Invisible Play
11 Missão e Mal-entendido
Notas iniciais
Kurokawa correu durante alguns minutos até a posição marcada em seu mapa e percebeu algo estranho a se aproximar. Era a entrada de uma floresta bastante densa, mas estava incomumente calmo. Seus instintos lhe diziam que algo estava errado, mas ele decidiu avançar. Alguns passos dentro da floresta e ele ouve um pequeno som. Kurokawa recua por instinto e avista algumas facas passarem voando em sua posição anterior:
—Armadilhas? -Pensou ele confuso. -Lizzy não me disse nada sobre isso. Deve fazer parte da missão.
Ele continuou avançando enquanto esquivava-se das armadilhas sem muitos problemas. Já cansado da monotonia daquela missão, ele finalmente avistou uma casa de madeira no meio da floresta. A porta abriu-se e um homem alto e magro de meia idade com longos e lisos cabelos cinzas saiu:
—Eu tenho várias perguntas: Como você achou esse lugar? Como você ainda está vivo? O que uma pessoa nível dez está fazendo aqui? -Suspirou ele. -Mas eu vou simplesmente assumir que você se perdeu. Apenas dê meia volta e suma, criança, e eu vou fingir que nunca te vi.
Kurokawa confirmou seu mapa mais uma vez e teve certeza que aquele era o lugar:
—Então vocês devem ser os monstros que eu tenho que derrotar. -Concluiu ele. -Estranho. Eu esperava algo mais monstruoso. Mas uma missão é uma missão.
—Eu realmente não faço ideia do que você está falando, criança. Essa é a última vez que vou-
Aquele homem foi inesperadamente interrompido por um soco de Kurokawa e arremessado para dentro da casa, acabando por se chocar contra uma das paredes. Era difícil ver o interior da casa devido à ausência de luz, mas Kurokawa pôde ouvir o som de alguém a levantar, o que significava que seu trabalho não estava acabado:
—Lum...mas que merda está acontecendo? -Perguntou uma outra voz. -Eu estou tentando dormir, podia parar de fazer barulho?
—Eu não faço a mínima, um garoto aleatório apareceu aqui, falou umas coisas sem sentido e depois me acertou em cheio com um soco. -Respondeu um deles caminhando até a porta.
Mesmo que Kurokawa tivesse certeza que seus ataques estavam muito mais fortes que antes, aquele homem parecia não ter sofrido danos alguns:
—Criança, nós já não trabalhamos com assassinatos, mas se você veio atrás de algo estúpido como vingança, apenas desista e vá embora. -Aconselhou o homem de cabelos longos visualmente sonolento.
—Vocês realmente são uns monstros estranhos. -Comentou Kurokawa desferindo outro soco.
Lum apenas foi atingido e arremessado mais uma vez. Ele chocou-se novamente contra uma das paredes da casa e quebrou um pedaço da madeira:
—Rum...me ajude...essa criança está sob o efeito de alguma droga... -Disse ele sentado no chão e encostado a parede.
O outro homem saiu de baixo de seus cobertores e caminhou até a porta. Quando a luz incidiu sobre seu rosto, Kurokawa conseguiu ver um rosto masculino careca muito mal-humorado junto de um corpo não muito alto e musculoso:
—Pirralho, eu vou cobrar 500 moedas por me acordar, 30 por bater no meu irmão e mais 10 por quebrar uma parede da minha casa. E por cada minuto adicional que você me mantiver acordado eu vou cobrar mais 5 moedas. Você também pode pagar com itens ou informações se quiser. -Disse ele estendendo sua mão. -Vamos, me dê o dinheiro, eu quero dormir.
Kurokawa sem entender a situação apenas decidiu continuar atacando. Ele desferiu um chute no abdômen daquele homem, mas apenas foi capaz de movê-lo alguns centímetros:
—Serão mais 15 moedas por esse chute. -Afirmou aquele homem.
Kurokawa pensou por alguns segundos, deu alguns passos para trás, pegou impulso, pulou e chutou com as duas pernas atingindo em cheio o rosto daquele homem e finalmente conseguindo movê-lo. Ele caiu e bateu seu corpo contra o chão. Ele permaneceu deitado e olhou na direção de seu irmão:
—Ele não quer pagar, Lum.
