Invisible Play - Press Start
5 Insignificância
Notas iniciais
Kurokawa lentamente reganha consciência e abre seus olhos, mas ao fazê-lo, ele percebe que é incapaz de enxergar na escuridão. A sua mente começa a juntar memórias do que tinha acontecido anteriormente e ele tenta mover-se, mas percebe que o seu torso e pernas estão presos por algo. Ele abre o seu inventário, é capaz de observá-lo e notar a ausência de Eclipse mesmo na escuridão:
—Eclipse! -Grita.
Mas a sua voz é abafada pelas pedras à sua volta. Sem outras ideias, ele tenta novamente mover seu corpo. Kurokawa apoia os seus braços no chão e tenta puxar-se para frente, mesmo fazendo toda a força que podia, ele não era capaz de mover-se um centímetro. A sua paciência rapidamente se esgota. Com a sua mente consumida por fúria, ele grita e puxa-se com ainda mais força. As suas unhas começam a quebrar e a sangrar devido ao atrito com o solo, mas ele não desiste.
Finalmente a sua ira passa, os seus músculos relaxam, as suas mãos pulsam com dor, a sua respiração fica ofegante e um sentimento de derrota percorre seu corpo. Os seus ouvidos apenas ouvem a sua própria respiração e frequência cardíaca, os seus olhos não conseguem se adaptar à escuridão enquanto o seu corpo permanece imóvel. Kurokawa vai lentamente sendo consumido por uma sensação de desconforto e impotência.
Sozinho, cansado, ferido e preso num lugar frio e escuro, a sua mente começa a caminhar em direções estranhas ao invés de tentar solucionar a situação em que se encontrava. Um pensamento perigoso surge:
—E se eu morrer aqui?
A sua arrogância lhe dizia que isso era impossível, alguém tão poderoso como ele não poderia morrer ali. Ele ainda tinha uma grande aventura pela frente e uma morte patética dessas não iria impedi-lo. Mas o seu corpo inteiro doía, ele não tinha mais forças ou mana e os seus olhos estavam pesados. Mesmo que parecesse errado, fechar os olhos e desaparecer soava como uma ideia muito agradável. Talvez Kurokawa não fosse tão especial assim, talvez ele fosse apenas uma criança tentando parecer forte para esconder suas fraquezas. E bem no fundo, ele sabia disso.
Talvez toda vez que sua vida estivesse em risco, ele não lutasse com todas as suas forças porque quisesse vencer, mas sim porque perder não fazia diferença. Então quando o cansaço consumisse o seu corpo e não houvesse nenhum inimigo onde ele pudesse projetar a sua fúria, o que ele faria? Talvez apenas deitar, tentar adquirir uma postura confortável e aceitar o que estivesse por vir. E perceber tudo isso naquele momento, fazia-o sentir-se o ser humano mais miserável e insignificante a pôr os pés nessa terra.
Ele tateou o chão à sua volta, numa tentativa fútil de achar algo que pudesse ajudá-lo:
—Eu não quero morrer... -Sussurrou. -Não aqui...Não assim...
Mas não havia nada a ser feito, esse era o seu limite. Kurokawa entendeu que a sua morte não seria nada grandioso. Ele apenas choraria até perder a consciência num lugar onde o seu corpo nunca seria encontrado e a sua existência seria esquecida. Então qual foi o valor da sua vida? Todos os problemas que ele superou subitamente deixaram de ser conquistas. Todos os progressos que ele fez pareciam inúteis. O mundo era cruel e ele era fraco:
—Merda...-Sussurrou ele deixando lágrimas escorrerem pelo seu rosto.
Os seus olhos finalmente fecharam e horas se passaram. A sua consciência vagou os cantos mais escuros imagináveis da sua mente enquanto seu corpo permanecia imóvel. De um segundo para o outro, ele começou a ouvir barulhos. Terra a ser movida e algo a aproximar-se. Kurokawa já não tinha forças para se defender, se aquilo fosse uma formiga, o seu fim seria certo.
O barulho aumentava a cada segundo até que uma brecha se formou e luz finalmente invadiu os seus olhos. Uma mão atravessou a pequena brecha e abriu um buraco ainda maior:
—Kurokawa? -Perguntou aquela voz conhecida.
—Takeda...?
—Você está consciente, isso já é bom o suficiente.
Takeda tirou mais argila do caminho e aproximou-se de Kurokawa:
—Eu vou tirar essas pedras de cima de você, espera só um pouco.
Takeda removeu as pedras com cuidado para não machucar Kurokawa:
—Você consegue andar?
—Sim... -Respondeu Kurokawa ainda confuso se aquilo que estava acontecendo era real ou apenas um sonho.
—Deu bastante trabalho para te achar, eu conseguia ver a tua posição no mapa, mas esses túneis subterrâneos têm diferentes níveis de profundidade então eu não sabia em qual você estava.
Takeda ajudou Kurokawa a caminhar até o fim daquele túnel que os levava até uma outra caverna. Lá, um pequeno grupo de pessoas usando trapos como roupas esperava-os:
—Esse pessoal aparentemente vive aqui no subterrâneo, eles me ajudaram a matar as formigas e até mesmo me deram comida e água.
Kurokawa permaneceu calado com um desinteresse diferente do habitual:
—Está tudo bem com você? -Perguntou Takeda.
—Sim...
—Você deve estar cansado, podemos parar para descansar num acampamento que existe mais a frente.
