Notas iniciais
Hey! É eu sei, demorei mais do que o costume dessa vez, minha ansiedade anda muito atacada e por isso eu não tenho conseguido me manter concentrada na escrita por muito tempo, mas o importante é que eu tô de volta e com um capitulo giganteeee, então preparem os corações porque tem de um tudo. Boa leitura!

— Não acredito que você fez isso... — James declarou, movendo a mão no ar e seu tom indignado só fez com que Savannah risse ainda mais.

Estavam no novo apartamento dos amigos, tinham sido os primeiros a chegar para os últimos preparativos da surpresa que Gus faria para TJ. Abby se atrasaria, mas os dois não se importaram com isso, afinal não havia muito o que fazer ali, era mais sobre gelar as bebidas e alguns últimos retoques, coisa que James e Savannah fizeram rapidamente, sequer precisariam ter chegado tão cedo, porém Gus estava impaciente, por isso não viram por mal atender à vontade dele.

— Ah... Foi engraçado vai... — Ela tentou apaziguar os ânimos do Sargento, mas a verdade é que ria tanto que mal conseguia formar as palavras naquele momento.

— Não. Foi terrível. — James retrucou sério, o que só fez com que Savannah risse ainda mais. — Piadas deviam fazer as pessoas riem e deviam ser curtas. Você me contou essa história do garoto com o papel por cause dez minutos, pra no fim ele queimar...

Ela tentou controlar a crise de riso. Tinham entrado no assunto piadas pra passar o tempo e Savannah amava a piada do papel, exatamente porque o final sempre irritava a outra parte.

Eu estou rindo. — Devolveu, atravessando a sala para se aproximar de James, que estava encostado na janela com os braços cruzados e a expressão fechada.

Ela estava descalça, não fosse pelas meias ¾, brancas com a barra de arco-íris, que lhe subiam até os joelhos, o restante das pernas estavam de fora, por causa do shorts jeans desfiado, assim como a barriga estava exposta, graças aos cortes estratégicos no moletom da mesma cor e estampa das meias. Ao fundo uma de suas playlists tocava no aleatório, pré-animando o ambiente vazio. Savannah estava feliz, e como não estaria depois do beijo de tirar o fôlego que tinham compartilhado algumas horas antes?

— Mas eu não. Eu estou irritado e frustrado. — James jogou de volta, ainda parado na mesma postura.

Não tinham falado sobre o beijo, mas Savannah não sentia que precisavam, não quando estavam tão à vontade com aquela situação, que provaram dos lábios um do outro mais três vezes antes de saírem do prédio, parecia certo estarem juntos daquela forma, sendo amigos e algo mais que isso.

Era tão natural quanto o Sol nascendo depois de uma noite escura...

Tudo estava bem. E Savannah via que James estava feliz também, mesmo considerando que naquele momento ele mais parecia um garotinho emburrado por ter sido ludibriado em uma brincadeira infantil.

— Ah, olha só pra ele. Tudo bravinho. — Ela debochou e segurou o rosto dele com as duas mãos, sentindo a barba rala pinicar suas palmas. Devia ser crime o quanto James estava gostoso com aquela cara de contrariado... — Agora a gente sabe com quem a Alpine aprendeu.

Os olhos azuis focaram nela, James até tentou manter a expressão fechada, mas acabou rindo de canto, enquanto negava algumas vezes.

— Você é oficialmente a pior contadora de piadas que eu conheço, Boneca. — Ele retrucou e então se moveu tão rápido que ela sequer teve tempo de prever isso.

Seus pés não estavam mais no chão, um gritinho surpreso escapou de sua garganta, James a levantou com uma facilidade irrisória e a jogou sobre o ombro direito. E então era ele quem ria, enquanto Savannah balançava os pés no ar como uma criança birrenta que é carregada para longe da diversão.

— Não faz isso, James. — Ela meio gritou, meio riu. — Eu peço desculpas. Eu digo o que estava escrito no papel.

Processou as mãos geladas e firmes de James em suas coxas, a mantendo perfeitamente segura nos ombros largos por mais que ela se debatesse. Talvez fosse um momento estranho para ter um pensamento tão improprio, mas Savannah não pôde deixar de perguntar a si mesma o que mais o Sargento podia fazer com aquelas mãos incríveis?

Não teve tempo de imaginar a resposta, porque foi repentinamente jogada no sofá, sentindo o acento macio acolher suas costas.

Bucky viu os fios ruivos se espalhem no estofado claro, formando o contraste perfeito de cores, como uma pintura renascentista, porque era isso que Savannah era, uma obra de arte; o sorriso-sol que ela exibia naquele momento devia estar exposto em pinturas nos mais nobres museus do mundo e os olhos brilhantes, com as íris perfeitamente mescladas entre castanho e verde, seriam objeto de estudos acadêmicos, assim como era o sorriso de Mona Lisa. Cada curva do corpo dela estaria esculpida em mármore, uma estátua cultuada como eram as de deusas gregas e, ainda assim, nada disso faria jus a Savannah, porque a luz que ela emanava não poderia ser capturada por nenhum artista, sua essência nunca poderia ser impressa em uma imagem, não importava quão futurística fosse a câmera.

Certas coisas só podiam ser descobertas, admiradas e usufruídas por aqueles que tinham o privilégio de poder orbitar ao redor dela...

Bucky se curvou sobre ela, a mão direita apoiada no encosto e a de vibranium no braço do sofá, um pouco acima da cabeça de Savannah, encaixou o joelho entre as pernas dela e aproximou o rosto.

— Então... O que estava escrito no papel? — Estreitou os olhos, mas honestamente sequer estava mesmo pensando na piadinha boba, não mais.

Ainda era um pouco surreal que estivessem ali daquele jeito, porque menos de vinte quatro horas antes Bucky se recusava a ter qualquer desejo improprio com Savannah, se recusava a pensar a nela de qualquer outra forma que não fosse apenas uma amizade inocente. E então, agora, tudo que ele queria era sentir o gosto dos lábios dela outra vez, tudo que conseguia pensar era o quanto Savannah estava linda naquele dia. A pele dela, exposta em lugares tão atrativos, parecia implorar por um toque, ou talvez fossem as mãos dele que implorassem por qualquer contato com ela.

Deus, e aquelas meias? Bucky não fazia ideia do motivo de terem tanto apelo nos instintos mais primitivos dele, mas com certeza tinham...

Savannah riu de canto, os olhos avelãs presos nos azuis, havia algo de febril nela naquele momento e internamente o Sargento se perguntou: quando o clima tinha mudado tão drasticamente?

Ela se moveu, apoiou-se nos cotovelos para erguer um pouco o tronco na direção dele.

— Eu. — Savannah beijou-lhe o queixo. — Não. — Subiu para a bochecha. — Faço. — Os lábios se tocaram por um breve momento. — Ideia.

Ela riu então, tendo a ousadia instigante de beijar o pescoço de Bucky lentamente, antes de deixar o corpo cair no sofá outra vez. Ele tentou controlar o arrepio quente que abateu todo seu corpo em uma reação em cadeia, mas foi inútil, ainda mais quando os olhos avelã de Savannah estavam focados nos seus com uma intensidade flamejante.

— Então esse é o seu plano? — Sorriu de canto, descendo um pouco mais o corpo na direção dela. — Comprar paz com beijos?

— Eu não sei... — Savannah prendeu um sorrio ladino com a ponta dos dentes e jogou os braços sobre o ombro de Bucky. — Está funcionando?

Ela o puxou para mais perto de si, fazendo com que os corpos se colassem, mesmo que Bucky ainda tivesse o peso apoiado no braço de vibranium, já que tinha deixado o direito livre naquele momento.

— Talvez... — Ele admitiu, descendo os olhos azuis para os lábios fartos dela.

Savannah arrumou o corpo no sofá, movendo as pernas para que Bucky se aconchegasse entre elas, o que, para ele, pareceu irresistivelmente improprio, mesmo que estivessem totalmente vestidos.

