Invisível aos olhos
23 Capítulo 23
Notas iniciais
— Meus olhos são azuis, igual ao dele, Cass. Isso faz sentido para você? – A menina se levanta e vira para mim. Ficando um pouco a frente de Said, mas me deixando obserá-lo. É diferente. Os olhos dela são azuis sim, mas não tão penetrantes quanto o dele. Podem também não serem reais, mas... – Isso que dizer que os seus olhos eram assim.
— Eu não entendi... Você está dizendo que os olhos de Said são dessa cor por que ele se apaixonou? Por mim? – A menina faz que sim com a cabeça e eu deduzo que minha expressão muda, por que ela ri.
Gaelle coloca o dedo na boca, como se fosse para eu me calar.
— Cê não apenas se apaixonou, Cass. Ele foi correspondido. É por isso a cor. É por isso que ele consegue falar em sua mente. Isso não aconteceu por se tornarem um casal ou qualquer banalidade, e sim por que vocês são um. – Gaelle junta as mãos fazendo com que isso represente nós dois.
— Se você é o conjunto de pensamentos que eu tenho e de que não me lembro, como Said disse, quer dizer que você o ama? – Eu não sei se é justo perguntá-la algo tão pessoal e que eu mesma não responderia. Mas ela apenas sorri. Um sorriso meu.
— Não o amo. Ou talvez ame. Eu sinto, mas eu sei diferenciar se é um sentimento genuinamente meu, ou se é o seu.
— Isso explica algumas coisas... – Como o fato de eu sentir que posso confiar nele facilmente. – Tenho mais perguntas. Sobre o Chander agora.
Eu sei que mudar de assunto drasticamente mostra a Said que eu estou nervosa e não quero conversar sobre sentimentos que não me lembro. Ele apenas concorda com a cabeça, mas provavelmente sabe o que estou pensando.
— Ele é um fantasma. Como a menina da praça. Antes vocês tinham dito que ela tinha que encontrar a paz. E por isso você a fez ir embora. E quanto a Chander? Ele não precisa?
— Chan não é um fantasma comum. Nós fizemos um contrato e ele é minha arma consagrada. Sem ele, eu não tenho a foice. Então, ele não precisa ir embora. Não precisa te deixar.
— O que dizia o contrato? O que exatamente vocês são?
— Eu sou aquele que luta contra espíritos e fantasmas que se tornam malíginos. Ele é a minha “espada”. Somos ligados também. É por isso que Chan também consegue falar dentro da sua cabeça. Mas, diferente de mim, ele não consegue uma ligação tão forte. O problema é que, por ser um espírito, ele ainda pode se rebelar e se tornar malígno. E se isso acontecer e eu não romper o contrato, eu morro.
— Então, os ataques de ciúmes dele...
— Acabam comigo. – Said sorri e dá de ombros.
Apesar de tudo aquilo que ele disse sobre me ensinar o amor, o homem não se aproxima de mim. Não faz um jesto em falso e nem avança sinais proibidos, como os gêmeos. E também não se afasta. Mal segura a minha mão quando necessário. Eu não sei exatamente o porquê disso, mas estou satisfeita. Eu não sei o que faria se tivesse mais um ser do Outro Lado interessado em mim daquela forma. Apesar de que, eu acredito que Said seria o único sincero.
— Você me conhece muito bem, não é?
Minha pergunta o surpreende e ele fica sério ao concordar.
— Então, pode me dizer o motivo de eu não me interessar de verdade em outros caras? Minhas amigas sempre me enchem o saco sobre isso. Não estou dizendo que eu nunca beijei, só digo que nunca consegui sentir o que você diz ter por mim.
— Falando em amigas, a da biblioteca sairá do hospital hoje à noite. Amanhã, ela já deve ir para a aula. Quando fui visitá-la para apagar-lhe a memória, ela já não se lembrava de mim. Talvez o grito do fantasma tenha mexido com a mente dela.
— Obrigada! – E então percebo que Said parou de falar e está brincando com o rabo de Gaelle e a fazendo ficar sem graça. – Pode me responder agora?
Ele coça a cabeça e é o momento da conversa em que ele parece estar mais desconfortável.
