Notas iniciais
ALERTA DE GATILHO: Esse capitulo pode conter gatilhos para depressão e suicídio, por favor, leiam com cautela e respeitem seus limites ❤ Se posso dar um conselho/dica e se vocês puderem, claro, ouçam "Lovely" da Billie Eilish com esse capitulo. Boa leitura!

A chuva forte castigava o Brooklyn, mas Bucky Barnes não se importou com isso quando desceu as escadas de seu prédio correndo e parou no gramado malcuidado do pátio que separava os dois blocos de apartamentos.

Ergueu a cabeça e deixou que a água lavasse seu rosto, como se ela fosse capaz de levar embora todos os seus pensamentos turbulentos. Respirou fundo tentando se acalmar, geralmente os pesadelos não lhe afetavam tanto e ele não entendia o que havia de tão terrível naquela menina de cabelos negros que tinha lhe feito tão mal.

Será que havia machucado a criança?

Esse pensamento lhe assombrou bem mais que as imagens sem sentido que perturbavam sua mente. Bucky sentia que sempre haveriam mais atrocidades do Soldado Invernal para descobrir, tinha um rastro macabro de sangue por todo seu passado e não importava o que fizesse isso sempre o perseguiria...

Encarou os próprios pés descalços, movendo os dedos contra a grama molhada como se houvesse algo muito interessante ali para ver... Bucky estava cansado. Cansado de noites mal dormidas; de viver a vida pela metade; de não poder confiar em si mesmo... Cansado de fugir; de lutar; mas também de ficar parado sem fazer nada. Cansado de não ser ele mesmo, e de tentar ser outra pessoa.

Estava cansado de se sentir cansado.

Suspirou, vendo as gostas pesadas caírem no solo e respingarem terra em seus pés. Queria desaparecer, mas para onde quer que fosse ainda estaria lá para torturar a si mesmo.

Queria poder voltar no tempo, não como Steve, voltar de um jeito diferente, de um jeito que apagasse de sua mente tudo de terrível, queria ser o apenas o Bucky corajoso do Brooklyn, aquele que tinha uma paixão secreta por seu melhor amigo e que levava muito jeito com as garotas... E ao mesmo tempo queria que Steve nunca tivesse lhe tirado daquela instalação da HIDRA, queria ter morrido lá, mesmo que isso não fosse lhe trazer qualquer honra.

Era isso que queria. Verdadeiramente. Queria fechar os olhos e não ser abrigado a abri-los outra vez.

— Achei que só eu fosse adepta a banhos de chuva. — A voz feminina puxou Bucky de volta para a realidade de forma brusca.

Estava tão perdido na própria mente que sequer viu ou ouviu alguém se aproximar.

— O que você está fazendo aqui? — Perguntou um pouco mais rude do que queria, olhando sobre o ombro a tempo de ver Savannah Devenport se aproximar.

— Eu te vi... — Ela ergueu o dedo e apontou a própria janela.

Deu mais alguns passos na direção de Bucky então, saindo da segurança da marquise seca para se aventurar na chuva forte. Também estava descalça, usava uma regata de algodão escura e shorts da mesma cor e do mesmo tecido, roupas de dormir claramente... Bucky não sabia se era certo vê-la naqueles trajes, mas Savannah não parecia preocupada.

— Tudo bem? — Ela perguntou, parada a uns cinco passos de distância, a chuva encharcando seu cabelo ruivo e escorrendo por sua pele clara.

As orbes azuis de Bucky focaram no semblante preocupado e ele se perguntou como alguém podia ser tão boa para se preocupar com um completo estranho, a ponto de sair na chuva apenas para ver como ele estava...

— Claro, é só... — Não terminou, não havia nada que pudesse dizer a Savannah, a verdade era algo que tinha que carregar sozinho e a mentira era algo que ela não merecia ouvir. — Você não devia estar aqui fora na chuva, vai se resfriar.

— Você também. — A resposta dela veio acompanhada de um sorriso calmo que por algum motivo deixou Bucky ainda mais triste. Ele lembrou que não veria Savannah outra vez depois daquela noite.

— É... você tem razão. — Fingiu um sorriso, então deu um passo para trás. — Eu já estou voltando. Você devia voltar também.

Mais três passos, se afastou dela, dizendo a si mesmo que era o certo e sensato e deu as costas pra voltar para o próprio bloco.

— James? — Savannah chamou, e ele parou onde estava, porque certamente nunca mais alguém lhe chamaria daquela forma. Olhou por cima do ombro e ela deu um sorriso travesso. — Quer ir em um lugar comigo?

— Agora? — Perguntou, confuso com aquele convite inusitado.

— Não é longe. — Savannah acenou com a mão e não esperou resposta antes de caminhar para o fundo do prédio.

Bucky pensou em se esquivar daquilo, em apenas voltar para o apartamento e esperar amanhecer para partir definitivamente. Mas Savannah já estava metros à frente e ele convenceu a si mesmo que talvez não houvesse mal nenhum em passar alguns últimos minutos com sua vizinha, já que não a veria nunca mais.

