Invisible Play - Cursed City
14 Fricção Produtiva
Notas iniciais
Raizer se esquiva de um dardo envenenado e arremessa a sua espada de energia contra um monstro humanoide coberto de folhas que carregava uma zarabatana:
—Os monstros estão ficando mais fortes conforme nos aproximamos da nascente. -Comenta ele fazendo a sua espada regressar para a sua mão.
—Isso é nostálgico... -Sorri Kurokawa. -Já passei por isso uma vez quando estava lutando contra golens e subindo uma montanha. Se dermos sorte vamos encontrar um monstro chefe no topo...
—Você acha que conseguiria sobreviver se fosse atingido por esse veneno?
—Se conseguisse cortar fora a parte atingida antes do veneno se espalhar. -Responde Kurokawa honestamente. -Mas mesmo que o veneno se espalhasse, eu só tinha que matar eles antes de morrer.
Raizer aponta para o dardo envenenado de antes que atingiu uma árvore próxima:
—O veneno está lentamente se desintegrando depois que ele morreu, não foi instantâneo.
—É bem simples, você só tem que matar eles ainda mais rápido então. Ou melhor ainda, não ser atingido pelo veneno. -Diz Kurokawa caminhando em frente sem hesitar.
—Você é realmente louco. Não sei como você sobreviveu até agora.
—Eu não sou louco, eu sou obsessivo, é diferente.
Os dois observam atentamente os seus arredores enquanto conversam sem aumentar o tom das suas vozes:
—De qualquer forma, você devia se focar em entender melhor a tua habilidade das explosões. Por exemplo, você consegue causar explosões com apenas algumas partes do seu corpo?
—Provavelmente.
—Se você conseguir controlar isso bem, você ganha uma arma poderosa e uma forma de se movimentar no ar.
—Pare de me dar dicas! Você é tão chato! -Reclama Kurokawa. -Você é o tipo de pessoa que gosta de estar preparado para tudo, mas eu prefiro resolver os meus problemas quando a minha vida está passando diante dos meus olhos. É nesse momento que eu vou pensar em melhores formas de lutar!
Apesar de serem semelhantes em alguns aspetos, quanto mais falava com Kurokawa mais Raizer entendia as diferenças fundamentais entre os dois:
—Não consigo compreender...porque você faz isso?
—Pelo risco! A vida é entediante demais quando você só tem certezas então eu procuro dúvidas. Não bastam apenas serem grandes obstáculos, para ser realmente divertido a minha probabilidade de vencer tem de ser mínima. Isso faz o sabor da vitória ser incrível. Eu vivo para experienciar esses momentos.
—Autodestrutivo, insano e arrogante...mas estranhamente triste. -Pensa Raizer ouvindo as razões de Kurokawa. -O que leva alguém a chegar ao ponto onde apenas isso traz-lhe felicidade?
Raizer sabe que mesmo se entendesse o que fez Kurokawa se tornar a pessoa que ele é hoje, ele dificilmente seria capaz de mudá-lo:
—Independente de tudo, dê valor ao que você tem. Os teus amigos se importam contigo mesmo que você mesmo não o faça. Tente não ter arrependimentos, Kurokawa. Com o tipo de vida que você está vivendo você nunca sabe quando vai ser a última vez que você vai falar com alguém.
Kurokawa não responde porque sabe que expressaria opiniões íntimas e secretas por causa da sua inabilidade temporária de mentir. Kaiser percebe que mudou a conversa para uma direção bastante pesada então decide voltar o seu foco para a sua missão atual:
—Você tem pensado na carne dos monstros quando luta contra eles?
—An? Porque eu faria isso?
—Porque se você não se pensar nisso, a probabilidade de a carne aparecer depois que eles morrem diminui. Quanto de carne você tem?
Kurokawa abre o seu inventário e confere:
—Dez pedaços.
—Para ser sincero, isso não é nada mau, eu só tenho dezoito.
—Viu? Eu sou incrível mesmo quando não-
Antes de ter tempo de terminar o seu monólogo presunçoso, Kurokawa ouve e logo em seguida vê uma lança voando na sua direção. Ele se esquiva e tira Eclipse do seu inventário:
—Você não podia ter aparecido num momento pior... -Ele diz começando a correr até a posição de onde a lança foi arremessada.
