Invisible
1 Oneshot
Notas iniciais
As ruas de Saffron estavam movimentadas; não que isso fizesse diferença para ele. Os tempos eram conturbados, a população olhava com desdém para os treinadores, algumas das principais construções da cidade se encontravam fechadas por conta de um desentendimento entre dois grupos econômicos… Em outras palavras, não era um bom momento para se viver lá.
Menos ainda para visitar a cidade, por mais que o garoto não soubesse disso.
Não fora a muito que ele se tornara um treinador Pokémon e, com isso, estava começando a se acostumar com as consequências de sua escolha. Sendo uma classe mal vista pela população em geral, a maioria das pessoas preferia fingir que eles sequer existiam.
Por outro lado, a situação nos refúgios era bem diferente. Nesse contexto, em toda a cidade de Saffron, podia se contar nos dedos de uma mão a quantidade de locais com essas características. Eram apenas esses os ambientes em que a existência dele era notada, aonde podia conversar e interagir com outras pessoas. Uma ilha de contato humano em um mundo cinzento e vazio.
Igor se encontrava no Centro Pokémon, uma espécie de hospital para os monstros de bolso. Um dos poucos lugares aonde ele era tratado como uma pessoa normal. A culpa era de seus três Pokémon: o Bulbasaur que o acompanhava naquele momento fora um presente de um amigo da família; também o primeiro com o qual começou a jornada. Além dele, tinha também um Pidgey e um Abra, o último obtido sem o menor mérito.
O dia anterior, na cidade de Celadon, fora interessante para se dizer o mínimo. Após encontrar um estranho em um bar embebedando-se após perder as economias da família em um cassino, acabou recebendo dele um cartão de entrada para a casa de jogos. Movido pela curiosidade, Igor utilizou-se da oportunidade para visitar o estabelecimento, mesmo sendo menor de idade. O local estava em condições precárias de iluminação, ao ponto que ele encontrou diversas moedas jogadas ao chão pelo simples fato de estar procurando por elas. Como estas não podiam ser trocadas por dinheiro, ele escolheu uma das premiações disponíveis, a única que podia receber com a quantia que obteve. A pokébola alaranjada que recebeu continha o espécime psíquico, um mero filhote sem condições de batalha. Mas ainda assim um novo Pokémon.
O suficiente para que Igor se sentisse feliz, pelo menos até descobrir que a única coisa que o Abra sabia fazer era o ataque de tele transporte.
Ninguém no centro Pokémon, fosse o de Celadon ou o de Saffron, sabia dizer alguma coisa sobre o caso, de modo que o jovem decidisse tentar com ele o mesmo que fazia com seus dois outros colegas: treinar.
Dito isso, pegou a saída ao sul, mesmo sabendo que a cidade estava agora sitiada e que não poderia retornar a ela por conta das barreiras policiais, uma consequência dos conflitos que lá ocorriam. Não que isso fizesse diferença para ele agora que podia retornar quando quisesse por meio do poder de seu Pokémon psíquico.
O treinamento, no entanto, foi completamente infrutífero pelo pouco tempo que durou. O Pidgey que o acompanhava acabou envenenado por um golpe de um Bellsprout selvagem. A ausência de um antídoto na mochila de Igor fez com que tomasse a única atitude que podia para salvar seu Pokémon, ao mesmo tempo que outro treinador notava a sua presença.
— Ei, você! Eu quero uma…
— Abra, use o tele transporte!
— …batalha…
— — —
O retorno de Igor ao centro Pokémon foi instantâneo, levando meros segundos para que se materializasse de volta a Saffron. O Pidgey não sofrera tantos danos do veneno até então, sendo capaz de se recuperar com facilidade após os cuidados na enfermaria.
A situação do garoto, porém, estava prestes a se revelar um pesadelo muito maior do que imaginava quando ele adentrou o recinto. As coisas continuavam como sempre dentro do hospital; uma grande movimentação de pessoas conversando entre si, os Pokémon sendo cuidados por seus treinadores após o tratamento, a Joy ao balcão aguardando para atender o próximo que aparecesse.
— Com licença… eu gostaria de…
A enfermeira continuava olhando para o vazio, ignorando completamente a presença de Igor ou de seu Pidgey.
— Joy!
Não houve resposta. Algo de muito errado teria que estar acontecendo.
O sino da porta de entrada tocou outra vez com a chegada de mais um treinador, desesperado, o qual correu até o balcão.
— Me ajude, meu Wartortle está ferido!
— Me dê ele aqui. — disse Joy, pegando a pokébola. — Podemos resolver isso.
Por que estou sendo ignorado?
Igor tentou puxar conversa com outro treinador, sequer tendo sua presença notada mesmo após cutucar seu ombro.
Não pode ser possível. O que eu fiz para merecer isso?
O Pidgey começava a piorar, os efeitos do ataque venenoso do Bellsprout se agravando pouco a pouco. Mas existia uma esperança, uma chance de que as coisas se resolvessem mesmo que todos os presentes tivessem decidido por ignorá-lo.
O computador que se encontrava no saguão servia de painel de comunicação com uma central de armazenamento, a qual permitia que se pudesse converter as espécies em meio digital, algo considerado revolucionário para a época mesmo se considerando que eles eram armazenados em pokébolas pelos últimos dois séculos por um procedimento semelhante. O Pidgey, se armazenado na rede através do computador, poderia até não ser curado do envenenamento mas ao menos não teria seu quadro agravado.
