Inverno Da Alma
5 Epílogo: A decisão final
Notas iniciais
Na manhã do dia seguinte, eu havia acordado mais cedo que os outros e havia ido para uma mureta próxima ao porto da cidade, onde eu podia contemplar o mar naquele doce início de dia.
Confessadamente, finalmente podia afirmar que me sentia incrivelmente bem, como há muito não me acontecia. Diria até que pensava seriamente em seguir minha vida ao lado do Doutor, porém, logo Zangyack me vinha ao pensamento. Lembrava que, embora eu estivesse completamente diferente do que era antes, ainda era o herdeiro do trono e precisava fazer algo a respeito, pois o planeta corria sério risco de ser invadido pelos antes subjugados planetas que antigamente eram nossas colônias de exploração. Como isso aconteceria? A resposta era simples: a Federação Galática tinha recursos suficientes para fazer isso e provavelmente eles planejavam retaliação, considerando as burradas que o império havia feito: se aliar aos descendentes de Makuu e deixar o melhor policial do espaço preso em uma masmorra.
As consequências disso, após a queda definitiva de Zangyack, foram as mais desastrosas possíveis: todo e qualquer recurso que a Federação havia colocado no planeta havia sido retirado e as dívidas haviam se acumulado, até onde eu ficara sabendo, o que era muito pouco. Na verdade, eu não sabia quase nada sobre o que verdadeiramente ocorria, pois eu estava com o Doutor desde que meu pai fora morto pelos Gokaigers.
Pensava no que faria sobre tudo aquilo, quando senti uma arma nas minhas costas: — É melhor você se render pacificamente, príncipe Gil. Eu não quero matá-lo, mas se houver resistência, não me culpe por atirar.
– Suponho que seja... o policial do espaço Gyaban – falei sentindo a cor do meu rosto desaparecer.
– Sim e imagino que você não tenha a mínima ideia sobre como soubemos sobre sua verdadeira origem – disse ele afastando a arma poucos milímetros.
– Eu suponho que vocês reviraram o castelo do meu pai em busca de informações e as encontraram entre as coisas pessoais de Insarn e Damaras – considerando que eles eram os únicos que sabiam sobre mim, podia supor que eles guardavam provas de minha identidade e de que, apesar disso, eu era herdeiro do império.
– Juro que nunca pensei que você fosse um gallifreiano. Até onde sei, a raça foi toda exterminada na lendária Guerra do Tempo – disse ele tirando a arma das minhas costas ao perceber que eu não reagia.
De repente, escutei uma voz: — Se tiver que prendê-lo, terá que me levar junto!
– Doutor, você não pode fazer isso! Você não tem nada a ver com essa história! Eu... errei e... devo pagar – falei quase chorando enquanto Amy e Rory tentavam contê-lo, sem sucesso.
– Eu não vou te deixar nunca. Prometi a mim mesmo que cuidaria de você enquanto eu vivesse! – disse ele enquanto o policial espacial o olhou: — Então você e ele são os únicos remanescentes de Gallifrey. Deveria ter imaginando que conhecia aquela caixa azul e quem está dentro dela.
– Não me lembro de ter visto o senhor alguma vez – disse o Doutor calmamente.
– Também nunca o vi, Doutor, mas ouvi falar muito do senhor e suas façanhas. Você, sozinho, conseguiu destruir um imenso planeta e fez outras coisas dignas de nota mesmo sem ter uma tropa ou armas avançadas – disse Gyaban com um sorriso curto para depois continuar: — Não pense que só porque fez muito pela Terra e outros planetas, pode exigir que eu liberte o príncipe Warz Gil. Recebi ordens para prender qualquer remanescente de Zangyack e não posso deixar de cumprir.
– Mesmo sabendo que o fará sofrer por ter que se lembrar de tudo o que passou? – perguntou o Doutor tentando conter a fúria que já lhe tomava enquanto os piratas do espaço se aproximavam.
– O que você faz aqui? – Marvelous não podia acreditar que o policial do espaço Gyaban estava em Cardiff.
– Vim levar o Warz Gil em custódia. Eu podia ter pedido a subordinados que fizessem isso, mas vim pessoalmente porque achei que devia isso ao planeta da minha mãe – disse ele tristemente.