—Eu estou tão confuso quanto você. -Respondeu Rum ainda encostado a parede.
—Se vocês não atacarem de volta, isso nem pode ser considerado uma batalha! -Exclamou Kurokawa.
—ELE NÃO QUER PAGAR, LUM!
—Ele nem deve ter esse dinheiro...
—ELE INTERROMPEU O MEU SONO E NÃO VAI PAGAR!
—Sim, já entendemos isso, por favor se acalme...
—NÃO!
Rum rapidamente levanta-se e corre na direção de Kurokawa. Kurokawa quase nem tem tempo para defender e é arremessado para longe com um soco. Ele bate de costas contra uma árvore e lembra-se de que tem sua espada no inventário. Rum continua correndo em sua direção, Kurokawa desvia de um soco e finalmente consegue sacar a espada. Ele usa-a para defender outro soco de Rum e logo em seguida tenta cortá-lo.
Mesmo tendo usado toda a sua força, a ferida no tórax de Rum era extremamente superficial:
—Ele tem uma pele ainda mais resistente do que Sasesu. -Pensa Kurokawa. -Mas se não fosse assim não era divertido.
—VOCÊ NÃO VAI SAIR DAQUI SEM PAGAR! -Gritava Rum completamente irado.
Ele correu na direção de Kurokawa mais uma vez desferindo mais socos. Kurokawa já um pouco mais acostumado àquela velocidade, esquivou-se sem muitas dificuldades e preparou-se para atacar o mesmo lugar de antes com ainda mais força. Porém, na metade do trajeto, algum projétil atingiu sua espada e fê-la mudar completamente de direção. Ele olhou na direção de onde o projétil vinha e viu Lum caminhando para fora da casa com um revólver em suas mãos:
—Meu arqui-inimigo... -Sussurrou Kurokawa ao ver aquela arma de fogo.
—Eu ainda não entendo o que está acontecendo, mas se você vai atacar o meu irmão, então eu não posso ignorar isso, criança. -Disse Lum. -Não vamos te matar, mas vamos te machucar um pouco.
—EU VOU TE FAZER TRABALHAR PARA MIM ATÉ VOCÊ TER PAGADO TUDO O QUE ME DEVE!
—Pare de gritar, por favor, você está machucando meus ouvidos... -Comentou Lum.
—NÃO!
Rum avançou na direção de Kurokawa mais uma vez. Sua velocidade não era um grande problema para Kurokawa, mas seus ataques caso acertassem causavam bastante dano e agora Lum havia juntado-se a luta, o que apenas dificultava ainda mais a situação. Rum atacou com suas duas mãos e Kurokawa usou sua espada para bloquear:
—Rugido da besta! -Disse Rum conjurando um feitiço próximo a Kurokawa.
Ele emitiu uma onda de ar de sua boca que Kurokawa foi capaz de esquivar-se por pouco devido à proximidade. Mas antes que ele tivesse tempo de pensar, seu ombro foi perfurado por duas balas. O impacto e dor desestabilizaram-no e Rum aproveitou-se dessa abertura para arremessá-lo para longe com um chute. Kurokawa conseguiu apoiar–se em sua espada para permanecer de pé, mas ele sabia que tinha sofrido bastante danos:
—EU AINDA NÃO TE BATI O SUFICIENTE! -Gritou Rum. -LEVANTE E VOLTE AQUI!
—O cara com o revólver é definitivamente um problema, ele está esperando os momentos perfeitos para me atacar e já podia ter me matado se quisesse. -Pensava Kurokawa. -Eu não estou sentindo muita dor devido a adrenalina do momento, mas o movimento do meu braço definitivamente foi afetado. Mas ele não recarregou, então julgando pela forma do revólver, ele só deve ter mais três tiros. Quando ele for recarregar, é aí que terei minha chance.
—Essa criança é realmente apenas nível dez? — Pensava Lum observando Kurokawa. -Ele é perigoso. Talvez não seremos capaz de pará-lo sem matá-lo.
Kurokawa respirou fundo e correu na direção de Rum e os dois começaram a trocar golpes. O grande corpo de Rum fazia com que Lum não tivesse visão para disparar, mas ele sabia que Kurokawa eventualmente seria pressionado a desviar-se para um dos lados. E nesse momento, ele iria perfurá-lo. Rum observava pacientemente até que ouviu a respiração ofegante de Kurokawa e pelo movimento da espada percebeu que ele não seria capaz de bloquear o próximo ataque de Lum.
