— Caralho! — Savannah xingou, quando enfiou o pé em uma poça d’água. — Merda, merda, merda, merda!

O temporal estava violento e a chuva gelada, estava totalmente encharcada dos pés à cabeça. Praguejou sua sorte — ou melhor, sua falta de sorte — e também reforçou seu ódio sobre segundas-feiras.

Segundas eram péssimas, tudo mundo sabia, para Savannah eram assim por motivos um tanto diferentes do que para a maioria: nunca havia trabalho as segundas e seus amigos praticamente nunca se encontravam nesse dia, o que deixava Savannah impaciente. Odiava ficar sozinha.

Segundas-feiras solitárias faziam brotar ideias péssimas, como encontros duvidosos vindos do tinder ou a idiotice de sair para uma volta quando obviamente as nuvens indicavam tempestade. Naquele dia em questão, Savannah tinha feito a segunda coisa da lista.

Sentiu certo alivio quando chegou ao seu prédio e pode abrigar-se do temporal na marquise. Deu uma olhada na caixa de correspondências e suspirou de desgosto quando notou a fatura do cartão de credito ali. Fechou a caixa metálica em um baque violento.

— Se eu fingir que não existe, talvez desapareça. — Disse a si mesma, mas esse pensamento acabou perdido quando o ronco de um motor cortou a chuva.

Savannah se virou para olhar, não se lembrava daquela moto na vizinhança, então foi uma surpresa ver James — seu vizinho misterioso e muito gato — descer do veículo.

Vestia jeans escuros, uma jaqueta pesada e luvas na mão que ela podia ver dali, mas não colocou boné quando tirou o capacete. De modo que foi a primeira vez que Savannah o viu sem a peça e pode reparar melhor em seu rosto e cabelo.

Ele estava tão encharcado quanto ela, os fios castanho-escuro sem qualquer corte grudavam no rosto de barba comprida e, ainda assim, ele conseguia ser lindo, Savannah não fazia ideia de como, mas aquele ar selvagem tinha realmente um certo apelo.

Muito apelo...

— James... — Cumprimentou, assim que o homem alcançou o espaço seco da marquise.

— Savannah... — Ele respondeu educado.

Savy sorriu, tentou evitar isso, mas era espontânea demais para controlar as próprias reações e havia algo sobre James dizendo seu nome que era quase um pecado. Talvez porque ninguém a chamasse de Savannah e com certeza não daquela forma.

Caralho de voz sexy, da porra.

— Bela moto. — Ela apontou, apenas para puxar assunto.

— É meio que presente de um amigo. — James encarou a motocicleta com um olhar nostálgico e triste.

Na verdade, naquele dia sua postura parecia um pouco mais melancólica que em todos os outros dias que tinham se visto.

— Ah, entendi tudo agora... — Savy moveu a cabeça devagar e tentou uma piada. — É o seu amigo que é o Christian Grey, então.

James lhe deu um daqueles olhares confusos e ela sorriu de canto. Ele nunca entendia. Por mais que já tivesse explicado quem era o Senhor Grey, certamente James não foi capaz de conectar a figura devassa do personagem literário, com a figura do dono da motocicleta...

— Um ricaço. — Explicou qual era a intenção do comentário, apontando para a moto em seguida. — É uma Harley Davison afinal, coisa cara.

— Ah, não... Nada de ricaço. — James negou em um movimento curto. — Ele só gostava muito de motos.

Havia uma profunda tristeza em suas orbes azuis... Naquele ponto Savannah já havia percebido que os olhos de seu vizinho eram muito expressivos, seu rosto e sua postura pareciam esconder emoções muito bem, mas o azul cristalino era como um livro aberto o tempo todo.

Ele tinha a atenção na moto ainda, como se estivesse preso em uma recordação antiga, enquanto Savannah aproveitava aquele momento de distração para reparar em seu perfil. Ambos gotejavam no chão seco abaixo da marquise e o vento soprava frio, mas Savannah até tinha esquecido disso enquanto seus olhos escorregavam por James.

