Inverno Da Alma
4 3 - Be safe
Notas iniciais
Dois dias se passaram desde que estávamos no Gokai Galleon e desde então, pouco tínhamos saído da TARDIS, exceto quando Amy e Rory ficavam olhando o céu noturno e o diurno com caras de quem tinham visto a coisa mais extraordinária do mundo e quando Don e Ahim nos convidavam para comer com eles, pois ele estava tentando sinceramente fazer com que conversássemos civilizadamente, mas ele não obtinha sucesso algum, pois sempre que aparecíamos, os outros piratas se ausentavam usando desculpas esfarrapadas.
Novamente estávamos à mesa comendo com o Green e a Pink, mais precisamente na hora do lanche, quando o Doutor disse: — Eles pelo jeito não querem conversa, mas também não querem brigar, sim?
– Ele só está agindo assim porque gosta muito do Don – disse a princesa pegando mais chá. Ô garota que gosta de chá, Deus meu. Me pergunto o quanto ela mija quando vai ao banheiro.
– O Marvelous, o Joe e a Luka são um tanto orgulhosos, dificilmente eles vão querer conversa agora, isso se acontecer – disse o verde com a expressão de quem estava cansado de ver brigas.
– Não posso me eximir da culpa disso tudo ter acontecido. O Doutor sabia que essa briga era minha, mas ele se envolveu porque... – parei de falar quando Marvelous disse encostado à porta após voltar de surpresa: — Você ganhou uma segunda chance e resolveu vir acertar as contas conosco, só que o seu protetor se meteu na sua vingança.
– Da minha parte eu sequer teria vindo para cá! – exclamei levantando e encarando o capitão pirata.
– Engraçado, pareceu que o destino conspirou para que você e esse esquisito fossem parar aqui, afinal porque o motor da nave foi se desligar logo em cima do meu navio? – perguntou ele devolvendo a encarada que eu lhe dava.
Por mais que eu estivesse puto da vida com Marvelous, ele não deixava de ter razão. A TARDIS não parava de funcionar assim de uma hora para outra, pelo menos se eu me lembrava das explicações básicas (se bem que um tanto enroladas em razão da velocidade com a qual o Doutor falava) que meu amigo me dera sobre como a nave funcionava. Será que ela havia parado de propósito por alguma razão? Eu sabia que a nave do Doutor tinha vida própria e consciência, mas será que ela gostava tanto de mim a ponto de fazer isso para me ajudar a ter esse acerto de contas com meu passado recente? Sinceramente, eu não sei se merecia toda aquela consideração depois de tudo o que fizera.
– Com franqueza, talvez a TARDIS queira que eu... – me interrompi ao sentir uma lágrima caindo.
– Que você nos peça perdão pelas idiotices que cometeu? – ouvi Joe perguntar enquanto surgia do lado dele.
– E se for? Por que não são capazes de perdoá-lo? Algo errado em se arrepender dos erros cometidos e querer ser perdoado? – Amy levantou-se e olhou para os dois.
– E só para constar, o Warz Gil não teve culpa se o outrora grandioso Império Zangyack fez um monte de coisas horríveis. Como a Ahim disse muito bem, ele entrou na onda dos acontecimentos – Rory também ficara em pé, não permitindo que Marvelous abrisse a boca em resposta.
Já o Doutor permanecia no lugar onde estava, como se pensasse nas palavras que iria usar. Ele parecia temer que elas deixassem nossas relações ainda mais tensas.
– Quem sabe se você tivesse pensado em parar seu pai quando recebeu sua segunda chance, eu poderia te perdoar agora, mas, eu sinceramente não consigo fazer isso, ainda. Talvez eu nunca consiga. Francamente, se você soubesse tudo o que eu e os outros passamos por causa dos desmandos do Ackudos Gil, você o odiaria com certeza – Joe, que costumava ser sempre calmo, parecia nervoso ao falar comigo, até mesmo querendo chorar.