Takeda ajudou Kurokawa a andar logo atrás daquela tribo de pessoas. Todos eles possuíam pele da cor da argila das paredes, marcas brancas de tinta espalhadas pelos seus corpos e se comunicavam entre eles utilizando uma língua arcaica. Claramente habitando naquele lugar durante várias gerações, eles conheciam todos aqueles túneis e sabiam como lidar com os monstros que neles habitavam.
Mesmo com lanças rudimentares feita de pedras, eles queimavam ervas especiais para afastar criaturas e facilmente eliminavam as que não fugiam. Após caminhar durante alguns minutos, eles atingiram um grande túnel bloqueado por uma pedra. Um homem que aparentava ser uma espécie de xamã da tribo bateu na pedra um certo número de vezes com o seu cajado e ela começou a deslizar. Do outro lado, os dois homens que guardavam a entrada esperaram que todos passassem para fechá-la novamente.
O túnel levava a uma ampla área com várias divisões onde era possível ver várias casas feitas de argila, mulheres a costurar roupas e crianças a brincarem:
—Bem-vindo. Casa. -Sorriu o Xamã.
—Uau, isso é incrível, vocês conseguem sobreviver apenas com os recursos disponíveis aqui em baixo? -Perguntou Takeda.
—Sim. Tudo. Natureza. Formiga. Comida. Remédio. Toupeira. Comida. Couro. Roupa. Cogumelos. Comida. Carvão. Tocha. Luz. Água. Subterrâneo. Longe. Possível.
Aquele homem guiou Takeda e Kurokawa até uma pequena divisão de argila e sinalizou que eles dormiriam ali essa noite. Kurokawa encostou-se num canto da parede e tentou dormir, Takeda ainda sem entender a situação decidiu explorar aquela pequena tribo. Mesmo que a comunicação fosse difícil, ele ainda assim conseguiu se divertir brincando com as crianças e interagindo com as pessoas. Todos ali eram extremamente amigáveis e alegres mesmo que vivessem em condições precárias.
Mais algum tempo passou e eles começaram a juntar-se à volta de uma fogueira para comerem. Takeda foi chamar Kurokawa que mesmo não querendo ir, entendia que precisava se alimentar. Com alguns tambores, eles tocaram uma pequena melodia seguida de um discurso do xamã e logo em seguida começaram a comer. Numa tigela de argila, Takeda recebeu algo que ele sequer foi capaz de identificar o que era:
—Sopa. Formiga. Cogumelos. Delicia. -Disse o Xamã com um sorriso no rosto.
Takeda não querendo rejeitar a gentileza dessas pessoas, não teve opção senão comer aquilo. Apesar da aparência assustadora, o sabor não era terrível, talvez por não ter comido nada durante várias horas ou por causa da atmosfera agradável. Kurokawa também comeu, mas a sua mente sequer focou-se no sabor. Após terminarem aquela refeição, eles permaneceram à volta da fogueira conversando:
—Vocês são muito amigáveis, vocês não têm medo de pessoas desconhecidas? -Perguntou Takeda.
—Humano. Fraco. Sozinho. Medo. Dor. Humanos. Fortes. Juntos. Todo. Humano. Igual. -Respondeu o Xamã.
—Esse é um jeito honrável de viver. -Sorriu Takeda.
Alguns minutos mais tardes, mesmo sem a ausência de luz solar e devido somente ao hábito, eles entenderam que já era tarde e estava na hora de irem dormir. Kurokawa e Takeda retornaram para o lugar onde passariam a noite, cobriram-se com alguns trapos enquanto deitavam no chão e fecharam os olhos. Kurokawa não conseguia dormir, a sua mente vagava por lugares que não lhe traziam conforto. Ele sentou-se enquanto encarava a parede:
—Está tudo bem? -Perguntou Takeda ainda acordado.
—Sim.
—Você parece estranho, normalmente você não presta atenção ao que acontece à sua volta porque você está focado em alguma coisa, hoje você parece bastante distante de tudo.
—Não fale como se me conhecesse.
—Você entende que sozinho é incapaz de resolver os teus problemas, certo? Você vai continuar repetindo os mesmos padrões de pensamento sem chegar a lado nenhum.
—Qual é o teu problema? Eu e você não somos a mesma pessoa. Pare de falar como se me entendesse. Como se fosse alguma espécie de Jesus cuja obrigação é salvar vidas. Você não é ninguém. Assim como eu também não sou ninguém.
—Eu sei que a minha opinião não importa, mas eu prefiro quando você expressa o que realmente sente, mesmo que sejam só comentários ofensivos como agora. Ficar calado e sofrendo não faz o teu tipo.
—Você é tão irritante...
—Boa noite, Kurokawa.
Kurokawa não respondeu. Por mais que ele quisesse evitar perceber, já era tarde demais, naquele momento, ele tinha certeza que Takeda se importava com ele. Nada daquilo fazia sentido, nem mesmo Kurokawa se importava consigo mesmo, então como Takeda conseguia fazê-lo? Kurokawa entendia melhor que todas as pessoas o quão difícil de lidar com a sua personalidade era. Ele era um ser humano que por natureza afastava outras pessoas, mas mesmo assim, por algum motivo surreal, Takeda tentava se aproximar.
Nada daquilo fazia sentido, mas era um sentimento estranhamente agradável. De toda forma, o cansaço finalmente alcançou Kurokawa e ele fechou seus olhos. Que amanhã seja um dia melhor do que hoje.
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