Invisible Play

8 Caramelos e Confusões


Lizzy abriu seus olhos e percebeu que uma coberta havia sido colocada sobre ela durante a noite. Ela levantou-se ainda meio sonolenta:

—Eu realmente não entendo ele...

Ela caminhou até o banheiro, lavou seu rosto e se dirigiu até a cozinha:

—Hoje, eu não vou queimar a comida...

Lizzy começou a cozinhar e algum tempo depois começou a sentir alguém se aproximando da casa. A pessoa estava claramente tentando esconder a própria presença, mas estava fazendo um péssimo trabalho. Ela rapidamente equipou suas armas e decidiu ir conferir. Aquele ser estava movendo–se para a casa sorrateiramente através dos arbustos. Ela materializou uma kunai de seu inventário e murmurou enquanto a arremessava:

—Arte Ninja: Veneno de paralisia.

A kunai voou rapidamente até o seu alvo, mas pelo som do impacto, Lizzy percebeu que havia errado. Por algum motivo mesmo sabendo que sua presença havia sido descoberta, a pessoa no arbusto decidiu não fugir ou contra-atacar:

—O que está acontecendo aqui? -Pensava ela confusa.

Ela movimentou-se rapidamente espalhando kunais conectadas a fios sem fazer nenhum barulho e escondendo sua presença:

—Arte Ninja: Manipulação de Fios. -Sussurrou ela puxando os fios e fazendo todas as kunais serem disparadas na direção daquele arbusto.

Ela sacou suas adagas e avançou no segundo a seguir. A pessoa no arbusto, sem outras opções, saltou para se esquivar das kunais. Lizzy, que já havia previsto isso, estava na posição perfeita para perfurar seu inimigo, mas ao ver o seu rosto, ela apenas parou seu ataque:

—Kuro...kawa? -Perguntou ela confusa enquanto abaixava suas adagas.

Ele recuou desconfiado:

—Lizzy? -Disse ele tomando decisões precipitadas. -Então você decidiu me trair...

Lizzy bateu com o cabo de sua adaga na cabeça de Kurokawa:

—Não, eu não te traí. -Reclamou ela voltando para casa. -Vamos voltar, conversamos lá, eu não posso deixar a minha comida queimar de novo.

Kurokawa passou sua mão onde Lizzy havia batido mostrando que tinha sentido dor e seguiu-a ainda um pouco desconfiado:

—Poderia me explicar o que você estava fazendo? -Perguntou ela voltando a cozinhar.

—Você reclamou ontem que eu estava sendo seguido então eu estava tentando aprender a me esconder das pessoas. -Respondeu ele procurando por caramelos em seu armário. -Mas se você me percebeu, então significa que não deu muito certo.

Lizzy rapidamente tirou o saco de caramelos da mão dele:

—Eu estou terminando de fazer comida, coma isso depois.

—Você é a minha mãe por acaso? -Reclamou ele. -E como você é capaz de saber onde eu estava? É alguma habilidade?

—Não, é uma coisa que qualquer jogador pode fazer com o treinamento adequado. Todo jogador enquanto estiver vivo vai emitir energia de seu corpo, mais ou menos da forma como você emite dióxido de carbono através da tua respiração. -Respondeu Lizzy. -E com treinamento é possível sentir essa energia emitida e usar isso para saber a localização do inimigo ou até mesmo sua força. Por outro lado, assim como podemos segurar a nossa respiração, também podemos diminuir consideravelmente a emissão de energia do nosso corpo, fazendo com que a nossa presença seja muito mais difícil de se sentir.

Lizzy ao perceber que tinha explicado aquilo de forma bastante detalhada e complexa virou-se para Kurokawa com a certeza de que ele estaria desatento:

—Entendo. -Respondeu ele contrariamente as expectativas de Lizzy. -Isso explica como você sabia onde eu estava e eu não fazia ideia de onde você estava na nossa luta de mais cedo. Mas você ainda não me explicou porque me atacou.

—Eu senti a presença de alguém tentando se aproximar sorrateiramente e por algum motivo não consegui te reconhecer como parte do nosso grupo. -Respondeu ela.

—Isso deve ser porque eu saí do grupo. Pareceu meio inútil e chato.

Ela apenas suspirou e não se deu ao trabalho de reclamar:

—Mais umas coisas, na minha luta contra Sasesu ontem. -Continuou ele. -As tuas adagas não conseguiam cortar bem ele, parecia que a pele dele era de ferro. Aquilo era outra habilidade?

—Não. Aquilo eram só as características dele. -Respondeu Lizzy ainda fazendo comida. -Conforme suas características aumentam, teu corpo vai ficando mais poderoso. Ele deve ter uma resistência física bem elevada, por isso as minhas adagas não causariam muito dano. Mais alguma coisa?

Kurokawa levantou-se com uma aura ameaçadora:

—Sim. Porque você me deixou desmaiado no meio da sala?

Lizzy corou:

—Você tirou a tua camisa durante a luta e depois não colocou de novo. -Respondeu ela. -Tocar em você daquela forma não seria correto...

—Você é uma freira por acaso?

—Não enche o saco...

Kurokawa saiu da cozinha e foi para o seu quarto mudar de roupas:

—Ele está agindo de forma estranha.... -Pensava Lizzy na cozinha. -Ele normalmente nunca demonstra interesse em nada...

Lizzy conseguia sentir Kurokawa saindo de seu quarto, descendo as escadas e se dirigindo para a cozinha, mas durante menos de um segundo, a presença dele sumiu completamente. Ela virou-se assustada na direção da porta e viu-o aparecer normalmente:

—Kurokawa...o que você acabou de fazer? -Perguntou ela.

