Notas iniciais
Boa leitura

—⟰-

Eu me encontro em perigo. Estou de volta ao quarto de Tom, mas está vazio. Se Said não vai poder estar comigo e me proteger de Estratos, eu preciso arranjar um jeito de me manter salva.

Olho para o meu lado e não acredito no que vejo. É como um espelho. Não exatamente. Sua altura bate, suas maças do rosto, sua boca, seu sorriso, sua pequena covinha em um dos lados. O tamanho dos peitos, do quadril, da cintura, da bunda, da coxa, da panturilha. Todos os contornos estão iguais nesse espelho humano. Eu apenas sei que não sou eu, pelo seu cabelo ser cinza, seus olhos serem azuis, ela ter orelhas e rabo de lobo.

O que Said disse sobre o portal é verdade. Ele avançou e muito a transformação de Gaelle. Se não fosse pelos traços caninos, poderiam nos confundir. Ela muda seu peso de um pé para o outro, como eu costumo fazer quando fico nervosa. A garota está começando a ficar envergonhada, e isso acontece pelo jeito que a olho. Eu sei que ela é um dragão, apesar de nunca ter a visto transformada em um, e também sei que se não fosse pela minha alma, e eu ter sido a primeira coisa que ela viu, Gaelle não seria como eu. E não estaria no mesmo perigo que eu. Agora não posso simplesmente desistir e morrer, por que se eu fizesse isso, minha familiar sofreria junto.

— Não fique assim, Cass. – Ela coloca a mão no meu ombro e, ao mesmo tempo de que isso é reconfortante, é assustador. – Eu também te acho bonita.

Gaelle sorri, como se nada do que aconteceu de fato tenha ocorrido. Como se ela não tivesse escutado a conversa e, muito menos, participado. E um fato bem importante, a roupa emprestada do urso de pelucia não era mágica. Essa inconstante transformação fez com que um longuissimo vestido virasse um blusão e depois um vestido colado e por último rasgasse e sumisse. Ela está pelada. Eu estou. Não eu. Mas meu corpo. É estranho olhar para isso. Consigo ver a continuação da coluna virar o rabo e isso é tão irreal.

— Tom, eu...

A porta se abre e eu cubro o corpo de Gaelle com o meu, ficando entre o intruso e ela. Não assimilo a voz à pessoa, eu apenas faço o que qualquer garota faria. Grito. Gaelle também, mas acho que por reação ao meu.

— Saia, Amon! – Eu grito e tento tacar um travesseiro nele. Pegando-o no ar, Amon parece atônito. Sua confução faz com que feche a porta atrás de si e continue olhando em nossa direção. Eu tenho total noção que Gaelle está completamente nua. E isso significa que meu corpo está nú. – Amon!

Ele parece acordar e se vira para a porta, ficando de costas para nós duas. Pego a mochila no canto do quarto, saindo de perto de Gaelle e volto com um short de dormir e uma blusa de ficar em casa. Uma das poucas roupas limpas que eu tinha. Isso não vai servir para esconder os quisitos lobos, mas agora não importa. Não com Amon, ao menos. Ele deve estar acostumado com orelhas... E rabos...

— O que está fazendo aqui? – Pergunto, ainda estando na frente de Gaelle para ele não a notar. Mesmo sabendo o quanto isso é inútil. – Responde!

Ele vira a cabeça devagar, para ter certeza que não teria nenhuma pessoa nua às suas costas, e suspira colocando a mão na cabeça.

— Eu senti um cheiro... – Ele para de falar quando olha um pouco acima de mim. Para as orelhas dela. – Diferente. Como minha mãe proibiu animais, achei melhor avisá-lo para devolver seja lá o que estivesse nesse quarto. Mas por essa eu, com certeza, não esperava.

Sinto o corpo de Gaelle presionado contra o meu, e percebo que seu peito está sem sutiã. Interrompendo meus pensamentos escuto sua voz, um pouco, muito pouco, diferente da minha:

— Nós fomos ao quarto dele quando estávamos... Instáveis e pareciamos meio bebadas. Foi divertido. Nós perguntamos se éramos bonitas. E outras coisas. E quando tiramos as nossas blusas...

