrada justamente agora.

— Ele vai querer vê-la — relembrou-me Stanley, com um quê de pessimismo em sua voz. — Sabe que não posso continuar servindo de pombo correio por muito tempo...

O encarei com impaciência.

— Apenas faça o que tem que fazer. O resto são consequências — E deixei a sala, carregando a maleta com o armamento que conseguira.

(...)

Como Stanley havia dito, o carregamento estava se tornando cada vez menor, e o valor aumentava. Eram armas russas e israelenses, mas eu não tinha mais como continuar com aquilo.

— Vou falar com ele — decidi, massageando as têmporas.

Estávamos no mesmo galpão, e na minha frente haviam apenas granadas. Era totalmente o contrário do que eu havia pedido.

— Eu posso arranjar outro fornecedor — Stanley cruzou os braços, mantendo-se sério. — Em um estalar de dedos...

Mordi a bochecha, encarando-o de maneira reprovadora.

— Sabe que detesto perder as coisas tão facilmente — girei a Glock 380 entre meus dedos. — Se eu quiser construir um império, terei de derramar um pouco de sangue para tal.

E eu estava mais do que certa. Embora Stanley detestasse conflitos — principalmente aqueles que envolvessem o seu prestigiado nome — era necessário um pouco de impressionismo para variar. Se nosso fornecedor estava com tanto receio de que eu estragasse tudo, não haveria problemas em provar o contrário.

— Não sabe o que está fazendo — o Jefferson anotou o endereço, relutantemente. Fez menção de me entregar, mas recuou a mão. — Tente não fazer besteira, Clary...

Apanhei o papel de sua mão, agilmente.

— Não farei — sorri cinicamente. — Pode se esconder embaixo da cama se quiser.

Saí do galpão, e alcancei o beco úmido e deserto em questão de poucos minutos. Fechei a porta de ferro, trancando-a, e logo estava seguindo a passos largos pela extensão que levaria à avenida principal.

Peguei um táxi (quanta discrição) e pedi ao motorista para seguir até a 7th Avenue. Saímos da Columbus Avenue, e eu tinha certeza que pagaria uma fortuna no final da viagem.

(...)

O trânsito atrasou meus planos, mas não os destruiu por completo. Paguei o motorista, e bati a porta do táxi.

Semicerrei os olhos. Era ali?

A máfia do “príncipe do crime” não se localizava em um beco qualquer como a do Stanley. Ficava em um casarão de estrutura antiga, porém com um toque de modernidade aparente.

Olhei ao redor e sem hesitar apertei o passo em direção à entrada. Subi os pequenos degraus que levavam para a porta de mármore, e toquei a campainha insistentemente.

Como o esperado, fui atendida em questão de segundos. Um homem trajando terno preto, provavelmente tendo em torno de quarenta e poucos anos, me encarava de um jeito avaliativo.

— Quero falar com o chefe daqui — falei, fazendo menção de adentrar o local. No entanto, a típica barragem ocorreu.

— É melhor ir embora — o homem manteve sua mão imunda firme em meu braço. — Ao invés de importunar as casas de família, sua prostituta barata. — Sorriu com escárnio para mim.

Oh, então ele não me considerava uma pirralha, e sim uma vadia qualquer? Quantas opiniões de uma só pessoa — no caso eu.

O fitei com uma falsa inocência em meu olhar.

— Você vai se arrepender de ter dito isso — Alertei, embicando os lábios. Ele franziu o cenho, mas não teve tempo de processar a informação.

A faca adentrou seu estômago, e sua mão soltou meu braço direito. Com a mão esquerda, continuei afundando a lâmina contra sua pele, entrando na casa e o empurrando para dentro sem que ninguém de fora conseguisse ver o ataque brutal.

Fechei a porta com o pé, e chutei o corpo ensaguentado do homem para trás. Ele caiu no piso com um baque.

O sangue manchou minhas mãos, porém não me importei nem um pouco em limpá-las.

Enquanto o capanga inútil se desfazia em sangue e agonizava de dor, tive tempo de analisar a sala de estar minuciosamente.