Tinha algo nele, não apenas a beleza evidente, algo mais profundo talvez... Algo que Savy não entendia plenamente, mas estava lá. Mesmo por trás do cabelo comprido e da barba, ele era lindo, isso era evidente, mas ao mesmo tempo, apesar do mistério que o cercava, James também era de alguma forma muito fofo...

— Seu casaco está se mexendo. — Savannah declarou, assim que notou isso, enquanto os olhos castanho-esverdeados seguiam naquela direção.

James tirou a mão direita do bolso e puxou o zíper da jaqueta, Savannah reparou que diferente da esquerda essa não estava coberta por uma luva. Ele tinha dedos longos e grossos, típica mão de homem forte, com o bônus de ter muitas veias aparentes, adorava veias...

Sa mente vagou sozinha se perguntando que outras partes do corpo de James teriam tantas veias saltadas, e o que mais ele podia fazer com aquelas mãos...? Mas Savannah bloqueou esse pensamento, quando uma pequena bolinha de pelos branca surgiu de dentro da jaqueta.

Um gatinho.

— Olá amiguinho... — Ela deu um passo para mais perto, vendo os olhos azuis do filhote se abrirem.

Estava todo molhado, e era tão pequeno e fofinho. James o pegou com a mão direita, para tirá-lo totalmente da jaqueta e Savannah ergueu o olhar.

— Então você é do tipo de gosta de gatos? — Sorriu ao perguntar. A diferença de altura dos dois dava a Savannah uma visão privilegiada dos lábios de James quase ocultos pela barba.

Beijáveis... Fodidamente beijáveis.

— Na verdade eu não sei... — Ele respondeu, parecendo alheio aos pensamentos nada puritanos de Savy. — Minha irmã era alérgica, então eu nunca pude ter um.

Ela notou que era a primeira coisa sobre o passado que James falava e ele pareceu notar isso também, logo depois que as palavras saíram de seus lábios. Savannah sentiu o desconforto emanar do corpo masculino, houve uma tosse quase forçava e então James deu um passo para trás.

— Eu encontrei esse pequeninho na ponte, em uma caixa junto com os irmãos mortos. — Ele continuou a explicar, como se precisasse esquecer o passado e focar no gato de novo. — Eu só não podia deixa-lo lá sozinho.

Porra, como um homem tão sexy desses consegue ser tão fofo? Savannah pensou, enquanto sorria deslumbrada, às vezes sentia que era até pecado pensar aquelas coisas de seu vizinho, porque ele era sempre tão educado e inocente. Nunca entendia suas piadas de duplo sentido.

— Você fez bem... — Ela focou no gatinho, porque aquele era um assunto sério. — Às vezes a merda do ser humano pode ser terrível.

Odiava pensar que haviam pessoas no mundo tão ruins a ponto de jogar vários filhotes na tempestade como se fossem nada, piores que lixo...

— Pois é... Muito mais do que a gente imagina. — James moveu os olhos para o chão e Savannah pode sentir o peso daquelas palavras.

Ele sabia bem do que falava... Mas ela sabia também, já tinha visto o ser humano fazer coisas horríveis bem de perto.

— Devia secar o filhotinho com o secador morno, ele está muito molhado e pode pegar uma pneumonia. É muito pequeninho ainda. — Apontou para o gatinho, querendo sair daquele assunto pesado em que os dois tinham se metido.

James lhe deu um daqueles olhares confusos e Savy riu.

— Você não tem um secador, não é? — Perguntou e ele moveu a cabeça em negativa bem devagar. — Imaginei que um cara com o cabelo como o seu teria um...

— O que tem de errado com o meu cabelo? — Ele devolveu e Savannah viu as sobrancelhas cheias se franzirem.

— Nada. — Ela riu de canto, escondendo o fato de que internamente queria tocar aqueles fios castanhos só pra saber se eram tão macios quanto pareciam. — Vamos subir lá em casa, eu seco pra você...

Ela falou sobre o gatinho, obviamente. Se bem que, se James quisesse, podia secar seu cabelo também...

Ele não se moveu, Savy, que tinha acabado de se virar, o encarou por cima do ombro e sorriu.

— Não vai deixar o gatinho ter pneumonia, vai? — Moveu a cabeça em um convite.