Seu polegar direito correu os lábios dela, enquanto o olhar azul alternava entre aquele ponto e as íris castanho-esverdeadas que faiscavam em expectativa. Enquanto isso o acariciar sutil de Savannah na nuca de Bucky enviava arrepios através de toda coluna dele.

Sua mão escorregou para o pescoço dela antes que finalmente as bocas se tocassem, leve e suave, dois breves segundos e se afastaram de novo... Bucky umedeceu os lábios e Savannah respirou fundo, para que então ambos se movessem novamente de encontro um ao outro, em um beijo que nada tinha de delicad, seja pela forma como as línguas se moviam em conjunto, ou por causa do jeito imperativo que Savannah segurava o fios castanhos, puxando o Sargento ainda mais para perto.

A mão direita dele desceu pelo corpo feminino, até tocar a pele quente e exposta da cintura, onde a curvatura natural parecia se encaixar perfeitamente na palma de Bucky. Savannah se movia junto com o beijo e com o toque que ela espalhava por pescoço, ombro e braços, isso provocava os corpos a roçarem um no outro, fazendo com que as peças jeans que os separavam parecessem inapropriadas para o momento.

Enquanto os dedos de Savannah permaneciam emaranhados nos fios de Bucky, a mão que estava livre seguiu a linha do braço de vibranium dele, o puxando delicadamente, fazendo com que soltasse o sofá. Isso fez com que os corpos ficassem ainda mais próximos, e ele se encaixasse definitivamente entre as pernas dela, mas o impacto disso não foi nada comparado ao arrepio fervente que correu todo o corpo de Bucky quando Savannah levou a mão dele até sua coxa e o metal tocou a pele quente dela. A experiência extra-sensorial de tocá-la daquele modo mais íntimo com a mão esquerda, foi totalmente diferente de qualquer outra que já tinha experimentado...

Testou como era escorregar o toque em todo comprimento da coxa, seu coração apressado dentro do peito e todo o corpo envolvido naquele momento, de modo teve que soltar a boca de Savannah, para prestar total atenção no que fazia. Talvez não tenha sido uma boa ideia, ou talvez tenha sido uma ideia boa demais, porque a respiração pesada dela atingiu seu pescoço e os lábios tocaram aquele mesmo lugar, fazendo com que Bucky apertasse a coxa dela sutilmente sob os dedos de metal. O gemido que ela soltou foi tão inesperado que o primeiro impulso dele foi apenas mover o corpo contra o dela, forte e firme, fazendo que que isso apertasse a ereção crescente sob seu jeans de uma forma torturante e deliciosa.

Bucky mal se lembrava de como era isso, de como era ter desejo puro e visceral aquecendo suas veias e nublando sua mente, de como era querer o corpo de outra pessoa daquele jeito tão instintivo. No entanto lembrava muito bem do significado de respeito, paciência e decoro, principalmente com garotas... Lembrava de onde estava e, acima de tudo, de com quem estava.

— Savannah... — Murmurou, muito mais rouco do que imaginava que estaria. Encontrou os olhos dela então, enquanto tirava as mãos do corpo dela e voltava a se apoiar no sofá. — Acho que a gente devia...

— Parar, antes que os donos da casa cheguem e flagrem a gente se pegando no sofá não-inaugurado deles? — Ela riu, mas sua respiração ofegante e a voz baixa passavam a mensagem oposta do humor. Além disso, as pupilas dilatas nos olhos quentes, denunciavam a excitação dela, tanto quanto Bucky poderia ser denunciado pelo que estava preso em sua calça jeans.

— Algo assim... — Ele concordou, mas não se afastou ou tirou os olhos dela.

Savannah era magnética, Bucky tinha toda a certeza que jamais havia conhecido ou encontrado qualquer outra pessoa como ela, mulher ou homem. Generosa, espirituosa, bem-humorada, talentosa, humilde, inteligente de um jeito não tradicional, perspicaz e linda...

Essa última não era a qualidade mais importante nela, mas seria um hipócrita se dissesse que era algo que conseguiria ignorar, porque tinha reparado nisso desde a primeira vez que a viu.

Savannah assentiu, como se entendesse e concordasse com Bucky, deviam parar, não só por estarem indo rápido demais — de um jeito que ele sabia não ser educado ou certo com uma garota — mas, acima disso, estavam indo rápido demais no lugar errado.

— Entendi... — Ela disse neutra, mas suas mãos disseram o contrário, quando se moveram pelo corpo de Bucky.

Savannah usufruiu da pequena distância entre eles e escorregou os dedos sobre a camiseta que Bucky usava, encontrando a barra próxima ao cós da calça e subindo o toque para o abdômen definido, contornando cada músculo com uma lentidão tortuosamente excitante.

— Boneca... — Ele sussurrou uma advertência, que mais pareceu uma súplica em seu tom baixo e rouco.

— Eu não estou te segurando, Sargento... — Savannah soprou de volta e o sorriso de fogo em seus lábios fartos era uma tentação quase impossível de resistir.

O toque quente subiu pelo abdômen de Bucky e passeou pelo peitoral. A camiseta dele, já erguida, e as pernas dobradas de Savannah faziam com que suas coxas tocassem a pele do quadril masculino, e o mover mínimo dos corpos espalhava arrepios por toda a parte.

— Só porque você não está me segurando, não significa que não esteja me prendendo... — Bucky confidenciou, tentando não ceder ao desejo de impulsionar o corpo contra o dela, apenas pelo prazer que esse contato lhe causaria.

— Pelo que eu sabia você é bem forte. — Savannah devolveu, descendo novamente as mãos para o abdômen dele, ao mesmo tempo em que impulsionava um pouco o corpo, apenas para que seus lábios quentes tocassem a pele do pescoço de Bucky.

— Mas você é mais poderosa do que imagina... — Ele fechou os olhos, usufruindo das sensações alucinantes que dominavam seu corpo.

Ela se afastou e sorriu, um daqueles sorrisos de fogo que Bucky tinha acabado de conhecer e que tinham algum tipo de poder afrodisíaco sobre ele. Sentiu os dedos dela descerem mais, tomando um caminho perigoso que ele sabia exatamente onde levaria...

Uma parte muito especifica de seu corpo implorou pelo toque que Bucky antevia, pulsou por isso, e fez com que ele prendesse a respiração. Mesmo assim a sanidade e o decoro ainda lhe falavam mais alto, não era que não quisesse... Caramba queria e muito, mas não ali, não daquele jeito apressado, não na casa de outra pessoa, no sofá de outra pessoa, correndo o risco de ser flagrado.

Não que isso fosse diferente de qualquer outra experiência sexual que tivera, tanto com garotas quanto com rapazes; sempre às pressas, sempre com medo de ser flagrado, por pais, irmãos, familiares, ou pelos colegas do exército... De beijos curiosos pelo Brooklyn, amassos na roda gigante e na casa do terror, mãos bobas em cômodos aleatórios com as portas abertas, até o simples e rude alivio físico imediato nas tendas do acampamento do pelotão, tudo sempre foi daquele jeito para Bucky, não era ruim, longe disso, e ele nunca se importou com isso, sempre esteve bom. Mas Savannah era... diferente.

Ela merecia mais, não se considerava um cara romântico, mas queria ao menos que fosse em um lugar privado, intimo. Queria que fosse importante, porque ela era importante.

Segurou as mãos femininas então, porque não queria que o desejo em seu corpo lhe traísse, e a puxou junto com ele para o chão...

Savannah foi pega totalmente de surpresa pelo movimento repentino, mesmo que seu corpo não tivesse sentido impacto algum quando as costas de James bateram no chão, por causa da forma firme como era segurada.

Suas mãos estavam entre as dele, e suas pernas uma de cada lado do corpo masculino. Ela riu por fim, e James beijou seus dedos com carinho. Soube que era um sinal de que deviam parar, na verdade parte de si até esperava por isso... No entanto aquele seu outro lado desejava uma porção de outras coisas nada apropriadas, mas muito prazerosas.

Podia sentir a ereção de James abaixo de si, isso instigava seus pensamentos de formas muito criativas. Estava curiosa e excitada, e sabia que isso era uma combinação perigosa, porque queria tocar, provar e fazer outras tantas coisas... algumas das quais nunca quis fazer com outro homem.

