Inverse
2 Memória
Autora: Ashling
Casais: 1x2, 3x4 entre outros....
Capitulo – 2 – Memória.
Heero POV
Relena praticamente grudou em meu braço, olhei para Joe que fez uma careta.
– Tenho que ir – ela murmurou e foi para os fundos da farmácia.
Relena revirou os olhos e sentou na cadeira em que Joe estava, cruzou as pernas e segurou minhas mãos.
– Oh, Heero!Estou procurando por você há tanto tempo!Parece até que anda fugindo de mim! – reclamou.
– Eu? – me fiz de desentendido, ela mal sabia que estava correta – Que isso Relena!É que eu não paro mais em casa sabe, ando trabalhando demais!
– Puxa, coitadinho do meu ursinho – ela apertou minha bochecha e meu estômago embrulhou.
– Mas o que você faz aqui?Pensei que não gostasse dessa farmácia. – a verdade é que ela não suportava Joe, eu sabia que no fundo ela tinha ciúmes, pois sempre quando vinha aqui com ela eu prestava mais atenção a Joe do que a ela.
Ela franziu o cenho.
– Sabe muito bem que não é a farmácia, e sim os donos dela!Não suporto aquela garotinha mimada! – disse olhando na direção em que Joe havia ido.
– É apenas uma criança.
– E daí?Ela me odeia, o sentimento é recíproco. Não vou ser obrigada a gostar dela por sua causa! – ela elevou a voz.
– Hum, Ok então, mas você ainda não me respondeu o que faz por aqui.
Ela se ajeitou no banco.
– Estava indo a manicure quando o vi aqui, não é maravilhoso!Mas agora, que tal sairmos um dia?Sinto sua falta. – ela fez manha.
– Hum, a verdade é que aconteceram algumas coisas hoje e eu....
– O que aconteceu? – ela me cortou curiosa.
Suspirei, o que eu mais queria era que Relena se afastasse de mim. Eu podia muito bem chegar nela e dizer que não sentia mais nada por ela, que na verdade a única coisa que sentia por ela era desprezo, tive tantas chances para fazê-lo, mas como sempre fui covarde.
Quando nos conhecemos foi tudo maravilhoso, saiamos quatro vezes por semana, conheci os pais dela, ela conheceu os meus, íamos ao cinema, jantar fora, motel, mas com o tempo tudo ficou meio monótono, fora o excessivo ciúme dela que me deixava louco e isso acabou de vez com a paixão, mas por incrível que pareça ela continuou me seguindo, em casa, no trabalho, nos bares que freqüentava. E em vez de eu tomar uma atitude, apenas fugi, com medo de sua reação.
Olhei seus olhos azuis que me encaravam a espera de uma explicação.
– Eu encontrei um garoto ferido em um beco.
– Nossa que horror, mas e por causa disso você não quer sair comigo? – ela arqueou uma sobrancelha e pude notar que ela não se importou nem um pouco com o garoto, ela continuava a mesma, sempre se preocupando com o próprio umbigo.
– Eu vou visitá-lo no hospital amanhã.
Ela riu.
– Por quê?
Franzi o cenho e fechei minhas mãos em minhas calças úmidas, controlando o impulso de dar-lhe um tabefe na cara.
– Por que, estou preocupado com ele!E também quero saber o que houve com ele e se posso ajudar em algo! – disse entre — dentes.
Ela se alarmou ao ver que havia me irritado e disse de forma suave, tentando me acalmar.
– Ora, querido, você já fez tudo o que podia, levou-o ao hospital e o deixou em boas mãos, agora deixe por conta da policia e continue sua vida. Agora, que tal sairmos sábado?
Nesse momento o meu corpo tremeu e meus olhos se estreitaram, abri a boca e uma enxurrada de palavras que a muito estavam presas saíram:
– Escute aqui Relena, você é a pessoa mais mesquinha e ordinária que já tive o azar de conhecer, os anos passaram e você continua achando que é o centro do universo!Pois tenho uma noticia! Você é apenas uma garota mimada e nojenta que só se preocupa com a própria fuça!Eu tenho pena de você! – olhei para Relena e vi que estava em choque, voltei os olhos para os fundos da loja e vi Joe que batia palma e sorria de orelha a orelha, me levantei – A propósito, sábado eu vou ir ao cinema com a Joe!Tchau Joe, até sábado! – abanei para ela.