– Não se preocupem comigo, eu ficarei bem – disse enquanto oferecia meus pulsos para serem algemados.
Gyaban, o policial do espaço, estava pronto para me algemar, quando o comunicador dele começou a tocar e ele atendeu: — Kom? ... Tem certeza disso? ... Está bem, eu entendo.
– Rapaz, considere-se com sorte. O Kom disse que não preciso prender você, mas ele quer sua presença diante dele – disse o policial me olhando muito sério.
Assenti fazendo uma leve curvatura enquanto o policial do espaço guardava seus instrumentos de trabalho no cinto da armadura, que logo saíra de seu corpo quando ele desfez sua transformação.
– Você não imagina o quanto agradeço por Kom ser tão piedoso – disse o Doutor vindo me abraçar emocionadamente.
– Kom me disse que Warz Gil não representa perigo a esse planeta, porém, ainda é necessária uma conversa para deixar tudo em pratos limpos, pois já tivemos problemas suficientes por mais de anos – disse ele me observando com cautela.
Embora eu estivesse aliviado por não ter sido preso, sabia que era chegada a hora de tomar uma decisão e confesso que estava com muito medo do que viria a seguir, pois eu duvidava que a Federação Galática permitisse que eu assumisse o trono que por direito era meu. Apesar de que eu pensava seriamente em deixar o trono de Zangyack para continuar com o Doutor.
Quando o dia estava finalmente bem claro e pude visualizar melhor o homem que se encontrava à minha frente, vi que ele era um pouco menor que eu em tamanho. Na verdade, a altura dele batia próximo à minha orelha e seu cabelo já demonstrava sinais de que há um bom tempo passara das cinco décadas de vida, porém, seus olhos escuros me botavam um medo inimaginável, ao que eu podia compará-los a um buraco negro tentando me sugar.
Embora ele não demonstrasse, seu nojo por Zangyack estava muito evidente em seus olhos ao passo que eu só me conformava e calava, já que agora eu, sozinho, sofria as consequências dos atos inconsequentes do imperador agora morto que um dia chamei de pai.
– Você prefere vir comigo agora ou esperará um pouco? – perguntou ele.
Disse que quanto mais rápido resolvêssemos isso, melhor, pois eu já não suportava ficar preso àquele passado recente que insistia em me perturbar e impedir que eu vivesse uma nova vida ao lado dos amigos que fizera, embora eu não tivesse a certeza de que os piratas algum dia me veriam como tal.
Gyaban logo fez menção de me levar à nave dele, mas o Doutor fez questão que viajássemos na TARDIS, que inesperadamente recuperara sua energia, pois seria bem mais rápido, segundo ele.
– Se não quiserem, não precisam vir conosco, garotos. Esse assunto é muito delicado – disse o Doutor aos Gokaigers.
Marvelous sorriu dizendo que ele e seus amigos faziam questão de vir, pois já que eles haviam conseguido derrotar o imperador Ackudos Gil, queriam ver o final definitivo do império, se fosse isso que tivesse que acontecer.
Minutos depois, o Doutor ajustava a interminável série de controles da TARDIS e a direcionava para o Planeta Bird, onde ficava a sede da Federação Galática e onde, talvez, eu colocaria uma pedra sobre a minha vida anterior. Entretanto, não sabia se deveria abandonar o lugar em que eu fora criado, pois não achava justo deixar aquele povo sozinho em suas incertezas para o futuro ao mesmo tempo em que achava melhor deixar o planeta nas mãos daqueles que realmente pertenciam lá. O problema é que eu podia não ter escolha e isso não me deixava menos nervoso.
E claro, eu concluía que Marvelous tinha razão em relação à nave do Doutor: ela havia parado de propósito para me ajudar. Agradecia profundamente por aquele ser aparentemente mecânico gostar tanto de mim.
Após minutos que pareciam nunca acabar, finalmente nós e a TARDIS chegávamos a Bird, mais precisamente na sede da Federação, coisa que deixou Gyaban bem espantado, considerando a precisão e o tempo...
– Como...?
