Invisible Play - Press Start

1 Quem Eu Sou e Quem Eu Quero Ser


Notas iniciais
E o terceiro volume começa! Eu provavelmente vou adaptar esse estilo de escrita onde existem intervalos de alguns dias entre a postagem de capítulos, mas quando um volume acaba, eu sumo durante algumas semanas. Assim a história não fica parada em um momento aleatório e eu não me sinto culpado em estar sendo preguiçoso!

Kurokawa abriu a porta da sua casa e entrou, atrás logo vieram Lizzy, Sasesu e Takeda:

—Você acha que Kurokawa se importava se eu dormisse aqui hoje? -Perguntou Sasesu. -Já está bem tarde e seria um saco ter que ir para casa.

—Sim, eu me importo! -Retrucou Kurokawa da cozinha.

—Não deve ter problemas. -Respondeu Lizzy.

—É uma festa do pijama então? -Riu Takeda.

—Kurokawa, vamos precisar de travesseiros, cobertas e provavelmente um colchão. -Disse Lizzy.

—Eu nem sequer dei permissão para vocês entrarem...

—Não seja chato, pensa no lado positivo, amanhã vamos começar a treinar com o meu pai.

Ele suspirou fundo:

—No andar de cima deve ter o que vocês querem...Eu vou dormir. Quase ter morrido duas vezes me deixou bastante cansado.

Lizzy subiu as escadas e viu a porta do quarto de Kurokawa já fechada em um dos lados do corredor, e um outro quarto, também com a porta fechada. Ela abriu a porta, entrou e se deparou com uma cama de casal, uma cómoda de cada lado e um guarda-roupas na frente. Havia a foto de um homem e uma mulher juntos de um lado da cama, mas mesmo que aquilo atiçasse a sua curiosidade, ela decidiu pegar o que precisava e ir embora.

Com a ajuda de Takeda e Sasesu, eles arrumaram aquele colchão na sala junto dos travesseiros e cobertas, criando um ambiente agradável onde os três pudessem dormir. Ainda pensando sobre a foto que havia visto, ela decidiu falar sobre isso:

—Isso é estranho, eu nunca vi os pais de Kurokawa em casa.

—Eles faleceram... -Respondeu Sasesu. -Uns seis anos atrás, Kurokawa odeia falar sobre isso por isso eu não sei muito bem dos detalhes.

—Isso explica a personalidade antissocial dele. -Comentou Takeda.

—Mas ele não tem nenhum tio, tia ou avós com quem ele pudesse morar? -Perguntou Lizzy.

—Na época em que estudávamos juntos, os professores achavam que ele morava com um irmão do pai dele, mas eu nunca cheguei a ver essa pessoa. -Disse Sasesu. -Bom, é melhor irmos dormir, amanhã temos um longo dia pela frente.

—É verdade, boa noite. -Disse Lizzy.

—Boa noite. -Respondeu Takeda.

Kurokawa a essa altura já estava dormindo há vários minutos, mas sua mente não conseguia descansar. Ele estava acostumado a estar sozinho em casa durante anos, mas de um segundo para o outro sua vida mudou completamente. E mesmo que ele pudesse evitar pensar sobre isso enquanto estava consciente, os seus sonhos não faziam o mesmo.

Todo esse barulho, todo esse calor que existia na sua casa esses últimos dias traziam de volta memórias que ele queria ter esquecido. Mesmo que não se lembre de muito, ele tinha certeza de que seu pai e mãe eram pessoas gentis. E era por isso que a morte deles machucava-o tanto. Quando ele recebeu a notícia parecia até mesmo um sonho. Um acidente de carro, nada grandioso ou significativo. Naquele momento ele percebeu quão frágil a sua realidade era.

O irmão do seu pai que ele nunca havia visto antes em sua vida explicou-lhe a situação e o que aconteceria dali em diante. O pai de Kurokawa era um advogado, a mãe dele bióloga e ambos possuíam seguros de vida, por isso dinheiro não seria um problema. Mas a pessoa supostamente responsável por Kurokawa a partir daquele momento sumiu. Ele nunca chegou a entender o porquê de ter sido abandonado daquela forma, mas talvez fosse melhor assim.