Quer dizer, nunca tinha gostado de um cara como gostava de James, e nunca tinha sentido tanto tesão por outro cara da forma que sentia por ele...

Os olhos azuis gélidos e um tom mais escuro, que lhe observavam daquele jeito tão intenso, faziam com que Savannah desejasse descobrir como James agiria caso ela resolvesse rebolar só um pouquinho no colo dele. Seu interior se contraiu em expectativa diante do pensamento.

Mas ela reprimiu o impulso, porque estava claro na postura dele que o Sargento não queria dar aquele passo ainda, o que de alguma forma era fofo. E mesmo assim ele não se afastou totalmente, isso era um enorme progresso.

— Por que uma raposa? — Viu as íris azuis analisarem sua tatuagem e sorriu. Era óbvio que James estava tentando focar em qualquer outra coisa.

Resolveu que podia facilitar a vida dele, porque, por mais que o desejasse intensamente, não queria forçar limites. Desceu do colo masculino então, e deitou-se ao lado de James no tapete de pelo curto no meio da sala. Ele estendeu o braço e ela se aninhou ali, jogando uma perna por cima da dele e apoiando a mão sobre seu peitoral.

— Eu sonhei com ela quando era mais nova, sempre sonhava com ela quando estava triste ou brava. — Começou a contar em um tom leve, sorvendo o perfume de James de forma automática e inevitável. — Uma raposa saindo do fogo... às vezes eu sonhava com ela caminhando na praia. O que é bobo, porque o que uma raposa estaria fazendo na praia, certo? — Riu de canto, acariciando o peitoral dele por cima da blusa distraidamente. — E algumas vezes ela corria no gelo, patas afundando na neve, como se ela fosse tão quente que pudesse derreter o próprio inverno. — Ergueu um pouco a cabeça para que seus olhos focassem nos azuis. — Em raras vezes ela corria até um lago, e quando ela aproximava o focinho na água, não era mais uma raposa...

— Era você. — James completou certeiramente e Savannah sorriu enquanto assentia.

— Exato. — Ela pode sentir os dedos do Sargento se emaranharem no seu cabelo, no mesmo ritmo que ela o acariciava. — Então quando eu finalmente senti que podia virar toda a página da adolescente autodestrutiva que eu era, fiz a tatuagem, é um símbolo de que não importa o que aconteça, não importa o quanto a situação esteja ruim, eu sempre vou sair do fogo.

— É um sonho muito bonito, e você deu a ele o melhor dos significados. — Ele respondeu e os olhos deles se encontravam novamente. Savannah pôde ver a tristeza pintar as orbes azuis por um instante, ela soube que era sobre os sonhos que James tinha.

Porque não eram bons ou bonitos...

— Não é tão bom quanto os sonhos que eu tenho com você. — Ela revelou bem-humorada e isso foi o bastante para espantar a tristeza dos olhos dele.

— Você tem sonhos comigo? — James franziu as sobrancelhas e se moveu para encarar Savannah um pouco melhor.

— Talvez... — Ela respondeu enigmática, segurando o sorriso com a ponta dos dentes.

Não era algo que pretendia contar, mas foi o primeiro assunto que lhe veio à mente para espantar a tristeza do Sargento. Mas claro que não diria que tinha sonhos molhados com as coisas que ele podia fazer com as mãos e especialmente com os dedos...

TJ tinha uma teoria engraçada e muito inapropriada sobre o braço de vibranium, e certamente era aquilo que tinha desencadeado os sonhos de Savannah. Ela achava que TJ estava viajando, mais do que Abby viajava nas teorias da conspiração, mas no fundo tinha certa vontade de perguntar aquilo para James.

Mas não faria isso. Não naquele momento pelo menos...

— Talvez? — Ele repetiu um tantinho contrariado, o que só fez com que Savannah sorrisse mais. — Então você não vai me contar?

Savannah se moveu, levantou o tronco para que seu rosto ficasse acima do dele.

— Não... — Meneou a cabeça devagar e se curvou um pouco para sussurrar no ouvido de James: — Mas eu posso te mostrar qualquer hora dessas, Sargento.

Ouviu a risada rouca que escapou da garganta dele e todo seu corpo arrepiou.

— Isso é uma promessa, Boneca? — James perguntou, correndo os dedos por parte das costas dela que estavam expostas.

— Uma proposta, na verdade... — Savannah deixou no ar e os olhos deles se encontraram.

Ela prendeu o ar, precisou lembrar de limites, mas nem isso a impediu de beijá-lo lenta e apaixonadamente, mesmo que por apenas alguns momentos. Quando sentiu que seu interior fervia em desejo, se afastou antes que perdesse o controle dos limites que estava tentando respeitar.

— Me conta como as coisas funcionavam nos anos 40? — Pediu, repentinamente, se sentando no tapete apenas pra que isso tirasse o foco da excitação que corria seu corpo.

— Que tipo de coisa? — James também se sentou e logo ambos estavam encostados no sofá.

— Garotas, garotos, namoro... todas essas coisas. — Ela moveu os ombros, tentando dar um tom natural para a conversa.

Nunca perguntava nada sobre a vida de James, não queria ser invasiva, mas como não achou aquele um assunto tenso resolveu arriscar.

— Era normal. — Felizmente o Sargento não pareceu ofendido com a curiosidade, embora soasse um pouco confuso, quase como se não soubesse o que responder.

— Seu normal, pode não ser o meu normal, James. — Savannah riu, atraindo os olhos azuis para si.

— Não tinha aplicativos de encontro. — Ele respondeu, bancando o sério.

— Jura? — A ironia dela fez com que James risse de verdade e Savannah se pegou apaixonada pelo som que se espalhou pelo ambiente...

— Eram dois opostos, sabe? — Ele moveu os ombros e então desviou os olhos dela como se estivesse perdido nas lembranças. — Garotas e garotos. Muito lento e muito rápido, muita conversa e conversa nenhuma... As meninas queriam compromisso antes de qualquer coisa e os caras queriam todas as coisas para depois fingir que nunca tinha acontecido.

— Bom, então se envolver com homens nos anos 40 não é tão diferente de se envolver com homens nesse século. — Savannah lançou com um sorriso, mas no fundo estava tentando imaginar James naquela situação...

Namorando mocinhas na porta de casa e se pegando com soldados uma noite antes de ir para o campo de guerra. Pareciam duas realidades tão distintas dentro de uma mesma vida que soaram incompletas de um forma que Savannah não conseguia explicar.

— E qual dos dois você preferia? — Ela perguntou, tentando conhecer o Sargento Barnes de antigamente um pouco melhor.

— Nunca pensei nisso. — Ele franziu as sobrancelhas, como se de fato fosse a primeira vez que estivesse pensando no assunto. — Com caras era mais sobre o “agora”, o proibido... de noite fazíamos coisas que ninguém podia saber e de manhã, provavelmente, teríamos uma briga idiota na frente de todo mundo, porque eles precisavam provar o quanto eram machos. Não que eu aprovasse ou quisesse isso, mas era como todo mundo agia. Era como se tivesse um código de “o que acontece na guerra, fica na guerra”, e isso não influenciasse na vida real, eles só esqueciam de lembrar que aquela era a nossa vida real. Mas enfim...

Savannah achou aquela realidade fria e horrível, mas sabia que era como muitos homens ainda lidavam com a sexualidade. Ficou feliz de saber que James não aprovava aquele comportamento, ele parecia muito resolvido com a própria sexualidade, e considerando a época na qual tinha vivido isso dizia muito sobre ele.

Um homem a frente de seu tempo...

— E estar com garotas era legal, sair, rir, conversar sobre a vida, dançar... Vinha com uma sensação de romantismo maior, encontros nos parques do píer e bailes noturnos. Mas também tinha todas as limitações e regras... — James continuou e Savannah se pegou invejando isso, mesmo que se sentisse o um tanto boba por fazê-lo — Era como dois lados da mesma moeda.

Ela percebeu que era exatamente como tinha imaginado, uma vida incompleta...