Ele preparou-se para disparar. Rum desferiu o soco e Lum disparou no momento em que viu Kurokawa mover-se. Ele imediatamente percebeu que tinha disparado em outra coisa. Kurokawa tinha bloqueado o soco de Rum com seu rosto enquanto e o que Lum tinha atingido era sua camisa, que Kurokawa tinha jogado como distração.
—Merda...fui muito impaciente e acabei por errar. -Pensou Lum. -Bem jogado, criança, mas isso não muda nada.
Sangue começou a escorrer pelos lábios e nariz de Kurokawa, o dano havia sido massivo. Mas mesmo quase perdendo a consciência, ele sorriu:
—Dois.
Rum desferiu outro soco sem calma, Kurokawa esquivou-se de alguma forma e posicionou-se atrás dele, precisamente entre os dois irmãos:
—Está tentando me fazer atirar em Rum? -Pensou Lum prestes a disparar. -Má ideia, criança, eu sei que meus tiros não vão machucar Rum.
Rum virou-se balançando seus braços tentando atingir Kurokawa e teve um deles agarrado. Lum disparou dois tiros, mas Kurokawa arremessou Rum por cima de seu corpo em direção aos disparos de Lum. As balas foram defletidas quando atingiram Rum e ele continuou voando até chocar–se contra uma das paredes da casa, fazendo toda aquela estrutura desmoronar. Kurokawa não perdeu um segundo e começou a correr na direção de Lum. Lum apontou sua arma na direção de Kurokawa e percebeu que precisava recarregar, foi então que ele entendeu o plano de Kurokawa:
—Muito inteligente, criança. Mas a lógica do mundo real não se aplica aqui. -Disse ele conjurando uma habilidade. -Recarga instantânea.
Kurokawa ao ouvir aquelas palavras e ver luz vir de dentro daquele revólver sabia exatamente o que tinha acontecido. Talvez se ele parasse de correr e recuasse ainda tivesse tempo de esquivar-se dos tiros, mais tarde outra chance surgiria. E era isso que Lum esperava que ele fizesse. Mas ele continuou a correr e Lum não hesitou em disparar. Foram cinco tiros sem piedade e Kurokawa sequer tentou desviar. Ele posicionou sua espada de forma a proteger seu rosto e coração enquanto continuava a correr.
Um tiro perfurou seu tórax, um foi refletido em sua espada, dois atravessaram seu estômago e outro o seu braço. Mesmo esvaindo-se em sangue, Kurokawa balançou sua espada com toda a força que tinha para decapitar Lum. Mas antes que sua lâmina cortasse algo, um avisou surgiu a sua frente:
—Parabéns por completar a missão, regresse ao local inicial para receber a recompensa.
Kurokawa abaixou sua espada enquanto tentava entender a situação. Lum apenas observava-o ainda surpreso com sua coragem ou possivelmente loucura:
—Então vocês não eram os monstros? -Perguntou ele.
—Obviamente não, somos dois jogadores como você. -Respondeu Lum.
Kurokawa tinha certeza que aquela casa era o lugar marcado no mapa e aproximou-se dela. Rum estava levantando-se em meio aos destroços e ao lado um grande sapo estava se desintegrando em partículas de luz. Ele percebeu que o monstro que estava procurando estava apenas no teto daquela casa e tinha morrido quando a casa desabou. Pensando sobre o gigantesco mal-entendido que havia cometido, ele apenas guardou sua espada e silenciosamente começou a caminhar para longe.
—VOCÊ VAI PAGAR! -Gritou Rum finalmente saindo debaixo dos destroços.
—Ele já foi embora, você já pode parar de gritar.
—Sério? -Perguntou Rum olhando seus arredores. -Ufa, aquele garoto era realmente assustador. Não quero nunca mais ter que ver ele. Mas afinal, o que ele queria conosco?
—Eu não faço ideia. -Respondeu Lum tirando destroços de cima de sua cama. -Eu vou voltar a dormir, quando acordar vamos atrás de outra casa.
—Isso parece ser uma boa ideia.
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