Invisible Play - Cursed City
4 Humildade
Notas iniciais
Conforme continuam a jornada, a vegetação se torna cada vez mais escassa. O solo se torna arenoso, adotando cores mais cinzas e uma aparência infértil. Grandes muralhas de pedras surgem no horizonte. Elas se estendem por vários quilómetros, mas estão visivelmente deterioradas, existindo lacunas com dezenas de metros e destroços caídos no chão. O solo dali para frente tem uma cor roxa e traz um cheiro de veneno:
—A partir daquelas muralhas já estamos dentro de Masteam. -Comenta Takeda.
—Finalmente chegamos... -Observa Lizzy.
—Mas ainda temos um problema. -Continua Takeda. -Agora não está chovendo, mas não sabemos quando isso vai acontecer. Eu tenho mana o suficiente para me proteger da chuva durante algumas horas, vocês acham que conseguem fazer o mesmo?
—Claro que sim! -Diz Kurokawa sem hesitar. -Com uma mão nas costas.
—Você é tão estúpido... -Suspira Takeda.
—Eu sinceramente não sei se consigo fazer isso durante muito tempo. -Responde Lizzy.
—Temos alguma outra opção? -Pergunta Sasesu.
—Existe um item chamado capa de proteção que é criado ao imbuir a propriedade de certos cristais de Masteam em tecido. -Explica Takeda. -Procurar os cristais é difícil porque pode começar a chover a qualquer momento e não vamos achar alguém de confiança que possa nos vender o item. Só nos resta tentar encontrar aquela pessoa...
—Aquela pessoa? -Pergunta Lizzy.
—Uma mulher que aparece nos arredores de Masteam, se me lembro bem, as pessoas chamavam-na de “curandeira viajante”. Ela era uma pessoa...excêntrica...mas de boa natureza. Se conseguirmos encontrá-la talvez ela consiga nos ajudar.
—Fico feliz em saber que mesmo num ambiente tão hostil quanto este ainda existem pessoas com um bom coração. -Comenta Lizzy. -Mas você sabe onde ela normalmente fica?
—Ela costuma mudar a localização da sua cabana com o tempo então vamos ter que andar à volta de Masteam para encontrá-la.
O grupo caminha num ritmo acelerado enquanto conversam durante vários minutos:
—Ei, Takeda, isso parece bom demais para ser verdade, uma tia aleatória que ajuda pessoas nesse fim de mundo? Tem certeza que isso não é uma armadilha? -Interrompe Kurokawa.
—Sim, eu consigo entender que soa estranho porque realmente é. Eu também não entendo os motivos dela, mas sei que ela providencia ajuda de verdade.
—E ela fica sentada dentro de uma cabana de madeira a espera que alguém passe pedindo ajuda?
—Eu nunca interagi diretamente com ela, já observei de longe e falei com pessoas que foram ajudadas. -Responde Takeda.
—Isso está ficando cada vez mais suspeito...
—Ela tem cabelos brancos? -Pergunta Kaiser.
—Sim... -Diz Takeda surpreso.
—Achei ela. -Afirma Kaiser. -Estive tentando detectar mana de seres vivos nas redondezas e estou sentindo algo a um quilómetro daqui em direção ao norte.
—Você consegue ver imagens de outros lugares usando mana? -Pergunta Lizzy perplexa.
—São só relances, tentar ver com nitidez é muito complexo e cansativo. -Responde Kaiser.
—Mesmo assim ainda é uma habilidade bastante útil. -Acrescenta Sasesu.
—Quando tivermos tempo eu posso mostrar-vos a base da técnica. Mas por enquanto acho que devíamos nos focar em outra coisa. A cabana já é logo em frente.
O grupo aproxima-se com alguma cautela apesar daquela estrutura parecer bastante frágil. Um dos lados da tenda tem uma abertura onde uma mulher ancora os seus braços e observa o horizonte. Ela está sentada em uma cadeira dentro da tenda e os seus cabelos brancos dançam com o vento. Ela traja um manto negro que se estende até o chão. A sua existência era alienígena, porém cativante. Ainda sem vê-los, ela começa a falar:
—Que interessante combinação de pessoas. Tantas mágoas e dúvidas, mas tantos sonhos e aspirações.
Ela lentamente vira o seu pescoço e encara-os com os seus olhos cinzas. Eles carregam a suavidade e conforto do céu junto da ferocidade da prata:
—Em que posso ajudá-los, filhos?
—”filhos”? Como assim “filhos”? -Pergunta Kurokawa confuso.
—Somos todos filhos de algo, conectados pelo fio invisível do destino.