Saiu andando na frente e percebeu que James levou alguns segundos para finalmente decidir segui-la. Ponto pra ele. Savy sabia que qualquer outro cara — e a grande maioria das garotas — teria aceitado aquele convite sem sequer pensar. Mas seu vizinho misterioso e gato não era assim...

Ele não estava procurando por uma transa. Ou talvez não gostasse de garotas... E tudo bem pra Savannah, ela podia lidar com isso, James era doce e gentil, ela podia se contentar com a amizade dele.

Subiram calados, então ela teve que puxar um assunto qualquer e resolveu reclamar sobre o péssimo estado de conservação do prédio, o que não foi uma conversa estranha, mas também não chegou a ser uma conversa, porque apenas Savy falava.

Logo tinham chegado, ela destrancou a porta e jogou os sapatos e o casaco molhado em qualquer lugar — o que de uma forma engraçada pareceu deixar James horrorizado — prendeu os cabelos para cima com uma caneta que achou jogada ali e então se virou para o vizinho.

— Entra, eu vou pegar uma toalha pra você e uma para o gatinho — Apontou o apartamento em um gesto despreocupado. — Pode ficar à vontade.

— Acho que eu vou pra casa vestir uma roupa seca... — Ele desviou os olhos azuis dela, totalmente sem-jeito.

Savannah não precisou se perguntar o motivo disso, ela sabia que estava de camiseta branca, — uma de suas muitas camisetas cortadas, essa com a frase “girl power” escrita uma vez para cada cor do arco-íris — sabia que o tecido molhado estava grudado em seu corpo e que provavelmente estava transparente o bastante para que o contorno de seu sutiã e seios fosse visto.

Nada obsceno, nada realmente problemático, apenas o bastante para que Savy tivesse duas certezas sobre James: ele não era um boy lixo cretino e ele gostava de garotas. Ainda não sabia se apenas de garotas, mas o que importava naquele momento é que gostava delas também, porque com certeza não era imune a um corpo feminino.

Podia só ter perguntado é claro, seria mais fácil e mais sensato, porém não tão divertido... Ela tentou não sorrir com isso, afinal seu juízo tinha concordado com a coisa de “amigos”, mas seu corpo não parecia nada preparado para esquecer aquele crush quase instantâneo.

Eu peço pra me foder, não é possível... brigou consigo mesma e as palavras “peço” e “foder” assumiram outro significado em sua mente.

— Certo então... — Ela concordou, dando dois passos para perto de James, que tinha acabado de lhe estender o filhotinho usando apenas a mão direita, já que a esquerda estava em seu bolso. Como ficava quase sempre. — Mas não demora, eu posso sequestrar seu gato e fugir do país. Você nunca mais me encontraria, James...

Ela riu de início, mas o sorriso ganhou outros tons quando James colocou o gatinho em suas mãos e as duas peles se tocaram, causando um arrepio em Savannah.

Os dedos dele eram frios... muito frios.

Savannah deu um passo para mais perto, não apenas para acolher o gato melhor, mas porque os olhos azuis gélidos de James pareceram magnéticos naquele momento. Ele tinha sentido também, ela soube no mesmo instante.

Era impossível ignorar a eletricidade estática que parecia fluir entre os dois.

E naquele momento ela só conseguia pensar se aqueles lábios eram macios, se a barba era áspera o bastante para lhe arranhar em lugares sensíveis, se suas mãos eram tão másculas quanto pareciam e se haviam veias para se ver em outros lugares também...

A coisa de “amigos” estava indo por água abaixo tão rápido quanto uma cachoeira. Mas quem poderia culpá-la? Era segunda-feira e aquele dia com certeza ficaria muito melhor com James entre suas pernas.

— Acredite, eu te encontraria, Savannah... — Ele quase murmurou e Savy não soube se era um flerte, uma ameaça ou apenas uma constatação óbvia de um fato.

Porra, ele é tão gostoso, como alguém resiste? Ela gritou na própria mente, enquanto tentava não sucumbir ao impulso de só beijá-lo ali mesmo do nada.