Um cômodo com antigos quadros fixos às paredes de cor bege, e sofás de veludo vermelho sangue, com um tapete de pele de urso cobrindo o piso encerado próximo à lareira.

Era um gosto extremamente... Esquisito.

Um som às minhas costas e virei-me lentamente. Três gatilhos prontos para serem pressionados, os canos de suas pistolas mirando diretamente contra mim.

— Vejam só quem resolveu aparecer — escarneceu um dos caras, com um sorriso de canto em sua face. — A filha revoltada do herói...

Bufei. Decididamente aquele não era o meu dia.

— Que tal vocês começarem a me conhecer pelos meus crimes e não pelo meu parentesco nojento?

— O chefe não irá vê-la — o outro me alertou. — É melhor dar meia volta enquanto ele não percebe a merda que você fez — indicou o corpo do colega no chão.

— É muito gentil da sua parte se importar com meu bem-estar — ironizei. — Mas não vou sair daqui sem antes resolver alguns assuntos pendentes...

Ainda mirando em mim, percebi seus dedos pressionarem o gatilho. Saltei para trás, as balas cortando o ar onde eu estivera.

Antes que eles pudessem atirar contra mim novamente, chutei uma das poltronas, derrubando-a em frente aos capangas. Os três recuaram, e foi o suficiente para que eu pulasse o móvel e acertasse-os com golpes certeiros.

Duas pistolas no chão, e um deles tentando mirar.

Inútil.

Com um único rodopiar atingi o salto de minha bota contra sua mão, a arma caindo contra o piso. Ele tentou escapar, mas meramente puxei seus braços para trás, e chutei sua coluna.

O grito de dor ecoou pelo cômodo.

A faca em minha mão — ainda ensaguentada com o último crápula — praticamente implorava por mais uma morte.

Enfiei a lâmina contra sua pele, mantendo-o preso. Ainda ouvindo seus lamentos de pura angústia, puxei a faca para o lado. O cessar do grito foi instantâneo, e a tranquilidade sombria predominou pela sala de estar.

Peguei duas pistolas, e desarmei a terceira. Verifiquei se os outros capangas ainda respiravam, agachando-me ao lado de ambos.

Suspirei pesarosamente ao perceber que meros golpes não tiravam a vida de ninguém.

Engatilhei uma das pistolas e mirei em suas cabeças. Disparos seguidos, e a certeza de que aqueles dois não mais respirariam. Quem sabe na próxima...

— Wayne.

Olhei na direção da voz, localizando um garoto de no máximo dezessete anos, com um sorriso de canto em seu semblante.

— Que surpresa vê-la — Ele enfiou as mãos nos bolsos de sua jaqueta preta, enquanto eu avaliava seu perfil com a sobrancelha erguida. Cabelos escuros desalinhados, e uma cicatriz visível em seu pescoço. Devia ser apenas alguns centímetros mais alto do que eu, possuindo um acentuado porte físico.

— Eu não sei se te conheço — Girei a pistola entre meus dedos. — Mas é melhor não tentar me impedir de ver o chefe.

Ele se encostou contra o batente da porta.

— Quatro homens mortos, e uma bagunça para eu arrumar — suas palavras me deixaram ainda mais desconfiada. — Pouco interessante.

Semicerrei os olhos.

— Quem é você?

O moreno deu de ombros, meneando a cabeça de um lado a outro.

— Nick — respondeu simplesmente, caminhando em minha direção. — O chefe do tráfico de armas.

Levei minha mão à cintura, não me preocupando em conter uma risada debochada.

— Você está de brincadeira — disse, conseguindo me conter finalmente. — Você é o chefe? Tão...

— Jovem? — Ele arqueou uma das sobrancelhas, claramente me mandando uma indireta. Meu semblante se fechou na mesma hora. — Bom, você quem é jovem e improvável demais para estar aqui, Clarissa.

— Wayne para você — alertei, mexendo na pistola entre meus dedos. — E acredito que você deve começar a aceitar garotas criminosas. Não estamos mais no século 18, meu caro.

Nick concordou com um menear de cabeça, me encarando com um leve desdém em seu olhar.