O Doutor sorriu daquele jeito que era só dele: — Tempo e Dimensões Relativas no Espaço não te diz alguma coisa?
O policial engoliu a seco como se tentasse conter seu espanto enquanto entrávamos no local onde um homem que já devia estar na casa das sete décadas nos esperava...
– Príncipe Warz Gil, eu presumo.
– Sim, mas provavelmente não usarei mais esse título, então me chame apenas pelo nome – disse fazendo uma leve reverência ao idoso.
– Devíamos estar em minha sala, mas, como minha decisão já está tomada, acho que ficar enrolando não seria educado – suspirou quem eu supunha ser o presidente Kom.
Ele logo disse, sem permitir que falássemos algo: — Agora que Zangyack perdeu sua influência e colônias por todo o Universo e todos os seus remanescentes, exceto você, foram presos, penso que posso lhe dar uma chance de se redimir por colaborar, por omissão, com os desmandos de seu pai. Então, lhe darei um prazo de dois meses para formar uma assembleia constituinte que definirá a nova forma de governo do seu planeta, pois Zangyack não mais poderá ser um império ou monarquia mediante os atos criminosos cometidos por seu pai e toda e qualquer arma de guerra deverá ser desativada pelo período de cinco anos. Se alguma dessas normas for descumprida ou não for feita, você será preso por insubordinação.
Apesar de concordar com as condições impostas, dois meses era um prazo excessivamente curto para fazer algo desse tamanho. Isso considerando que os grupos que se opunham ao meu pai estavam espalhados pelo planeta Zangyack e eu não tinha sequer uma ideia de como negociar com eles, pois o que tinha de idade tinha menos ainda em experiência com política em razão de meu pai só ter me enviado para dominar a Terra, experiência que se revelou o maior fracasso.
– Alguma objeção, meu jovem? – perguntou Kom, que reparou que eu parecia uma pedra de tão imóvel que ficara.
– Desculpe-me, mas, dois meses não parece um prazo pequeno demais? – perguntei muito nervoso.
– É só isso? – questionou ele no que assenti e o velho disse friamente: — Está certo, irei falar com o júri da Federação e estipularei um prazo maior para que faça o que tem de ser feito. Enquanto isso, viva sua vida. Quando o novo prazo for colocado, eu mandarei chamá-lo. Agora, suma da minha frente.
Ele virou-se e vagarosamente regressou em direção à porta que deveria ser da sala dele ao mesmo tempo em que eu pensava em por onde eu iria começar a negociar com os opositores de Ackudos Gil, já que eles eram as únicas pessoas que podiam governar o planeta agora que os remanescentes e partidários de meu pai haviam sido detidos pela justiça espacial.
O Doutor logo viu minha apreensão ao mesmo tempo em que trincava as mãos de ódio pelo modo como aquele homem se dirigira a mim. Em seguida, ele veio até mim e desabei em lágrimas, abraçado a ele, dizendo que eu merecia aquilo por ter sido omisso quando deveria ter feito algo concreto ao ter a oportunidade.
– Você não merece tanta pressão, meu garoto. Não pode pagar pelos atos do seu pai! Isso é injusto! – ele berrou a última frase na direção da grande porta.
– Olha, Doutor, não podemos interferir nas leis dos outros planetas. Não adianta, querendo ou não, o Warz Gil ainda é o filho do “imperador genocida”. Não me leve a mal, tá, rapaz? – Rory me olhou tristemente enquanto Amy se apoiava no braço do marido.
Assenti dolorosamente enquanto os piratas do espaço se entreolhavam, pensando em alguma coisa que de forma alguma eu conseguia deduzir qual era e o policial do espaço Gyaban somente observava o vazio daquele salão parecendo estar com a mente em um lugar muito distante.
Apenas um minuto depois, o Doutor convidara a mim, Amy, Rory, o policial e os piratas do espaço para espairecermos um pouco. Assim, passamos algumas horas andando pelos lindos jardins da Federação Galática e depois, pelos bosques na volta, onde contemplamos a natureza na sua forma mais primitiva e bela sem que nenhuma palavra fosse trocada entre nós.