— E você? Qual prefere? — James devolveu a pergunta e a resposta instantânea na mente de Savannah foi: Você. Eu prefiro você, Sargento.

— Eu acho que gosto das pessoas pelo que elas são acima de tudo, o gênero não importa muito. Mas se não tivesse outra opção a não ser escolher... eu diria garotas. — Ela decidiu falar no geral ao invés de ser tão específica como seu pensamento tinha respondido. — A maioria dos caras desse século são idiotas.

— A maioria era idiota no século passado também. — James concordou e Savannah se pegou presa nos olhos dele por alguns momentos.

— Menos você... Você é um em um milhão, Sargento. — Declarou e isso o desconcertou.

Ele moveu os ombros e fez um gesto displicente com as mãos, como se aquilo fosse uma grande besteira e Savannah resolveu focar na conversa de novo:

— Então você tinha uma namorada, uma noiva, sei lá...?

O pensamento de que ele tinha deixado uma mulher pra trás, com um anel no dedo, quando foi para a guerra era estranho, não era ciúmes, afinal Savannah sabia melhor que ninguém que pessoas tinham passado e que James tinha décadas de história, era um tipo de sentimento que ela não soube bem definir naquele momento...

— Não mesmo. Compromisso era uma coisa muito séria, com certeza eu nunca quis algo assim. — James foi enfático e então focou os olhos em Savannah e pareceu constrangido de repente. — Quer dizer, eu sabia que um dia eu teria que me casar, formar uma família, ter filhos... Mas honestamente nunca fiz planos sobre isso.

Savannah suspirou aliviada, era uma reação idiota, mas não foi algo que pôde controlar.

— Parece chato viver em uma realidade em que você tem que planejar tudo, ás vezes é melhor só deixar rolar pra ver. — Ela lançou tocando, o braço dele, que estava apoiado sobre o sofá, apenas por queria o contato. — Não dá pra planejar o amor, ele acontece naturalmente.

Outra vez castanhos-esverdeados e azuis ficaram presos por uma infinidade de segundos. Savannah podia sentir o coração batendo apressado no peito, quase como se dissesse algo que ela não conseguia decifrar.

— Aposto que você devia ter muitos caras fazendo fila pra brigarem com você pela manhã e muitas pretendentes a serem suas esposas. — Brincou, descontraindo o clima e James riu de canto.

— Eu tive minha época... — Ele se gabou e Savannah pode constatar que aquele tom de fato combinava com o Sargento. — Os caras sabiam que eu era “bom de briga”. Já as garotas, eu não tenho ideia de por que gostavam de mim, eu não tinha uma reputação tão boa, além disso eu não era um bom partido.

— Como não...? — Savannah devolveu indignada. Era só olhar pra James e ver a definição de “bom partido”.

— Como você disse outro dia, eu era todo duro. — Ele respondeu rindo e é claro que ela maliciou a frase. Diferente do dia anterior, agora Savannah sabia, que ele de fato era todo duro mesmo... — Às vezes Steve e eu saiamos com nada mais que o dinheiro da passagem. — Ela entendeu o sentido da frase e tentou não se incomodar com a menção do Capitão Rogers. — Mas as garotas me achavam bonito e charmoso, e já que eu não pretendia conhecer o pai delas, isso era o bastante.

— Eu estou começando a acreditar que você era um cretino, James. — Savannah jogou debochada e só então percebeu que todo aquele tempo ainda estava fazendo carinho do braço direito dele.

— Depende do ponto de vista. — Dava pra sentir que ele estava confortável ali com ela, e Savannah adorava isso. — Mas eu nunca enganei ninguém, nunca fiz promessas vazias.

— Duvido. Nunca contou uma mentirinha pra usufruir da honra de uma mocinha? — Ela estreitou os olhos desconfiada, mas James negou sério:

— De jeito nenhum, “usufruir da honra de uma mocinha” significava casamento. E eu não queria nenhum pai furioso atrás de mim.

Savannah franziu as sobrancelhas, estava mais interessada que nunca naquele momento.

— Então o que você fazia? — Perguntou, tentando soar casual.

Os olhos azuis de James focaram nela, Savannah viu que ele não esperava pela pergunta e que ficou um tanto constrangido, ela já estava pensando em puxar outro assunto quando ele finalmente decidiu responder:

— Eu era muito criativo, pra manter todas as honras intactas...

As palavras saíram da boca de James devagar, mas fizeram sentindo bem rápido na mente de Savannah, ela sorriu.

— Nada de sexo heretonormativo então. — Concluiu com a naturalidade de quem fala do tempo.

— “Sexo heteronormativo”? — James franziu as sobrancelhas para o termo e Savannah achou aquela curiosidade muito fofa, em contrapartida, a palavra “sexo”, na boca e na voz do Sargento, soou umas dez vezes mais obscena do que deveria.

— O único sexo que homens cisgênero e héterossexuais acham que existe. — Ela moveu os ombros como se não fosse nada demais, porque de fato não era, mas isso ainda não pareceu esclarecer muita coisa para James. —O sexo tradicional, sabe? Aquele pra fazer bebês.

— Ah, então tem um nome pra isso... — Ele moveu a cabeça devagar e encarou os próprios dedos.

Savannah notou que James estava constrangido com isso, quase como se fosse algum tipo de desvantagem ou vergonha. Ela achava um pensamento bobo, mas o Sargento tinha crescido em meio a uma sociedade quadrada, então fazia sentido que pensasse assim. Ele só precisava atualizar um pouco as convicções.

— Tem um nome pra tudo nessa vida, quando não tem a gente inventa. Mas nem fica se achando o floquinho de neve. Muita gente sexualmente ativa nunca fez sexo héteronormativo. — Ela debochou, colocando humor e leveza no assunto.

James assentiu algumas vezes, mas não pareceu muito convencido.

— Acho que agora a gente pode colocar isso na listinha de coisas que temos em comum, junto com odiar pizza de abacaxi. — Ela completou por fim e isso atraiu os olhos azuis, surpresos e curiosos, em sua direção.

Viu quando ele franziu as sobrancelhas confuso com o que ela tinha acabado de dizer.

— Sierra foi minha primeira namorada, e, embora eu fosse apaixonada por ela há um tempo, nosso relacionamento só começou de fato depois da cirurgia de resignação. Além disso, como eu disse, eu prefiro garotas. — Ela moveu os ombros como se fosse bem simples. — E sim, eu já saí com vários caras, mas não dá pra enfiar essas porcarias que a gente encontra no tinder em qualquer lugar.

Ela riu da própria piada, James não, na verdade ficou ainda mais sério.

— Então você é... — Ele começou, mas foi imediatamente interrompido.

— Se você me ofender dizendo “virgem” eu vou socar sua cara. — Savannah apontou e isso sim fez com que James sorrisse de canto. — Virgindade é um conceito ultrapassado, respeito as mulheres que ainda acreditam nisso, mas pra mim foi só uma coisa inventada pra controlar a independência feminina. E, é como você mesmo disse “eu sou muito criativa”. Até mais que você na verdade.

James riu de verdade daquela vez, os olhos presos em Savannah, como se ela fosse algo hipnótico e celestial, como uma estrela ou o próprio Sol. Ela não entendia aquele olhar antes, mas naquele momento entendeu, porque o colar pendurado em seu pescoço era um lembrete constante das palavras do Sargento.

“Você é o meu Sol, Boneca.”

Mesmo um “eu te amo” não seria tão impactante e romântico quanto aquela frase, porque na mente de Savannah soou muito importante. Por que ninguém podia viver sem o Sol...

— Mais que eu? De jeito nenhum. Eu tenho cem anos, acho que eu meio que inventei a criatividade. — James meio se gabou, meio debochou, usando um tom bem-humorado que combinava muito com ele.

Savannah riu, se aproximando um pouco mais dele e jogando os braços sobre os ombros largos, enquanto ficava de joelhos.

— Isso é um desafio, Sargento? — Perguntou insinuava e logo as duas mãos de James estavam em sua cintura.