Olho para trás horrorizada e depois de volta para ele. Amon escutou tudo. Eu sei disso. Era disso que ele estava falando. Tusso e tento escondê-la com meu corpo. Porque eu faria algo como aquilo? Não faz sentido! Eu não faria isso. Pelo menos não com ele, e assim tão de repente...

— Agora que já sabe o motivo do cheiro... – O que devo fazer? Era para eu pedir ajuda, e do jeito que ele foi comigo noite passada, isso significa que ele está bravo. E se Amon não contar nada a ninguém, ainda estarei com dividas! Respiro fundo e olho para a cama. – Sente-se.

Ele parece cauteloso demais, indo para o lado e nos olhando. Sei que estou sendo avaliada e esse é um dos piores sentimentos para mim. Amon se senta e momentaneamente o vejo corar e voltar ao seu normal.

— Ele está pensando putaria. – Dessa vez Gaelle fala em voz alta, o fazendo engasgar. – Acho que deveríamos dar uma lição nele. – Olhando para mim, ela acrescenta: — Só não sei se devemos atacá-lo como você fez naquela noite... Aquilo foi um pouco exagerado. – Ela levanta as duas mãos, como se estivesse se rendendo. — Em minha opinião, ao menos.

Ai meu Deus do céu. Gaelle, não dê mais nenhum pio! Ela fica ao meu lado, totalmente visivel à Amon e segura a minha mão. Nesse momento percebo o tamanho do meu peito. Do dela, no caso. Ele não devia estar a encarando assim! Idiota... É o meu corpo!

— Meu nome é Gaelle, eu sei tudo o que ela sabe sobre você e um pouco mais. Percebo também os seus tiques e o volume da sua calça, que muda de repente. Tente se controlar ou eu faço que se controle.

Amon parece chocado e abre a boca devagar:

— Cass... Quem é essa? E o que está acontecendo aqui? – Seu olhar parece mais intrigado do que qualquer coisa. – O cheiro dela... É um pouco parecido com o seu... Na verdade, muiito parecido. E ela...

— Gaelle é minha familiar. Por infortunio, ela acabou virando uma mistura minha com um lobo. O dever dela é me proteger, mas como eu, Gae não é tão forte e precisamos de ajuda para sabermos lidar com... – Estratos. — Com as dificuldades da vida.

Imediatamente, percebo que ela entendeu o que eu quero e parece mais calma, apesar da sua voz ser firme.

— Você irá nos treinar em todos os tipos de luta que você conhece. – Dando um passo para frente, e me puxando junto, nossos joelhos encostam-se a ele e parece algo completamente estranho, repulsivo e erótico. – Certo, Amon?

O homem está começando a corar também. Não esperava que ele ficasse vermelho em algum momento, mas já que sua pele é branca, dá para ficar bem nítida a mudança na pele. Apesar de ser ela quem está fazendo essa baixarias, seu olhar não se concentra apenas nela. Sua mente transita entre nós duas e o sorriso de Gaelle parece aumentar. Não era assim com Said, porque ela esta agindo diferente?

— Acho que não tenho escolha. – Ele engolhe em seco. – Se ela é sua familiar, significa que é um ser místico. O que você é, Gaelle? – Sua voz sai desconfortável, como se o nome que eu inventei não fizesse sentido para ele. E não era para fazer. A idéia foi minha, afinal.

— Pode me chamar de Gae, acho que é mais fácil para você. – Ela diz de uma forma grossa, como se ele não fosse bom o bastante para chamá-la pelo nome. – Sou um dragão e não faça essa cara! Você vai nos ensinar a lutar como Cass quer, por isso, eu estarei nessa forma. – Ela aponta para si. – Não precisa se preocupar, não pediria a um simples... – Lobisomem. — Lobisomem, para me ensinar a cuspir fogo ou a voar. Em minha mente, contanto que Cass fique feliz, também fico.

Ainda estamos muito perto de Amon e ele parece nervoso. Tento mover meu braço, soltando-me de Gaelle, mas isso só a faz me empurar no lobisomem a minha frente. Me apoio com uma das mãos na cama, e isso trás a tona a nossa proximidade.

— Você é como qualquer outro familiar? Você pegou o pedaço mais escondido da alma dela? – Ele não parece conseguir dizer o que quer saber, mas concordamos com a cabeça simuntaneamente. – Então, tudo o que você é, é o que Cass é por dentro. Incluindo os pensamentos e as memórias daquela noite?