Qualquer um que conhecesse Savannah Devenport sabia que isso era algo que ela faria sem problemas, mas ali, naquele momento, ela conteve esse desejo, porque James era tão doce e parecia tão quebrado às vezes que ela teve medo de se aproximar demais e ele simplesmente sair correndo...

Precisava parar de deixar TJ colocar ideias depravadas de sexo selvagem com o vizinho misterioso em sua mente... Porque, sim, desde que conhecera Bucky, Theodore James não falava em outra coisa, talvez Savannah sequer estivesse pensando ou olhando para James daquela forma se não fosse todas as coisas que seu amigo tinha dito.

Ou estaria sim, a quem estava tentando enganar?

— Eu vou indo... — James deu dois passos para trás e suas mãos deixaram de se tocar. Savannah assentiu devagar e logo ele desaparecia no corredor.

Ela fechou a porta atrás de si e se encostou nela, respirando devagar através dos lábios entreabertos.

— Ai, gatinho, eu preciso de juízo... — Murmurou para o animalzinho em seus braços. — Mas o que eu quero mesmo é outra coisa...

✪ ✪ ✪

As roupas molhadas de Bucky estavam perfeitamente estendidas no pequeno varal de chão, que tinha sido estrategicamente posicionado no banheiro. Depois de secas elas iriam para o cesto, não antes disso, para que não mofassem. Ele por sua vez tinha o braço de vibranium apoiado nos azulejos do banheiro, enquanto a água gelada caia sobre suas costas, seus músculos estavam tensos e sua respiração pesada, passou a mão direita pelo rosto, como se isso pudesse espantar seus próprios pensamentos...

Mas os olhos castanho-esverdeados de Savannah não saiam de sua mente.

Ele ainda podia sentir a pele macia e quente das mãos dela na ponta dos dedos, ainda podia ver o sorriso de fogo nos lábios fartos. Ela tinha passado de sol de verão para chamas ardentes em um segundo, bem diante dos olhos azuis gélidos de Bucky e ele não sabia o que pensar disso ou como não pensar nisso...

Deus, ela é tão linda, sua mente fazia questão de dizer — e mostrar — mas não queria nenhuma daquelas imagens na sua cabeça, embora fossem melhores que qualquer outra que sempre lhe assombrassem.

Por um segundo, enquanto estava com Savannah, Bucky pensou que ela daria mais um passo e o beijaria. Talvez ele até tenha ansiado por isso, o que era, é claro, uma total idiotice. Não queria pensar em sua vizinha desse jeito, não podia...

Porque Savannah era leve e estar ao redor dela, mesmo que por um segundo, lhe fazia bem, era um alento para sua alma turbulenta e pesada. Não queria estragar a simplicidade disso.

Sabia que o Bucky de antigamente — o Bucky leve e despreocupado como Savannah — teria dado mais dez passos por aquele beijo se fosse preciso, porque nunca fugia de belos lábios. Nunca.

Seu amor sempre pertenceu a Steve, ainda pertencia se fosse honesto sobre isso, mas Bucky Barnes sabia, desde quanto eram jovens, desde antes do soro, da guerra e posteriormente do gelo, que Steve nunca seria seu daquela forma.

Não... Rogers era tradicional demais mesmo antes de ser um Capitão, seu sonho sempre foi encontrar uma boa mulher e casar com ela — e ele fez isso no fim das contas... — enquanto Bucky queria conhecer todas as mulheres possíveis, mesmo que estivesse ciente que, a menos que colocasse um anel no dedo delas, jamais passaria de um certo ponto.

Bucky cresceu sem saber bem como se encaixava ou porque era diferente dos que estavam ao redor, por um tempo pensou que havia algo errado consigo mesmo.... Outros caras não nutriam um interesse estranho pelo melhor amigo. Pelo menos, não que Bucky soubesse.

Mas acabou percebendo que era como era, e aceitou isso em si, talvez fosse como os inventos que via nas feiras de ciências, a frente de seu tempo. Ele só não esperava que se tornaria “a frente de seu tempo” de forma literal.

Um experimento cientifico, uma cobaia...