Ela saiu pelos fundos do prédio e atravessou a rua sem se importar com a chuva ou com o fato de estar descalça e de pijama, contornou o terreno do prédio lateral e logo encontrou a escada de incêndio, começando a subir como se o lugar lhe fosse bem conhecido.

Bucky a seguiu, incerto sobre se podiam mesmo estar ali. Foi uma escalada longa, porque ao contrário do prédio em que moravam, aquele outro tinha pelo menos dez andares. Ele se impressionou com o fato de Savannah ter subido todos os lances sem parecer cansada com isso.

Por fim chegaram ao telhado do lugar, nada mais que um espaço cinzento e sem graça, com poças de água acumuladas em toda a parte, por causa do pavimento malfeito na laje.

— O que estamos fazendo aqui? — Bucky questionou, confuso com aquele passeio estranho.

— Dizem que quando a gente vê as coisas de cima elas ficam mais claras. — Savannah apontou, se aproximando da borda.

Só então Bucky lançou um olhar para a vista... Dali podiam enxergar grande parte do bairro e até um pouco mais que isso, porque lá no longe, bem no fundo, as luzes do píer também podiam ser vistas.

Estava longe de ser uma imagem que estamparia um cartão postal, muito pelo contrário, era apenas uma grande selva de pedra iluminada artificialmente, mas ainda assim tinha alguma coisa ali, algo que Bucky não soube entender ou decifrar naquele momento.

Savannah sorriu, então apoiou as mãos na mureta de proteção e impulsionou o corpo para cima, Bucky segurou o braço dela antes mesmo de pensar sobre isso.

— O que está fazendo? Isso é perigoso, ficou maluca? — Perguntou e a soltou imediatamente, quando notou que tinha usado a mão de vibranium para segurá-la.

Mas, fosse por causa da luva ou da velocidade da ação, Savannah não pareceu reparar nisso, ou simplesmente não se importou.

— Relaxa, James. — Ela riu de canto, ficando totalmente em pé na mureta. — Viver é perigoso, sabe? Mas às vezes vale o risco.

Fez um gesto para que ele subisse também, mas honestamente Bucky só fez isso porque estava preocupado com Savannah prestes a despencar dez andares direto para o chão.

O vento forte fazia com que os fios ruivos voassem, mesmo estando molhados, e Bucky podia ver a pele de Savannah arrepiar lentamente, enquanto ela tinha os olhos fixos em algo lá embaixo.

Ele desviou a atenção, porque ainda não parecia certo ficar olhando o corpo dela quando estava tão exposto daquela forma.

— Então... — Ele pigarreou, focando seus olhos lá embaixo também. — O que estávamos procurando?

— Nada. — Savannah moveu os ombros quando ergueu a cabeça na direção dele.

Bucky franziu as sobrancelhas e ela deu um daqueles sorrisos-sol.

— Quando olhamos daqui de cima todo mundo parece menor, mesmo que a gente sabia que temos exatamente o mesmo tamanho... — Ela começou a explicar, movendo os olhos castanho-esverdeados lá pra baixo outra vez. — É tudo uma questão de perspectiva... É a mesma coisa com os problemas, às vezes eles parecem grandes demais, então precisamos ver a situação de outro ponto. A vida pode ser diferente quando vista de outro panorama.

Ele não soube se tinha entendido, mas preferiu não exteriorizar seu pensamento. Então ficaram calados os dois por um longo tempo, apenas a chuva gelada caindo sem piedade sobre eles... Bucky se perguntou o que estaria passando na mente de Savannah naquele exato momento, enquanto ela olhava compenetrada para os poucos carros que passavam lá embaixo.

— Eu odeio segundas-feiras, sabe? — A ruiva murmurou, quase como se fosse um segredo íntimo.

— Parece que todo mundo é assim ultimamente... — Bucky respondeu, sem entender ao certo porque um comentário tão simples foi dito em um tom que o fazia parecer tão importante.

— É, parece... — Savannah moveu os lábios em um sorriso triste que não lhe era usual. — Mas não é por isso que eu não gosto. Não é por ser o começo da semana e por ter muita coisa pra fazer, é o oposto, nunca tenho nada pra fazer nas segundas. E geralmente estou sozinha. E eu odeio ficar sozinha nas segundas.

Outra vez ele não entendeu, Savannah tinha tantos amigos, como ela podia se sentir solitária?

— Eu não acho que... — Essa frase ficou perdida na garganta de Bucky quando Savannah moveu-se para se sentar na mureta. — Cuidado pra não cair.

Ele a tocou com a mão direita daquela vez, e a falta de uma luva entre eles fez com que Bucky sentisse que a pele de Savannah permanecia quente mesmo sob a chuva gelada.

A soltou devagar e acabou por se sentar também, vendo os olhos castanho-esverdeados focados em um ponto fictício do horizonte, enquanto os pés de Savannah balançavam livres para fora do prédio.

A chuva havia diminuído um pouco, e Bucky não tinha certeza se o clima melancólico que pairava ali estava na garoa fina, dentro dele, ou nas orbes avelãs de Savannah...

