Os dois saíram de casa e Kurokawa trancou a porta apenas para prevenir:

—Bom, vamos de carro ou de moto? -Perguntou ele analisando os arredores.

—Eu tenho dezesseis anos, não tenho idade para dirigir. -Respondeu ela.

—Uma bicicleta pelo menos?

—Você vai entender em breve que neste mundo o transporte mais confiável são os teus pés.

Kurokawa suspirou:

—Vamos lá então...

Os dois começaram a correr, Kurokawa percebia que conseguia correr muito mais rápido do que antes e manter um ritmo acelerado por muito mais tempo. Por outro lado, Lizzy que já estava acostumado com isso há muito tempo tinha que constantemente controlar sua velocidade para não se distanciar muito dele. Os cabelos de Lizzy balançavam com o vento e espalhavam um aroma hipnótico para Kurokawa.

Lizzy olhou em sua direção apenas para conferir se ele não tinha ficado para trás. Kurokawa observava-a com atenção e curiosidade, e por conta disso, os seus olhares se encontraram. Eles mantiveram-se trocando olhares por alguns segundos até os dois simultaneamente olharem em outras direções. Kurokawa sentiu seu coração bater mais rápido:

—Isso foi muito constrangedor... –Pensava ele. –O que está acontecendo comigo? Eu não sei lidar com essa situação...

Os dois continuaram correndo por mais algum tempo até Lizzy sinalizar para pararem. Kurokawa parou e aproveitou para recuperar seu fôlego. Eles pararam na entrada para uma floresta, mas tudo estava calmo demais:

—É aqui? -Perguntou ele respirando pesado.

De um segundo para o outro, a expressão de Lizzy mudou para algo mais frio. Com algum remorso nos olhos, ela respondeu:

—Sim, é aqui.

Imediatamente, três homens saíram de trás das árvores e revelaram-se:

—Bom trabalho, Lizzy. -Disse um deles com o sorriso desprezível em seu rosto. -Me permita explicar o que está prestes a acontecer, criança.

Kurokawa olhou na direção de Lizzy mas ela evitou fazer contato visual:

—Eu sabia que algo desse gênero aconteceria, mas mesmo assim acho que não estava preparado. -Pensava ele. -Acabei me distraindo, tenho que tomar cuidado, mais cuidado no futuro. Bom, agora tenho que lidar com esses lixos na minha frente.

Ele voltou-se para aquele homem arrogante não muito distante:

—Eu entendo o que está acontecendo, Lizzy me enganou e me atraiu até aqui.

Aquele adulto puxou um cigarro de seu bolso juntamente de um isqueiro:

—Entendo, você não é tão estúpido assim. -Sorriu ele acendendo o cigarro. -Não te culpo, nossa Lizzy é realmente uma gracinha. Mas vamos a negócios. Você tem duas opções: morrer ou trabalhar para nós. Caso você aceite essa ''parceria'', nós iremos te proteger e dividir alguma parte do dinheiro.

Kurokawa analisava a situação de forma fria e calma:

—Isso soa para mim como escravidão. E se tornássemos as coisas um pouco mais divertidas, que tal conversarmos com as mãos? -Disse ele levantando e cerrando seus punhos.

Aquele homem estava visivelmente decepcionado:

—Retiro o que disse. -Falou ele expirando a fumaça do cigarro e levantando sua mão. -Adeus. Chicote.

Quase instantaneamente, junto com o movimento da mão daquele homem, um chicote negro se projetou no ar e se estendeu na direção de Kurokawa. Kurokawa conseguiu desviar-se do ataque sem muitas dificuldades:

—Essa foi perto. -Pensou ele. -Eu já deveria imaginar que existe magia neste mundo, mas mesmo assim isso me surpreendeu.

—Então você tem reflexos, pirralho. Mas não fique cheio de si, Chris e Ralph, vão, brinquem com ele um pouco.

Um dos homens fez materializar uma espada enquanto o outro retirou um arco e várias flechas do ar. Kurokawa percebendo que os inimigos tinham duas pessoas capazes de atacar a distância, estavam bem armados e vestindo armaduras, percebeu que talvez estivesse em desvantagem:

—Ainda não mudou de ideias, criança?

Kurokawa sorriu:

—Claro que não, agora que as coisas ficaram divertidas.

—Chicote! -Gritou aquele homem levantando sua mão.

Mais uma vez um chicote negro projetou-se no ar e estendeu-se rapidamente até Kurokawa. Ele novamente esquivou-se apenas para sentir uma flecha cortar um pedaço de sua orelha. Ele grunhiu com a dor, tocou sua orelha e em seguida viu sua mão manchada de sangue:

—Esses desgraçados... -Pensou Kurokawa perdendo a paciência. -Calma, ficar nervoso apenas piora. Preciso pensar.

