Notas iniciais
E lá vamos nós de novo! Mas essa será a última vez que reescreverei IP. Preparei vários capítulos com antecedência para evitar que as atualizações da fic sejam muito irregulares e também tenho estado bastante orgulhoso com o rumo que a história tem tomado. Bom, sem mais delongas, boa leitura.

Ele ouviu o despertador soar e teve o seu sono interrompido. Enquanto encarava o teto do seu quarto, ele percebia que tinha tido um sonho bastante comum. Mas tudo que era capaz de se lembrar era ver um jovem de curtos cabelos prateados e depois de ser consumido pela escuridão e frio.

Os seus olhos pretos e inexpressivos estavam cheios de melancolia. Ele ignorou seu desejo de continuar na cama e levantou-se, mais um dia insuportável começara. Sem pressa, ele dirigiu-se para o seu banheiro e começou a lavar o seu rosto. Os seus cabelos pretos quase tapavam a sua visão:

—Talvez devesse cortar.

Após refletir sobre essa decisão por mais alguns segundos e ter em conta todo o trabalho que teria, ele acabou por desistir. Enquanto secava o seu rosto com uma toalha, a sua visão acaba por encontrar o seu reflexo no espelho. A sua aparência era totalmente ordinária, a única coisa que se destacava eram os seus olhos sem vida. Ele arremessou a toalha contra o espelho e saiu do banheiro, olhar para aquilo era depressivo.

Kurokawa retornou para o seu quarto e se despiu. O seu corpo era bastante atlético e definido para alguém que não tinha feito nada senão comer doces e assistir televisão pelos dois últimos meses, tudo graças a uma boa herança genética. Ele vestiu a primeira roupa que encontrou, não havia grande variação de cores no seu guarda roupa, o preto predominava.

O jovem sentia alguma fome, mas não tinha tempo nem vontade para fazer uma refeição de verdade. Ele dirigiu-se para a cozinha, abriu um dos armários e encarou o seu estoque de caramelos. Por um breve instante, uma luz fraca brilhou nos seus olhos e um sorriso distorcido surgiu em seu rosto:

—O que seria da minha vida sem vocês?

Ele agarrou um pacote e começou a se dirigir para o ponto de ónibus. Apesar de Kurokawa classificar esse dia como "entediante", hoje era o dia em que as suas aulas começavam. Mas isso se aplica apenas a Kurokawa, os outros responsáveis estudantes já frequentavam a escola há mais de dois meses. O jovem aqui citado estava extremamente próximo do limite de faltas e por isso não tinha escolha, tinha que ir para aquele lugar.

No ónibus lotado de pessoas, ele mantinha sua postura indiferente e pensava na sua vida:

—Vou ter que me apresentar para a turma...vai ser um saco. Sério, quem teve a genial ideia de forçar adolescentes a frequentar o mesmo lugar 6 horas por dia, 5 dias por semana?

Ele suspirou:

—Eu fui expulso do clube de boxe, caratê, taekwondo...talvez devesse tentar jiu-jitsu? Não...é entediante demais. Deve ter sobrado algum clube de luta interessante, não quero ter que ir implorar para os meus clubes anteriores me aceitarem de novo...

Após alguns minutos, ele havia chegado na sua paragem. Kurokawa desceu e avistou alguns gatos abandonados. Mesmo que houvesse um pouco de simpatia perdida no fundo do seu coração que talvez pudesse ceder à fofura de animais, o seu ódio pelo mundo e a sua vontade de ter uma opinião contrária à sociedade falavam mais alto:

—Bolas de pelos barulhentas...

Kurokawa seguiu o seu rumo até o portão de entrada da escola. Todos os estudantes trajavam o uniforme da escola com orgulho, apenas ele não fazia o mesmo, maioritariamente por preguiça, mas também havia uma parte do seu ser que precisava desesperadamente provar para si mesma que era diferente do resto do mundo.

