Invisible
5 A beautiful miracle,
Notas iniciais
Recomendo ouvir Samsom", da Regina Spektor, e "Stop And Stare", do OneRepublic. Foram as músicas que me inspiraram ao escrever.
Capítulo 5. A beautiful miracle unbelievable.
I just wanna show you she don’t even know you
Baby let me love you, let me want you…
You just see right through me
But if you only knew me
We could be a beautiful miracle unbelievable instead of just invisible
Hikaru.
Eu tinha feito algo muito, muito errado.
Obviamente, era minha culpa. Minha culpa que Kaoru tivesse ficado chateado, minha culpa que ele tivesse se machucado, minha culpa que ele tivesse me repreendido. Eu merecia ser magoado, eu queria ser magoado, fazer com que, de alguma forma, ele percebesse o quão imaturo eu ainda posso ser.
Será que pensar sobre maturidade nos torna maduros? Será que procurando pela verdade se consegue tê-la? Aquelas eram informações que meu cérebro não se considerava capaz de processar. Será que, se eu realmente quisesse, poderia resolver aquilo?
Pois “aquilo” era o termo certo, já que eu não sabia o que estava acontecendo. Kaoru estava diferente... Desde cedo, ele estava diferente. Distante. Não prestava atenção a tudo e, se prestava, tomava o cuidado de não demonstrar. Mantinha-se a uma distância segura de mim e Haruhi, para depois se aproximar como uma criança carente. Mas o que ele queria que eu pensasse? O que eu deveria perceber, nestes pequenos sinais que me foram dirigidos durante todo o dia, querendo ele ou não?
Eu não sabia.
E a pior parte, era que eu não sabia.
Oh, eu não sabia! Eu não era a parte inteligente da equipe. Eu nunca fora a parte que descobria tudo antes de acontecer. Não era eu que arquitetava os planos diabólicos que envolvia todos os integrantes do Host Club.
Éramos gêmeos e iguais, mas nossos pensamentos às vezes divergiam. A nosso contragosto, mas divergiam. E que fazer quando isso acontecia? Chorar? Fazer-nos de pobres coitados, quando a culpa era toda nossa?
Éramos tão aleatórios, e tão bobos.
Ora, sempre fomos.
Tono dizia que esta era a nossa personalidade.
Eu digo que é um erro de criação. Não da maneira como fomos criados, nossa educação, mas desde quando fomos gerados, desde o ventre de nossa mãe, desde o antes que a ciência desconhece.
Nós éramos sempre um só, e de repente eu passava a ser uma parte, e ele a outra. Como um equilíbrio a partir do caos.
Eu era Lúcifer e ele, incrivelmente, era Deus. Intocável, sábio, e onipresente; pois era Kaoru que lia meus pensamentos e me acalentava quando me sentia triste e perdido.
Não é o que dizem “Deus” fazer?
Oh, me sinto tão perdido agora.
Como sobreviver a esta selvageria, sem um Deus ao qual me firmar? Sem um equilíbrio no firmamento perfeito? Sem as duas partes que se encaixam perfeitamente em um quebra-cabeça?
Eu não sei juntar as pontas do lençol, não aprendi a desvendar com todos os indícios um mistério.
Mas ainda conseguia pensar... E Haruhi?
“Ora, deixe Haruhi de lado. O que realmente importa agora é o seu irmão.” O som das palavras girava em espirais confusas dentro de minha mente.
Se ela era tão importante para nos dividir, por que deixá-la de lado?
Ela não era o elo que separava Deus e Lúcifer? Não era outro ponto do equilíbrio?
Mas Lúcifer não teria caído, se não houvesse a humanidade. E Deus não teria se separado de seu mais belo anjo, o mais terrível e resplandecente, o mais necessário, o mais justo...
Eu sou Lúcifer. Kaoru é Deus. E Haruhi é a humanidade.
Será que eu queria mesmo cair e deixá-lo sozinho?
x
Kaoru.
A escuridão me envolve; o cheiro irritante de condimentos também.
As lágrimas são como facas, a despedaçar meu rosto e meu coração.
Os soluços ecoam no vazio, e ninguém os ouve.
Talvez o cheiro que me irrita seja o fruto que colhi, após plantar o errado. Talvez eu finalmente seja devorado pelo monstro que me consome por dentro, e tudo isso acabe.
Oh, o que eu fiz para merecer tudo isso?
O que fiz para merecer que meu anjo não viesse me salvar?
x
Hikaru.
Tap, tap, tap.