Ele puxou para o próprio colo sem qualquer problema, como se Savannah não pesasse nada, ficaram cara a cara então, ela com um joelho de cada lado do corpo masculino e ele com as duas mãos direto na pele dela.

— Como foi que você disse mesmo...? — James fingiu pensar e então repetiu as exatas palavras de Savannah. — “É uma proposta, na verdade”.

Ela sorriu, já com os lábios contra os dele, sentindo as mãos frias subirem por seu corpo, passando por suas costelas por baixo do moletom cortado que usava, e enviando arrepios através de sua espinha. Foi nesse momento que a campainha tocou.

— Acho que eles chegaram... — James murmurou e Savannah assentiu devagar. Que pena.

Ela se colocou de pé e deixou o Sargento para trás, afim de abrir a porta.

— Vocês não tinham dito que iam demorar mais... — A última palavra morreu em seus lábios assim que ela viu que a pessoa parada do lado de fora não era nenhum de seus amigos.

A mulher loira pareceu ainda mais surpresa quando viu Savannah, ficou claro no semblante dela que esperava outra pessoa.

— Oi. — A ruiva saudou, analisando a moça por um curto momento: vestia uma camisa social azul clara e calças pretas, seus fios loiros completamente lisos desciam até um pouco abaixo dos ombros e seus olhos, encapsulados pelas pálpebras tinham algo de muito perspicaz que talvez o rosto doce não transmitisse muito bem.

— Oi. — Ela sorriu em jeito. — Desculpa, eu sou a vizinha da frente, é que eu ouvi a música e pensei que...

— Sharon. — A voz de James soou logo atrás de Savannah e ela pode sentir a presença masculina em suas costas.

— Barnes... — A loira, Sharon, sorriu cordial. — Fico feliz que tenha mudado pra cá finalmente.

Savannah olhou de um para outro devagar, James parecia um pouco surpreso, mas era claro que conhecia a moça, já ela, apesar do tom amigável parecia um tanto constrangida, mas ao mesmo tempo tinha um tipo de olhar firme. Tinha algo sobre ela que deixou Savannah confusa, como se alguns de seus movimentos fossem ensaiados e como se a aparência doce e recatada não fosse exatamente verdadeira...

As palavras “agente secreta” brilharam em neon. Fazia muito sentido. Aquele tinha sido o apartamento do Capitão América afinal, uma agente secreta ou uma espiã ser vizinha dele não era tão estranho assim. Ninguém nunca desconfiava de uma garota com aquela carinha de inofensiva e doce.

O fato das mulheres serem subestimadas eram um trunfo em alguns casos.

— Por que você não entra? — Savannah abriu um pouco mais a porta e cedeu passagem, porque James continuava calado e a coisa estava meio estranha. — Sharon, não é? Eu sou a Savy.

Ela estendeu a mão com um sorriso e a loira alternou o olhar entre a ruiva e o soldado algumas vezes, pra então sorrir também.

— Muito prazer. — Ela aceitou o cumprimento. — E obrigada pelo convite, mas não precisa. Eu não quero atrapalhar a mudança de vocês.

Savannah pensou em corrigir, mas o olhar que Sharon deu a James discretamente dizia que aquela não era uma visita social, tinha algo sério acontecendo e eles com certeza não conversariam sobre na frente de uma civil.

Vingadores e agentes... Savannah conteve um revirar de olhos, mas não ficou realmente ofendida, era a vida de James afinal, era quem ele era. Um herói, mesmo que dissesse que não.

— Eu vou deixar vocês conversarem, tenho umas coisas pra arrumar ainda. — Ela sorriu de um para o outro e se despediu de Sharon com um sorriso, tocando o braço de James carinhosamente enquanto passava.

Tinha dado dois passos e ainda pôde ouvir a voz da agente através da porta entreaberta.

— Desculpa, eu ouvi a música e pensei que fosse você ou o Sam, precisava falar com um de vocês pessoalmente. Não sabia que estava acompanhado.

— Aconteceu alguma coisa? — James perguntou e seu tom tenso foi reconhecido por Savannah imediatamente.

— É sobre o que o Sam me mandou investigar... — Foi a última coisa que ela ouviu Sharon dizer, antes da porta ser totalmente fechada.

Savannah suspirou, tentou se distrair com qualquer coisa ao redor, mas a verdade é que seu coração batia disparado de ansiedade e medo.

— Por favor, que não seja nada que o coloque em perigo... — Murmurou baixinho, como se fosse uma prece.

★ ★ ★ ★ ★

A conversa foi mais longa do que Bucky esperava, quando entrou no apartamento outra vez e fechou a porta atrás de si, sua mente repassava cada informação que Sharon havia lhe contado.

Sua teoria estava certa, a Ministra Von Bardas havia se aproximado do Presidente para conseguir informações, não qualquer informação, segredos de estado. Sharon tinha conseguido descobrir um acesso a esse banco de dados especifico no exato dia em que a mulher estivera junto com o Presidente na Casa Branca, em uma reunião intima de portas fechadas.

Não havia como saber, no entanto, que tipo de informação ela tinha acessado e tirado daquele ambiente virtual altamente secreto, haviam coisas que apenas os Presidentes tinham conhecimento que existia e era exatamente isso que Von Bardas havia acessado.

Depois disso a mulher havia se afastado, isso podia indicar que ela tinha o que queria, ou que ela não encontrou o que procurava no banco de dados, a última opção era quase impossível, então Sharon apostava na primeira, seja lá o que a Ministra quisesse ela finalmente tinha conseguido...

Isso podia indicar terrorismo internacional, um genocídio em massa de proporções globais, ou qualquer outra coisa. Não tinha como saber que tipo de informação um presidente passava para o outro. Podia ser literalmente qualquer coisa.

E como não havia uma só prova concreta contra aquela mulher, apenas especulações, teorias e detalhes que batiam com datas, Sharon não podia comunicar a CIA ou qualquer outra agência de segurança, a única coisa que podiam fazer era esperar.

E Bucky odiava isso, aquela sensação latente de que algo estava muito errado, de que uma grande ameaça estava a caminho e de que não havia nada que pudesse fazer a não ser esperar pela tragédia.

No fim estava certo o tempo todo, sempre acabava em luta...

— Problemas? — A voz de Savannah chegou os seus ouvidos e logo seus dedos quentes tocavam seu braço de vibranium com delicadeza. Só então ele percebeu que estivera do lado de fora sem baixar a manga comprida e sem colocar a luva.

De toda forma não importava, não era como se Sharon não soubesse daquele braço... Já tinha tentado matá-la uma vez.

Bucky suspirou, sua mão direita seguiu para os fios ruivos e ele puxou Savannah para perto.

— Nada com que você tenha que se preocupar... — Murmurou, antes de beijar o topo da cabeça dela.

Não a queria envolvida com nada disso. Com sorte, mesmo Abby já tinha partido para outra história, se não tivesse feito isso, então teria que conversar seriamente com ela. De toda forma Savannah tinha que ficar o mais longe possível de toda aquela situação.

Sentiu os braços femininos lhe envolverem e isso lhe trouxe algum alento, apoiou o queixo no topo da cabeça dela, mas não foi possível de refrear os pensamentos, tinha um péssimo pressentimento sobre aquela situação...

Na verdade, o assunto havia lhe impactado tanto que até esqueceu de dizer a Sharon que não eram ele e Savannah que estavam se mudando para aquele apartamento. O que ela estava pensando? Que eles iriam morar juntos tipo um casal ou algo assim?

Bucky notou que apesar de sua mente ter estranhado aquela ideia, uma parte de si estava tão confortável com a situação, que talvez por isso nem tenha se preocupado em desmentir nada.

Além disso, desmentir ou não, que diferença faria? Ele e Sharon sequer eram amigos ou algo assim... Quer dizer, não que tivesse algo contra a moça, muito pelo contrário, afinal ela já havia lhe ajudado muito.