— Quando um ser do Outro Lado ama, é de verdade. E se ele for Puro, eterno. O aspécto pode mudar, mas a intensidade não. E por isso, quando você me correspondeu, eu acabei roubando o seu coração. Há vezes que isso acontece... Não fiz de propósito. Tecnicamente você ainda pode amar outro ser. Mas, não vai conseguir pensar apenas nele. E eu sei... O que anda acontecendo com você.
— Como assim?
— Sei que aquele bando de pivetes está dando em cima de você. Sei que alguns já te beijaram. Eu meio que me senti mal com isso. É como se meu coração fosse esmagado. Talvez minha alma seja apedrejada toda vez que isso acontece. Mas eu aprendi, desde o seu primeiro beijo, que eu tenho que aguentar isso. Eu não estive na sua vida por muito tempo, e eu vou te reconquistar e voltaremos a ser o que éramos. Mesmo que demore, mesmo que você passe por caminhos que me incomodem. Eu não vou desistir de você nem hoje, nem nunca.
Sua declaração me faz engolir em seco. Não sei se existe algum humano ainda vivo que diria tais palavras. Não tenho medo de Said. Eu até confio nele. Eu apenas não sei o que fazer com essa demostração de carinho. Se eu entendi direito, Gaelle está com a minha memória do amor. Isso significa que ele vai ter que começar do zero. E que eu tenho possíbilidades com outro cara. E ele sabe disso. Minha familiar fica quieta, como se sentisse ocupando o espaço entre nós dois e sai da cama. Me deixando sozinha com Said.
Eu sei que ela está no quarto, em algum lugar. Mas tudo o que vejo e sinto é o homem a minha frente. Quieto, devotado e leal. Eu sei que ele tem um bando de defeitos, e não saber desistir é um deles, mas eu não consigo parar de pensar nele romanticamente. Com ele eu não teria muitos problemas. Eu poderia viver com ele e... Eu não poderia. Se eu vivesse com ele, e o deixasse me amar, no final ele acabaria sofrendo com a minha morte. E eu sei que não demorará muito.
— A vida de um humano é muito fugaz. Rápida, passageira. Eu sei que você pensa que será ruim para mim. Eu sei. No entanto, Cass, estar com você e te proteger é tudo o que preciso atualmente. Quando enfim conseguirmos fazer seu corpo voltar ao normal e você puder viver longe, eu te trago para esse lado e sua vida não será mais frágil.
— Eu...
— Não precisa responder nada agora. Só pense nisso. – Ele me entraga um gorro preto. – Ela irá crescer até ficar do seu tamanho e vizivelmente igual a você, como eu já disse. Quando isso acontecer, e será logo, esconda as orelhas dela e não a deixe se transformar em um dragão. Esconda também esse rabo que chama muita atenção. – Said me ajuda a levantar e me abraça forte, como se sentisse falta disso. Com o rosto no meu cabelo, eu sinto um arrepio enquanto ele me cheira. – Eu não poderei ficar com você agora, mesmo querendo. Além de ter que te deixar pensar, sem a influência que eu seria, eu também tenho trabalhos a resolver com minha avó. Chander está agora a distraindo. Mas eu estarei te vigiando. Gaelle te protegerá, na minha ausencia. Lembre-se que ela usa a sua energia para viver, então você não poderá ficar sem... O Matt. Por mais que isso me incomode.
Sinto que Said está sorrindo, mas seu rosto ainda está no meu cabelo.
— Eles me beijaram. – Eu me explano como se isso fosse normal. – Então, aqueles garotos tiveram um pedaço de mim que você não teve.
— Talvez seja verdade. Mas mesmo que você respondesse o beijo, não significa a mesma coisa do que seria comigo.
— Isso quer dizer que você não vai me beijar?
Ele levanta a cabeça e me olha. Não quero olhá-lo e ficar hipnotizada. Eu quero poder me mexer. Entender. Quero saber por que Said não tenta nada, mesmo depois de dizer tudo aquilo.
— Para mim, o beijo é um juramento. – Vejo um dos cantos da sua boca levantar e eu sinto o mistério por de trás das suas palavras. – Não é qualquer um que pense assim, nem na minha realidade, nem na sua. Mesmo eu querendo te beijar, não é para sentir prazer ou me saciar. Eu só quero beijar a sua boca quando eu tiver certeza que meus sentimentos são correspondidos de novo. Por enquanto, eu posso apenas fazer isso. – Said beija a minha testa e força um sorriso. – Boa sorte.
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