— Eu perdi os meus pais em uma segunda-feira. — Ela revelou de repente, e Bucky jamais imaginou que fosse ouvir algo assim.

— Eu... Eu sinto muito. — Disse, tendo que assimilar que alguém tão sol quanto Savannah tivesse qualquer dor em seu passado.

Ela era sempre tão leve, tão luz, como se jamais algo ruim tivesse cruzado seu caminho...

— É, eu também. — A resposta veio acompanhada de um sorriso melancólico.

Bucky não fez perguntas, queria, mas não sentia que devia. Savannah ficou calada por um longo tempo... Lá embaixo a cidade continuava viva e acordada, mesmo com a chuva e o avançado da hora, mas ali em cima eles pareciam isolados em um mundo à parte.

— Eu tinha sete anos... Primeiro ano na escola, meus pais pagavam uma daquelas vans pra me trazer pra casa... — A voz de Savannah veio como um sopro do vento. Seu tom sempre alegre e bem-humorado não estava lá. — Estavam brigando quando eu cheguei aquele dia. Quer dizer, eles brigavam bastante... Mas sempre ficada tudo bem no outro dia.

Ela parou, encarou os próprios pés presa em lembranças que Bucky podia ver que eram dolorosas.

— Papai era um cara legal, ele não fumava, não bebia, ele só trabalhava muito... Diziam que ele era um bom policial. Eu não tenho certeza sobre isso. — Savannah ergueu a cabeça para que seus olhos se perdessem no horizonte. — E minha mãe era... um anjo.

Um sorriso nostálgico nasceu nos lábios dela ao falar da mãe, mas logo se foi. Bucky a viu suspirar, como se seus pulmões pesassem quilos.

— Meu pai não me viu chegando aquele dia, ele estava muito bravo com alguma coisa. — Moveu a cabeça de um lado para o outro como se um pensamento amargo lhe tomasse. — Mamãe me viu e disse que devíamos brincar de pique-esconde. Ela me colocou dentro do armário de casacos na sala e trancou a porta por fora.

Bucky teve um péssimo pressentimento sobre aquela história e seu coração começou a bater em urgência, quase como se ele precisasse correr para impedir que qualquer coisa ruim acontecesse com a pequena Savannah escondida no armário...

— Eles brigaram por muito tempo ainda. Mamãe queria acalmá-lo. Acho que não deu certo. — Savannah piscou algumas vezes, mas dada a penumbra da noite e a garoa fina, Bucky não conseguia ter certeza se as gotas escorrendo pelo rosto dela eram apenas a chuva ou se eram lágrimas pesadas. — Ele dizia que ela era um monstro, uma aberração. E eu nunca entendi...

Ela tremeu, certamente não por causa do vento gelado, sua respiração saiu dos pulmões em pequenos trancos, apenas uma menina assustada que Bucky quis do fundo do coração proteger de toda a dor do mundo.

Deixou que sua mão direita, a de carne e osso, escorregasse um pouco pela mureta até que a ponta de seus dedos tocassem a mão de Savannah.

— Ele atirou nela duas vezes, no peito, com a arma do serviço... no meio da sala. Sem saber que eu estava no armário. — Ela revelou em um fio de voz. Era como se estivesse narrando um filme de terror. — Então ele ficou transtornado, até tentou parar o sangramento, mas acho que ela já estava morta. Então ele se sentou no sofá, coloco a arma na boca... e puxou o gatilho.

— Meus Deus... — Bucky murmurou. Depois de tudo que tinha vivido, de tudo que tinha feito, relatos de violência não deviam causar choque algum e de fato não causavam, no entanto a imagem da pequena Savannah encolhida dentro do armário, vendo todas aquelas atrocidades, pesava em seu coração e lhe impactava como poucas coisas ainda conseguiam.

— Eu fiquei trancada no armário a segunda inteira, sozinha, olhando para o cadáver dos meus pais na sala. — Ela revelou, como se compartilhasse um segredo muito importante. — Eles me encontraram na terça de manhã e ligaram para as minhas tias irem me buscar.

Muitas coisas sobre Savannah fizeram sentido naquele momento, inclusive a forma como ela protegia Beverly...

— É por isso que odeio segundas. Principalmente segundas a noite. — Seus olhos castanho-esverdeados finalmente focaram em Bucky. — E é claro... Eu tenho claustrofobia. Gosto de lugares abertos.

— Eu sinto muito, Savannah. De verdade. Algo assim nunca devia ter acontecido. — Ele declarou, sentindo certa impotência por não poder fazer nada sobre aquilo.

Sentia seu instinto gritando para que protegesse Savannah, mas não havia como proteger alguém de seu próprio passado...

— Desculpa te contar isso. — Ela pediu, dando um meio sorriso constrangido. — É uma história muito triste. Eu só...

— Hey. — Bucky a interrompeu, segurando sua mão e apertando gentilmente. — Tudo bem, você pode me contar o que você quiser, certo? Sempre.