— Não está satisfeita com os produtos?

Naquele momento, tive de me conter para não lhe acertar a fuça com um bom tiro.

— Claro que estou! Eu vim aqui apenas para matar quatro de seus capangas e te conhecer! — Sorri falsamente. Nick arqueou as sobrancelhas. — Suas armas estão uma grande bosta! Encomendei submetralhadoras e armas de pequeno porte para que eu pudesse usar e negociar com outros mafiosos, por um bom preço. — Gesticulei com os braços, como costumo fazer quando estou puta da vida com alguma coisa. — Mas você, “sr. Chefe do Tráfico” — Fiz aspas com os dedos, e Nick franziu o cenho. — Decidiu por si só que não sou perfeitamente capaz de usar suas armas, pois está cagando de medo, achando que vou estragar todo o negócio que você organiza. Certamente você tem algum tipo de problema mental, já que estou pagando o combinado sem atrasos, e a minha idade não deve interessar...

Ele manteve os braços cruzados, um olhar confuso direcionado à mim.

— Foi isso que o Stanley disse para você?

— E ele exagerou por acaso? — questionei, arqueando as sobrancelhas.

Nick massageou as têmporas.

— O problema não é você ser uma garota de quinze anos bancando a mafiosa — o moreno respirou fundo. — A questão é que você está agindo impulsivamente. Acha que o crime pode afastá-la das suas verdadeiras origens, mas está completamente errada. Não vou dar minhas armas preciosas à uma irresponsável que pode abandonar tudo.

Cerrei os punhos.

— Então é isso? — perguntei, soltando uma risada cética.

O moreno tirou um maço de cigarros do bolso da jaqueta preta, equilibrando-o um entre os lábios em seguida.

— Você é boa — Nick acendeu o cigarro, soprando a fumaça. — Mas precisa ser perfeita. Ainda tem sentimentos demais...

Continuei observando-o com descrença. Mas que merda de motivo era aquele? Óbvio que eu não fazia o estilo “sentimental”, ou não teria entrado para a Liga das Sombras e adquirido tantas habilidades para nada.

— E o que eu preciso fazer para você me aceitar como uma negociante à altura? — questionei, desafiadora.

Nick me encarou com a sobrancelha erguida.

— Além de nascer de novo? — escarneceu, e me contive relutantemente. Ele exalou uma nova rodada de fumaça. — Talvez... Se tornar um pouco menos... — pareceu buscar as palavras certas por um momento. — Supérflua.

(...)

— Clary — Stanley me seguia como um cão desesperado pela atenção de seu dono. — Vamos lá, você não está falando sério!

Coloquei as luvas de couro negro, a fúria consumindo meu interior.

— Quero aquelas armas, e se esta é a única forma de consegui-las...

— Participando pessoalmente? — o mafioso praticamente gritou a plenos pulmões, e bati a mão contra a testa.

— Ele acha que eu sou inútil — Subi na minha moto, usada apenas em casos de emergência (crimes de alto nível no caso). — Acha que matar seus capangas não foi tão impressionante, tampouco considera meu histórico na Liga das Sombras. Preciso daquelas armas — acrescentei, antes que Stanley recomeçasse a tagarelar. — Preciso entrar definitivamente no tráfico. E preciso sujar minhas mãos ainda mais se necessário.

O Jefferson meneou a cabeça negativamente.

— Vai acabar se matando.

Revirei os olhos. Eu já estava morta antes mesmo de entrar naquilo.

(...)

A estrada estendia-se livremente, enquanto a brisa se encarregava de refrescar a noite. Acelerei, circundando um ou dois carros e continuando meu caminho na mais alta velocidade.

Avistei o caminhão, transportando o que eu precisava. Nick deixara bem claro: “intercepte a encomenda antes que chegue ao destinatário final. Se o fizer, posso negociar com você.”

Eram armas israelenses, as mesmas (ou até melhores) que eu conseguira. Certamente a carga fora disfarçada com produtos inúteis, para dificultar ainda mais meu trabalho.