De toda forma, Bucky entrou na adolescência em paz com o fato de se interessar por moças e rapazes, mesmo que não pudesse contar pra ninguém. Se conformou e aceitou que seu coração era de Steve, mas entendeu que seu corpo pertencia apenas a si mesmo e podia compartilhar com quem quisesse. Não que as garotas estivessem tão interessadas assim em compartilhar totalmente um corpo que viesse nem um anel...

Porém esse Bucky tinha ficado no passado, o homem que Barnes era atualmente não podia se dar a esses pequenos luxos...

Até a certeza de que seu corpo lhe pertencia roubaram dele.

E que havia sobrado então? Encarou os dedos metálicos anda apoiados no azulejo, seu lembrete constante de que nada mais era como antes.

A raiva congelou suas veias sem aviso e Bucky cerrou o punho para então atingir a parede. O buraco aberto nos azulejos só o deixou mais irritado. Teria que consertar aquilo.

Bucky desligou o chuveiro e saiu do box, deixando que a água escorresse de seu corpo nu para o pequeno tapete azul por alguns segundos. Se olhou no espelho acima da pia.

Será que alguém odiava tanto o próprio reflexo quanto ele mesmo?

Pegou a toalha pendurada ali por perto e a enrolou na cintura, deixando o banheiro sem muito ânimo. Tirou algumas peças do armário, mas não as vestiu imediatamente, apenas se sentou na cama, deixando que as costas atingissem o colchão quando se jogou para trás logo depois.

Encarou o teto por alguns segundos. Talvez tivesse imaginando coisas... Talvez fosse tudo um delírio de sua mente perturbada, pensou, repassando a cena com Savannah em sua mente.

É, talvez fosse tudo um grande mal-entendido...

Se colocou de pé novamente, tentando se convencer dessa ideia e assim se vestiu. Parou na grande janela da sala alguns minutos depois.

Savannah estava do outro lado, sentada no sofá, agitando sobre o gatinho branco um aparelho estranho. Bucky supôs ser um secador, era totalmente diferente do trambolho gigante que havia apenas nos salões caríssimos em 1940. Uma evolução e tanto.

Ela já havia trocado de roupa, ele percebeu por causa da camiseta preta, e esse pensamento lhe trouxe a peça branca e molhada de volta a mente, mesmo que tivesse olhado por menos de dois segundos.

— Deus, isso é tão errado... — Murmurou, se afastando da janela.

Tinha que parar de observar a vizinha, tinha que parar de ter contado com ela... Talvez devesse comprar cortinas ou então colocar jornais nos vidros para evitar a tentação. Talvez devesse mudar de apartamento; de prédio; de cidade; quem sabe até de país... Devia correr de Savannah Devenport assim como alguém foge de um incêndio.

Mas Bucky Barnes não fez nada disso, muito pelo contrário, ele vestiu sua jaqueta, uma luva na mão de vibranium, dispensou o boné e deixou o próprio apartamento.

Como um suicida correndo direto para o fogo.

Por que Savannah — a doce, linda e quente Savannah — parecia uma forma adorável de se queimar...

Bateu na porta duas vezes e logo a voz feminina veio através da madeira:

— Pode entrar...

Bucky segurou a maçaneta enquanto balançava a cabeça negativamente. Da última vez em que estivera ali Savannah vez a mesma coisa, mas na ocasião Bucky estava tenso demais com o bilhete misterioso para dar devida atenção e importância a isso.

— Você sabe que devia olhar quem é, antes de deixar qualquer pessoa entrar na sua casa, não é? — Resmungou, assim que abriu a porta. — O Brooklyn pode ser perigoso.

Savannah riu toda sol, sentada no sofá com as pernas cruzadas como buda e com o gatinho no colo.

— Eu já estava esperando por você, lembra? — Ela moveu os ombros enquanto desligava o secador. — Além disso, se alguém quisesse mesmo me fazer mal, eu não acho que bateria na porta, James...

Adorava a forma como ela dizia seu nome...

— Bucky. — Corrigiu, porque talvez fosse melhor evitar essa tentação.

— Por que? — Savannah moveu um pouco a cabeça ao perguntar. — Por que “Bucky”?