– Tchau Heero! – ela gritou eufórica.
– Foi bom reencontrá-la, querida – disse a ultima palavra com sarcasmo e sai da farmácia.
– Heero espera..... – ouvi Relena me chamar, mas a ignorei e segui o caminho para casa.
Eu sentia que tinha tirado um peso de minhas costas, rezava para que Relena não continuasse me seguindo, mas com certeza depois de tudo que ouviu não iria mais querer ver minha cara.
Não sei por que, mas quando vi que ela não se importava nem um pouco com o garoto, senti uma raiva incontrolável, mas acho que em uma coisa ela tinha razão.
Para que ir ao hospital?Eu nem o conhecia e sabia que estava em boas mãos, eu devia deixar tudo com a policia agora. Eles iriam descobrir o que acontecera ao garoto e cuidariam dele.
O rosto dele me veio à mente, os olhos semi-cerrados, os cabelos mais compridos que já tinha visto – e também os mais lindos – caiam-lhe pela face magra, os pequeninos lábios secos, a voz rouca.
Olhei para o céu coberto pelas nuvens cinzas, as finas gotas de chuva atingiam meu rosto, acho que eu sabia a reposta, a única coisa que eu queria era poder ver o rosto dele novamente e também que estava verdadeiramente preocupado com ele – e quem não ficaria numa situação dessas – e queria saber o que havia lhe ocorrido.
Chegando a casa, fui até meu quarto, atirei meu relógio na escrivaninha, tirei os sapatos pretos e me joguei na cama, molhando os lençóis azuis.
Deveria tomar um bom banho agora, ou poderia ficar gripado, mas a cama estava tão boa e macia, uma grande preguiça apoderou-se de mim.
– Mais tarde – sussurrei esticando-me na cama de casal.
Olhei o relógio na escrivaninha, já era três e quarenta, duvido que Wufei ou Treize não tenham ligado querendo saber o que aconteceu comigo. Olhei o telefone preto do lado do relógio e a luz vermelha piscava.
Suspirei, levantando com algum esforço da cama e sentando na cadeira giratória da escrivaninha, apertei o botão do telefone.
– Você tem três novos recados.
Biiiiiiiiiiiiiiip.
– Heero!Cadê você cara? – reconheci a voz de Wufei – O Treize ta possesso, fazendo juras de morte em!Tenho que desligar, ele ta vindo!
Biiiiiiiiiiiiiiip.
– Heero, eu to com medo por você cara!Nunca vi o Treize assim!Me liga, eu to preocupado aqui cara!O que aconteceu?
Biiiiiiiiiiiiiiip.
– Você ta ai, Heero?!Eu.... – ouvi um baque e logo depois a voz de Treize e Wufei discutindo — Yui!Você está ai?! – agora quem falava era o Treize – É melhor atender logo esse telefone! – ele gritou ameaçador – silêncio – Yui, quando vier pro trabalho quero uma ótima explicação do que aconteceu, por que se eu não achá-la convincente, você estará encrencado!
Encostei a cabeça na escrivaninha, mais essa agora, eu tinha certeza que Treize não me deixaria explicar, já iria jogar os cachorros em cima de mim, a coisa com certeza iria piorar, já que faltaria amanhã o trabalho também.
Suspirei exausto e levantei-me da cadeira, atravessei o corredor e entrei no banheiro.
Liguei a torneira e esperei ali em pé a banheira encher.
Quando de repente o telefone começou a tocar, olhei para a banheira que ainda faltava muito pra encher e voltei ao quarto, deixei tocar até cair na caixa postal.
– Heero?Você ta ai? – Relena!Fiquei chocado, depois de tudo que eu falei a ela, ainda me ligava?E com certeza não foi pra me xingar, a voz dela estava melosa demais – Atende, por favor! Precisamos conversar! – ela esperou eu atender, mas que esperasse sentada! – Acho.... Que você não está, escuta, quando chegar em casa, pode me ligar?Eu andei pensando no que você me disse e eu posso mudar!Só que eu sinto sua falta, amor!OK? To esperando sua ligação, beijinhos!
Revirei os olhos, não podia acreditar que ela iria continuar me seguindo!Voltei ao banheiro, praguejando, vi que a banheira estava quase transbordando e desliguei a torneira correndo.