– Eu entendo, de verdade. E sim Joe, talvez a TARDIS queira que eu peça perdão a vocês todos e possa seguir em paz a minha vida, só que não sei se conseguirei fazer isso em Zangyack, afinal, sinto que lá não é mais o meu lugar. E ainda, mesmo que eu quisesse parar meu pai, quem garante que ele me ouviria? E será que ele aceitaria a minha nova aparência e personalidade? – falei com tristeza.
– Não é porque você mudou de cara que vai deixar isso de lado. Você muito bem poderia ter usado aquela nave poderosa para voltar no tempo e mudar a história, mas por alguma razão você veio parar aqui simplesmente – disse Marvelous como se não encontrasse a peça que faltava no quebra-cabeça.
Para mim, o motivo era óbvio: se eu voltasse no tempo e tentasse consertar as coisas, eu nunca teria descoberto sobre mim mesmo e obtido minha nova aparência e personalidade. Até porque eu preferia o meu eu de agora, que sabia perdoar e pensava antes de sair agindo de forma tresloucada.
– Você acha mesmo que eu enganaria o Doutor?! Que eu seria tão ingrato assim?! – perguntei furioso e depois disse:
– Deveria se envergonhar de pensar isso de mim! Se eu não cometi suicídio ou não enlouqueci de vez, é a ele que devo isso! Muito bem eu poderia ter desistido de viver, mas o Doutor me deu uma nova chance. Não posso consertar os erros cometidos, tenho que conviver com eles e tentar ser melhor a cada dia.
– Tentar não, conseguir – disse Joe com uma confiança incomum.
Sorri por alguns segundos, porém Luka e Gai me dirigiram um olhar muito desconfiado, o que apagou minha alegria, ao que o Doutor disse, finalmente: — É muito difícil perdoá-lo, não é?
– Tente perder uma irmãzinha doente e ficar sozinha no mundo – disse ela com frieza enquanto Gai tentava me entender, pelo menos a expressão dele, que parecia pensativa demais para o meu gosto, me dizia isso.
– E você tente ser tão longeva quanto eu e deixar os seus amigos para trás. Isso é tão doído quanto perder alguém. Ravena, Andúril, Rose, Martha, Donna, Wilfred... Esses foram só algumas das pessoas que eu tanto amava e que eu perdi por conta da minha condição. Algum dia vai ser a vez de Amy e Rory seguirem suas vidas enquanto eu... vou continuar seguindo até minha existência acabar porque viver mesmo se torna mais difícil e dolorido a cada dia – disse o Doutor olhando para os Pond do canto do olho.
Eu sabia que isso poderia acontecer, considerando que a filha bebê deles, Melody, havia sido raptada meses atrás. Não sabia muitos detalhes sobre o que ocorrera, mas não parecia que o casal o culpava pelo ocorrido, pelo menos eu achava.
– Mas agora você tem esse idiota como companhia e com franqueza, isso é pior que ficar sozinho – disse ela com nojo.
– E quando eu realmente morrer? O Warz Gil ficará sozinho e terá a mesma sina que eu ou voltará para Zangyack e assumir o trono que é dele. Uma sina como a minha uma hora começa a doer. E dói tanto que parece que a sua vontade de viver vai embora – disse o Doutor com um tom de culpa que me fazia quase chorar enquanto meu coração sentia como se recebesse várias punhaladas.
E ele continuou: — Mas você, embora tenha sentido sua vontade de viver indo embora, decidiu continuar viva para, ou pelo menos tentar, dar a outras crianças o que não pôde a sua irmã e óbvio, se vingar de Zangyack. E a mim, quando tive que deixar os que eu amava para trás, o que me restou? Nada, a não ser proteger esse planeta e tantos outros de injustiças e pessoas que se aproveitam das fraquezas dos outros para explorar abusivamente. Pelo menos você tem os seus amigos e um lugar para onde voltar. Já eu, não tenho um lar para voltar. O Warz Gil e os Pond são tudo o que tenho nessa vida agora e a TARDIS se tornou meu único lar.