Não duvidava que a tarefa fosse difícil, mas o quase impossível me agradava ainda mais.

Mantive o controle com uma das mãos, puxando a balestra e mirando em uma das rodas do caminhão.

Pressionei o gatilho, e a flecha explosiva se prendeu ao pneu. Em segundos, houve a detonação, fazendo com que o veículo vacilasse por um momento, mas conseguisse prosseguir.

No entanto, assim que detonei outra roda o caminhão finalmente parou. Passei pelo veículo com minha moto, executando um perfeito drift antes de frear.

O motorista fez menção de descer, mas um tiro certeiro em seu pescoço matou-o instantaneamente.

Como eu sou má.

Neutralizei completamente as chances de alguém notar a falta do caminhão, do corpo, e da mercadoria que ali havia.

Acendi o fósforo.

Enquanto a maior parte das armas queimava, a outra parte era cuidadosamente colocada dentro da mochila.

Subi na moto mais uma vez, as chamas consumindo o caminhão e seu motorista, levando consigo mais um pedaço da minha bondade.

Aquele homem que morrera com um tiro no pescoço, e que queimava continuamente... Era o pai do Stanley.

(...)

— Você sabia — Nick sorriu de canto, tão satisfeito quanto nunca. Seus capangas assistiam à entrega da encomenda e ao meu ganho pessoal, sem esboçarem qualquer reação. — E mesmo assim, matou o pai do seu amigo...?

As armas se encontravam à frente do chefe, e meus olhos mantinham-se fixos naquelas que trariam meu poder definitivamente.

— Stanley não é meu amigo — Cortei-o, erguendo o olhar. — Agora, é bom cumprir com o trato de uma vez.

Nick avaliava as armas, como se quisesse certificar-se de que não eram falsas.

— Como quiser — falou por fim. — A partir de agora, vou confiar plenamente em você como uma boa negociante. — Depositou a submetralhadora Taurus em sua mesa de mármore. — Espero não me arrepender disso.

Sorri cinicamente.

— Não se arrependerá. — Depositei o maço com as notas de dinheiro na mesa. — Pode ficar tranquilo.

(...)

Cheguei em casa por volta das duas e pouco da manhã, mais feliz e aliviada do que nunca.

Aquela fora uma noite propícia aos negócios, e eu merecia um bom descanso.

No entanto, logo que lancei as chaves na mesinha ao lado da porta, as luzes da sala foram acesas.

Stanley possuía uma pistola em sua mão direita, mantendo os olhos vermelhos semicerrados em minha direção.

– Oh, olá Stanley — saudei-o, suspirando pesadamente. — Os negócios foram ótimos.

Ele fungou audivelmente, e senti a fúria que ele emanava.

– Você matou meu pai... — Stanley estremeceu. — Você...

Revirei os olhos.

– Não me diga que vai me matar só por causa disso? — Levei as mãos à cintura. — Seu pai ia morrer algum dia. Eu facilitei apenas...

Stanley meneou a cabeça negativamente.

– Você perdeu sua humanidade. Por causa de uma merda de vingança — Franzi o cenho. Stanley apertou a pistola com mais força. — Mas eu não vou te matar. Seria rápido demais, e você não sentiria dor. — Colocou a pistola sobre a mesa de centro. — Prefiro vê-la sofrer lentamente.

Passou por mim, girando a maçaneta da porta e deixando para trás um silencioso corte de relações com sua máfia.

Dei de ombros.

Eu não me importava. Qualquer tentativa de me tornar mais piedosa não surtiria efeito.

Talvez, se eu começasse a sentir, acabaria me destruindo.

Porque os sentimentos fazem isso com pessoas como eu; eles corroem sua mente, e e trazem à tona aquela culpa torturante.

Hoje, percebo que a dor vai me perseguir eternamente. Eu criei monstros vingativos, que não vão se satisfazer apenas com dinheiro.

E querem saber? Eu amo isso.

Matar, escapar da morte, e continuamente lucrar com o tráfico.

Uma dica importante: nunca confie em mim. Pois se for de mútuo interesse, eu o matarei.

Notas finais
Beijokas!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!