Notas iniciais
Espero que gostem! Comentários são bem vindos!!!

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— Ei, tia!

Sinto como se eu estivesse em um navio. O balanço das ondas. Os sons pacificos das águas. É como se fosse possível ver a transparencia do oceano, e a levesa da maré.

— Tia, acorda!

— Danda, você disse que tinha que ir para a faculdade.

Sinto outra correnteza. Dessa vez não é calmo, na verdade é o oposto. As ondas se chocam, o barco se vira e eu estou tentando ficar equilibrada.

— Cassandra. Acorde.

Imediatamente abro os olhos e vejo Tom ao meu lado e Chan em cima de mim. A voz que eu escutei... Não foi de nenhum deles dois.

— Bom dia! Está atrasada! – Chander sai de cima de mim e Tom se senta na cama, perto do meu pé. – A quanto tempo queria fazer isso... – O fantasma sorri satisfeito. – Quantas aulas você faltou por não acordar de um sonho... Ai, ai...

Levanto devagar e tento ajeitar o cabelo. Olho em volta e vejo que o ceifador está sentado no canto do quarto, apoiando o rosto da mão. Foi a voz dele. Tenho certeza. Seus olhos estão fechados e ele parece estar descansando.

— Sobre ontem... O garoto estava me curando. – Tento soar confiante, mas acho que não engano ninguém. – Sendo sincera, isso é muito novo para mim e eu tenho medo. Mas pelo o que Pamela disse, ele é o único que pode me curar.

— Eu sei. – Said se levanta e me observa pegando a roupa. – Eu só não gosto disso. Se realmente não for nada demais, eu quero estar presente no cômodo. Poucos lugares têm proteção como aquela...

Olho para meu irmão e para Tom que estão apenas observando a conversa.

— Meninos, vão comer alguma coisa. Eu vou tomar banho, ok? – Os dois concordam e saem do quarto, me deixando sozinha com Said.

— Olha. Eu posso ter te conhecido um dia, e talvez você realmente tenha estado por perto todo esse tempo. – Cruzo os braços, assim como ele, e me apoio na porta. – No entanto, isso não significa que eu me lembro de você ou de Chander. Não faço idéia de como você é, ou do que éramos um para o outro. E você não pode querer que eu me lembre de tudo só por que eu... Consigo ver de novo.

— Eu sei disso tudo, Danda. – Said anda até mim e pega uma mecha do meu cabelo. – Isso também não significa que eu tenho que aceitar.

— Eu sei que não está acostumado a isso também. Você parece tão incomodado quanto eu. – Eu saio da frente da porta e a abro, indo em direção ao banheiro. – Mas eu só quero viver minha vida da forma mais normal possível. E a cada hora que passa, fica mais nítido o quanto esse desejo será difícil.

— Você nunca foi normal, Danda. – Ele coloca um dos pés para dentro do banheiro, mas eu o empurro para fora.

— E não tente me seguir para todos os lugares! Muito menos para o banheiro, Said!

Consigo ver perfeitamente seu cabelo azul escuro, nessa luz. Parece ser genético, e não pintado, então assim é bem mais incomum. O homem para de se mexer completamente quando termino de empurrá-lo.

— O que foi?

— É... Estranho. – Ele dá um passo para trás, segurando o batente da porta. – Ser chamado de Said por você... Eu não gosto.

— Mas é o seu nome. – O rosto dele parece triste com isso então eu fecho um pouco a porta, deixando apenas uma frecha aberta. – Me desculpe. Vou tentar te chamar apenas de Cê.

O ceifador concorda e eu fecho a porta. Por que, Billy? Por que me chamar para vir a sua casa, em primeiro lugar?

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— Sabe... Eu não te entendo, Danda. Por que vir a faculdade no seu dia de folga? – Chander se apoia nas caixas ao meu lado e se vira para a janela. – Olha o dia lá fora. O céu está tão azul e as plantas tão verdes, e você escolhe vir ajudar a arrumar o estoque?

Estou a duas horas dentro do almoxarifado, limpando e arrumando. Por quê? Eu preferi vir ocupar a minha mente com algo humano, para variar. Said está do lado de fora, sentado em baixo da escada, apenas observando. Meu irmão, mesmo sendo fantasma, consegue tocar em alguns objetos, as vezes, no entanto também não está ajudando em nada. Estamos no subsolo da faculdade, por isso não dá para ouvir nenhum som de lá de cima. Hoje é um dia bem vazio por aqui.

O homem que eu disse ser meu guardião ficou me seguindo até agora. Se eu não estou o vendo é por que ele está escondendo a presença, já que ele não vai me deixar em paz. No café da manhã, que eu decidi tomar em casa, Said comeu tudo sem reclamar ou argumentar. E sem tirar os olhos da escada, esperando ver Matthew. Na mesa estávamos apenas nós três e Tom. Quem teve que preparar algo para comermos foi o Tom e o meu irmão fantasma, pois nem eu, nem Said sabemos cozinhar.

