Invisível aos olhos
34 Capítulo 34
Notas iniciais
Eu corro de olhos fechados, sem saber muito bem para onde estou indo. Estou irritada. Admito que estou muito irritada. Não tenho muitos objetivos. Contanto que eu fique sozinha, agora, estarei bem. O vento perto da rodovia, onde eu paro, é muito forte. Estou fazendo sinal para cada taxí que passa. Todos cheios. Que raiva. O que esses garotos têm? Por que eles acham que é tudo tão fácil assim? Existe mesmo essa enorme diferença entre os humanos e os seres do Outro Lado.
Claro que havia passado em minha cabeça que as coisas com Dylan ontem foi ao menos... Interessante. Mas do jeito que ele falou foi como se eu realmente fosse especial. Como se aquilo que ele falava fosse algo surreal, mas extremamente demais. E então, ele escuta o que não quer, e faz aquilo. Que idiota! Todos eles são! Ele nem precisou beber, para mudar de atitude. Só precisou de uma empurradinha. Cade o Said para afastar qualquer um que chegue perto de mim, como Chander disse que ele fazia? O meu grande guardião, que tudo sabe sobre mim, não deveria estar por perto, para variar?
Escuto os passos se aproximarem, e me viro. Antes de ver, penso que é Dylan dizendo que não sugou a vida daquela garçonete. Que pensou a respeito, e que não faria mais essas coisas. Que mesmo o fato de eu não ter coração, não o importasse. Mesmo eu sendo grossa e ligeiramente fria, ele iria ao menos querer ser meu amigo. Em primeiro lugar, eu não queria ser amiga deles. E em segundo, é melhor mesmo eu ir embora logo. Podendo, ou não, levar o Tom comigo. Mas para isso preciso estar saudavel, de verdade.
— Você corre bem, para quem está morta.
É a Gaelle. Não é ninguém além dela.
— O que está fazendo aqui? Como me achou? – Continuo distante o suficente.
— Eu consegui te encontrar por causa daquela dor no seu coração. – Ela coloca a mão sobre o próprio. – Nós somos ligadas pela dor, pelo amor, por tudo o que você sentir.
O vestido dela voa, quando um caminhão passa por nós. Ela dá um passo em minha direção e eu dou outros dois para trás.
— Eu te odeio! Fique longe de mim.
Chego ainda mais para trás, por não suportar ficar perto dela. Gaelle diz ser minha amiga, diz que cuida de mim e que eu estou em suas prioridades, mas quando eu preciso, ela só olha de longe! Onde está a ajuda?
— É... Essa doeu mais do que eu esperava. – Gaelle coça a cabeça, e prende os cabelos que estão voando por causa do tempo. Eu nem quero pensar como está o meu...
— Por que não me ajudou quando eu precisei? Se você sentiu o meu coração? Se você é a minha familiar, devia querer o melhor para mim. Ou eram apenas palavras vazias?
Ela anda rápido, e segura a minha mão, antes que eu tropesse na minha saia. Olhando para mim firmemente, seus olhos azuis parecem mais ferrozes. Como se fosse eu a errada. Parecendo idignada com minha pergunta, Gaelle dá mais um passo à frente.
— O que foi?
— Eu estava prestando atenção no que ele disse, Cass. E o seu coração foi realmente marcado por Cê. Mas não te impede de fazer algo novo. Por que tem que seguir sempre o manual que tem na sua mente? Não faz mal se importar com outra pessoa, para variar. Por que Tom é diferente de Dylan?
— Por que Tom é amavel. Gentil. Dylan é um demônio! – Digo tentando me soltar. Mas Gae é mais forte do que eu. – Dylan estava só atuando, como ele mesmo disse.
— Você também estava. Foi tudo bem divertido, até aquele momento. Você sabia que ele estava apenas interpretando, Dylan também. Mesmo sendo só uma atuação, não deveriam interpretar até o final?
— O que está dizendo, Gae?
— Você tem tanto medo do que? Você já entrou nesse mundo, e sinto lhe informar, mas mesmo que Matthew de um jeito na sua morte prematura, você não vai conseguir se esquecer de tudo. De novo.
— Por que diz isso? Por que tenho que me lembrar de coisas assim? Já reparou que eu não quero? Eu estava feliz antes. Completamente satisfeita, e você sabe disso. Posso ter sido uma garota um pouco solitária, mas me acostumei a ficar sozinha. Não há mal algum com isso. E agora... – Levanto o braço que está solto, e aponto para a paisagem em volta. – Parece que estou em outro mundo. Dylan é só um farsante, assim como o Caleb. Não entendo o motivo de ter deixá-lo tocá-la daquela forma.
— Diz isso como se você fosse uma santa. Cass, você pode até ser uma boa garota. No entanto, já ficou com muitos caras que você nem se interessava. Só para “passar a adolescencia”. E também, só por que alguém não a ame do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não a ama com tudo o que pode. Pois, existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
— Amor? É essa a resposta? Era isso o que ele quis dizer sobre o que estava sentindo? – Pergunto, sentindo minhas pernas vascilarem. – Aquele garoto tem o que na cabeça? Dezenove anos de vadiagem? E nunca se apaixonou? Acha que realmente existe um amor assim? Rápido a ponto de se apaixonar em menos de uma semana?
— Falou a garota que não sabe mais o que é o amor! – Gae parece querer me dar bronca. – Por que não confia mais em seus sentimentos, Cass?