Olho para a outra Eu, e ela concorda com a cabeça levemente, como se não soubesse o que passa na cabeça do homem a sua frente.

— Eu também tenho um pouco da minha própria personalidade, e isso incliu exagerar nas caracteristicas contidas de Cass. O pedacinho da alma que veio para o meu corpo corresponde a setenta e cinco porcento de mim. Se a matemática dela ainda funcionar. Sendo que saiu apenas um pedaço minúsculo dela, então não afetará a saúde de Cass tanto assim.

Sua fala faz Amon se surpreender. Ele ainda não tinha pensado a respeito na minha saúde para haver a existencia dela. Gaelle levanta os braços para se espreguiçar e acaba levantando a blusa. Deixando espaço para eu sair de cima dele. Tento me acomodar em pé novamente e, ao mesmo tempo, puxo a blusa dela para baixo.

— São... – Olho no relógio em cima da escrivaninha. – Três horas da tarde. Eu não almocei, mas posso fazer isso depois da aula que você nos dará. Encontre-nos no jardim de trás da casa. Vamos trocar de roupa e te vemos lá.

O lobisomem continua sentado, e percebo que não lhe demos espaço. Quando a minha familiar disse que exagera as minhas caracteristicas contidas ela quis dizer agir desse jeito sexual? Mas eu não sou assim! Hum... Acho que esse é o problema. Escuto a porta se fechar e caminho até minha mala onde tem minhas roupas de academia. Acho que isso serve. Dou uma muda de roupa à Gaelle, e incluo calcinha e sutiã. Ela apenas sorri e dá de ombros, como se não ligasse em não usar roupa.

A falta de atitude de Amon mostra que sua mente estava em outro espaço enquanto o corpo dele estava aqui. Principalmente, pelo fato de aceitar facilmente o que dissemos.

— Ei... Sobre o que você falou... É por isso que você se agarrou a Said e foi tão... Erótica com Amon? – Gaelle concorda sorridente enquanto passa a blusa pela cabeça. – Mas e se eu... Começar a agir, sentir e pensar nas coisas que eu escondia no inconciente. Isso prejudicará sua existência?

— Claro que não, bobinha! Eu estou ligada constantemente a você. A energia que passa pelas suas veias vêm direto para as minhas. Se você mudar, eu também mudo. Harmonicamente. Então, se por acaso você aceitar o amor de Said ou a sua atrassão sexual por Amon, eu não precisarei agir assim.

Sento para colocar o tênis no mesmo instante que escuto sobre o que ela disse do lobisomem, me fazendo tossir e encará-la. Gaelle parece sempre animada e disposta. Está me esperando, já pronta. Dou um prendedor de cabelo e ela faz um rabo de cavalo baixo. Eu costumo fazer um alto, mas acho que ela não me copia por conta das suas orelhas. Eu ainda não tive oportunidade de ver como é o lugar onde deveria estar a orelha dela... Agora sinto certa curiosidade...

— Não me diga que eu sinto isso tudo por eles... – Nego com a cabeça, como se o simples pensamento pudesse alterar meus modos.

— É... Imagino que você não entenda isso, ou talvez esconda de si mesma absolutamente tudo que se passa ai dentro. – Ela aponta um dedo para a minha testa. – Não tem com que se preocupar, se você me mandar, eu posso conter os atos e agir exatamente como você. Assim talvez você perceba indiretamente suas mancadas. – E então eu escuto baixo, mas mal vejo sua boca se mexendo: — E sem contar que há fatos na sua vida que é melhor ficarem esquecidos...

Han?

— Eu não sei se quero, ou não, saber o que eu sinto por essa família. – Coloco a mão na testa. – Ou por Said. Gae, seja mais você. Mesmo tendo pouco da sua alma ai, tente ser você mesma, Ok? Eu percebo os meus problemas ao longo de nossa convivência, e decido se quero ou não resolvê-los.

Ela concorda com a cabeça e sorri, puxando a blusa ainda mais para baixo, para aparecer mais o top que está usando. Acho que o estilo dela é mais... Ousado que o meu, naturalmente. Sem ter nada a ver com a minha própria alma.

Notas finais
Espero que tenham gostado!!!! Comentários são bem vindos!!!