– Se tudo isso te dói tanto, então porque você tem companheiros mesmo sabendo que eles irão embora um dia? – perguntou Gai, me despertando a mesma curiosidade embora eu meio que já soubesse a resposta.
– Você realmente não entendeu ainda, não é? – suspirou o Doutor para depois dizer: — Às vezes, quando você tem que combater algo, acaba tendo que sacrificar alguma coisa ou vê alguém se sacrificando para tal. Imagine ou lembre-se de quando você e os outros tinham sempre que matar um monstro de Zangyack. Acho que você sabe que matar é moralmente errado, sim? Mas...
O Doutor gesticulava, esperando que o Silver respondesse, quando ele o fez: — Temos que eliminar o monstro para evitar que inocentes sofram. Então isso tecnicamente não está errado, porém, ainda é uma vida que acabamos por tirar. Mas, você pode acabar perdendo o controle e isso pode prejudicar até mesmo quem nada tem com isso.
Embora Gai fosse muito fã de Super Sentai e conhecesse cada um de seus pormenores, o raciocínio que ele fizera acabara por deixá-lo emocionalmente desarmado, no que o Doutor se aproximou oferecendo um abraço: — Eu sei que é duro pensar nisso, mas, às vezes é preciso sacrificar uma coisa para obter outra.
– Eu nunca agiria igual ao Basco! – exclamou Marvelous furioso e seu rosto parecia tremer de fúria.
– Não disse que era trair um amigo para satisfazer suas ambições egoístas e mesquinhas, se foi isso que você não entendeu – o Doutor olhou o capitão com intensidade.
– Esse era o lema daquele corsário maldito, se me lembro disso. Não se culpe, Doutor, se eu fui traído da forma mais brutal possível e acabei associando essa filosofia com a maldade de certas criaturas – disse Marvelous me dirigindo um olhar que misturava ódio e revolta.
Agora eu podia entender os sentimentos dos gokaigers em relação a mim: eles me viam como uma extensão da crueldade do meu pai e achavam que eu iria fazer muito pior do que Ackudos Gil fizera um dia com as vidas e os planetas deles e que faria o mesmo com o planeta Terra. A verdade, entretanto, era que eu só queria provar que seria um bom imperador e que se eu assumisse o império Zangyack, eu iria compensar cada um dos planetas pelos males causados.
Infelizmente, mesmo que eu pensasse em fazer isso, sabia que não aplacaria o ódio dos povos subjugados, que a essas horas deviam pensar em mil formas de se vingar do meu planeta.
Dizendo que precisava de um descanso, me afastei, ao que Marvelous me parou com uma mão: — Seja qual for a decisão que você tomar, te desejo sorte.
Agradeci, mas ele continuou a me “prender”: — E me deixe dizer mais: eu me lembro de ter dito aos meus amigos que... eu iria ao seu planeta encontrar o tesouro dele, mas, com o decorrer de tudo o que passei na Terra, aprendi que existe um tesouro muito mais valioso do que qualquer baú com bens valiosos e que não preciso tanto de outros para ser feliz. Eu espero que você valorize esse tesouro. Não esqueça, você o tem em suas mãos, não deixe fugir.
Novamente disse “obrigado” e logo me retirei para a TARDIS, e quando olhei em um visor, estávamos próximos a Cardiff, cidade iríamos recarregar a nave e nos despedir, quem sabe para sempre, dos piratas do espaço.
Pelo menos trinta minutos depois, o grande navio-nave desembarcava em um local próximo a fenda energética que era o “posto de gasolina” da TARDIS, sob os olhares de alguns curiosos que passavam por ali, porém, não nos importávamos com aquilo, só queríamos recarregar nossa casa e sair em busca de novas aventuras.
Inesperadamente, os piratas quiseram ficar conosco alguns dias naquela tranquila cidade bretã para conhecer o mundo que existia além do Japão no planeta Terra enquanto Gai ficava encantado com algumas construções antigas próximas de onde estávamos.
Entretanto, quando Joe veio até mim e me deu um abraço sincero, tive a certeza de que eu havia encontrado o meu tesouro...
A vida.
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