A maioria dos estudantes andava em grupo, dando risadas, conversando sobre assuntos fúteis, mas aproveitando a vida. Kurokawa apenas andava. Ele não se importava com isso, para ele era indiferente. Após uma curta caminhada até a sua sala, ele adentrou-a abrindo a porta e sentou-se no fundo da sala. Quando as pessoas perceberam a sua presença, vários comentários surgiram:

—Olha quem é, pensava que ele ficaria o resto do ano em casa... -Riu um.

—Poder vir à escola só quando quer, que vida fácil, assim até eu quero. -Disse outro

—Não sejam tão implicantes, ele deve ter vários problemas.

Kurokawa ignorava todos eles, responder era trabalhoso demais e não era como se a opinião deles fizesse diferença. A professora entrou na sala de aula surpresa e ao avistar Kurokawa, pediu para que ele se apresentasse para a sala. O que era um tanto desnecessário já que a grande maioria dos alunos havia estudado com ele no ano passado.

Kurokawa aproximou-se do quadro e falou brevemente:

—Bom dia turma, meu nome é Kurokawa Mito, é um prazer conhecê-los! -Sorriu ele falsamente.

—Fico feliz em te ter aqui connosco, Kurokawa. -Sorriu a professora. -Preciso que você fique aqui na escola depois das aulas para conversarmos.

—Tudo bem, professora. -Sorriu Kurokawa de novo com muito esforço.

Ele voltou ao seu lugar e suspirou decepcionado:

—O discursinho para a turma deve fazer ela pensar que está tudo bem, parar de se preocupar e de encher o meu saco. Por outro lado, eu não quero ficar aqui com ela apenas para ouvir mais sermões inúteis, mas se eu fugir disso, a situação apenas ficará pior...

A aula teve início sem mais delongas. Kurokawa manteve-se calado o tempo todo, perdido em pensamentos. Foram muitos minutos de tortura e tédio, mas, finalmente, o primeiro intervalo chegou. Ele, sem muitas esperanças, saiu da sala e começou a perambular. Talvez ainda restasse alguém daquela escola corajoso o suficiente para trocar alguns socos com ele.

A verdade é que não havia. Essa rotina de se envolver em brigas havia começado há muitos anos atrás quando Kurokawa estava cansado de ser alvo de piadas maldosas. Mesmo que a sua primeira luta tenha sido um duelo justo, o resultado foi bastante patético: um olho roxo, uma costela quebrada e vários hematomas distribuídos pelo corpo. Ele tinha o dom para ser um bom saco de pancadas.

Todos esperavam que ele fosse parar por aí, mas não. Em apenas algumas semanas, ele se recuperou totalmente, outra prova do seu talento natural. E depois da primeira luta, vieram incontáveis outras. Kurokawa certamente não era uma pessoa sã, existia alguma coisa fora do lugar dentro daquela cabeça.

Ele tinha um corpo naturalmente atlético e conseguia se destacar na maioria dos esportes, mas o seu interesse rapidamente acabava. Ele estava sempre à procura de um significado para a sua existência e ele conseguia achar isso quando superava a sua própria dor e cansaço para atingir a vitória. Com essa mentalidade ele se envolveu em várias brigas na escola e também frequentou vários clubes de luta. O comportamento extremamente violento e o desrespeito total por qualquer regra fizeram com que ele fosse expulso de todos os clubes que frequentasse.

Se ele realmente quisesse, poderia continuar se envolvendo em conflitos cada vez mais perigosos. Continuar brincando com a sua vida, mas o próximo nível não o agradava. Se continuasse, estaria se envolvendo com armas de fogo e outras coisas que podem tirar a vida de uma pessoa em meio segundo:

—E qual é a graça de uma luta que é decidida num instante? -Reclamava ele. -Qual é a adrenalina de puxar um gatilho? Isso é entediante...

Enquanto pensava no que faria com a sua vida de hoje em diante, ele se escorou em uma parede e começou a relembrar o passado. Todos os bons socos que levou e que desferiu. No meio de todas as lembranças, surgiu algo desagradável:

—Sasesu Aika...