O outro homem com a espada correu em sua direção balançando-a. Kurokawa esquivou-se sem muitas dificuldades:

—Esse com a espada não é um problema. O filho da mãe fumando precisa dizer palavras em voz alta para atacar, e eu tenho quase certeza que ele não vai poder fazer aquilo para sempre. O que significa que o meu maior problema é o cara com o arco.

Ele olhou na direção do homem com o arco e percebeu que ele já estava pronto para disparar outra flecha. Kurokawa entendendo isso moveu-se para trás do homem com a espada, o que fez o arqueiro não ter visão para disparar:

—Pronto, menos uma preocupação, mas eu ainda posso ser atingido por magias.

—Chicote!

Ao mesmo tempo, o espadachim fez outro ataque. Kurokawa conseguiu esquivar-se dos dois ataques simultaneamente e ainda evitar ficar exposto a ataques do arqueiro:

—Tudo bem, acho que já estou acostumado com os ataques deles. Vou sair da defensiva...

Ele sabia que, no momento em que fizesse contato visual com o homem segurando o arco, uma flecha seria disparada em sua direção, e foi exatamente isso o que ele fez. O homem com arco pensando que Kurokawa tinha finalmente feito um erro disparou com toda a sua convicção.

Kurokawa sabendo exatamente de onde e quando o projétil viria, agarrou-o como se não fosse nada. Ele deu um passo para trás, concentrou força na sua mão que segurava a flecha e mirou na direção do homem com o arco:

—Ei, tio, acho que isso é teu.

Ele disparou. A flecha atingiu uma velocidade ainda maior do que antes e atravessou o ombro daquele homem como se fosse papel. O homem caiu no chão gritando em dor enquanto pressionava a ferida com todas as suas forças:

—Foi mais fraco do que eu esperava... -Reclamou Kurokawa decepcionado.

O homem responsável pelas magias apagou o seu cigarro e começou a encarar a situação com mais seriedade:

—Ele jogou a flecha com força e precisão o suficiente para atravessar o corpo de Ralph onde a armadura não cobria. Essa criança é perigosa. Vou ter que usar aquilo.

Ele juntou suas duas mãos enquanto se concentrava:

—Chris, ganhe tempo para mim.

Kurokawa percebeu imediatamente que eles estavam planejando algo, mas não havia nada que ele pudesse fazer além de se concentrar no inimigo em sua frente. Chris desferiu outro golpe lento com sua espada do qual Kurokawa esquivou-se novamente sem dificuldades. Ele agarrou o braço daquele homem:

—Eu vou precisar da sua espada.

Com seu outro braço, Kurokawa deu uma cotovelada no antebraço daquele homem e sentiu aquele osso do espadachim quebrar. Chris soltou a espada e Kurokawa pegou-a no mesmo instante. Quando tentou segurar a espada, ele sentiu suas mãos queimarem. Ele soltou-a imediatamente e viu um pequeno aviso surgir:

—Nível insuficiente para usar este equipamento? -Leu ele. -Era só isso que me faltava...

Ele desistiu da espada e apenas nocauteou o seu inimigo que estava em sua frente com um chute em sua cabeça. Kurokawa correu na direção do mago que parecia estar conjurando algo, mas foi interrompido por Ralph. Mesmo com seu ombro perfurado e sangrando muito, ele se levantou e continuou lutando:

—Fique no chão na próxima. -Disse Kurokawa derrubando-o de novo com um soco.

No mesmo momento, ele sentiu alguma coisa pulando em sua direção. Kurokawa teve apenas tempo de evitar aquele ataque por milímetros. Ele olhou e percebeu que tinha sido atacado por um tigre:

—Surpreso? -Sorriu o único inimigo de pé. -Eu consigo invocar um desses, mas demora algum tempo e gasta quase toda a minha energia.

Kurokawa pensou que com seu corpo atual derrotar um tigre não seria um grande problema, ele não podia estar mais errado. Conforme trocavam golpes, ele rapidamente percebeu que aquilo estava muito longe de ser um tigre normal. Muito mais agressivo, feroz, rápido, resistente e inteligente com garras longas e extremamente afiadas:

—Ele está rapidamente aprendendo meus movimentos e os meus socos não parecem causar dano algum. Se ele fosse um leão...as coisas seriam muito mais fáceis...

Lizzy que observava o desenrolar desse combate totalmente espantada, pensou que talvez fosse a hora de interferir e lentamente sacou uma adaga. Kurokawa, percebendo seus movimentos, gritou:

—Não se meta! Eu vou resolver isso sozinho! Sente aí e aprecie o espetáculo.