Passos ecoam no vazio, enquanto busco encontrá-lo. Enquanto busco compreendê-lo. Tudo o que quero é envolvê-lo em meus braços e dizer que a vida não passa de um sonho ruim, um pesadelo.
Mas onde ele está?
Onde está o que eu preciso para sobreviver? O veneno que se espalha por cada veia e cada gota de sangue do meu corpo, impedindo-me de viver sem tomar outra dose, e mais outra.
O ar foge dos meus pulmões a cada porta aberta, e a cada quarto vazio.
Tudo está vazio.
Meu coração está vazio.
Um porta se chocou contra o umbral, após ele ter saído, eu tenho certeza. Eu o sinto dentro desta casa. Eu o sinto perto de mim, como sempre foi, pois eu preciso dele. Preciso do anjo. Preciso do veneno.
Tap, tap, tap. Mais um aposento vazio.
O mundo é feio, cruel. O mundo é sujo. Tudo o que me resta é meu anjo, meu anjo divino, meu bom e generoso, e único, Deus.
Click. Outra sala vazia.
Meu coração se aperta.
O elo havia sido quebrado; eu confundia meus sentimentos, e não sabia se o sentia ou não perto de mim. Dimensão, distância, tudo confuso. O ruído da porta poderia ter sido meu coração se despedindo, em sua última batida; o sentimento de tê-lo por perto, uma desesperada ilusão de ter a perda revertida. Vazio.
A última porta é meu esquife, minha tumba, o que me separa do mundo real. A esperança já não acompanha meus dedos no girar da maçaneta.
Dói.
x
Kaoru.
O inferno, ou a redenção. O que me aguarda depois de ter decepcionado o que restava de mim mesmo?
A luz, ou a escuridão. O certo, ou o errado. Bastava imaginar o que me aconteceria após cortar o fio sutil que me ligava ao equilíbrio. Tudo o que me restava, meu anjo caído, meu mal personificado; agora, nada mais me resta, e a escuridão me consome.
Meu mundo acaba de dentro para fora, e de fora para dentro. Eu me desfaço em pedaços, em um Apocalipse duplo e simultâneo.
A luz chega de repente, e acabou. Um suspiro escapa de mim, chegado o final.
— Perdão, Hikaru.
Perdão, meu anjo caído.
x
Hikaru.
Ao estar morrendo pela falta do meu veneno, as ilusões me atingiram. Da minha vontade louca e pervertida de tê-lo de volta, eu o vi, dizendo meu nome.
Caí por terra, chocando meus joelhos ao carpete, pensando ser aquele o fim.
A escuridão não chegou, a luz não me envolveu. O fim de tudo o que eu conhecia não era o fim, mas o começo. A ilusão verdadeira de tudo é a realidade. O ódio, às vezes, se converte em amor.
— KAORU!
A mesma textura dos dedos, das mãos, dos braços; o corpo, as pernas, tudo idêntico e perfeito. Encarei as minhas íris no espelho, no meu espelho, a boca, o nariz. Tracei a linha de seu queixo com meus dedos, aquilo que não havia perigo de esquecer.
Os braços iguais aos meus braços, os dedos iguais aos meus dedos, em volta de mim. As minhas lágrimas, ou as dele? Era eu que o afagava, ou ele que me consolava para sempre?
Ajoelhados, abraçados, aquele era o nosso fim. As mechas escarlates, da cor do sol poente, entre meus dedos. Ou seriam minhas mechas, nos dedos dele?
She can\'t see the way your eyes
Light up when you smile.
— Não precisamos da humanidade.
— Eu te amo.
Minhas palavras, ou as dele? O fim.
O nosso começo.
xxx
Os agradecimentos a você, que leu todas as palavras que surgiram na minha mente.
A você que persistiu e continuou a lê-las.
A você que não quis lê-las, mas o fez até o final.
Aos que me incentivaram a continuar.
Às manhãs que me deram inspiração.
Às pessoas que se transformaram em Hikaru e Kaoru, e em mim, através do texto.
A mim, por não desistir.
A Bisco Hatori, por ter proporcionado a todos seu trabalho incrível.
Às situações de sempre, que com a raiva me motivam.
À Taylor Swift, por Invisible.
A todos os integrantes de OneRepublic, e aos seus compositores, por Stop And Stare, All I Need, e All We Are.
À Regina Spektor, por Samsom.
Às músicas aleatórias que passaram pela minha cabeça, e ao silêncio.
Meu agradecimento é todo dirigido a você, leitor.
Arantxa Carolina, a autora.
Fale com o autor