—Kurokawa, por favor, colabore... -Sussurra Lizzy.
—Voltando ao assunto anterior. -Interrompe Takeda. -Nós queríamos explorar Masteam e por isso precisávamos de alguma proteção contra a chuva corrosiva.
—”explorar Masteam”. Eu diria que existem lugares mais acolhedores de se visitar. O que vos traz aqui?
Lizzy hesita um pouco em responder, mas sente a necessidade de ser honesta:
—Estamos tentando saber mais sobre as Bestas Lendárias.
Aquela mulher observa-os durante alguns segundos:
—Você decidiu revelar isso mesmo sabendo que poderia ser prejudicada.
—Não acho que seria justo mentir à pessoa a quem estamos pedindo ajuda. -Responde Lizzy.
—Eu vi de longe os traços da sua humilde, mas presenciá-los com os meus olhos é certamente agradável. Continue vivendo diligentemente.
Lizzy sente-se feliz ao ter pontos positivos da sua personalidade percebidos por outra pessoa, mas mais do que isso, ela percebe a sabedoria presente nas palavras daquela mulher:
—Isso significa que você vai nos ajudar? -Pergunta Takeda.
—Não tenham pressa, apesar de ser humilde, eu ainda tenho uma função a cumprir. Gostaria de pelo menos entender melhor quem são as pessoas que pedem pela minha ajuda.
—Wow, ela acabou de dizer que é humilde... -Pensa Kurokawa tentando evitar dar risada. -Quanto ego não é preciso para ficar se auto glorificando assim?
—Talvez o próximo devia ser você, Sasesu. -Continua ela.
Imediatamente a expressão facial de Kurokawa muda e o restante do grupo parece surpreso:
—Oh, não se preocupem, eu apenas escutei vocês falarem o nome dele.
—Exceto que nunca dissemos o nome dele na tua frente. -Pensa Kurokawa lentamente adotando uma postura agressiva.
Lizzy percebe isso e agarra um dos seus braços:
—Por favor, não faça nada precipitado. -Sussurra ela. -Eu tenho certeza que você já percebeu que ela não é uma pessoa normal. Não precisamos de mais problemas.
Kurokawa sacode o seu braço para afastar Lizzy e começa a caminhar para longe.
—Que seja então, vocês que se virem.
—Onde você está indo, Kurokawa? — Pergunta Sasesu.
—Deixe-o ir, é melhor assim. -Sugere Lizzy.
Ainda meio confuso com os comportamentos de Kurokawa, mas mantendo a sua atenção naquela mulher, Sasesu continua a conversa:
—Você tinha dito que era a minha vez, eu tenho que responder às tuas perguntas ou algo do gênero?
—Exatamente isso. -Responde ela. -Conheço o conceito de amor, mas não consigo entendê-lo. É algo que desafia a lógica e faz as pessoas tomarem os caminhos mais curiosos. Você se importaria de explicar?
—Hmn...não sei se sou a pessoa correta para responder essa pergunta. -Responde Sasesu tentando simultaneamente ser honesto e não denegrir a sua reputação. -Nunca tive...uma grande quantidade de relações amorosas...
—Eu gostaria de uma resposta mais genuína... -Comenta aquela mulher. -Parece que vou ter de usar aquilo...
—Aquilo? -Pergunta Sasesu confuso.
Os seus olhos são encadeados por um feixe de luz e ele demora alguns segundos até recuperar a sua visão. Quando os abre novamente, Sasesu percebe que está sentado numa cadeira branca vestindo roupas brancas. O solo abaixo dos seus pés possui a mesma textura de nuvens. Enquanto observa os seus arredores sem entender o que está acontecendo, ele repara na presença da mulher com quem falava antes. Ela também traja roupas brancas e está igualmente sentada numa cadeira branca:
—O que aconteceu? Onde estamos?
—Nossos corpos físicos permanecem na mesma posição, eu apenas transportei as nossas consciências para um lugar mais propício à discussão. Aqui você pode falar o que quiser sem se preocupar em ser ouvido pelos teus amigos.
—Essa é uma habilidade incrível...Nunca tinha visto nada semelhante...
—Não sei se a caracterização correta seria habilidade, mas não divaguemos do tema principal, fale-me mais sobre o amor que você sente.
Sasesu imediatamente cora e se sente nervoso:
—Eu tenho realmente que fazer isso?
—É mais um pedido do que uma ordem, não te forçaria a fazer nada.
—Tudo bem... -Reflete ele durante alguns segundos. -Não vou tentar te explicar o que é o amor como se realmente soubesse do que estou falando. O mundo é vasto o suficiente para existir mais do que uma definição então posso apenas te dizer o que é o amor para mim.