Savannah sorriu, não o sorriso-sol, tampouco o sorriso melancólico de antes, algo novo... Algo que ficou guardado em Bucky como um precioso segredo.

Ele soltou a mão dela lentamente, não que quisesse isso... na verdade queria tocar o rosto de Savannah com a ponta dos dedos para então puxá-la para perto e abraçá-la forte e apertado, como se isso pudesse protegê-la de qualquer coisa no mundo.

— Então você foi criada por suas tias? — Bucky perguntou, porque precisava fugir de seus próprios pensamentos e desejos.

Precisava ensinar seu coração a não querer aquilo que não podia ter...

— Sim, as irmãs mais velhas do meu pai. — Savannah respondeu, recuperando um pouco de seu tom habitual. — Elas eram legais, só não entendiam muito. E eu era uma garota muito problemática.

— Você era só uma criança... — Ele retrucou. Não queria que ela fosse tão dura consigo mesma. — Além disso, olha só você agora. Cheia de luz e felicidade. Você superou.

Ela abriu um daqueles sorrisos-sol e só então Bucky notou que a chuva tinha parado de vez.

— É, eu superei, eventualmente, com muita terapia. — Savannah puxou as vogais da penúltima palavra e riu de canto.

Bucky tentou não fazer uma careta para o “terapia” na frase. Não conseguia se imaginar se abrindo pra um completo estranho...

— Você foi muito corajosa em enfrentar isso. — Ele ponderou, porque em sua mente soava impossível se colocar tão vulnerável na frente de alguém.

— Viver fugindo é fácil, James, mas é uma ilusão. — Savannah respondeu, movendo os ombros. — Eu fugi muito... do meu passado, de casa, de mim mesma, mas fugir não mudou nada. Tem algumas coisas das quais a gente não pode fugir, elas são bagagem. Cedo ou tarde eu tive que ver isso e admitir que eu estava quebrada.

Bucky até teria se identificado com aquela frase, se não houvesse uma grande diferente entre ele e Savannah:

— Você passou por algo terrível, não quer dizer que estivesse quebrada. — Ele sim estava quebrado.

— Todo mundo está quebrado, James, algumas pessoas só são melhores em esconder isso... — Ela declarou com uma simplicidade quase mística.

Bucky digeriu aquilo devagar, não era a forma como ele pensava, por isso pareceu tão estranho, ao mesmo tempo soou verdadeiro de alguma forma.

Mas ainda assim...

— Algumas pessoas estão quebradas demais para serem consertadas. — Claro que estava falando de si mesmo, no entanto no momento em que as palavras saíram de sua boca ele se arrependeu, afinal o assunto não tinha nada a ver com ele.

— Eu concordo. — Savannah respondeu neutra e isso pegou Bucky de surpresa.

— Mas você acabou de dizer... — Ele franziu as sobrancelhas, mas foi interrompido por um sorriso leve.

— Eu não disse que fiz terapia pra me consertar, eu disse que cedo ou tarde tive que admitir que estava quebrada. — Ela colocou uma das pernas dobradas sobre a mureta e se virou um pouco na direção de Bucky.

Ele ainda tinha as sobrancelhas franzidas, incapaz de entender aquela linha de raciocínio.

— Eu não acho que a terapia conserte ninguém, James, ela só te ajuda a aceitar seus próprios cacos e a entender que tudo bem estar quebrado, isso não te torna pior ou melhor que ninguém, isso não te torna menos digno. — Savannah explicou com uma calmaria reconfortante na voz. — A terapia só te ajuda a ver que você não é apenas esses cacos, você é uma pessoa com quem alguma coisa ruim aconteceu, você sofreu um grande impacto e quebrou, tudo bem, acontece, mas você ainda merece ser feliz, ter amigos, ter uma vida... Você merece ter sonhos e desejos, merece correr atrás deles e merece alcançar tudo isso.

Tudo parecia tão fácil sob o ponto de vista dela. Quase como se de fato houvesse uma luz de esperança no fim do túnel... Mas Bucky não conseguia acreditar que tudo aquilo se aplicava a ele.

— Parece simples, mas alguns cacos machucam outras pessoas. — Devolveu, desviando o olhar e encarando a mão esquerda enluvada.

Sem perceber tinha desviado o foco da conversa de novo, afinal nada daquilo era sobre ele, porém Savannah não pareceu se importar com isso...

— Concordo outra vez. Mas a terapia te ajuda a enxergar essas pontas perigosas e afiadas de você mesmo e a ir trabalhando nelas aos poucos e, com o tempo, você passa a ver que um caco pode ser também apenas uma peça. Como uma peça de um quebra-cabeças... — Ela discursou com tanta convicção que Bucky se viu imaginando aquela possibilidade. — E nenhuma peça de um quebra-cabeças é igual, sabe? Todas têm mínimas diferenças, assim como as pessoas: todos estamos quebrados, mas sempre de formas diferentes, menos quebrados, mais quebrados...

Savannah gesticulava enquanto falava, tornando todo que a cercava quase hipnótico. Bucky com certeza estava hipnotizado...