O frágil silêncio de horas foi quebrado por Gai, o prateado: — Estou torcendo por você, de verdade. Seja o que for que você decidir, torcerei para que aconteça com sucesso.
Quando voltamos ao prédio da Federação, a noite começava a cair em Bird e o céu adquiria um estranho tom de azul marinho misturado com um rosa muito pálido. Ao mesmo tempo em que a noite ainda se tornava completamente escura, Kom surgiu no saguão com a decisão em mãos...
– Fomos informados que os opositores de Zangyack já se reuniram na capital do planeta para formar o novo governo. Eles sabem que você está vivo devido às nossas informações e estão dispostos a perdoá-lo, mas, você terá que assinar um documento entregando oficialmente o governo nas mãos deles. Essa é a única condição que eles pediram. E não se preocupe, eles não irão te matar nem prender. Só querem que você renuncie ao trono e a forma de governo.
Nunca havia pensado que eles seriam capazes de me perdoar, porém, sorri profundamente e disse: — Sim, eu assinarei o documento. Se preciso for, vou agora mesmo a Zangyack colocar uma pedra nesse assunto.
– Eu acharia melhor você passar a noite aqui, mas isso é você quem decide – Kom agora parecia se importar um pouco mais com a minha pessoa enquanto o Doutor quase rugia de raiva dele.
Por um momento achei que os piratas me estranhariam pela minha atitude, entretanto, eles sorriram profundamente, exceto Luka, que ainda estava magoada comigo e assim ficaria ainda por muito tempo. Eu a entendia e esperava que ninguém mais passasse pelo que ela passara.
Naquela mesma hora, pedi ao Doutor que me levasse até Zangyack, o que ele fez sem hesitar, novamente levando Gyaban e o esquadrão pirata a tiracolo, tanto que a cena da TARDIS se movimentando e as idas e vindas de nossos hóspedes temporários foram dignas de figurar entre cenas de comédia.
Como costumava acontecer sempre, as aterrissagens do Doutor quase nunca eram tranquilas e dessa vez a nave girou pelo menos quinze vezes até parar definitivamente, quase quebrando um muro, que nós, ao desembarcarmos, constatamos ser o do castelo que outrora havia sido minha casa.
– Você queria nos matar?! – a cabeça de Gyaban chegava a girar, tamanho o susto tomado.
O Doutor ria igual alguém que tinha acabado de usar algum tipo de alucinógeno muito poderoso enquanto os piratas, parecendo muitíssimo mareados, saíam da TARDIS apoiados uns nos outros e o casal Pond e eu os ajudávamos, já que estávamos mais acostumados com a rotina louca da nave.
– Gil, é hora de você colocar um ponto final na sua vida passada – disse Rory depois que terminamos de ajudar as pessoas e que entráramos no pátio do que agora seria a sede do futuro governo republicano do planeta onde estávamos.
Esperei alguns minutos até todos se recuperarem da tontura e disse que entraria sozinho para resolver aquilo quando o Doutor quis me parar dizendo que podia ser perigoso e eu o parei: — Essa é a minha passagem definitiva para a maturidade. Preciso fazer isso sozinho, por favor.
O Doutor sorriu como se dissesse que me entendia enquanto os outros cruzavam as mãos me desejando sorte e eu saía em direção ao castelo que parecia desabitado, mas que na verdade estava sendo a morada dos opositores de meu pai. Ao ativar a entrada com minhas impressões digitais esquerdas, um alarme bastante barulhento me assustou e quando dei por mim, estava cercado de guardas armados até os dentes.
– É o príncipe Warz Gil! – gritou um deles parecendo chamar alguém. Eu agora temia pelo meu destino. Talvez...
– Não achei que viria tão rapidamente, jovem grão-duque – uma alienígena se materializou diante de mim e logo reconheci Talia, a irmã de Insarn que era conhecida por fazer intensa oposição ao regime de meu pai, sendo considerada uma heroína em âmbito mundial.
Tive que rir quando ela me chamou da designação que costumava designar um nobre consorte: — Você continua bonita, Talia. Os anos te fizeram muito bem.