O motivo pelo qual Kurokawa lembrava esse nome era apenas rancor:

—Aquele moralista hipócrita...

Sasesu foi um dos muitos que cruzou o caminho de Kurokawa, mas foi o mais persistente de todos. Sasesu não era um delinquente, não era alguém que tentava humilhar Kurokawa mas também não era alguém que tentava defendê-lo. Sasesu era um jovem que buscava fazer aquilo que lhe parecesse certo, sem se preocupar com as consequências, nesse aspecto, ele e Kurokawa eram bastante semelhantes.

O primeiro encontro entre os dois foi quando Kurokawa estava prestes a nocautear o último membro de um grupo. Sasesu interferiu para impedir Kurokawa. Era um absurdo, Kurokawa tinha sido atacado, estava em desvantagem numérica e mesmo assim Sasesu escolheu atrapalhá-lo. Era um absurdo, mas aparentemente era o certo para Sasesu.

Kurokawa nem se deu ao trabalho de ouvir o que Sasesu tinha para dizer em sua defesa, ele apenas nocauteou-o também. Mas Sasesu voltou uns dias mais tardes para, mais uma vez, atrapalhar Kurokawa. Porém, ele sequer era forte o suficiente para ser uma ameaça. Tudo o que ele podia fazer era tentar explicar o seu ponto de vista antes de ser apagado por Kurokawa mais uma vez.

Só que isso continuou se repetindo. Kurokawa não fazia a mínima ideia do que se passava na mente de Sasesu. Quando o questionou sobre a razão de suas ações, Sasesu apenas respondia que “conflitos eram errados e que ele tinha aprendido isso com a sua família”. Kurokawa acabou por concluir que ele tivesse alguma espécie de retardo mental. Mas ele demorou a entender porque Sasesu foi transferido para outra escola.

Após pesquisar um pouco, Kurokawa descobriu que Sasesu vinha de uma família rica e que eles estavam preocupados com o futuro do seu filho naquela escola. Não fazia diferença, era apenas menos um problema para Kurokawa lidar.

Ele deixou o seu corpo deslizar pela parede e sentou-se no chão. Completamente perdido, ele sentia que a sua vida não possuía sentido algum. Kurokawa era um ser humano vazio, ele não tinha ambições ou sonhos. Não tinha passatempos. Não tinha problemas. Não tinha objetivos. Não tinha nada. E isso o consumia.

Ele procurava desesperadamente por qualquer coisa que o pudesse entreter. Mesmo que apenas por uns momentos. Algo que pudesse preencher aquele buraco. Lutar era essa sua solução momentânea, mas agora, até mesmo isso havia sido tirado dele. Ele deitou a sua cabeça no chão e suspirou:

—Ei, Deus, eu nunca te pedi nada...mas se você realmente existe...poderia me dar alguma coisa?

Ele esperou, mas o vento não trouxe nenhuma resposta:

—Qualquer coisa...Qualquer coisa que dê sentido à minha existência...Qualquer coisa que me faça querer viver...

De um segundo para o outro, a velocidade do vento aumentou exponencialmente e Kurokawa sentiu que algo estava prestes a acontecer. Ele arregalou os seus olhos com altas expectativas, mas o resultado foi apenas uma grande quantidade de areia sendo trazida pelo vento na sua direção. Ele levantou-se enquanto limpava os seus olhos e gritava furioso:

—Eu estava fazendo um pedido com a maior simpatia e você manda areia em mim? Que porra de Deus é você!!!

Já sem esperanças e se preparando para voltar para a sua sala, ele abriu os seus olhos. Kurokawa viu uma espécie de letreiro flutuando no ar:

—Invisible Play? -Leu ele.

Ao aproximar a sua mão, Kurokawa percebeu que conseguia interagir com aquilo:

—Calma...o que está acontecendo? -Piscou ele repetidamente.

Notas finais
Eaí, o que achou? Não se esqueça que comentar me incentiva a escrever o que em torno faz com que os capítulos saiam mais rápido. Até a próxima!