— Sozinhos somos só essa peça deformada e solta no mundo, que não faz o menor sentido, mas a verdade é que sempre tem um lugar onde nos encaixamos, sempre tem pessoas que tem caquinhos que completam os nossos. Não porque passaram pelo mesmo, mas porque somos diferentes e nos conectamos de alguma forma. — Ela sorriu e Bucky pode vislumbrar a vida por aquela perspectiva por alguns momentos... parecia tão bom e certo. — Algumas pessoas se completam e quando mais você se cerca delas mais nítida a figura completa se torna.

Não era apenas sobre se encaixar em padrões pré-moldados, eram sobre encontrar um lugar no mundo que fosse apenas seu, onde você fosse insubstituível, era sobre pertencer, Bucky entendia isso, ele entendia mesmo antes, principalmente antes, porque sempre houve dentro de si a necessidade empírica de fazer parte de algo maior, por esse motivo tinha entrado no exército...

— E às vezes parece muito difícil, eu sei... — Savannah continuou, naquele tom calmo que talvez fosse o bastante para promover a paz em tempos de guerra — Parece que você vai estar sozinho pra sempre e que é uma peça perdida no mundo, mas é assim mesmo, quebra-cabeças podem ser demorados, mas todas as peças se encaixam no fim, elas sempre se encaixam.

Bucky desejou mais que tudo que ela estivesse certa, mesmo que não estivessem falando dele...

— E por isso você está sempre cercada de amigos. — Comentou, tentando voltar ao assunto base.

— Exato. — Ela confirmou, parecendo satisfeita por Bucky ter entendido.

— Parece um modo muito bonito de ver a vida. — Ele admitiu, e no fundo desejou ser capaz de também viver daquele jeito.

— Terapia... — Savannah disse com simplicidade, então riu toda sol de verão.

Bucky sorriu também, desejou que o tempo parasse de correr e que só houvesse ele, Savannah e aquele telhado no mundo, então poderiam ficar ali pra sempre... Não precisariam pensar em nada, porque só haveria o presente, nada de futuro para se preocuparem e sem passado algum que os perseguisse.

— Você devia ser psicóloga. — Ele sugeriu casualmente.

— Não fala pra ninguém, mas eu fiz um ano de psicologia. — Ela sorriu, se aproximando um pouco dele e murmurando aquilo como se fosse um segredo bobo.

— E porque você parou? — Bucky perguntou, se virando um pouco na direção dela e apoiando uma das pernas em cima da mureta também.

— Era caro e eu não tinha notas tão boas no ensino médio pra conseguir uma bolsa, além disso eu não dava conta de trabalhar pra me sustentar e ainda ter que estudar, então eu saí. — Savannah respondeu casualmente, como se fosse nada demais.

— Isso é triste. — Bucky lamentou, porque ela claramente era boa naquilo e de certo teria uma carreira brilhante se tivesse seguido com os estudos.

— Não é não. — A viu mover os ombros nada chateada. — Eu provavelmente não estaria sentada aqui com você agora se tivesse continuado na faculdade. E eu gosto de estar sentada aqui com você.

Ele sentiu vontade de dizer que também gostava de estar ali sentado com ela, mas se manteve calado, algumas coisas era melhor não serem ditas...

— Eu gosto de pensar, e isso não tem nada a ver com psicologia é mais como uma filosofia de vida que eu acabei pegando da Sierra, que cada pequena coisa acontece por um motivo, mesmo as menores, mesmo as piores... — Savannah comentou, desgrudando o cabelo molhado da pele.

— E qual é esse motivo? — Bucky questionou, afinal seria muito bom entender porque toda aquela merda tinha acontecido com ele nas últimas décadas.

— Não sei... — Ela admitiu enquanto ria, mas logo ficou séria e pensativa. — Acho que essa é a graça da vida, descobrir o motivo no fim do caminho... É como uma pegadinha, se você desistir nunca vai saber. E todo mundo quer desistir uma vez ou outra na vida.

Bucky com certeza entendia isso, porque ele próprio queria desistir, talvez fosse a coisa que quisesse com maior força e frequência.

— Eu não imagino você querendo desistir. — Foi honesto sobre isso, porque apesar de tudo que Savannah tinha contado sobre os pais ela ainda era sol, era leve e encarava a vida de uma forma bonita de ver.

Em resposta ela desviou os olhos dele e sorriu de uma forma triste. Respirou bem fundo e negou algumas vez antes de voltar a encará-lo.

— Eu tinha catorze. — Revelou devagar, como se escolhesse as palavras. — Me joguei da ponte do Brooklyn.

Bucky sentiu seu coração parar de bater por um segundo, não conseguiu formular palavra alguma, a simples imagem mental que fez disso lhe causou um tipo de agonia incontrolável. Mas Savannah estava bem ali na sua frente, viva e bem... Ela até riu de canto e revirou os olhos, como quem admite que fez uma grande idiotice.