— Como confiar em um sentimento, se ele pode simplesmente sumir? – De novo. — Você tem a memória de quando eu amava Said, não é? Você me mostrou aquela memória de Dylan costurando... Pode fazer que nem antes, e me mostrar o que eu não sei!
Gaelle simplesmente nega com a cabeça e solta a minha mão. Como se esse contato fosse fazer minhas memórias voltarem.
— Eu não vou deixar você fugir do que você sente agora, por algo que você não lembra mais. Se foi lindo? Foi, sim. Inguênuo também. Eu consigo sentir... – Ela coloca a mão no peito, como se falar sobre isso, a fizesse amar pelos meus pensamentos antigos. – Você era apenas uma criancinha. Sinceramente, não sei o que passou na cabeça de Cê... De qualquer forma, não vou te dar o que você perdeu!
— Qual o problema? Se eu estivesse com Said, como ele disse, eu não seria mais frágil assim. Eu até poderia estar dependendo dele, para viver no Outro Lado com um bando de monstros, no entanto, eu já dependi dele a minha vida inteira, sem nem saber.
— Iria ficar tranquila, mesmo sabendo que o seu namorado passa por dificuldades sendo um Shinigami? Tudo estaria bem?– Sua pergunta me faz mal, e ela sabe disso. Gaelle quis isso. — E você consegueria aceitar os beijos de Matthew, namorando o Cê?
— Os beijos são para me salvar. Para me curar! – Olho para os carros, e nenhum táxi passa por aqui. Apareça ao menos um!— Said iria aceitar a situação, já que é a forma que o Matt tem de me curar. Os beijos são apenas isso.
— Todos? – Gae sorri para mim e cruza os braços, como se ela realmente soubesse de tudo. Ela se apoia no acostamento, e fica esquentando a mão, na bainha do vestido. – Todos os beijos que ele te deu, foram para te curar? Foi isso o que sentiu? É isso mesmo que você acha?
— Matthew tem namorada! Ele não me suporta! E vivemos brigando! Ele me odeia por que Billy cobra muito dele. Como se quisesse um filho como eu. Alguém que tanto criticou! Matthew já sentia rancor por mim, antes mesmo de me conhecer. E agora depois de eu ter virado um fardo para ele, não consegue nem se concentrar em seus próprios problemas.
Gaelle se apoia em um dos ferros da rodovia e senta-se ali. Aproveitando o vendo e a luz dos carros. Como se o tempo estivesse a nosso favor.
— Aham... E o que você sentiu, Cass?
— Eu? – Ela concorda com a cabeça. – Eu não tinha nada para sentir. Tentei ser legal. Com todos eles. Mas Matt apenas era frio comigo. Na verdade, Amon foi o mais distante dos cinco, no entanto, eu compreendi e estamos virando bons amigos. Já, Matt? É um bipolar. Um momento parecia feliz por me ajudar, e depois fala daquela forma. Eu sou decidida. É do meu jeito e pronto. Quando não consigo o que eu quero assim, eu surto. Matt apenas aguenta a situação e dá a volta por cima. Não tenho nada para sentir, somos muitos divergentes.
— Sim. Vocês são diferentes, mas até nas suas diferenças vocês combinam. É como se você fosse o Yin e ele o Yang. Você é a Lua e ele, o Sol. Não interessa qual a explicação, vocês são excênciais um para o outro. Você tem noção o quanto ele aguenta por sua causa? Não é fácil, Cass. Não é mesmo.
— Você fala como se soubesse de verdade. Mas não sabe, Gae.
Ela fica quieta e parece olhar para além de mim.
— Eu sei que um ser malígno está vindo em nossa direção. E está só a alguns quilometros de distância, — Ela aponta para o fim da rodovia, e isso me dá muito medo.
Lá no fim, eu vejo um ser voando. Há algum brilho nele e isso me assusta cada vez mais. Se o ser tiver mesmo me achado, significa que estou morta. Isso também significa que Gae está morta. E apesar da briga, eu a amo, como a pessoa mais próxima de mim.
— E agora? – Pergunto para Deus, mas quando olho para o lado, o que vejo é um dragão de mais de oito metros de comprimento. – Sério isso?
Tento subir, com muita dificuldade, em Gaelle. Dragões não têm escadas, nem celas. Ela é da cor prata e cinza, como o cabelo e o rabo que tinha na sua outra forma. É realmente magnifica. E gigante. Me seguro em sua pele escamosa e rezo para quem estiver me ouvindo. Antes de sairmos do chão, vejo algumas faixas de luz vindo em nossa direção, e uma acerta a pata dianteira de Gae. Ela urra de dor, e eu olho em volta. Nenhum carro para, nem parece notar. Ainda bem.
— Vamos rápido para casa. Matt vai te curar. – Assim que Gaelle sai do chão, minha barriga parece não ter gostado da janta. — Precisamos achar Said. E eu não faço idéia como!
A uma distância segura, Gae corta o ar com as garras, e passamos pelo mesmo túnel estranho e colorido, que eu passsei com Said. Viagem transdimencional, pelo visto. Não fazia idéia que Gae podia fazer uma coisa dessas. Quando vejo a luz do outro lado, sei que não estamos indo para a casa de Billy, procurar um jeito de Gaelle ficar bem. Estamos indo nos proteger no quarto irrastreável de Said.
Alguns segundos antes de sairmos do portal, Gaelle se transforma em humana. Mais ou menos humana. E eu caio por cima dela, no chão de Said.
—⟰-
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