– Não são os anos, Warz Gil, são os bons hábitos – disse ela sorrindo como se dissesse que combater meu pai era seu segredo de beleza e gosto pela vida e logo em seguida falou: — Imagino que você tenha vindo aqui assinar o documento de perdão e renúncia.
Assenti e disse: — Quero colocar uma pedra na minha vida passada, então, me dê logo o documento e um tinteiro com uma pena.
– Espere alguns minutos que irei buscar. Afinal, é bastante tarde e todos estão dormindo nas dependências – riu ela sumindo.
Enquanto esperava Talia retornar com o documento, fiquei a contemplar minha imagem no espelho que ficava entre duas janelas junto à parede.
Eu tinha pouco menos que a altura de Marvelous, não era muito forte, mas também não muito magro, meus cabelos eram escuros como a noite, caindo até a base do pescoço e minha pele era muito alva, tal que sua ruborização, quando ocorria, deixava minhas bochechas em um tom rosa pálido ao invés de vermelho como geralmente era. Meus olhos eram do mais puro tom castanho-chocolate, o nariz era fino e um tantinho arrebitado, minha boca era firmemente desenhada, os lábios eram consideravelmente cheios e o queixo deixava meu rosto com formato anguloso.
O que, porém, eu não entendia, era porque meus olhos, embora fossem castanho-chocolate, eram puxados, como geralmente se caracterizavam os olhos orientais, que costumavam ser pretos na cor, pelo menos na maioria das vezes. Entretanto, me lembrara do que o Doutor dissera sobre a regeneração: ela acontecia da maneira mais impossivelmente aleatória do mundo. E eu dava graças ao destino por não ter virado mulher como um parente dele ou algo inumano, como acontecera a um velho inimigo dele, o Mestre.
Alguns minutos depois, Talia retornara com um documento e um tinteiro com uma pena pendurada e rira ao ver-me diante do espelho: — Insarn tinha razão quando dizia que seu porte era de um príncipe.
Ri de volta, ao reparar também em minhas roupas, compostas por uma calça e botas pretas ao estilo montaria, uma camisa branca com um colete azul claro e um sobre tudo lápis-lazúli, e logo disse: — Assinarei tudo o que tiver para assinar e irei embora em seguida.
Bastou eu terminar a frase para escutar o que parecia ser um trovão, ao que disse com certo receio: — Acho que eu e meus amigos lá fora teremos que passar a noite aqui, se a senhorita me permitir.
– Então os traga para dentro. Não é porque temos diferenças políticas que não podemos ser amigos – sorriu Talia ao passo que a corrigi educadamente: — Não posso dizer que concordava plenamente com as teorias de meu pai.
Corri para fora com a intenção de chamar todos para dentro do castelo, mas a TARDIS estava devidamente trancada, o que me dizia que todos já deviam estar no conforto da nave. Quando voltei para dentro, a nave já se materializava dentro do castelo. Tive que rir, pois eu sabia que o Doutor de forma nenhuma queria sua amiga molhada pela chuva e Talia não conseguia segurar uma gargalhada em razão da aparência muito obsoleta da nave, que vista por olhos quaisquer, parecia somente uma cabine telefônica londrina dos anos sessenta do século vinte em termos terráqueos.
– É a primeira vez em meses desde a queda do império que rio assim – dizia ela.
Ouvir que o Império Zangyack definitivamente tinha caído não era tão simples, mas eu estava mais conformado com a situação. Era melhor assim, eu pensava enquanto me lembrava de tudo o que um dia vivera naquele palácio. Pelo menos meu pai de criação não estava sofrendo com as consequências do que fizera. Sinceramente, fora a primeira vez que me senti aliviado por ele ter morrido embora não pudesse esconder que ainda sofria com sua morte.
Entretanto, eu sabia esconder esse sentimento e deixando-o no fundo de meu peito, pedi a Talia que me desse o documento e o tinteiro com a pena. Em menos de dois minutos, depois de olhar-me no vidro do relógio da sala enquanto colocava solenemente o papel sobre a mesa, eu finalmente deixara minha antiga vida para trás para seguir uma nova jornada ao lado do Doutor, Amy, Rory e a TARDIS. E talvez com os piratas, que me observavam atentos.