Sharon Carter era alguém que Bucky invejava um pouco, porque quando Steve se foi, ela estava tão senhora de si que era como se aquilo não tivesse lhe afetado em nada. Quer dizer, fazia um bom tempo que os dois não se viam, e Barnes tinha quase certeza que o Capitão e a Agente não tinham levado o romance deles adiante, ainda assim devia ser muito estranho saber que o homem que você beijou um dia, voltou no tempo para se casar com sua tia-avó.

Mas em todas as vezes que Sharon estivera naquele apartamento, para visitar o velho Steve, ela nunca foi nada além de cordial, simpática e generosa, nunca se mostrou ressentida...

E por que deveria? Steve não fez nada errado. Ele merecia ser feliz. Foi o pensamento automático de Bucky.

— Sabe o que você nunca me contou? — Ele puxou o assunto, ao se lembrar de uma coisa. — Sobre quando conheceu o Steve...

Talvez fosse mais proveitoso que conversassem de algo aleatório, já que não podia fazer nada sobre a ameaça iminente era melhor dissipar a sombra pesada da Ministra. E sempre gostava de falar de Steve.

Savannah o soltou e deu um passo para trás.

— Eu contei o básico. — Ela moveu os ombros como se fosse nada.

Bucky nunca conseguia entender por que ela agia como se ter conhecido o Steve fosse nada. Se fosse TJ ou Gus eles certamente falariam disso o dia todo, todos os dias.

— Você disse uma coisa ontem que ele também me disse... — Bucky comentou, porque era algo que tinha ficado em sua mente desde então. — A coisa toda de passado e futuro, sabe?

Savannah tinha repetido uma parte da frase que Steve havia deixado na carta, era uma coincidência interessante demais pra ser ignorada.

— É eu devo ter mencionado isso no grupo de apoio eu acho. — Outro dar de ombros desinteressado. Bucky definitivamente não entendia aquela postura arredia da jovem quando o nome de Steve era citado. — Ou talvez depois, como disse pra você, conversamos um pouco e é isso. Nada demais mesmo.

Era o Steve Rogers, o Capitão América. Todo mundo gostava dele...

Savannah e jogou no sofá, dobrando as pernas sobre o estofado e alcançando o celular que estava jogado por ali. Steve. Steve. Steve. Não entendia a insistência de James em falar sobre aquele homem, quase como se sua vida girasse ao redor dele e como se não houvesse nada mais para conversar.

— O pessoal está demorando, não é? — Comentou, tentando mudar de assunto casualmente.

— Por que não gosta dele? — James foi direto, os olhos azuis focados nela de forma inquisidora.

Savannah podia ter fingido que não entendeu, que não sabia de quem o Sargento estava falando, mas isso seria infantil e inútil...

— Eu nunca disse que não gosto dele. — Ela respondeu, tentando manter a conversa casual.

— Mas não gosta. — Ele afirmou, como se tivesse acabado de se dar conta daquilo.

Savannah deixou o celular de lado, percebeu que não poderia fugir do assunto “Steve”, talvez se falasse de uma vez qual era o problema que tinha com ele, James entendesse que não se tratava de um “não gostar”, era apenas “indiferença”. Não conhecia o Capitão Rogers o bastante e nem queria conhecer, o pouco contato que teve com ele foi o bastante para que soubesse que não era alguém com quem queria um relacionamento próximo, apenas isso...

E se fosse honesta, Bucky falando do cara o tempo todo não ajudava muito também.

— Eu o achei um pouco hipócrita. — Ela foi honesta, os olhos focados em James quando disse as palavras.

— O Steve? — As sobrancelhas masculinas se franziram, quase como se Savannah tivesse acabado de falar alguma sandice.

Ela respirou fundo e se ajeitou melhor no sofá, sabia que teria que argumentar sobre a crítica que tinha acabado de fazer.

— Ele se sentava naquela roda, bancando o homem perfeito, que estava inteiro depois de metade do mundo ter sido dizimada. Então ele dizia todas as coisas que as pessoas deviam fazer pra seguir em frente. — Ela começou, tentando controlar o tom de sua voz, para que não saísse irônico, sarcástico ou critico demais. — E sim, isso é uma boa coisa, mas quando você vai em um grupo de apoio você quer sentir que está cercado de pessoas que estão ou já passaram por aquilo que você passou. Você quer pessoas que entendam o que você sente, mesmo que tenham pensamentos diferentes dos seus. É sobre se sentir mais forte, porque todo mundo ali vai fazer progresso junto. Mas não era justo que ele parecesse no controle de tudo sempre, porque nenhum de nós nunca chegaríamos naquele ponto. Rogers era um padrão inalcançável. E eu percebi que nem ele estava naquele padrão. Era algo muito “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

Savannah não conseguia explicar totalmente, era mais sobre a sensação. Rogers falava sobre seguir em frente como se ele próprio fosse um modelo perfeito disso, mas havia algo nele que fazia com que ela sentisse que aquele homem estava preso no passado de um jeito nada saudável.

Faça o que eu digo, seja a pessoa que eu finjo ser, porque você pode seguir em frente, mesmo que eu mesmo não tenha seguido. Foi isso que Savannah sentiu no discurso dele aquele dia e a única impressão que conseguiu levar do encontro com um dos homens mais famosos do mundo foi que ele era um hipócrita...

— Ele só estava tentando ajudar. — James defendeu e ela suspirou uma vez mais.

— Eu sei. E ele certamente ajudou muita gente, ele era um herói, não estou questionando isso, nem as boas intenções dele, nada disso. — Savannah gesticulou enquanto contra argumentava com calma. — Eu só... Eu tenho problemas com pessoas perfeitas, e tenho ainda mais problemas com pessoas que estão em um pedestal de perfeição, mas não são perfeitas de verdade. É um padrão inalcançável, e pra todos os outros que estão ao redor é sufocante.

Era difícil explicar como funcionava o combo: primeira impressão + conceitos pré estabelecidos + crenças, e o quanto isso podia influenciar na forma como Savannah se relacionava com as pessoas ao redor dela. Rogers podia de fato ser uma pessoa maravilhosa, devia ser, afinal era quem era, mas tudo que Savannah sentiu ao olhar pra ele foi que não tinham nada em comum... Na verdade, mesmo quando o via na televisão era algo indiferente pra ela.

Talvez tivesse a ver com seus problemas com autoridades, talvez estivesse projetando no Capitão Rogers culpas que não cabiam a ele, no entanto tudo que queria era não precisar ficar falando do homem, só isso, não era tão difícil assim.

Não tinha problemas pessoais com ele, era apenas alguém que tinha passado em sua vida uma vez e que não foi importante o bastante para permanecer, ou para que Savannah se preocupasse em conhecê-lo melhor, para que assim pudesse mudar a opinião que tinha dele.

— Esse não é o Steve. — James retrucou, com se fizesses questão de mudar a visão de Savannah. — Ele não era perfeito, ele era como qualquer outra pessoa com defeitos e qualidades, mas...

Seu Steve, talvez. — Ela disse calmamente quando o interrompeu. — Mas o Capitão Rogers que o público via era perfeito, um modelo, um símbolo de honradez e patriotismo. Pra qualquer um que de fora ele não tinha defeitos. Por isso quando ele foi contra o governo metade não acreditou e metade o apoiou fervorosamente. Para nós, meros mortais, ele era um tipo de deus. — Ela se levantou e caminhou na direção do Sargento. — Eu e você temos visões diferentes do mesmo homem, James, e tudo bem. As vezes a verdade tem mais de um lado...

— Eu não acho que você está sendo justa. — Ele negou, sendo um pouco mais intransigente do que ela imaginaria. — Além disso, a verdade é a verdade, clara e simples. Steve é um bom homem.

Savannah fechou os olhos e deu alguns passos para trás, tentando manter a calma. Se fosse qualquer outra pessoa ela já teria mandando tomar no cu, mas não era qualquer pessoa, era o James.