— Eu acordei no hospital, Sierra tinha me tirado da água, foi assim que nos conhecemos. Ela salvou a minha vida. — Contou, e seus olhos avelãs brilharam em uma nostalgia tocante. — Ela tinha um nome masculino na época, era apenas alguém que estava tentando descobrir a si mesma e começando a cogitar a possibilidade de ser uma mulher trans. Estava cheia dos próprios problemas, mas deixou tudo isso de lado pra pular na água e salvar uma desconhecida total que não tinha um pingo de amor à vida.

Ela riu de canto, e Bucky podia até não entender exatamente tudo que estava sendo dito, mas ele entendia um ato de coragem altruísta quando ouvia sobre um e ele, certamente, podia sentir o carinho que emanava no tom de Savannah quando ela falava de Sierra.

— Então você se apaixonou por ela... — Ele completou e recebeu um sorriso em resposta.

— Lenta e inevitavelmente. — Savannah riu, como uma menina que está apaixonada pela primeira vez. — E os pais dela, os dois pais, são psicólogos, então eu meio que decidi parar de fugir da terapia depois disso, por influência deles. Alguns anos depois, quando Sierra finalmente quis fazer a cirurgia, ela acordou no hospital e eu estava lá e pedi pra ela ser minha namorada. Porque eu sempre fui muito piegas.

A risada constrangida de Savannah preencheu a noite.

— Eu não acho. — Bucky opinou sem conseguir desviar os olhos dela. — Acho uma história bem bonita, triste, mas bonita.

Sentiu um tanto de inveja de Savannah, porque queria um dia ter tido coragem suficiente para fazer algo assim com Steve, quem sabe ter se declarado em uma das muitas vezes que acordaram um ao lado outro... Mas também sentiu inveja de Sierra, não soube bem o motivo, talvez porque quisesse que alguém falasse dele da mesma forma como Savannah falada dela.

— Você ainda a ama? — Perguntou, antes de pensar se devia mesmo fazer uma pergunta tão intima.

Mas Savannah não pareceu incomodada ou ofendida, ela nunca ficava desconfortável com as perguntas dele.

— Acho que uma parte de mim sempre vai amar a Sierra, você não esquece o seu primeiro amor, ele sempre vai ter um lugar no seu coração, sempre vai ser importante... — Ela respondeu e Bucky sentiu que podia dizer exatamente a mesma coisa de Steve. — Mas nem sempre o primeiro é o último, sabe? E nem sempre o primeiro é o maior... No meu caso e no da Sierra, ainda nos amamos, mas não romanticamente ou sexualmente e mais o tipo de amor que se tem pelos amigos e família.

Bucky não sabia como se sentia sobre aquela outra parte, porque ainda não tinha muita certeza se poderia amar alguém como tinha amado Steve, na verdade, ele sequer sabia se era mesmo capaz de amar outra pessoa...

— Eu meio que invejo você. — Admitiu e ganhou um olhar surpreso em resposta.

— Por que?

— Você é muito esclarecida sobre tudo. — Ele explicou, desviando os olhos dela e encarando o horizonte. — Quando você fala tudo parece mais claro e fácil, você é o próprio sol de verão ao meio dia...

Só percebeu que tinha dito algo que talvez não devia, quando o silêncio se tornou uma pausa longa demais. Voltou seus olhos azuis para Savannah e ela tinha um sorriso constrangido nos lábios e o rosto levemente corado.

Porém o que tinha dito de mais?

Eles piscaram ao mesmo tempo, como se estivessem presos na mesma sincronia e Savannah segurou o ar nos pulmões por um longo momento, antes de desviar o olhar e dar uma risadinha sem graça.

— Eu não suporto o verão, sabia? Não suporto calor e tudo que vem com ele. — Seu tom não pareceu tão casual no começo, quase como se ela quisesse disfarçar, mas logo se tornou tão bem-humorado quanto sempre. — Sou muito mais o inverno, o frio, a neve na ponta da minha língua e as guerrinhas de rua com bolas brancas e fofinhas.

Riu de verdade, quase uma criança que anseia pelo natal, mas Bucky fez uma leve careta de desgosto.

— Eu odeio o inverno, queria que fosse verão pra sempre. — Declarou sendo honesto, afinal tinha seus motivos.

— Não! Pelo amor de Deus, não! — Savannah caiu na risada antes mesmo que ele pudesse puxar qualquer lembrança terrível na mente.

E por algum motivo ele riu também, talvez a alegria de Savannah fosse contagiante. Era como se ela fosse de fato o próprio Sol e todo o resto do mundo — incluindo Bucky — orbitassem ao redor dela...

Ainda era difícil acreditar, ou entender, como uma pessoa tinha passado por tanta coisa e ainda assim conseguia ser leve como Savannah. Ela era como a própria esperança encarnada, um raio de luz em meio a escuridão, o sol de verão no inverno, fogo no gelo.

— Obrigado. — Bucky agradeceu, com os olhos presos nela outra vez.

— É você que está aqui me ouvindo faz um tempão, lembra? — Savannah moveu os ombros lhe presenteando com um sorriso.

Bucky respirou fundo e desviou o olhar dela.

— Eu não tenho problemas com as segundas, mas algumas noites não mais difíceis que outras... — Era a primeira vez que dizia aquilo em voz alta.