Entreguei o papel à irmã de Insarn, ao que a alien sorriu e invocou alguns dos guardas ainda presentes para que nos servissem um vinho sideral e pudéssemos brindar aquele término pacífico de uma jornada cheia de pedras e tropeços, mas que agora tinha ficado definitivamente no passado.
– Aos dias que virão! – o Doutor foi o primeiro a levantar a taça.
– Aos dias que virão, pai – eu sorri batendo delicadamente minha taça com a dele e pensando que embora a aparência da TARDIS fosse a de uma nave, na verdade ela era um anjo. O meu anjo.
– Pai?! – todos, até mesmo os guardas, exclamaram em coro ao me ouvirem.
O Doutor se viu chorando, como se sentisse culpa por não ter me contado antes que ele era o marido de Ravena, embora eles nunca tivessem se casado, mas a verdade era que eu o entendia. Não podia culpá-lo por querer salvar minha mãe de uma iminente desgraça ao enviá-la para longe do planeta em uma pequena nave-cápsula, mesmo que talvez o preço fosse nunca me ver nascer, porém, do modo como as coisas haviam acontecido, ele não poderia prever que tudo se sucederia do modo como aconteceu. E eu, ao ver a imagem de minha mãe, podia compreender a razão de meu pai nunca tirar Rose Tyler de sua mente.
Como eu descobrira que Andúril era o nome falso de alguém que não existia? A consciência da TARDIS aparecera para mim na forma de minha mãe biológica e me contara sobre os motivos de meu pai não querer que eu soubesse a verdade, especialmente o fim da Guerra do Tempo, no caso a destruição de Gallifrey e dos Lords do Tempo e o fato de ele nunca ter conseguido encontrar Ravena para continuar com ela. Depois da revelação, o modo afetuoso do Doutor me tratar fazia sentido de verdade.
Confesso que quis ficar revoltado com ele por mentir, mas, ao parar para pensar em tudo o que a consciência da nave me dissera, ficara profundamente feliz porque agora tinha alguém nesse imenso universo e dois amigos que me acolheram sem pensar duas vezes ou fazer algum julgamento precipitado sobre o que eu fizera ou deixara de fazer nessa vida.
– Agora faz sentido o seu jeito tão carinhoso de tratá-lo – Gai emocionava-se e continuava: — Você só queria compensar o seu filho por todos os anos que não pôde estar com ele.
– Desculpa estragar o momento familiar, mas, como você soube sobre o Warz Gil ser seu filho? – a expressão de Joe quase me fazia rir descontroladamente.
– Foi por acaso, ou quase. Eu, Rory e Amy estávamos indo para um planeta viver algumas aventuras quando senti a TARDIS chorando. Perguntei a ela o que acontecia e ela me disse que sentira que um pedaço de mim e Ravena nascera em Zangyack, local pelo qual passávamos. Fui até lá e descobri, colhendo algumas informações, que uma nave-cápsula havia caído lá e consigo trazia uma mulher grávida, que morrera após o parto da criança – contava o Doutor com tristeza enquanto os outros só escutavam silenciosamente o resto da história...
A mulher em questão, segundo comentários do povo local, era uma lady do tempo e morrera após ter um bebê que era absurdamente idêntico ao povo local. Logo me lembrara do que o Doutor dissera sobre minha mãe ter utilizado suas únicas regenerações restantes para me salvar da morte, pois a parteira, que eu soube ser Insarn, dissera que provavelmente eu não vingaria e que ela morreria logo após me ter.
– Então... Insarn só continuou com Ackudos Gil para proteger o pequeno? – Talia emocionou-se ao que o Doutor disse:
– Os vizinhos de sua irmã daquela época que contaram que, honrando a união existente entre o povo do planeta Urai, guardaram segredo sobre o bebê gallifreiano. Enquanto isso, Insarn, que horas antes testemunhara a morte do príncipe legítimo recém-nascido, decidiu trocar as crianças para que o Imperador, ao voltar de sua campanha de guerra, não se enfurecesse por mais um filho não ter vingado, pois todos no planeta comentavam que o governante não obtia um herdeiro. Insarn e Damaras, embora fossem fiéis a Ackudos Gil, queriam manter seguro o único membro restante do povo de Gallifrey sem imaginar que eu ainda existia.