Os primeiros meses foram insuportáveis, a falta de afeto e contacto humano era torturante. Mas ele rapidamente adaptou-se à situação. Kurokawa fechou-se completamente do mundo exterior. Sentimentos eram algo que apenas atrapalhavam-no a viver a sua vida, ele não precisava deles. Ele sentia que estava destinado a viver sozinho, mas que assim fosse então, tudo o que ele tinha que fazer era encontrar sentido em sua existência.

Uma missão que pareceu fácil no começo. Ele era bom em praticamente tudo o que fazia. Sucesso, reconhecimento e admiração das pessoas à sua volta alimentavam a sua sede por significado. Mas conforme crescia, ele entendeu que a opinião das pessoas não lhe faria feliz. Ele precisava encontrar alguma felicidade que dependesse somente dele mesmo. Ele decidiu que a única forma de fazer isso era provar o valor da sua existência para si mesmo todos os dias.

Todos os dias ultrapassar os seus limites, todos os dias ser mais do que ele foi ontem, todos os dias estar progredindo, porque estar parado significava não merecer existir. Mas ser forçado a recordar as memórias felizes que teve com a sua família era cuspir em todo o seu esforço. Aquilo era algo que ele tinha deixado no passado, algo que ele tinha superado. Os seus olhos abriram e mesmo depois de ter dormido durante várias horas, ele ainda se sentia cansado. O seu corpo vagueou até o banheiro, onde ele tomou um banho e se preparou para iniciar o seu dia.

Ao descer as escadas e ver Lizzy, Takeda e Sasesu dormindo na sua sala, ele sentiu uma sensação desconfortável no seu peito. Kurokawa caminhou até a cozinha, abriu o seu armário e lembrou que os seus caramelos haviam acabado. Sem motivação para ir para a escola, mas entendendo as consequências dessa decisão, ele voltou para a sala:

—Ei...Takeda...temos aulas... -Disse ele desmotivado.

Percebendo que não tinha sido ouvido, ele cutucou-o com o seu pé:

—Acorda!

—Mais...dez minutos... -Respondeu Takeda sonolento.

—Nós temos que estar na escola daqui vinte minutos, eu vou te deixar para trás se você não levantar agora.

—Tudo bem... -Reclamou Takeda arrastando-se para fora da sua coberta. -Faz alguma coisa para eu comer...

Kurokawa riu:

—Boa sorte com isso.

Após alguns minutos, os dois começaram a correr em direção à escola já um tanto atrasados. E o dia desenrolou-se como qualquer outro. Takeda rapidamente retornou ao seu típico energético e animado eu, e Kurokawa parecia até mesmo mais desinteressado pelo o que acontecia à sua volta do que o normal. Após as aulas acabarem, eles passaram num supermercado para fazer compras. Kurokawa seguiu a lista de compras que Lizzy havia feito e também reabasteceu o seu estoque de caramelos.

Eles retornaram para a casa de Kurokawa e encontraram o almoço já feito por Lizzy. Os quatro sentaram-se a mesa e jogaram conversa fora durante algumas horas:

—Não combinamos um horário com o meu pai, mas acho que deveríamos ir. -Comentou Lizzy.

Um pequeno sorriso surgiu no rosto de Kurokawa ao pensar no que estava prestes a acontecer e eles seguiram para a casa de Lizzy após mudarem de roupas. Lyonel já os esperava do lado de fora:

—Vamos começar com isso logo porque eu não tenho tempo a perder.

Kurokawa abriu o seu inventário e sacou Eclipse:

—É assim que se fala, tio!

Lyonel imediatamente atingiu-o com uma pedra:

—Ninguém disse que eu ia lutar com vocês!

—Você vai ensinar eles a manipular mana então? -Perguntou Lizzy.

—Sim, passar de nível é a forma mais rápida de ficar forte no mundo de IP, mas eu não tenho como vos ajudar com esse processo então tudo o que me resta é explicar como usar mana.

—Como assim usar mana? -Perguntou Sasesu. -Eu já sei usar mana, é só ativar os meus feitiços.

—Não é disso que estou falando... -Suspirou Lyonel. -Mana pode ser usada para ativar feitiços, mas isso é apenas dentro do Limited System.

—Limited System? -Perguntou Takeda.

—Você não explicou nada para eles, Lizzy? -Perguntou Lyonel.

—Eu não achei que valesse a pena, mesmo que eu explicasse, eu não ia conseguir ensiná-los.