Ela não sabia como reagir:

—Que tipo de orgulho distorcido é isso? Você vai morrer se isso continuar.

—Não, não vou. E mesmo se fosse, você não tinha nada a ver com isso.

Inconformada, ela desistiu de ajudar. Kurokawa continuava sendo pressionado pelos ataques do animal, mas ele esperava o momento certo. Ele expôs o seu braço propositalmente e esperou o tigre aproveitar-se disso. Aquela feroz criatura avançou sem pensar duas vezes com sua mandíbula para abocanhar o braço de Kurokawa. E foi o que aconteceu:

—Você lutou bem, mas acabou, garoto. A força desse tigre é o suficiente para quebrar os teus ossos, e você estava com dificuldades para lutar com os dois braços, mesmo se lidar com a dor, vai ser impossível.

Kurokawa cerrou seus dentes enquanto gritava em dor. A sensação que percorria pelo seu sistema nervoso era insuportável, ele sentia seus nervos serem rasgados pelos dentes da besta, sua carne sendo mastigada, a pressão lentamente quebrando seus ossos e o sangue correndo. Era difícil sequer pensar, mas tudo fazia parte de seu plano genialmente estúpido.

Enquanto se esforçava ao máximo para não perder a consciência, ele subiu em cima do tigre e começou a sufocá-lo. O pescoço daquilo era grosso e coberto de pêlos espessos, mas essa era a sua única forma de sobreviver. Kurokawa concentrava toda a sua força, mas o tigre apenas perfurava mais fundo em sua pele. Aquilo rapidamente tornou-se numa batalha de resistência, aquele que ficasse sem forças primeiro morreria.

A situação era péssima para Kurokawa, naquele ritmo, a besta demoraria horas para ficar sem ar. Enquanto ele morreria em apenas alguns minutos por conta do sangramento. Mas ele não tinha para onde fugir, ele apenas precisava de mais força. Precisava retirar tudo o que pudesse de seus músculos:

—Eu preciso de tudo. Não. Ainda mais. Isso não é o suficiente. Ainda mais!

Não fazia sentido, seus braços já estavam exaustos, mas mesmo assim, ele conseguia fazer ainda mais força com o passar do tempo. Em questão de segundos o tigre parou de respirar, de se debater e se desfez em partículas brilhantes. Kurokawa levantou-se e começou a caminhar na direção do último homem:

—Monstro...você é um monstro, garoto. -Disse o mago paralisado de medo.

Kurokawa agarrou aquele homem e deu-lhe uma cabeçada. O homem caiu no chão com seu nariz quebrado e Kurokawa subiu em cima dele com um olhar extremamente frio em seu rosto. Ele segurou o pescoço de seu adversário e afundou seu punho em seu rosto. Ele recuou seu punho e atacou de novo com ainda mais força. Sangue espirrou no chão a volta enquanto Kurokawa preparava-se para soca-lo mais uma vez, mas algo o impediu:

—Para, já é o suficiente. Você vai matá-lo. -Disse Lizzy segurando seu braço.

Ele virou-se para ela exibindo seus olhos vazios e mórbidos:

—Não enche o saco, ele tentou me matar. É óbvio que eu vou matá-lo. Esse é o direito do vencedor. Ou você acha que eles me deixariam sair vivo caso ganhassem?

—Pare! Não vale a pena! É uma vida! Você não pode simplesmente tirá-la dessa forma! E se você o fizer, você não será melhor que eles.

Kurokawa levantou-se enquanto cerrava seus punhos:

—Se está tão disposta a salvá-los, tente me impedir então.

Antes mesmo que pudesse formular seu próximo pensamento, tudo a sua volta começou a ficar desfocado e escuro. Ele olhou para seu corpo e viu a grande quantidade de sangue que havia perdido. Suas pernas deixaram de obedecer aos seus comandos e ele chocou-se contra o chão. Kurokawa perdeu a consciência e permaneceu imóvel no chão enquanto esvaía-se em sangue. Lizzy olhou para o homem que estava sangrando e deitado no chão:

—Vão embora e nunca mais apareçam por aqui. Vocês já perceberam que vão morrer se ele vos ver de novo.

Ele levantou-se, agarrou em seus companheiros e eles todos juntos arrastaram-se para longe. Lizzy rasgou um pedaço de sua roupa e usou para amarrar o braço de Kurokawa numa tentativa de estancar o sangramento, mas não estava funcionando muito bem. Ela colocou-o em suas costas e correu para a casa dele:

—Espero que não me arrependa de te salvar...