Ninguém ali entendia o motivo de os dois quererem semelhante coisa e confesso que nem mesmo eu compreendia isso. Foi quando Talia disse, parecendo surpresa ao imaginar algo: — O primeiro homem que Insarn amou foi um lord do tempo, se me lembro de. Ela ainda tinha sua forma elemental de borboleta quando se apaixonou pela primeira vez. Recordo-me de que ela disse sobre proteger qualquer ser de Gallifrey que aparecesse, pois, além de não esquecer seu primeiro amor, esse povo era bom e justo e tinham salvado Urai do extermínio pelo Silêncio. E como Damaras, que pertencia ao povo amigo de Urai, Coro, era muito amigo de minha irmã, ajudou-a sem pensar.
– Se nós soubéssemos sobre tudo isso, eu teria pensado duas vezes em matar Insarn e Damaras – Joe parecia agora profundamente arrependido do que tivera de fazer.
– Eles queriam tomar a Terra junto com Ackudos Gil. Não podíamos evitar um confronto com morte, Joe – Marvelous disse suspirando para depois me olhar como se pedisse desculpas.
Nada respondi aquele olhar enquanto me impressionava ao vê-lo se encher de lágrimas, que a muito custo ele mantinha escondidas. Entretanto, eu sabia, por experiência própria, que sempre pagamos o preço por nossas escolhas e que o resultado é sempre aquilo que nos acontece, seja bom ou ruim.
– Aos dias que virão – Don levantou sua taça sorrindo querendo que continuássemos comemorando a paz que enfim chegara.
No fim, levantamos as taças e brindamos com emoção, desejando profundamente que os dias vindouros fossem os melhores possíveis e depois de um longo e belo brinde, decidi que o melhor era que fôssemos embora de uma vez por todas, pois tudo o que eu queria agora era estar com a minha família. Lutar ao lado dela até o fim do mundo.
Despedimo-nos de Talia e seus guardas e entramos na TARDIS para regressar ao planeta Terra.
A viagem durara um tempo maior do que a ida de Bird até Zangyack, mas dessa vez fomos poupados de giros enlouquecidos e tonturas desnecessárias, porém, não de problemas, pois logo que desembarcamos, haviam pelo menos algumas milhares de naves alienígenas vindas de alguma parte desconhecida do Universo aportando sobre Londres, no que eu olhei para o Doutor, os Pond, os Gokaigers e Gyaban...
– Vamos fazer disso um show?
– Ei, essa frase é minha! – exclamou Marvelous aos risos sendo logo acompanhado pelos outros.
Sorri e antes que fizéssemos algo concreto, perguntei: — Antes que lutemos juntos pelo futuro da Terra, poderia me dizer qual é o seu nome verdadeiro?
Ele riu para mim e logo disse, apenas para mim, como se chamava, me deixando espantado e ao mesmo tempo encantado com o nome que minha avó havia lhe dado. Meu pai rapidamente entrara de novo na TARDIS e de lá voltara com algo nas mãos, que ele carinhosamente colocou sobre as minhas...
– A sua Chave de Fenda Sônica, meu filho.
Sorri largamente e apertei-a contra minha mão, jurando honrar o uso daquele aparelho, quando ouvi uma exclamação seguida de outra em coro...
– Jouchaku!
– Gokai Change! (http://www.deviantart.com/download/282344964/gokaiger_henshin_and_roll_call_by_infinheyty-d4o3mro.gif
http://4.bp.blogspot.com/-hgs9yxzckv4/T5g8KBZKqxI/AAAAAAAABDc/IpjrP78wpbQ/s1600/gokaiger.gif)
Eu e papai levantamos nossas Chaves de Fenda Sônicas enquanto os Pond pegavam armas para nos ajudar.
– Come on, Ponds! – exclamei.
– Ora, essa frase é minha! – riu meu pai.
Suspirei alegremente, correndo de encontro ao perigo junto dos outros defensores da Terra, sabendo que aquele era apenas o começo de minha jornada como um aventureiro lord do tempo...
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