Ninguém jamais tinha lhe feito essa pergunta.

— Tudo mundo sempre me chamou assim... — Moveu os ombros, sem qualquer vontade de contar que era por causa do “Buchanan” que antecedia o seu sobrenome.

— Caralho, e você nunca sofreu bullyng por isso? — Ela riu daquele jeito irônico e divertido — Bucky é nome de pato. Bucky The Duck.

Ele não riu, apenas cruzou os braços o que fez com que a risada espontânea de Savannah se espalhasse por toda parte. Seria impossível se irritar com ela, mesmo com tantos palavrões que Bucky ainda estranhava. Tinha se acostumado com isso na boca de soldados, não de garotas.

— Senta aqui, James. — Ela apontou o lugar ao lado no mesmo sofá.

Bucky hesitou, não era uma boa ideia, devia só pegar o gato e ir pra casa... Mas como se seu corpo contrariasse sua mente, ele apenas deu um passo naquela direção.

— Já terminei com essa belezinha. — Ela estendeu o pequeno filhote com cuidado pois ele estava dormindo. — Vou te pegar uma cerveja.

Bucky recebeu a bolinha de pelos com a mão de carne e osso, mas dessa vez seus dedos não roçaram os de Savannah. O gatinho estava totalmente seco e quentinho.

— Não precisa, eu só... — Ele tentou uma desculpa qualquer mas foi interrompido.

— Eu te devo uma cerveja lembra? — Savannah já havia se afastado do sofá. — E eu não gosto de dever para pessoas, já basta o que eu devo para os bancos. Além disso eu já pedi pizza, você vai ter que ficar e comer comigo, digamos que é o preço do resgate da sua gata.

Ela riu enquanto seguia em direção a cozinha e Bucky franziu as sobrancelhas.

— Gata? — Repetiu confuso.

— Ah sim, é uma fêmea, vi enquanto secava. — Savannah respondeu ainda na cozinha e Bucky confirmou a informação erguendo a bolinha de pelos com cuidado. — Já sabe como vai ser o nome dela?

Pensou por alguns segundos e nada lhe veio à mente.

— Não faço ideia... — Admitiu, ouvindo os passos leves se aproximando e aconchegando o gatinho, ou melhor, gatinha, em seu colo novamente.

— Devia ser Alpine. — Savannah sugeriu, se debruçando no encosto do sofá bem perto de Bucky, apenas para lhe estender a cerveja — Ela tem cara de Alpine.

Ele ficou tenso, um pouco porque Savannah estava bem ao lado de seu braço de vibranium e mais um pouco porque seus fios ruivos e ainda molhados de chuva se soltaram e espalharam por toda parte um perfume delicioso e ao mesmo tempo curioso de frutas vermelhas e mel. Como alguém podia cheirar assim depois de um banho de chuva?

— Eu gosto de Alpine. — Bucky tentou focar na gata branquinha em seu colo, de fato era apropriado que seu nome remetesse aos alpes.

Ele só queria que Savannah se levantasse logo, porque um mínimo toque naquele braço e ela saberia com certeza que era metálico...

— Eu sei, eu sou ótima com nomes, James. — Ela sussurrou de um jeito diferente, e estava tão próxima de seu ouvido que um arrepio quente correu a espinha de Bucky.

Ele prendeu a respiração e ela apenas se foi, como se tivesse feito isso sem qualquer pretensão.

Savannah se jogou no sofá depois disso, abriu a própria cerveja e estendeu a garrafa na direção de Bucky.

— À Alpine então... — Propôs o brinde e Bucky abriu a própria garrava antes de fazer com que os vidros se chocassem.

Ele deu um gole lento — diferente de Savannah — já tinha notado na casa de Sam que a cerveja parecia diferente da que tomava nos anos 40, era mais fraca ou algo assim, não que isso incomodasse de verdade. Ainda era muito estranho beber cerveja depois de todo aquele tempo...

— Espero que você goste pepperoni ou mussarela, porque foi uma meio a meio que pedi. — Savannah declarou daquele jeito espontâneo e Bucky soube que nunca deixaria de se impressionar com o quão naturalmente ela conseguia puxar um assunto.