—Calma, Kurokawa! -Grita Raizer. -Não vá muito longe!
Ele ignora o aviso e vê o seu inimigo surgir no seu campo de visão. Conforme ele se aproxima, um outro monstro sai de entres árvores próximas e tenta atravessá-lo com uma lança. Kurokawa novamente desvia, mas dessa vez pisa numa armadilha no chão. Um alçapão abre-se e o seu corpo entra em queda livre. Ele ativa a sua habilidade Garras da Besta e tenta se agarrar a uma das paredes:
—Como se isso fosse funcionar contra mim!
A sua garra bate contra a parede, arranca algumas camadas de musgo, desliza e não impede a sua queda:
—Meeeeeerdaaaaaaa...
Raizer observa a situação extremamente dececionado:
—Eu disse para ficar perto de mim...mas eu duvido que a queda vá matar Kurokawa. -Ele percebe que está lentamente sendo cercado por monstros pertencentes a uma tribo nativa da região. -Também não tenho tempo para me preocupar com ele. Essa gasta um pouco mais de mana e é difícil de usar, mas é perfeita para essa situação. Guia do Mochileiro!
A sua espada desaparece e uma longa corrente metálica com uma foice negra em cada ponta surge. Raizer rapidamente começa a girá-las a volta do seu corpo usando simultaneamente mana e força física para aumentar a velocidade. Ele desfere um ataque com uma foice que decapita um inimigo sem que outros tenham sequer tempo de entender o que aconteceu. A rapidez e alcance dos golpes faz com que vários monstros sejam eliminados em sequência. Mas eles não demoram muito para formular uma estratégia.
Os guerreiros da tribo com escudos avançam protegendo aqueles que carregam lanças enquanto o restante esconde-se atrás de árvores. Raizer atinge um escudo, mas tem o seu ataque defletido:
—A inteligência deles está começando a me irritar... -Ele suspira concentrando mana no próximo ataque.
Ele lança as duas foices em simultâneo contra um inimigo carregando um escudo e o impacto é forte o suficiente para desestabilizá-lo. Raizer corre atrás das suas correntes e no instante seguinte troca-as por uma espada longa. Ele atravessa o monstro com o escudo, se esquiva de um ataque de outro inimigo com uma lança e em seguida corta-o com dois balanços da sua espada. Antes que tenha tempo de respirar, Raizer tem de usar o corpo do guerreiro que acabou de derrotar para proteger-se contra projéteis do restante da tribo.
Ele espera o momento onde os seus inimigos recarregam para mudar a sua espada para um arco usando o Guia do Mochileiro. Raizer dispara flechas enquanto tenta se manter em movimento e fora da linha de visão de outros adversários. Ele se esconde atrás de uma árvore e faz uma pequena pausa para recuperar o seu fôlego, mas tem de pular para longe quando um ataque a destrói e faz pedaços da mesma voarem. Uma clava quase do tamanho do seu corpo afundada na posição onde ele estava um segundo atrás junto de uma aberração de três metros de altura que a carrega surgem:
—Vocês não param de me surpreender...
Ele continua correndo enquanto se desvia dos ataques do guerreiro gigante e elimina os restantes monstros com lanças, escudos e zarabatanas. Não faltavam muitos, mas Raizer já estava lutando usando uma quantidade considerável de mana continuamente durante vários minutos. O cansaço físico e mental começa a se acumular, mas o maior problema de todos continua de pé. Ele tenta atingi-lo de longe com as foices, mas causa apenas feridas superficiais. Flechas não parecem ser muito efetivas e a sua pele é grossa o suficiente para impedir que uma espada a atravessasse.
Ficando sem opções e sabendo que morreria se fosse atingido por um único golpe daquela abominação, ele é forçado a usar uma arma com um grande custo de mana:
—Guia do Mochileiro!
Uma espada com um cabo branco que possui mana condensada no lugar de uma lâmina surge nas suas mãos. Apesar de parecer estar parada, a mana circula numa velocidade não detetável por olhos humanos. Isso junto com a concentração ali presente faz com que a mana atingisse temperaturas superiores a 1000 graus. Raizer respira fundo, concentra mana nas suas pernas e dispara. Um único corte lateral que atravessa a criatura como se ela tivesse a mesma rigidez de manteiga. Ele imediatamente desativa a habilidade e respira ofegantemente durante alguns segundos:
—Espero que eu tenha sido atacado por um grupo maior...não sei se Kurokawa teria sido capaz de lidar com isso...