— Disponha. — Savannah respondeu, enquanto improvisava uma meia reverência torta, já que estava sentada. — Eu estou sempre a um grito de distância.

Bucky sentiu certo alivio por não ser questionado, porque na verdade não se sentia pronto para falar nada mais que aquilo e, ao mesmo tempo, era como se precisasse dizer pelo menos aquilo...

— Na verdade... — Ela corrigiu rapidamente. — Melhor mandar mensagem, porque eu uso fones, então eu não te ouviria.

A risada dos dois acabou se misturando.

— É... você tem que usar fones por causa do seu vizinho chato. — Bucky respondeu e era quase estranho perceber que ainda sabia fazer piadas irônicas.

— Na verdade, ele não é tão chato assim... — Savannah pontuou, pousando seus olhos castanho-esverdeados nele. — Eu me acostumei com ele...

Bucky sorriu um tanto sem graça, ainda era estranho ter alguém flertando tão descaradamente com ele depois de tanto tempo, e sabia que Savannah estava flertando, talvez fosse algo inocente, provavelmente era, mesmo assim o fazia se sentir normal outra vez, e isso era bom... Mesmo que não fosse certo, mesmo que não fosse durar e mesmo que estivesse plenamente ciente de que não os levaria a lugar nenhum, porque não podiam.

Sempre haveria uma distância física entre eles, porque Bucky nunca poderia tocá-la com a mão de vibranium sem que isso levantasse perguntas que ele com toda a certeza não queria responder.

E mesmo assim, mesmo sabendo que de novo estava se aproximando de alguém que nunca teria, Bucky queria ficar por perto de Savannah, queria orbitar ao redor do sol que ela era. Talvez tivesse tendência a gostar daquilo que não podia ter... Por mais que tentasse ensinar seu coração a não se sentir atraído por situações assim.

— Olha só, o Sol está nascendo... — Savannah apontou com um movimento de cabeça — Acho que eu te fiz ficar acordado a noite toda.

O horizonte começava a clarear, tingindo o céu com tons alaranjados que refletiam nos olhos castanhos-esverdeados, formando um espetáculo à parte que Bucky poderia assistir por toda a eternidade.

— Disponha. — Ele repetiu a frase de Savannah. — Estou sempre a um grito de distância.

Savannah sorriu de canto, algo doce e hipnótico que certamente tinha efeitos em Bucky, porque ele podia sentir seus dedos formigarem para tocar o rosto dela, na intenção inocente de afastar uma fina mecha molhada que estava grudada na bochecha corada.

— Você tem que ir trabalhar, não é? — Ela perguntou, mas não pareceu muito satisfeita com isso.

— É... — Bucky moveu a cabeça devagar, lembrando que tinha outros planos na verdade.

— Tem mais cinco minutos pra começar o dia super bem? — Ela jogou os pés de volta para dentro do prédio e deu um pulo da mureta.

— Sim...? — Ele respondeu, um tanto incerto com aquela empolgação repentina.

Savannah parou a alguns metros, virada de frente para o Sol que nascia preguiçoso no horizonte. Arrumou o cabelo primeiro, enrolando no topo da cabeça, então ajeitando a postura, enquanto Bucky tentava não olhar para o corpo totalmente delineado pelas roupas molhadas.

Queria que ela não fosse tão atraente. Tudo seria muito mais fácil...

— Vem, fica aqui do meu lado. — Ela apontou com um gesto rápido e voltou a arrumar a postura.

— O que vamos fazer? — Bucky levantou ainda incerto, dando alguns passos lentos na direção de Savannah.

— Yoga. — Ela respondeu de forma simples.

Bucky a encarou de sobrancelhas franzidas, buscando por uma explicação. Claro que sabia o que era Yoga, só não imagina Savannah praticando algo daquele tipo, muito menos o motivo de ter sugerido isso naquele momento.

— Eu não gosto muito de exercícios, mas Yoga é quase uma meditação, sabe? — Ela deu de ombros. — Costumo fazer quando tenho algum tempo, ou então as terças no estúdio da rua 15. Dizem que trabalha o corpo e a mente de forma interligada e auxilia no controle do estresse, ansiedade e dores no corpo, além de melhorar o sono, não sei se acredito nessas coisas, o que eu sei é que relaxa e dá ótimas fotos para o Instagram.

Bucky riu as prioridades de Savannah, mesmo que não soubesse exatamente o que era um “Instagram”, desconfiou que fosse um daqueles mil aplicativos de celular que tinham como pretexto aproximar as pessoas, mas na verdade só serviam para que elas nunca se conhecessem do modo tradicional.

— Vamos começar com uma sequência simples, pra ser fácil pra você. — Savannah declarou e Bucky sorriu de canto, porque convenhamos o quão difícil Yoga podia ser para alguém como ele?

Parou ao lado dela e se virou para o nascer do sol também.

— Respira bem fundo e acompanha meus movimentos. — Ela ordenou, esticando a coluna, separando um pouco os pés, mas fazendo com que os dedos se tocassem e virando a palma das mãos pra frente. — Essa é a Tadasana, ou Postura da Montanha.