Pizza não era algo tão popular nos anos 40, mas Bucky havia comido antes, com Steve, ali mesmo nos arredores do Brooklyn — tiveram que juntar dinheiro por um longo tempo — e depois, naqueles últimos meses, eles tinham comido novamente, porque Sam queria que Steve e Bucky comparassem as duas épocas e admitissem que o “futuro” era melhor.

Foi uma das últimas refeições que fizeram juntos.

— Desde que não seja abacaxi... — Ele moveu os ombros, lembrando que o sabor que mais tinha agradado Steve soou como uma aberração em seu paladar.

— Não é?! — Savannah apontou como se fosse a maior verdade do universo. — Caralho, quem foi que inventou essa aberração. Pizza com abacaxi nem é pizza.

— Concordo. — Bucky riu leve e simples, de um jeito que nem se lembrava de ter feito desde a criogenia, porque foi estranho que Savannah tivesse usado a mesma palavra que ele pra descrever esse sabor de pizza.

O sorriso de sol dela pareceu aquecer a sala toda, quase como se gostasse de vê-lo rir. Azuis e avelãs ficaram presos um no outro, como se houvesse algo a ser dito que ninguém ali ousaria dizer em voz alta...

Alpine se moveu preguiçosa no colo de Bucky, se esfregando em seu braço e afofando sua jaqueta com as unhas minúsculas.

— Parece que ela gosta de você... — Savannah colocou os olhos na gatinha e sorriu. — Vou pegar leite pra ela.

Se levantou do sofá e seguiu de novo para a cozinha, enquanto Bucky encarava as janelas abertas por onde o vento forte trazia alguns pingos de chuva e uma brisa gelada.

— Você devia colocar cortinas... — Ele comentou, vendo os vidros espelhados de seu próprio apartamento do outro lado.

Se Savannah colocasse cortinas e as mantivesse fechadas, ele não teria problemas em se manter longe daquele prazer culposo.

— Por que? — Ela questionou divertida, enquanto voltava com um prato de leite. — Não gosta de ficar olhando pra mim da sua sala secreta, senhor policial?

— Não é... Eu não... — Bucky engasgou com as próprias palavras, tentou procurar uma forma de se explicar ou talvez uma boa mentira, mas achou que isso tornaria aquela sua atitude ainda mais errada. — Desculpe... sério. Desculpe.

Podia dizer que os fios ruivos chamam a atenção de seu olhar todas às vezes, e seria verdade, mas não havia justificativa... Podia tentar dizer que não era o tempo todo, que não ficava vigiando, o que também seria verdade, mas o fato é que talvez fosse melhor que Savannah quisesse se afastar de uma vez.

Seria muito mais fácil se ela apenas o odiasse como ele odiava a si mesmo...

Mas ao contrário de todas as expectativas de Bucky Savannah riu.

— Vou tomar como um elogio que você gasta seu tempo me observando comer pizza jogada no sofá igual uma mendiga. — Ela se curvou para pegar Alpine e eles ficaram tão perto que Bucky prendeu a respiração. — Além disso, tudo bem, James, eu não faço nada improprio na sala, é por isso que ela não tem cortinas, como no quarto.

Savannah se afastou e deu de ombros, colocando Alpine com cuidado perto do leite e se sentando no chão ao lado da gatinha, quase de frente para Bucky.

— Mesmo porque, todo mundo sabe que eu não sou a vizinha pelada na janela, essa é a Jess do 21. — Ela riu de novo e só então Bucky se deu conta que podia ter realmente flagrado Savannah em momentos muito íntimos. Isso fez com que tudo parecesse ainda mais errado e ele se sentiu pior e mais culpado do que antes. — Eu gosto de olhar os vizinhos às vezes também, me faz sentir menos sozinha.

Ela baixou os olhos para Alpine, e Bucky achou estranho que alguém como Savannah se sentisse sozinha, ela tinha tantos amigos.

