Inverno Da Alma

2 1 - Acredita em anjos? Pois é, eu sou o seu


Notas iniciais
O começo da jornada do protagonista na TARDIS.

Pela primeira vez em meses, me sentia confortável em algum lugar. Embora eu ainda estivesse com os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar, pela enésima vez.

- Com licença, eu posso entrar? — perguntou a jovem e adorável Amy Pond, que sempre me trazia as refeições, já que maneira alguma queria sair do quarto que onde o Doutor me colocara. Desde que entrara na TARDIS pela primeira vez, eu sabia novamente o que era ter uma casa e comida, pois no lugar onde eu estava muitas vezes eu passava de um a dois dias sem colocar nada no estômago e tinha que dormir embaixo de árvores ou ao relento.

- Pode. Eu... sinto... fome — autorizei a entrada, mas me recusava a permitir que ela me visse chorando novamente. Não precisava de gente chorando junto comigo ou tentando me tirar da fossa onde eu estava caído.

- Eu não sei o que aconteceu com você, mas saiba que... se quiser conversar, eu estarei por aqui — ela disse sorrindo embora eu pudesse notar a tristeza.

Me senti melhor ouvindo aquilo, mas eu sabia que isso em nada aplacaria a imensa dor que o meu peito sentia, uma mistura de saudades, tristeza, ódio, revolta e sede de vingança contra os responsáveis pela minha queda. Francamente, porém, eu estava mais preocupado, pelo menos no momento, em tentar entender como funcionava o meu corpo, pois embora eu soubesse minhas origens, eu nada sabia sobre como o corpo gallifreiano funcionava.

Gallifreiano. Eu ainda não estava acostumado com essa palavra e embora eu tivesse sido criado como um zangyack, dessa raça eu não tinha absolutamente nada. Como então eu fui parar no planeta de mesmo nome e ainda virei o príncipe Warz Gil?

Pelo menos um dia após eu ter entrado na TARDIS, o Doutor enfim viera conversar comigo.

Uma parte da história eu já ficara sabendo por uma mensagem que Damaras me deixara, colocada no cockpit do meu robô, talvez prevendo que eu fosse me dar mal ao sair em batalha:

"Príncipe: Eu não sei se você vai entender a mensagem que estou dando a você, mas preciso que saiba que caso venha a te acontecer algo, você será capaz de sobreviver mudando suas células, mas isso tem efeitos colaterais que não podem ser previstos. Lembre-se: essa é a sua única ferramenta de sobrevivência e somente com ela poderá ser capaz de escapar disso. Com carinho, Damaras."

Inicialmente, eu não dera a mínima importância àquela mensagem contida na memória do robô, mas quando o maldito golpe do GokaiOh me atingira, e o robô estava pegando fogo, concentrei toda a força misturada ao instinto que eu sabia ter e de repente, a dor parecia ainda maior do que ser esmagado por um cockpit desmoronado. Quando dei por mim, horas depois, estava no local da nave que servia de câmara mortuária...

"- Onde... estou? — o jovem acordara e de repente começara a tossir, como se seus pulmões precisassem expelir algo indesejado.

- Por favor, Warz Gil, não faça barulho! Se seu pai acordar e te ver assim, eu e Insarn não saberemos o que dizer a ele! — exclamou Damaras em desespero, temendo que o segredo da verdadeira origem do príncipe viesse à tona.

- Mas o que...! — exclamou o príncipe, sendo contido por Insarn: — Você precisa ter calma. Finalmente chegou a hora de contarmos sua verdadeira origem, pequeno do nosso coração."

Porém, ao invés de me dizerem algo, me doparam e me deixaram em um planeta chamado Dagon, próximo a onde antigamente se localizava o planeta Gallifrey, que era agora somente um amontoado de meteoros flutuantes que orbitavam sobre aquele local, que tinha uma casa e suprimentos com os quais eu poderia sobreviver até eles virem me buscar, o que nunca aconteceu. Como eu não sabia fazer muitas coisas, acabei passando inúmeras necessidades. Mas a maior delas ainda se encontrava dentro do meu coração ferido.

A carta que Insarn havia me deixado explicava que meu pai pensava que eu estava de fato morto, mas caso ele viesse a cair algum dia, eu ainda poderia voltar para assumir o Império e continuar o sonho dele de conquistar o Universo, considerando que os senhores do tempo eram praticamente imortais.

A mesma dizia também que eu era filho adotivo do imperador, mas que Ackudos Gil jamais soubera da minha origem, pois Insarn e Damaras haviam trocado o bebê zangyack nascido natimorto pelo bebê gallifreiano cuja mãe senhora do tempo tinha cometido a loucura de regenerar o bebê em algo parecido com a raça daquele planeta para que pelo menos ele sobrevivesse, no que ela, em razão ter 876 anos de idade ao engravidar, morrera para dar a vida ao menino, que era eu. A Imperatriz também não tivera tempo de saber da troca, pois morrera logo após o parto do príncipe que não tivera tempo de viver.

Isso era apenas uma pequena parte do que era a minha história, pois tinha bem mais, que o Doutor me contara...