—Tentei esconder minha presença de novo. -Respondeu ele. -Mas você me percebeu de novo, isso é mais difícil do que parece.

Lizzy apenas continuou a cozinhar normalmente:

—Deve ter sido impressão minha. -Pensava ela. -Mas pareceu que ele ocultou completamente a sua presença durante aquele curto intervalo de tempo...

Kurokawa sentou-se na mesa à espera que Lizzy terminasse a comida:

—Agora que eu lembrei, naquele dia que você veio me enganar, como você sabia onde eu estava? -Perguntou ele. -Melhor ainda, como todas as pessoas que encontrei até agora sabem que eu sou nível 1?

—Todos os jogadores têm um mapa e ao completar uma certa missão, eles adquirem um item que lhes mostra a localização de jogadores próximos e seus respectivos níveis no mapa. -Respondeu ela. -O único problema é que a posição de outros jogadores no mapa tem pouca precisão, além de haver formas de ocultar isso através de itens ou habilidades. No geral, desenvolver a capacidade de sentir a energia de outros jogadores é melhor.

—Sendo assim, eu queria que você me ensinasse a sentir a energia das pessoas.

—É melhor não. -Respondeu Lizzy. -É um pouco complicado e mesmo eu não sei fazer muito bem, acho melhor você ir fazer a missão que dá o item que mostra a localização de pessoas no mapa.

—O que eu tenho que fazer para conseguir essa missão? -Perguntou Kurokawa interessado.

Lizzy colocou dois pratos na mesa e serviu comida para si mesma e Kurokawa:

—Você tem que ir a uma vila a alguns quilómetros daqui pegar uma missão com um NPC da vila, completar a missão e depois retornar ao NPC. A missão exige que você derrote uns monstros gerados aleatoriamente e considerando as suas lutas dos últimos dias, eu não acho que eles serão grande problema para você. Mas ainda assim você ainda precisar ser nível dez para aceitar a missão, e eu até mesmo recomendaria a você comprar alguma espécie de equipamento e uma arma.

Kurokawa experimentou a comida enquanto ouvia Lizzy:

—Isso está surpreendentemente bom...mas se você colocasse uns caramelos...

—Nem comece. -Interferiu ela. -Não estrague a minha comida. Enfim, depois que comermos, eu posso ir com você à Vila, lá você compra alguns equipamentos e pega a missão. Você provavelmente vai querer fazê-la sozinha e eu acho que isso também é bom, você precisa ganhar experiência em combate contra monstros. Depois é só nos encontrarmos aqui.

Kurokawa rapidamente terminou seu prato e levantou-se para comer mais:

—Tudo bem.

Os dois continuaram a almoçar enquanto conversavam sobre coisas aleatórias até que Lizzy terminou de comer e começou a fazer os preparativos para sair:

—Então, vamos? -Perguntou ela.

Kurokawa havia ingerido muito mais do que seu sistema digestivo era capaz de absorver:

—Eu...não sei se...sou capaz de andar. -Respondeu ele ofegante tentando se levantar.

Lizzy suspirou:

—Você sempre dá um jeito de me surpreender...

—Me ajude...eu acho que vou morrer...

Ela tentou se aproximar para ajudar, mas acabou por desistir por não saber o que fazer:

—Eu...não consigo te tocar. É estranho. -Disse ela constrangida.

—Você me carregou até aqui quando desmaiei depois de lutar contra aqueles caras.

—Aquilo foi uma situação de vida ou morte, é diferente!

—Essa tua personalidade tímida só existe nos momentos mais desfavoráveis para mim, isso não faz sentido. -Reclamou Kurokawa. -Você já me viu nu, porque está com vergonha de me tocar?

—Eu não te vi nu por opção minha! E outra, eu nunca nem sequer interagi direito com um rapaz na minha vida! Eu sempre vivi afastada da sociedade por causa dos meus pais...

Kurokawa deixou seu corpo cair em cima da mesa:

—Lizzy, em três segundos, eu vou vomitar em cima dessa mesa e acabar por me afogar no meu próprio vômito. Você quer que isso aconteça? Três...dois...

Antes que Kurokawa chegasse a um, Lizzy agarrou-o pelo braço e levantou-o:

—Obrigado... -Disse ele contendo sua vontade de vomitar.

—Sua pele...é oleosa... -Comentou ela com uma cara de nojo.

—Só me leva...até o banheiro... -Respondeu ele ligeiramente ofendido.

Lizzy ajudou-o a subir as escadas e sentou-se a porta do banheiro. Ela esperava que Kurokawa fosse vomitar, mas tudo que ela ouviu foi o barulho da água do chuveiro caindo:

—Ele provavelmente mentiu sobre estar com muita vontade de vomitar, tudo para me forçar a ajudá-lo e a superar os meus problemas de timidez. -Pensou ela em voz alta. -Então até mesmo ele consegue ser gentil às vezes...

Kurokawa saiu do banheiro enrolado numa toalha e caminhou para o seu quarto:

—Você está imaginando coisas, eu só te pedi ajuda porque realmente estava prestes a morrer de uma forma bem patética. E você só não me ouviu vomitar no banheiro por causa do barulho do chuveiro, porque eu vomitei o meu intestino todo lá dentro.

Lizzy apenas observava ele com nojo:

—Você é um ser humano desprezível...

—Obrigado. -Respondeu ele fechando a porta de seu quarto.

Kurokawa, já vestido, saiu do quarto alguns minutos depois:

—Então...vamos?

Lizzy apenas suspirou:

—Vamos...

Notas finais
Ei, deixa um comentário ai e talvez o próximo capítulo saía mais rápido!