Não foi difícil. Savannah fechou os olhos e respirou bem fundo, antes de começar a se mover tão devagar e suave que era como o próprio vento. Primeiro esticou as mãos para frente e depois as levantou o mais alto possível fazendo todo o corpo se alongar com isso.

— Mantenha a mente limpa e foque na respiração. — A voz dela era calma e cadenciada. — Vamos fazer a Árvore, depois o Guerreiro.

Ela continuou explicando cada movimento enquanto os fazia, tudo muito lentamente, porque tinham que ficaram parados por algum tempo em cada etapa das posições, era quase uma mistura de dança com artes marciais, exigia muito de concentração e equilíbrio, mas era interessante.

— Você tem que respirar, James. — Savannah declarou em certo momento, quando estavam em uma posição que os mantinha equilibrados em uma só perna, enquanto a outra estava flexionada e apoiada na primeira. — Seu pé está torto e as costas tem que ser mais retas.

Obviamente não era tão fácil quando parecia... Os movimentos de Bucky não tinham metade da delicadeza e leveza dos de Savannah, mesmo assim ele gostou mais do que imaginaria, porque tinha uma certa calmaria naquela prática. Não era como treinar um dos muitos estilos de luta que conhecia, era pacifico, algo que não lembrava a guerra ou o sangue...

Acompanhou Savannah nos últimos movimentos então respiram fundo em conjunto para finalizar.

— Muito bem. Agora você está pronto pra começar seu dia e eu estou prontinha pra dormir. — Ela sorriu toda sol de verão e eles caminharam para as escadas.

Desceram em silêncio, Bucky quis perguntar como ela tinha descoberto aquele lugar, mas teve o pressentimento que tinha sido em alguma segunda-feira triste, por isso preferiu deixar o assunto de lado.

Os dois atraíram alguns olhares enquanto atravessavam a rua, afinal ainda estavam molhados e descalços. Além disso Savannah certamente chamava muito a atenção. Bucky teria dado o casaco pra ela, mas ele não usava nada por baixo, então não era boa ideia. Afinal o braço de vibranium chamaria mais atenção do que qualquer outra coisa...

Quando chegaram ao próprio prédio pararam no gramado malcuidado por um momento. Bucky se sentiu estranho, sem saber o que devia dizer, mas Savannah tinha aquela postura leve e despreocupada, que fazia tudo parecer muito simples. Sorriu e deu dois passos para mais perto dele.

— Até mais, James. — Se colocou na ponta dos pés e logo Bucky sentiu os lábios dela em sua bochecha direita. Um beijo inesperado e muito doce.

Os olhos dos dois se cruzaram e ficaram presos um no outro quando ela se afastou um passo.

— Até, Savannah... — Bucky respondeu, tentando acalmar seu coração batendo apressado, mas isso foi inútil quando ela sorriu antes de dar mais alguns passos para trás.

Queria ter dito mais alguma coisa, algum gracejo digno dos anos 40, mas os dois apenas se separaram ali, cada um seguindo para o próprio bloco.

Bucky subiu as escadas devagar, era como se ainda pudesse sentir os lábios quentes de Savannah em seu rosto... e por algum motivo não pode evitar sorrir.

Quando chegou ao seu apartamento, fechou a porta e seguiu direto para o banheiro, assim não correria o risco de molhar o chão. Alpine dormia bem no meio do colchão, enrolada como uma bolinha de lã.

Tomou um banho rápido e bem quente, logo depois de estender a roupa. Saiu do banheiro alguns minutos depois com a toalha na cintura enquanto o vapor se espalhava pelo quarto.

Olhou no canto esquerdo, onde as duas mochilas estavam prontas para a partida que tinha planejado. Alpine se espreguiçou toda e caminhou a até a ponta do colchão, lhe olhando com suas grandes orbes azuis, como se estivesse em expectativa.

Bucky sorriu pra ela, pegou as duas mochilas no chão e as colocou de volta no armário, pegando algumas peças de roupa adequadas para o trabalho.

— Acho que essa vai continuar sendo nossa casa por um bom tempo, Alpine. — Acariciou a cabeça da gatinha que ronronou satisfeita.

Savannah Devenport estava certa: fugir era fácil, mas era apenas uma ilusão. E Bucky estava cansado disso, daquela vez ele queria ficar...

Notas finais
Eu tenho que dizer que esse é o meu capitulo preferido até aqui, não só porque agora Savky estabeleceu uma conexão emocional de verdade, mas também porque muito do que vimos aqui pavimenta grande parte da fic. Bucky decidiu ficar apenas porque sim - progresso que fala - (mas tbm quem é que seria besta de ficar longe de um mulherão da porra feito a Savy, neh?) Ai gente, eu quero bancar a controlada, mas a verdade é que surper surto e super sou iludida por esses dois ELES SÃO MUITO FOFOS, NÃO AGUENTO! O próximo se chama "Gus", e vamos conhecer o meu neném August. Volto em breve Beijos e até!