Lyonel suspirou de novo:

—Todos vocês possuem classes diferentes que lhe foram dadas baseadas nas vossas personalidades, vocês possuem mana e vocês usam essa mana para ativar feitiços. Esse é o Limited System. Mas a vossa mana pode ser usada para qualquer coisa que vocês conseguirem imaginar.

—Literalmente qualquer coisa? -Perguntou Takeda.

—Sim, literalmente qualquer coisa. Você pode criar objetos, alterar o teu próprio corpo, conjurar magia, as possibilidades são infinitas, a única coisa que te limita é a tua quantidade de mana e a tua afinidade com feitiços. Por exemplo, a minha classe é Berserker, por isso eu tenho afinidade em usar a minha mana para aumentar a força do meu corpo e coisas semelhantes. Eu consigo criar objetos e fazer outras coisas, mas requer muito mais mana e concentração.

Kuroka tentava manter-se concentrado, mesmo que estivesse claramente entediado:

—Mas isso é tudo muito avançado. -Continuou Lyonel. -Por enquanto, eu vou vos ensinar o básico: concentrar mana nas vossas mãos para aumentar a vossa defesa e ataque. Pensem na mesma sensação que sentem quando ativam um feitiço, imaginem algo a fluir do centro do vosso peito até as vossas mãos.

—Tipo assim? -Perguntou Kurokawa com mana concentrada em seus braços.

—Como você fez isso? -Perguntou Sasesu. -Quando eu tento nada acontece.

—Eu demorei vários dias para aprender isso... -Sorriu Lizzy triste.

—Acho que estou conseguindo... -Disse Takeda concentrado.

—O que é para fazer a seguir? -Perguntou Kurokawa.

Lyonel suspirou levemente irritado:

—Mudança de planos, Lizzy, ensine-os essa parte, eu vou para outro lugar com Kurokawa.

Lizzy, Takeda e Sasesu continuaram praticando aquele exercício enquanto Lyonel e Kurokawa caminhavam para uma zona afastada na floresta:

—Pirralho, me deixe ver a tua espada.

Kurokawa abriu o seu inventário e mostrou Eclipse:

—É realmente uma criação divina, você sabe o nome dela pelo menos?

—Uns vendedores me disseram que era Eclipse.

—Eu me refiro ao nome da alma dentro da espada.

—Porque isso faz diferença? É só uma espada.

—Criações divinas não são só espadas, elas estão vivas, de certa forma. E se você quiser usar todo o seu potencial, você vai precisar conhecê-la bem.

Kurokawa não entendeu bem em como saber o nome de sua espada poderia ajudá-lo:

—Segure a espada, concentre-se, insira a tua mana dentro dela e tente extrair o poder que está lá.

Kurokawa simplesmente encarou-o confuso:

—Tudo bem, eu já entendi. -Continuou Lyonel. -Vamos jogar pega-pega, se você conseguir me tocar com a tua espada também conta, pronto?

Kurokawa continuava confuso com aquela situação:

—Como que pega-pega vai me ajudar a ficar mais for-

Antes que pudesse terminar a sua frase, ele foi derrubado por um tapa daquele homem:

—Está com você. -Sorriu Lyonel.

Kurokawa imediatamente disparou balançando a sua espada, mas o ataque não passou nem perto de atingir seu oponente:

—Você vai ter que se mover muito mais rápido se quiser me acertar, use mana e a tua espada. -Instruiu Lyonel esquivando-se dos ataques de Kurokawa.

Kurokawa concentrou mana na sua espada e disparou uma onda de energia branca:

—Ao invés de usar a tua mana para lançar ataques, tente fortalecer o teu corpo.

Kurokawa lançou mais uma onda de energia e logo em seguida arremessou a sua espada na direção de Lyonel:

—Ei, sem a tua espada, os teus ataques não têm alcance nenhum.

Kurokawa desferiu um soco, que Lyonel preparou-se para desviar sem muitas dificuldades, mas no meio do ataque, Kurokawa ativou a sua habilidade:

—Garras da besta!

Aquelas garras de energia formaram-se e levemente tocaram a roupa de Lyonel que não esperava o ataque de Kurokawa ter tanto alcance:

—Oh, isso foi bastante bom. -Sorriu Lyonel.

Ele logo em seguida derrubou Kurokawa com outro tapa:

—Está com você de novo.

Notas finais
O capítulo deu um pouco mais de profundidade ao Kurokawa e começamos esse arco de treinamento que deve durar uns 4 capítulos.