Retirei a roupa e a joguei no cesto ao lado da porta, quando entrei, um pouco da água quente saiu da banheira, encharcando o tapetinho azul no chão.
Meu corpo tenso foi relaxando aos poucos, mergulhei minha cabeça na água e depois voltei a superfície, não sei ao certo quando tempo fiquei ali dentro, mas quando sai dali meus dedos estavam enrugados, pareciam passas.
Enrolei-me na toalha branca e fui até meu quarto, olhei o relógio, já era cinco horas, fui até o armário e peguei meu pijama, um conjunto, camisa azul escura de manga comprida e uma calça da mesma cor, coloquei meias e logo depois peguei lençóis novos.
Retirei os molhados e coloquei os novos na cama e antes de me deitar peguei um livro que estava na estante ao lado da escrivaninha.
Aconchegado na cama apoiei o livro em meu colo e mergulhei na historia, era um romance, horas depois já cansado de ler, fechei o livro e olhei o relógio, sete e quarenta, bom, não havia mais nada a se fazer a não ser dormir, com certeza o dia seria estressante amanhã e eu precisava de bastante energia para agüentar tudo que viesse.
Desliguei a luz e voltei para a cama, virei de lado e em poucos minutos adormeci.
-
Quando sai de casa já era duas e meia, havia acordado às nove horas e de uma em uma hora eu pegava as chaves para ir ao hospital, mas me continha, lembrando que Quatre havia me dito para ir apenas à tarde e esperei com apreensão até as duas e meia.
Eu meio que corri pelas ruas movimentadas e cheguei ao hospital em vinte minutos.
Dirigi-me até o balcão e sorri para Vanessa.
– Olá – cumprimentei simpático.
– Ah! Oi... Heero, certo? – ela sorriu.
– Eu mesmo, vim aqui falar com o Quatre.
– Ah, claro!Ele disse que você viria, espere só um instantinho, deve estar na sala dele.
Ela pegou o telefone e discou, em um segundo ela já estava falando.
– Olá Quatre – ela disse melosa.
Ele disse algo que a fez sorrir que nem uma abobada.
– Só liguei mesmo para lhe informar que Heero já chegou.
Ela esperou.
– Certo, até – desligou o telefone.
– Ele já está vindo.
Agradeci e me encostei no balcão, olhando o extenso corredor e esperando pelo pequeno loiro.
E não tive que esperar muito, em três segundos ele já estava à vista e sorrindo para mim.
– Olá, Heero, que bom que veio! – disse parando ao meu lado.
– Oi, e o garoto? – fui direto a questão, ansioso para saber de suas condições.
Ele sorriu e concordou, abanou para Vanessa e foi caminhando pelo corredor, eu o segui mantendo uma distancia exagerada.
– Não se preocupe, não tenho nenhuma doença contagiosa nem nada, Heero – ele disse me olhando com o rabo do olho.
Corei enquanto me permitia chegar mais próximo a ele.
– Quanto ao garoto, ele já está bem, já saiu da UTI e está acordado.
Sorri aliviado ao receber a noticia.
– Mas... – olhei preocupado para Quatre – ele não se lembra de nada.
Parei de caminhar, meu queixo caiu e o olhei em choque, o que ele estava dizendo?!Que o garoto havia perdido a memória?!Mas como?!
– Como....
– Havia um profundo ferimento em sua cabeça, deve ter sido uma pancada bem forte, que acabou fazendo-o perder a memória. – ele explicou.
– Mas.. Ele não se lembra de nada?!
– Ele não lembra nem do próprio nome, Heero.
De repente uma pergunta me veio na cabeça, e se ele acabou esquecendo de ontem?De mim?Não sei por que, mas fiquei angustiado com esses pensamentos.
– Ele.... Lembra de ontem?
– Sim, ele lembra de ontem e também de você. Quando acordou perguntou por você.
Sorri exultante e continuei a caminhar, Quatre arqueou uma sobrancelha e me acompanhou, passamos por várias portas até que Quatre parou de caminhar e disse apontando para uma porta branca que estava fechada.
Parei em frente à porta e bati de leve.
– Entre! – uma voz mandou e a reconheci de cara, era a voz do garoto, só que agora ela não estava mais baixa e rouca, estava normal, estremeci, a voz dele era tão bonita.