— Você não me pediu pra ser justa, você me pediu pra dizer por que não gosto dele. — Ela respondeu de forma simples e ainda pacifica. — Nem sempre a opinião que temos de uma pessoa pública é justa, ela é baseada na percepção que temos daquilo que vemos. Por exemplo, eu sempre pensei em Tony Stark como um cretino, ele tinha uma lista de defeitos pra mim, mas ao mesmo tempo ele era alguém real, sabe? Toda vez que ele aparecia na televisão eu pensava que o mundo ainda tinha esperança, porque se um babaca milionário e egocêntrico tinha se tornado um herói, depois de ser o maior vendedor de armas do mundo, talvez qualquer um pudesse fazer o certo no fim das contas. Porém quando eu olhava para o Capitão América eu pensava: “se alguém precisa ser assim pra ser um herói, então não teremos mais herói algum, porque esse homem está em um padrão inalcançável.”

Ela caminhou em direção ao sofá, enquanto James se encostava na janela, pensativo.

— Talvez nisso você esteja certa, porque ninguém era como o Steve, mesmo antes do soro... — Ele declarou, olhando um ponto qualquer no telhado da frente.

Savannah absorveu aquelas palavras devagar, mas então a verdade lhe atingiu na cara como um soco certeiro: James amava Steve Rogers...

Processou aquela verdade no silêncio que se instaurou entre eles. Tudo se encaixando como um quebra-cabeças perfeito: a necessidade de falar sobre o Capitão em qualquer oportunidade; a impressão que Savannah teve sobre a vida de James girar em torno da de Steve; o afinco que o Sargento tinha em defender o amigo, mesmo que se fosse da visão pessoal de uma garota qualquer do Brooklyn....

É claro que ele amava... James tinha rompido um controle mental de décadas por aquele homem. Esse não era exatamente o maior clichê de romance nos filmes de ação?

Savannah se sentiu cega e burra por ter deixado algo como aquilo passar batido.

— Então você basicamente não gosta de nenhum Vingador. — A voz de James lhe puxou para a realidade e ela ergueu os olhos.

Ela piscou algumas vezes, tentando voltar para a normalidade da conversa. Se James não tinha falado sobre seus sentimentos, então ela também não insistiria no assunto.

— Eu nunca disse isso. Eu gosto dos Vingadores. Especialmente da Viúva Negra. — Respondeu com um sorriso e James franziu as sobrancelhas como se não entendesse o motivo. — Única mulher na equipe fundadora, nenhum poder, nunca se importou com a fama ou o renome, foi contra o governo pra expor a Shield... E só ficou melhor depois que eu fiquei sabendo que ela era uma espiã Russa, o que significa que ela foi contra o próprio país, e contra tudo aquilo que tinha sido ensinada a acreditar, pra fazer a coisa certa. E ela é gata.

Só depois que Savannah riu da última parte é que ela se deu conta do que tinha acabado de dizer, e o olhar azul de James dizia que ele também tinha percebido, toda a descontração da conversa se foi.

— Era... — Ela teve que corrigir desconfortável. Estava falando de alguém que estava morta.

E foi assim que a outra parte da verdade também lhe atingiu, Steve Rogers também estava. O homem que James amava estava morto, tinha dado a vida para salvar o mundo, e isso dizia muito sobre a necessidade do Sargento de manter a memória do Capitão intacta e honrada.

— É injusto estarmos falando dessas pessoas, eles deram a vida por nós. — Ela comentou negando algumas vezes. — Eu não tenho o direito de criticar nenhum deles, estou sendo ingrata, me desculpa. Deve ter sido difícil perder seu melhor amigo no campo de batalha...

Se levantou do sofá e caminhou até James, passando os braços ao redor dele e o abraçando apertado.

— Me desculpa dizer essas coisas do Steve, eu sei o quanto ele significa pra você. — Ela pediu, sentindo os braços masculinos lhe envolverem. — E você está certo, ele era bom, eu que não o conhecia bem, mas tenho certeza que seriamos amigos se nos conhecêssemos.

Ela não tinha, porém também não possuía meios de atesta aquela hipótese, mas preferiu acredita que era verdade, por James.

O sentiu suspirar aliviado, quase como se fosse muito importante para ele que Savannah aceitasse Steve. Talvez o Sargento amasse o Capitão mais do que ela tinha imaginado...

Um longo momento de silêncio flutuou entre eles, mas não era desconfortável ou estranho, Savannah ainda ponderava sobre sua descoberta e tentava decifrar como se sentia sobre isso, enquanto James parecia preso nos próprios pensamentos, quase como se estivesse em um dilema interno.

— Eu não perdi o Steve no campo de batalha... — Ele murmurou depois de todo aquele tempo.

Savannah o soltou para que pudesse erguer a cabeça na direção dos olhos azuis. Entendeu que aquele certamente era o debate interno, afinal a mídia, com o apoio das industrias Stark, tinha noticiado a morte do Capitão América no campo de batalha, junto com o Homem de Ferro.

— Eu não sabia que tinham tirado ele de lá com vida. — Ela soprou e a imagem de James vendo o homem que amava todo ferido em uma cama de hospital, até que a morte os separasse, partiu o coração dela de muitas formas.

— Romanoff se sacrificou para conseguir uma das Joias do Infinito e Stark não sobreviveu ao estralo que dizimou o exército do Thanos. — Ele esclareceu e então pousou os olhos azuis nela. — Steve teve que voltar ao passado pra devolver as joias para o seu lugar de origem.

As histórias das Joias do Infinito não eram desconhecidas da população comum, assim como as mortes do Visão, Viúva Negra, Capitão América e Homem de Ferro, esse último sempre o mais lembrado, porque era, de uma forma ou de outra, aquele com quem as pessoas mais se identificavam. No entanto, aquela última parte da informação era completamente nova.

— E ele não conseguiu voltar? — Savannah franziu as sobrancelhas tentando entender a história.

Pensar no Capitão América perdido em algum lugar fora do espaço tempo, enquanto James não podia fazer nada sobre isso pareceu ainda mais doloroso. Ninguém devia perder alguém assim... Um fim sem um fim de fato, parecia uma separação horrível.

James respirou fundo e encarou o rosto de Savannah por alguns segundos.

— Ele ficou no passado, na nossa época, com um antigo amor. — Revelou em um tom natural, nada amargurado, nada ferido ou ressentindo.

Savannah tinha certeza que havia entendido errado...

— Está dizendo que ele escolheu não voltar? — Ela deu dois passos para trás, ainda sem tirar os olhos de James.

— Ele merecia isso, merecia essa felicidade mais que ninguém. — Savannah sentia o coração batendo apertando dentro do peito e definitivamente não entendia aquele tom condescendente de James. — Mas ele voltou. Muito, muito velho... Eu fiquei com ele até o último segundo. Até o fim da linha.

Havia um buraco em seu estômago, ou talvez fosse em seu peito, ela não sabia identificar, mas doía de formas que ela sequer sabia que podia sentir dor por alguém. Mesmo assim James estava ali na sua frente, pacifico conformado, quase orgulhoso.

Mas que porra tinha acontecido?

— Por que não foi com ele? Por que não voltou para a sua época? — Ela perguntou, torcendo pra ter uma explicação coerente para tudo e para que não fosse o que parecia, o que se formava em sua mente lentamente como um filme de terror...

— Era uma missão de um homem só. Steve não precisava de ajuda. — James deu um sorriso triste, os olhos se perdendo fora da janela. — Ele disse que eu ficaria bem.

Puta merda! Savannah sentiu todo o corpo tremer, de dor, de decepção, de raiva. Aquilo não podia ser sério.

— Foda-se a missão! — Ela não queria ter parecido tão afetada, mas não conseguiu controlar isso. Os olhos de James voltaram pra ela imediatamente, surpresos talvez. — Está me dizendo que o seu melhor amigo não quis te levar pra casa junto com ele?! Pra sua família, para os seus amigos, para o seu próprio tempo...

— Não foi desse jeito que aconteceu. — Ele negou algumas vezes e se afastou dela um passo. — Steve não sabia que ficaria por lá.

Savannah respirou fundo, passou a mão no rosto e tentou se controlar, não tinha porquê ficar daquela forma, era quase ilógico.