Vamos, anda… funciona…
O computador recusou-se a ligar mesmo com as diversas tentativas de Igor. O pesadelo de ver seu Pokémon morrendo pelos efeitos do veneno começava a se vislumbrar como uma realidade.
Isso não está acontecendo…
A situação era tão irreal que Igor tomou uma atitude drástica para ver se alguém notava sua existência para ajudá-lo. Correndo de volta para o balcão aonde estava a enfermeira, deliberadamente trombou com o rapaz que aguardava pelo tratamento de seu Wartortle. A única coisa que conseguiu foi cair ao solo com o impacto, quase batendo sua cabeça no chão de pedra. O outro treinador ignorou completamente o fato de ter sido atingido por alguém quase do mesmo tamanho dele, sem ao menos olhar para o lado.
Tem alguma coisa errada. Eu sei disso.
O Pidgey começava a reclamar em seu colo, um piado fraco era a sua maneira de demonstrar que os efeitos do envenenamento estavam se agravando.
— Eu vou dar um jeito, Pidgey. Tente aguentar mais um pouco.
Igor correu então até o outro local que conhecia em que talvez pudessem perceber a existência dele, por mais que nunca o tenha visitado antes. Saffron possuía não um, mas dois ginásios Pokémon. Tais construções eram dedicadas às batalhas, o meio pelo qual os treinadores competiam entre si. O ginásio oficial da cidade estava fechado devido aos conflitos recentes, porém o outro continuava em funcionamento. Entrando na construção, a qual mais aparentava ser um espaço dedicado à prática de artes marciais, Igor cutucou uma das pessoas que lá treinava.
A estranheza da situação era tanta que ele não se surpreendeu ao ser ignorado por mais uma vez.
Não… isso não pode estar acontecendo…
Por acaso eu estou morto e não percebi?
Talvez fosse uma justificativa, por mais absurda que isso pudesse lhe parecer. Somente isso explicaria que ele fosse completamente ignorado por todas as pessoas a sua volta.
Acho que o tele transporte falhou, eu morri e sou apenas um fantasma vagando…
— Ei, você! Somente lutadores no ringue!
Igor não pode deixar de sorrir. Alguém notou sua presença.
Naquele momento não fazia diferença que um de seus Pokémon estivesse quase morrendo, não importava que ele jamais se atrevera a entrar em um ginásio antes por não se considerar capaz de enfrentar um treinador tão forte.
Ele não estava morto. E isso era tudo o que importava.
Seus Pokémon, um a um derrotados pelo Mankey usado pelo carateca, teriam motivos de sobra para ficar com raiva. O que não fazia diferença nenhuma para o garoto.
— — —
— Meu deus, o que aconteceu com você?
Se fosse algum tipo de encanto o fato de Igor ter sido ignorado por Joy menos de uma hora antes, ele havia definitivamente sido quebrado. A enfermeira logo tratou de recolher seus Pokémon, cuidando deles para que se recuperassem logo. A tecnologia era incrível, sendo capaz de curar os danos superficiais daquela batalha (e do veneno, no caso do Pidgey) em questão de minutos.
— Não foi nada. Eu só…
E agora? Deveria ele reclamar com ela por ter sido ignorado em sua visita anterior? Ou seria mais sensato ficar quieto.
Ou melhor: se ele dissesse, alguém acreditaria?
— …entrei no ginásio por engano.
— Você devia saber que é perigoso, Igor. É apenas um iniciante, não está preparado para as batalhas pela liga Pokémon.
Joy falava a verdade. Igor não estava em condições para querer lutar nos ginásios. Ele começara sua jornada não tinha tanto tempo, afinal. Precisaria de muito treinamento apenas para poder cogitar a possibilidade de se inscrever para as batalhas oficiais.
— Eu sei, estava desatento.
— Prometa que vai prestar mais atenção daqui em diante, certo? Não quero ter que te ver aqui outra vez tão cedo…
— Pode deixar, Joy.
Igor não conseguiu deixar de imaginar que tudo não passara de um pesadelo, imaginando o que poderia ter ocorrido para que ele acabasse no centro Pokémon daquela forma. Teria ele realmente entrado no ginásio, ou fora mera imaginação para justificar o desmaio de seus três companheiros? Teria ele mesmo desmaiado e os últimos acontecimentos não passarem de um sonho ruim?
Depois de passar vários minutos tentando chegar à uma conclusão, sem sucesso, ele decidiu por retomar os treinamentos. Faria o mesmo processo, indo para a rota ao sul de Saffron; poderia retornar quando quisesse com o tele transporte do Abra.
Uma estranha sensação de dejà vú o acompanhou, fazendo com que resolvesse olhar sua mochila antes de partir. Pokébolas, poções, o cartão do cassino, remédio para paralisia Pokémon, pomada para queimaduras…
No fundo da mochila ele encontrou o que procurava. Um único frasco de antídoto. Era a certeza de que a situação inusitada que ele passou não teria que se repetir.
O calafrio que teve ao tocar a porta da guarita que atravessaria para sair da cidade, no entanto, fez com que Igor decidisse por cinquenta vezes ter de passar por aquilo de novo se pudesse escolher.
— Muito obrigado… por me libertar…
Uma criatura disforme o tocava, fazendo com que Igor desse um pulo para trás com o susto.
Um fantasma?
O garoto pegou sua Pokédex, apontando para a criatura antes que ela desaparecesse, enquanto sentia sua mochila ganhar peso o bastante para que ele quase fosse levado ao chão ao encarar as informações a ele apresentadas.
ERRO: DADOS INVÁLIDOS.
—0x000: MissingNo.
Fale com o autor