Entreabri a porta e coloquei a cabeça para dentro, a primeira coisa que enxerguei foi uma cama branca e nela estava o garoto, ele estava sentado e bebia um suco que parecia ser de uva, arregalei os olhos quando ele me olhou e sorriu, os olhos eram violetas!Nunca havia visto uma pessoa antes com olhos violetas, será que eram lentes de contato?Não, pouco provável. Fiquei embasbacado – tanto pelo sorriso quanto pelos olhos – e abri totalmente a porta, entrando no quarto. Notei que seus cabelos estavam presos em uma trança e que sua cabeça estava enfaixada, na verdade, seus braços também estavam enfaixados e até seu tórax – ele estava sem camisa – suas pernas estavam tapadas pelos lençóis impecavelmente brancos.
– Olá – ele me cumprimentou, ainda sorrindo.
– Ah! Oi. – disse enquanto o via colocar o copo na mesinha ao lado da cama.
– Oi Quatre! – ele cumprimentou ao ver o loirinho.
– Olá, como se sente?- perguntou se aproximando.
– Bem, obrigado por perguntar.
– Isso é bom. Este é Heero Yui, foi ele quem lhe trouxe aqui. – disse apontando para mim – eu ainda olhava com a boca aberta para o garoto.
– Muito prazer, Heero. E muito obrigado por tudo, nem sei como lhe agradecer!
– Ah! Que isso!Não foi nada! – disse finalmente me aproximando do garoto.
– Como nada?!Você salvou minha vida!Vou ficar lhe devendo por toda minha vida! – disse alegre.
– Bem, preciso cuidar de uns pacientes, com licença. – Quatre foi até a porta, mas antes de sair, virou-se para mim e disse:
– Depois vá a minha sala, Heero.
– Certo.
Ele saiu.
– Vamos!Sente-se! – ele disse chegando para o lado e apontando para a beirada da cama.
Sentei-me encabulado ao ficar tão próximo de tamanha beldade. Eu realmente não sabia o que falar.
– Você é japonês, não é? – ele puxou assunto.
– Sim.
– Trabalha em quê?
– Sou repórter.
– Nossa!Que legal!Há quanto tempo é repórter?
– Há seis anos.
– Quantos anos você tem?
– Trinta e dois. – me senti desconfortável falando minha idade, eu me sentia um velho.
– Nossa só isso.. E o pior é que você nem aparenta ter trinta e dois, eu te daria uns vinte e três.
Sorri, ele era a primeira pessoa que não me chamava de tio e ainda por cima me elogiava, eu estava gostando mesmo daquele garoto!
– Você não é de falar muito, não é?
– Hum.
Ele arqueou as sobrancelhas e me encarou por dois segundos, gargalhando logo em seguida. Não sei se sua risada era contagiosa ou não, só sei que pouco depois nós dois estávamos rindo juntos. No inicio me senti muito nervoso perto de alguém tão belo como ele, fiquei com medo que ele me achasse um idiota, mas ao ver que ele era simpático e extrovertido, acalmei-me na mesma hora.
Parei de rir no instante que notei que sua risada havia se transformado em uma forte tosse, ele pôs a mão no tórax – na parte enfaixada – e dobrou-se fazendo uma careta de dor.
– Quer que eu chame o Quatre? – perguntei aflito.
– Não, não precisa, estou bem, foi só uma tosse, e além disso se você o chamar, com certeza vai mandá-lo embora para eu descansar. – ele revirou os olhos em meio a uma careta de dor.
– Mas, eu acho que seria bom você descansar um.....
Levantei-me da cama, mas uma mão agarrou meu punho e me puxou, fazendo-me cair sentado na cama, olhei para o garoto com o cenho franzido.
– Mas.... Eu não quero que vá embora! – ele reclamou.
Eu também não queria ir, daria tudo para poder conversar mais com ele, ouvir sua risada cristalina e contagiante novamente, ver seu sorriso sincero e sua voz aveludada.
Sorri concordando e ele suspirou de alivio.
Senti sua mão quente apertar a minha firmemente e ele sorriu agradecido.
Eu agora me perguntava o que iria acontecer a ele, eram tantas perguntas!
Será que sua memória voltaria?Será que a policia iria descobrir o paradeiro de sua família?Onde será que ele ficaria até sua família ser encontrada?E a pergunta mais importante: Quem poderia ter feito algo tão horrível a uma criatura tão amável e bela?!
Continua.....
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Beijos a todos.
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