— Você acabou de falar que Rogers disse que você ficaria bem, então ele sabia sim. — Ela tentou argumentar com paciência, mas aquele nome em seus lábios era como fel, tinha um gosto podre. — E mesmo que não soubesse, ele sabia que você estava aqui, ele sabia que você estava sozinho, sabia que estava em um tempo estranho depois de péssimos momentos... Ele podia voltar pra te buscar, ou.... sei lá.

Eles se afastaram mais dois passos, a cabeça de Savannah rodou, imagens do James de meses atrás rodando em flashes rápidos. O James quebrado, sozinho e destruído; o vizinho que vivia como um fantasma, sem amigos, fechado em um apartamento vazio; o homem que tinha medo de se aproximar das pessoas, e que tinha os olhos mais tristes que Savannah já tinha visto na vida.

Não... Nunca foi apenas tristeza e talvez uma parte dela tenha percebido isso desde o primeiro segundo, porque ela conhecia aquele olhar, tinha visto a mesma coisa no espelho durante anos. Alguém sem esperança, alguém apenas aguardando a vida passar... James tinha os olhos de alguém que preferia estar morto.

E ela sabia, porque costumava ser daquele jeito, costumava sentir os pulmões cansados da vida, desejando fechar os olhos e não precisa abrir nunca mais... e por isso nunca o deixou ir muito longe, por isso se aproximou, porque ela tinha passado por isso e James podia também. Não tinha planejado se apaixonar, mas aconteceu... e a cada vez que ele fazia um progresso Savannah se apaixonava mais, cada vez que os olhos ficavam menos apagados, cada vez que ele escolhia seguir em frente, aquele sentimento crescia...

Não foi planejado, apenas aconteceu.

— Steve merecia ser feliz. — Foi a única resposta de James, a passividade dele fez com que Savannah prendesse o ar.

— E você não? Você não merecia voltar pra casa? Não merecia estar com a sua família de novo? Não merecia sua vida de volta? — Ela atirou as perguntas uma atrás da outra como se fossem balas em uma arma de fogo...

Mas não era o que pretendia, porque tudo que queria naquele momento era abraçar James, o homem que tinha sido abandonado por quem amava, mas havia muito mais distância entre eles naquele momento do que curto metro que os separava.

— Não é assim que as coisas funcionam, Savannah. — Ele continuou defendendo o outro, e ela não conseguia entender, como James podia defender aquele homem depois de tudo?

— Você acabou de dizer que foi assim que as coisas funcionaram pra ele. — Savannah não queria pronunciar aquele nome nunca mais. Se antes não tinha um problema pessoal com Steve Rogers, isso com certeza tinha mudado naquele momento. — Ele voltou pra casa, recuperou um antigo amor que certamente tinha vivido muito bem sem ele, e viveu uma vida perfeita e feliz, enquanto você estava aqui sozinho com os seus demônios. Está me dizendo que isso não te magoou? — Ela queria parar, mas não conseguia, porque sua garganta estava entalada de verdades e seus olhos ardiam, mas ela se recusava a chorar. — E o pior, ele estava lá no passado, vivendo uma vidinha pacata e envelhecendo do lado da pessoa que ele amava, enquanto você estava sendo torturado por décadas por uma organização nazista! Esse é o seu melhor amigo? Esse é o grande herói?

James se afastou mais três passos, negou diversas vezes, desviou os olhos dela.

— Meus sentimentos sobre isso são irrelevantes. — Ele retrucou e seu tom não era mais ameno. — Steve fez mais por mim do que qualquer outra pessoa nesse mundo, ele foi contra os próprios amigos por mim, contra o governo. Ele não me devia nada. E com certeza ele não me devia a felicidade dele.

Caralho, não era possível que ele fosse tão cego.

— Como te levar pra casa afetaria a felicidade dele? — Savannah gesticulou tentando se acalmar. — Para de anular seus sentimentos por alguém que te abandonou. O que você sente importa. E uma coisa assim é...

— Ele voltou. — A voz fria de James cortou a de Savannah, um tom mais alta que a dela.

Não queria ficar irritada com isso, mas ficou, porque toda aquela situação estava mexendo mais com ela do que gostaria, era como se tivesse dez facas sendo enfiadas em seu coração naquele momento.

Savannah quis dizer que Steve só voltou depois de uma vida inteira e ainda sentenciou James a vê-lo morrer. Nem disso aquele cretino tinha poupado o melhor amigo. E a pior parte é que Rogers não era só um amigo para James, ele o amava... Por esse motivo ela engoliu as palavras, talvez ele não quisesse ver a verdade e aquela conversa já tinha ido longe demais. Ela só queria sentar e chorar, mas sequer sabia o motivo.

Odiava Steve Rogers e não gostava de sentir isso.

— Você não entende. Você claramente não entende, Savannah. Você não consegue ver as coisas porque está exagerando tudo, só porque você não gosta do Steve. — O tom acusatório de James a pegou de surpresa. — E honestamente eu não sei por que você está tão brava. Isso não tem nada a ver com você.

Savannah quis não se sentir atingida por aquelas palavras da forma que foi, quis não se deixar levar por elas, mas seu corpo inteiro tremeu e seus pulmões acumularam tanta dor que ela preferia ter levado um soco.

— Tem razão, Bucky, isso nada a ver com comigo, me desculpa por me preocupar e por gostar de você. — Suas palavras vieram carregadas de todas a mágoa que fluía em seu peito. — Desculpa por ficar puta com qualquer coisa que possa te ferir e por tomar o seu partido quando você claramente não consegue ver o óbvio, porque ama o Steve demais e ama a si mesmo de menos.

Eles se encaram através do cômodo, três metros os separavam, James não esperava por aquelas palavras ficou claro em seu olhar gélido. Savannah também não esperava, porque doeram nela, como todo o resto tinha doido e ela finalmente entendeu o motivo...

Savannah compreendeu porque era como se tivesse sido atacada diretamente, porque podia sentir a dor em suas veias como se tivesse vivido aquela história e porque odiava tanto Steve Rogers naquele momento, era porque ela amava James Barnes demais...

As lágrimas escorreram quentes e livres e ela desviou os olhos dele. Não estava apenas apaixonada por ele, o amava, por isso doía tanto, mesmo que a dor não devesse ser sua.

O silêncio que pairava entre eles era sepulcral, pesado, estranho. James não se mexia, como se não estivesse ali de verdade. O corpo de Savannah doía, seu coração batia estrangulado, partido em lugares novos. Queria sentar e chorar por alguns dias, ou pelo menos por algumas horas, mas alguém bateu na porta e ela teve que limpar as lágrimas e vestir um sorriso.

Não podia estragar o dia de TJ e Gus, não seria justo.

Se arrastou até a porta e girou a maçaneta.

— Surpresa! — O entusiasmo de Abby foi como um chacoalhão. — Olha só o que eu fui buscar no aeroporto!

Abigail deu um passo para a esquerda e os olhos de Savannah encontraram um azul escuro conhecido.

— Oi S. — Sierra Young saudou com a naturalidade de alguém que está sempre por perto, mesmo que tivesse passado os últimos dois anos na Europa.

— Oi S. — Savannah respondeu com o mesmo apelido que usavam desde sempre.

Talvez fosse providencia divina uma terapeuta bater na porta exatamente no momento de uma crise...

Notas finais
É não tá fácil não... A coisa começou muito bem, mas não acabou nada bem... E agora? Confesso que, apesar de eu estar sempre do lado oposto ao do Steve (desculpa SteveStans) eu não consegui escolher dessa vez, porque entendo o Bucky também... Vamos ver como isso vai se resolver. Sharon deu o ar da graça, com mais um pedacinho do quebra-cabeças que compõe o plot de fundo da fic, e é claro que a primeira coisa que ela pensou foi "CASAL" kkkkkk O próximo se chama "Sierra" e vamos conhecer mais um pouquinho dela, que sim, é um tipo de terapeuta como os pais, mas a especialidade dela é lidar com um tipo muito especifico de pessoas, acho que vocês vão curtir o tipo de referencias que ela vai trazer pra fic. E claro, vamos ver como Savky vai resolver essa tensão que surgiu por causa do Steve... Teorias? Juro que volto assim que der Beijos e até mais!