— Por que você está tão tranquila, irmã? – Chander me segue até outra pratileira. – Depois do acidente você estava tão “eu odeio aquela família” e agora discute com Cê sobre o jeito dele lidar com as coisas.

— Como você...? – Termino de arrumar os objetos da última plateleira. – O que ele te contou?

— Nada. Eu estava dentro do quarto... Eu fiquei invisível, sabe? Um dos privilégios de ser assim. – Chander dá de ombros. – Eu sei sobre coisas que você não faz nem idéia, irmã. Por ter ficado cega por tantos anos, você perdeu o jeito que tinha. Você era mais alegre e sempre tratou os espíritos com respeito. Você detestava os seres sobrenaturais, em geral. Dizia que eles a assustavam. – Olho para o fantasma, que está sentado em cima de uma das plateleiras. – Menos Cê.

— Por que eu não teria medo dele? – Estranhamente eu não tenho, mas eu fico bem aterrorizada quando vejo Amon, por exemplo. — Said tem aqueles olhos brilhantes. E o tempo todo. Billy ficou tão chocado que não conseguiu desviar sua atenção.

— Sabe... Eu o conheci quase no mesmo instante que você. O qual você nem lembra. E os olhos dele eram castanhos. – Não consigo nem imaginar os dele sendo normais. — Não demorou muitos tempo, mas aqueles olhos foram transformados nesses. Quando conheci a avó de Cê, percebi que ela tem os mesmos olhos brilhantes.

— E o que significa. – Eu paro no meio da sala, e olho lentamente para a porta fechada. – É alguma coisa séria?

— Diria que é, sim. – Chander fica quieto por um momento e anda até mais perto de mim. – Tenho certeza de que ele sabe que eu descobri o motivo, mas nós nunca conversamos a respeito. Avó dele me contou o que aconteceu com ela, e provavelmente é o que deve ter acontecido com ele também.

O fantasma fica a alguns passos de distância, fazendo com que eu veja seus olhos com clareza.

— Eu estou curiosa quanto aos olhos de Said, mas algo me diz que você não vai me contar. – Ele ri e dá de ombros. – Mas você poderia me falar sobre os seus? Eles sempre foram tão...

— Sem vida? Não. Todos os fantasmas tem olhos assim. – Chander pensa um pouco e então vai até a porta, passando por mim. – Apenas os fantasmas têm esses olhos.

— Quando você diz apenas, você quer dizer que...

Ele olha por cima do ombro antes de atravessar a porta.

— Que se você já viu alguém com esse tipo de olhos, a pessoa está morta. – Meu irmão desaparece deixando-me sozinha do almoxarifado escuro.

Imagens de ontem passam pela minha mente. O menino que perdeu o cachorro e a garota da macieira. Isso significa que quando Prime não a viu, é por que não era para conseguir vê-la? E o menino estava tão triste por não ser notado, por que as pessoas passavam direto por ele. Sem saber de sua existência. Então, talvez, ele nem saiba que está morto. Mas e ela?

Abro a porta de ferro e saio do cômodo. Eles dois estão apenas parados, em pé, perto da escada.

— Já acabou? Podemos fazer outra coisa agora? – Said indica a escada com a cabeça e eu começo a subir.

— Sim. Eu só quero conferir uma coisinha. – Ando na frente deles, pelo caminho mais curto até a praça.

A cor do céu está começando a mudar do comum azul para um laranja forte. Termino de subir até o andar principal, e vejo que logo atrás de mim estão os dois, bem perto. Vou pelo corredor da direita e sigo em frente. Uma, duas, três pilastras se passam até chegar na passagem para o ar livre. A árvore está igual a ontem, nenhum diferença visível.

Olho para os galhos, mas não a vejo.

— O que está fazendo? – Chander chega ao meu lado, olhando em volta.

— Eu achei que uma menina que vi ontem aqui... Era que nem você. – Continuo a examinar a macieira, mas não tem ninguém ali.

— Está falando daquela garota ali. – Said aponta para o pico da árvore, onde aquela pessoa estranha está sentada olhando para o céu.

— Como eu não percebi? Ela estava no modo invisível ou algo assim?

— Danda, esse modo invisível que a gente te disse era só um meio de explicar. Nenhum de nós ficar realmente invisível. – Ele continua olhando para a garota lá em cima. – Nós só não somos percebidos. Sabe quando você está andando, e sem perceber esbarra em alguém? Não significa que essa pessoa surgiu naquele instante, ela apenas não tinha sido vista por você.

— Pois é, mana. Todos do Outro Lado são invisíveis aos olhos por aqui. A diferença da gente para pessoas esquecidas na sociedade é que somos bem menos perceptiveis. Se você for um humano sem a visão, que é o comum, você não vai nos notar. Nunca. – Chan senta em baixo do tronco da árvore. – Você é como uma hibrida. Mas não por genética, como os outros sobrenaturais. Você foi morta, e voltou a vida. Duas vezes. Digamos que você é um fantasma-vivo. Por isso consegue se comunicar com nosso mundo.

Escuto as folhas se movimentarem e percebo que a garota enforcada está na minha frente, me encarando de perto.