Raizer sobe em cima de uma árvore enquanto observa os seus arredores e tenta recuperar energia. Ele vê um vilarejo de tendas rudimentares próximas ao pico da montanha:
—Kurokawa não ter voltado até agora significa que deve existir outro caminho...
Ele espera mais alguns minutos e em seguida começa a se mover em direção à nascente. Raizer entendeu na sua última luta que não conseguiria atingir o seu objetivo se tivesse que derrotar todos os monstros daquela região então decidiu adotar uma postura mais passiva. Ele apaga a sua presença e silenciosamente se desloca sem ser detetado por inimigos. Mais algum tempo se passa até que ele chega numa posição onde consegue avistar uma figura tão grande quanto o brutamontes de antes sentada num trono de madeira.
Ao invés de ter uma clava, o monstro carregava um cajado com uma grande orbe roxa na ponta. Ele tinha uma máscara com formato e cores semelhantes a um totem e longos cabelos brancos que se estendiam até os seus ombros. Raizer usa Liberdade Indomável para explorar a área que fica depois do trono e descobre a nascente.
—Ótimo! -Pensa ele sorrindo. -Só temos que evitar esse monstro, pegar a maior quantidade de água possível e dar o fora daqui!
Ele vê um guerreiro se aproximar do xamã e dizer algumas palavras incompreensíveis num tom assustado. O chefe da tribo bate com o seu cajado no chão e aponta para a sua direita. Vários guerreiros começam a se mover naquela direção até que algo explode arremessando os monstros para longe. Um ser humano coberto de ferimentos, plantas, musgo e pedaços de monstros se desintegrando em partículas brilhantes sai de dentro de uma passagem subterrânea:
—Oh, aquele é grande, você é o chefe daqui por acaso? Estou te procurando já tem um bom tempo...
O choque que Raizer experiencia ao ter o seu plano destruído é forte o suficiente para fazê-lo cair da árvore onde ele se esconde:
—Você também está aqui? -Resmunga Kurokawa percebendo a sua presença. -O chefe é meu, pode dar o fora!
—Nós nem precisávamos lutar contra ele! Era só ter passado silenciosamente e ter pego a água! -Grita Raizer fora de si.
—Vai em frente então! Eu vou ficar aqui e descer a porrada nele.
Raizer faz o melhor que pode para não agredir Kurokawa:
—Não dá para fazer isso!!! -Ele responde agressivamente cutucando Kurokawa. -Porque algum ser humano infeliz decidiu começar a lutar sozinho!
O xamã começa a reunir uma grande quantidade de mana no céu enquanto recita palavras da sua linguagem primitiva. Raios começam a cair das nuvens em direção a Kurokawa e Raizer. O impacto é forte o suficiente para abrir crateras no chão e apenas um pequeno brilho luminoso é emitido antes de um dos projéteis viajar mais rápido do que é possível acompanhar. Os dois pulam em direções separadas enquanto continuam a discutir:
—Ninguém te pediu para fazer isso!
—Tudo bem, vou só te deixar morrer sozinho na próxima vez! -Grita Kaiser se impulsionando para longe de outra posição que é destruído por um ataque elétrico.
—Quem disse que eu vou morrer?
Kurokawa concentra mana nas suas pernas enquanto corre na direção do líder da tribo. O monstro percebe o movimento e aponta o seu cajado na direção de Kurokawa. Kurokawa liberta dezenas de pequenas explosões das suas pernas fazendo com que ele chegue ao xamã antes que o mesmo consiga usar algum feitiço. Ele faz um corte no rosto do seu inimigo com Eclipse com força o suficiente para empurrá-lo para trás:
—E você, grandão, não ache que eu esqueci de você.
Raizer suspira manifestando as suas correntes e foices:
—Deixa eu adivinhar, é suposto eu cuidar de todos os guerreiros que vão aparecer enquanto você luta contra o chefe?
—Até parece que você lê a minha mente às vezes!
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