—É apenas isso que eu busco ouvir, Sasesu. -Diz ela atentamente observando-o.
—Para mim...o amor é a vontade incansável de fazê-la feliz. De me esforçar ao máximo para poder ajudá-la, porque eu sei que ela faria o mesmo por mim. É tão intenso que as vezes esqueço de mim. Mas por algum motivo, sou muito mais feliz agora do que quando estava sozinho. Talvez seja apenas uma confusão, algo que passe com o tempo, mas no momento, no agora, é uma certeza tão grande que não hesito em segui-la.
—Muito obrigado pela sua honestidade, espero que esse momento tenha sido tão elucidante para você quanto foi para mim. -Sorri ela.
Sasesu pisca e vê-se de pé em frente àquela cabana de madeira:
—O que aconteceu? -Pergunta Lizzy. -Vocês ficaram quietos do nada.
Sasesu observa o rosto de Lizzy e os seus olhos castanhos durante alguns segundos antes de virar-se na direção contrária:
—Naaada aconteceu, eu vou só...ver onde Kurokawa foi... -Responde ele envergonhado.
—Você é o próximo, Takeda.
No instante a seguir depois de ter ouvido aquelas palavras, Takeda vê-se naquela estranha dimensão. Ele ri descontraidamente:
—Sabia que não devia ter me envolvido com alguém tão suspeito assim.
—Não se preocupe, apenas te trouxe aqui para conversarmos. Gostaria que você me explicasse qual é o valor da vida se você não se importar.
—É algo bastante difícil de explicar.
—Apenas diga o que faz sentido para você, estou à procura de novas opiniões, não de verdades absolutas.
—Eu acredito que a vida seja valiosa porque é única e insubstituível. -Responde Takeda com uma expressão séria.
—Ninguém pode te ouvir aqui, não vou te pedir para ser completamente honesto, mas pelo menos diga algo em que você acredite um pouco.
—Qual é o ponto de responder quando você pode simplesmente observar a minha mana e saber a resposta?
—Não é a mesma coisa, a mana de uma pessoa contém todo o tipo de informação. Mas essa informação está misturada...entranhada...é muito mais fácil de entender palavras do que mana.
—Você vai nos ajudar mesmo que eu não responda?
—Você sabe que não merece nem precisa da minha ajuda. Você está tomando essa decisão apenas por ser aquela mais conveniente para os seus objetivos. Gostaria que você fosse humilde o suficiente para responder a minha pergunta antes de te ajudar.
—Tudo bem, você venceu.
Takeda muda a sua expressão neutra por um olhar intenso e uma sede de sangue imensurável:
—Em pensar que você consegue exibir tanta agressividade mesmo estando num ambiente que eu controlo. -Comenta aquela mulher intrigada. -Realmente um poder adequado a uma calamidade.
—Não vamos estender isso mais do que é preciso. Estar na tua presença me dá vontade de vomitar.
—Apesar de sermos criaturas opostas, a tua presença não me causa desconforto, pelo contrário, sinto curiosidade em tentar entender a tua linha de raciocínio.
—Minha linha de raciocínio? -Gargalha Takeda. -Você fala como se eu tivesse traçado esse caminho de livre e espontânea vontade. Como se a crueldade humana não fosse a causa das minhas ações.
—Certamente, houveram muitas coisas fora do teu controle. Mas você escolheu se deixar ser corrompido. Você não foi forte o suficiente para perdoar os seus inimigos.
—Errado! -Retruca Takeda irritado. -Eu fui forte o suficiente para nunca esquecer a dor que foi causada. Muitos morreram, outros desistiram, esqueceram e fugiram. Mas eu não. Eu continuo a carregar o ódio de todos aqueles que foram injustiçados. Eu sou vingança viva. Eu vou fazer todos eles sofrerem e agonizarem pateticamente antes de morrerem. Sem nunca entender o que fizeram de errado para merecer tal punição. Sem nunca atingir os seus sonhos. Como a fruta ainda verde que cai da árvore e apodrece no chão. A vida não possui valor.
—Entendo...então esta é a tua resposta... espero que esse momento tenha sido tão elucidante para você quanto foi para mim.
—Não foi. Foi apenas uma perda de tempo.
Takeda abre os seus olhos e começa a caminhar para longe:
—Onde você está indo? -Pergunta Kaiser.
—Buscar Kurokawa, depois de você vai ser a vez dele.
—Oh, tudo bem. -Responde Kaiser percebendo que é observado por aquela mulher.
—Parece que chegou a sua vez, “Kaiser”.
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