— É... Então, é diferente de como pensei. – A fantasma coloca a mão no queixo e começa a pensar. – Achei que você podia ser só uma Perdida. Ou então uma hibrida de verdade, que não sabe disso. Pois você pareceu bem preocupada comigo. Coitada.

— Está com pena de mim? Era você que estava pressa em uma corda! – Eu chego para frente e acabo esbarrando nela.

— Eu estava apenas me divertindo. Quando não tenho o que fazer, eu me relembro. – Ela desce para a terra e fica da minha altura. – Quero dizer, eu revivo minha morte. – E então dá de ombros.

— Como pode falar assim com tanta naturalidade? Quem é você?

— Hum, não me lembro qual meu nome. Mas me chamavam de Ca... Careta, eu acho. Não tenho certeza. – A fantasma dá de ombros.

— Por que ainda está aqui? – Não sei se minha pergunta é indelicada ou não, mas Chander nega com a cabeça e olha para baixo.

— Dizem que quando você morre, vai para o Outro Lado. Mas também pode acontecer de você apenas ver o seu corpo parado e frio, e não conseguir tal liberdade. Alguns de vocês se prendem em alguns bens, material ou sentimental, que não os deixam seguir o fluxo. – Said para de falar um pouco, como se tentasse organizar as palavras. – Careta, não é? – Ela concorda. – Você sabe que a cada dia que passa você fica mais acesivel a virar um Espirito Errante, não é?

— Acredite, Espertão, se eu soubesse como ir embora desse planeta, já teria ido. – Ela aponta para a árvore.

— Para sua felicidade, eu sou o tipo perfeito de entidade espiritual. Sou um Shinigami. – Said estufa o peito com orgulho. – E meu dever é balancear os dois lados. Purificando e conduzindo almas perdidas como a sua, até o Outro Lado.

— Então, você consegue cortar os meus vinculos com esse mundo. – É uma afirmação com tom de pergunta. Careta abre os braços e fecha os olhos. – Bem, ao trabalho.

Ele a olha por um momento e depois olha para Chander, que dá de ombros.

— Antes de morrer, você tinha alguma tarefa ou necessidade para realizar? Algo que estava em sua mente o tempo inteiro?

— Eu... Não me lembro muito bem de quando estava viva. Existem mais sensações do que imagens na minha memória. – Ela toca na árvore e fecha os olhos. – Eu me lembro disso aqui. E só.

Chego perto dela, para ver melhor a macieira. Exatamente onde ela está tocando há uma sigla: H.C. Isso não ajuda muito...

— Não tem mais nada que possa nos dizer? – Toco em seu ombro, fazendo com que a garota olhe para trás.

— Eu... Eu acho que estudei aqui. Mas faz pouco tempo que vejos os alunos, e nenhum me é familiar.

— Mas você está com roupa de colégio. Na faculdade não usamos uniforme. – Ela dá de ombros para o meu comentário.

— Ah! Mas aqui já foi um colégio. A cem anos atrás era um internato. – Chander chama minha atenção e aponta para uma estátua perto do jardim. – Há várias estruturas aproveitadas da arquitetura daquela época.

— Como sabe disso, Chan? – Said vai para perto da estátua indicada. – Aqui diz que eram de Irmãs.

— Lá naquela sala escura que Danda me enfiou tinha alguns livros com o título “Anuário de 1910” e assim por diante. Eu vi algumas fotos em preto e branco, mas em geral eram dos alunos. Não me lembro de ver essa árvore nessa praça.

— Isso por que ela foi replantada recentimente. – Digo percebendo que o local onde tem as respostas não é esse. – Talvez sua vinda a esse lugar tenha te despertado. E o fato de a corda continuar presa a árvore...

— Significa que você ainda está presa a esse mundo. Se conseguirmos achar seu corpo e enterrar a corda que você usou, você consiguirá finalmente seguir a diante. – Said termina meu pensamento.

— Mas e quanto ao fato de que não sabemos o seu nome nem de quando ela é? E a Careta não já devia ter seguido adiante? Ou ao menos se lembrar de estar em outro lugar? – Chander se pronuncia lembrando o fato de fazer um tempo que ela está morta. – Isso talvez signifique que o antigo lugar da árvore é o lugar onde ela precisa estar.

— Então, quer dizer que não precisamos descobrir quem eu sou. Apenas onde eu morri...

— Exato. E acho que podemos fuxicar por aqui, ou simplesmente ir perguntar a alguém. – O jeito mais simples parece a melhor opção para mim. — O que acham?

Os três destribuem olhares cheios de significados antes de confirmarem com a cabeça.

— Certo. O único problema é que eu nunca fui ligada nos acontecimentos daqui e também não ouvi nenhum boato de onde essa árvore estava.

— Então, voltamos ao início. – Chander se senta no chão e encosta a cabeça no murinho.

— Na verdade, eu acho que sei quem poderia ter as respostas. – O problema é que a pessoa não é muito fã de vir a faculdade.

Notas finais
Comentários são bem vindos!!