Meus pais biológicos eram Ravena e Andúril, dois nobres gallifreianos que não concordavam com o que os outros senhores do tempo estavam querendo fazer para acabar com a guerra entre eles e os Daleks, que o Doutor me disse serem nossos piores inimigos, uma raça que exterminava qualquer coisa que fosse diferente do que eles eram.

Segundo o Doutor, esse evento era a "Guerra do Tempo" e os gallifreianos estavam dispostos a destruir o universo inteiro somente para acabar com as criaturas chamadas pelo esquisito nome de "Daleks". Ele me confessou que achava que era o último "time lord" e nem imaginava que minha mãe estava grávida quando fora embora de Gallifrey na tentativa de sobreviver, pois meu pai havia sido executado por se opor às decisões dos senhores do planeta.

- Ravena era minha melhor amiga. Crescemos como irmãos e eu a amava como tal. Não podia imaginar a ideia de ver o Universo, tão vasto e bonito, destruído e muito menos sua mãe sofrendo destino semelhante. Se eu soubesse que ela estava grávida, você teria tido um destino diferente, eu certamente teria sido seu pai. Eu sinto muito. Sinto muito mesmo, Warz Gil, ou como eu sei que ela te chamaria: Beren — eu nunca tinha visto alguém chorar tanto assim.

- Como você soube quem eu era? Por acaso te deram alguma pista? — perguntei tentando segurar mais lágrimas que vinham, pois estava emocionado.

- A TARDIS é um ser vivo, caso você não lembre do que expliquei quando você entrou aqui. Ela pode sentir as coisas e foi esse o caso com você. Não queria acreditar que houvesse outro gallifreiano além de mim, mas quando desembarquei aqui e te vi, logo pude saber que você era o único pedacinho da minha amiga-irmã que havia sobrado. Eu lembro que os olhos dela tinham o mais bonito tom de chocolate que eu já tinha visto e que o cabelo dela era negro e lustroso assim como o seu — disse ele, evidentemente muito feliz por ter encontrado outro como ele. Confesso que não esperava que ele dissesse que me achava parecido com a minha mãe.

Mas eu sabia que uma hora ou outra eu teria que tomar uma decisão. Embora viver aventuras fosse uma boa ideia, tinha que pensar que eu ainda era o príncipe Warz Gil e que tinha que assumir o trono de Zangyack para estabilizar a situação agora complicada do planeta, já que o Império havia perdido influência em todo o universo e eu soubera, por notícias, que tinham alguns planetas prontos para atacar o meu por vingança.

Vingança era algo no qual eu pensava com uma certa frequência, pois aqueles piratas haviam destruído tudo o que eu conhecia e amava. Ao mesmo tempo, entretanto, eu sabia que eles só queriam ser livres, mas acabaram sendo considerados os responsáveis pela queda definitiva do Império Zangyack.

Também, eu me perguntava que culpa eu tinha dos atos do meu pai. Eu apenas queria dominar o planeta Terra para mostrar que eu era capaz de sucedê-lo no trono, mas eu não tinha a real intenção de fazer algum mal aos terráqueos, apenas desejava tomar o planeta. O problema: meu pai não se importava com a vida de ninguém, qualquer coisa que pudesse fazê-lo imperador do universo era válida. Quem sabe se eu tivesse tido coragem de voltar antes, eu poderia ter evitado pelo menos os fatos que haviam se sucedido. Porém, eu nunca saberia se meu pai me aceitaria mesmo que eu não fosse sangue do sangue dele.

Foi quando o Doutor chegou sem aviso, de novo...

- Você não vai sair conosco hoje?

- Não quero. Não me sinto bem ainda — respondi, pois novamente passara mais uma noite regada a lágrimas.

- Tem sido tão difícil assim? — perguntou ele novamente.

- Se você pudesse imaginar — respondi com a voz embargada.

- Infelizmente nós dois perdemos tudo o que conhecíamos e amávamos. Eu também passei muito dias e noites molhando os travesseiros com lágrimas, dando socos na parede, gritando com o destino, querendo morrer. Sim, eu imagino exatamente o que o seu coração sente, garoto — me disse ele saindo do quarto em seguida.

Não sabia ao certo como iria seguir a vida, só sabia que queria ficar ali, para sempre. Sem dor, sem tristeza, sem lágrimas, sem nada que me remetesse ao passado.

Isso se eu não tivesse sido jogado fora da cama com o impacto da TARDIS contra alguma coisa que eu não sabia identificar.

Mas quando finalmente havíamos conseguido abrir a porta, estávamos literalmente pendurados em cima de um navio voador vermelho.

Eu conhecia aquele transporte de algum lugar, certamente.

Quando vi quem estava nos observando com uma luneta e perguntando que porcaria era aquela que estava querendo estragar o navio, reconheci o... pirata: Capitão Marvelous.

De repente, meu coração e a minha alma estavam ocos, novamente.

PS¹: TARDIS — é uma abreviatura para Time And Relative Dimensions In Space (Tempo e Dimensões Relativas No Espaço). A nave do Doutor tem vida própria e por conta de uma avaria permanente no circuito, ela possui a aparência de uma cabine de polícia londrina dos anos 60.

PS²: O processo de regeneração dos "time lords" pode ser longo e doloroso algumas vezes.

TARDIS: \"\"

Notas finais
Espero que gostem e comentem!