— Além disso, você sabe que tem alguns vizinhos que precisam mesmo de uma atenção extra, por isso eu não tenho cortinas. — O desgosto na voz da ruiva era perceptível, ela estava falando de Ryan Porter, e foi impossível para Bucky não admirar aquele cuidado que Savannah tinha com Beverly e Mike.

Ele ainda não entendia a leveza dela em tratar o assunto da janela, mas talvez fosse porque não entendesse a leveza de Savannah no geral.

— Você devia ficar brava, não pode dizer que está tudo bem ficarem te olhando pela janela. — Bucky declarou em um tom crítico.

Os olhos de avelã lhe observaram por três segundos inteiros, como se fossem capazes de ver dentro de sua alma...

— Por que quer tanto que eu fique brava com você? — A pergunta de Savannah era calma, não acusatória, Bucky se sentiu um tanto analisado e não soube se gostou disso. — O que você fez de tão terrível que precisa desesperadamente de punição?

Não respondeu, mas uma lista de coisas apareceu em sua mente, nenhuma delas tinha a ver com Savannah...

— Se você estivesse fazendo algo terrível, se tivesse me vigiando com segundas intensões tipo um stalker bizarro ou um tarado maníaco, você nunca me mandaria comprar cortinas e nunca admitiria que estava me olhando. Você mentiria, arrumaria desculpas esfarrapadas... — Ela moveu os ombros e acariciou Alpine, então voltou seus olhos castanhos esverdeados para Bucky de uma forma muito séria. — Mas se mesmo assim você precisa de perdão pelas coisas terríveis que acha que fez, eu te perdoo, James. Eu te perdoo por tudo.

Ele engoliu em seco, as palavras tiveram um peso diferente do que deveriam ter. Não soube o que responder, queria dizer que não merecia nada daquilo, que não merecia perdão nenhum. Mas não estariam falando do mesmo assunto, então do que isso adiantaria?

— Menos pelo meu taco, esse eu ainda vou querer de volta. — Savannah riu do nada, voltando ao seu humor-sol, como se o assunto ainda fosse totalmente leve.

— Ah é... — Bucky procurou se recompor. — Sobre o taco eu... acho que perdi ele. Mas não se preocupe, vou comprar outro e te devolver.

Claro que não podia falar que tinha destruído o objeto com seu braço de vibranium, por isso teve que mentir.

— Eu gosto dos de alumínio, os de madeira quebram fácil demais. — Savannah respondeu simples e Bucky franziu as sobrancelhas, mas não precisou fazer a pergunta. — Já quebrei alguns por causa do Ryan. — Ela deu de ombros como se não fosse nada demais.

— Espera. Você e ele já se envolveram em brigas físicas? — O sangue em suas veias congelou.

— Acha que ele tem aquele nariz torto porquê? — Savannah riu e ergueu a mão direita para mostrar o dedo anelar levemente torto. — E eu tenho esse dedo aqui pra lembrar.

— Ele bateu em você? — A voz de Bucky era um sopro congelante. Devia ter acabado com Ryan no momento em que colocou os olhos nele.

— Ele bate na própria mulher, tecnicamente a pessoa que ele devia amar, sério que é uma surpresa ele agredir alguém aleatório? — Savannah riu daquela ironia e Bucky teve que se controlar para não deixar que o Soldado dentro de si saísse por aquela porta para fazer tudo que queria com o maldito vizinho agressor.

— Você devia falar com a polícia. — Foi o que ele conseguiu dizer.

— Já falei não adiantou, Ryan alegou que eu invadi, por isso a briga e a Bev não quis prestar queixa, então eu ainda saí como a errada... — O dar de ombros de Savannah foi um gesto de tristeza.

— Por que ela ainda fica do lado dele? — Bucky não conseguia entender, havia até uma certa raiva de Beverly naquele momento.

— As pessoas tem esperança que as outras mudem. Além disso vítimas de abuso desse tipo tendem a ver justificativa em cada ação ruim do agressor. — Savannah explicou de um jeito calmo.

Bucky não conseguia vislumbrar essa realidade, quando alguém te faz algo ruim você revida ou se afasta, não é?

— Quando eu me mudei pra cá eles pareciam um casal normal e feliz. Eu ouvi vozes alteradas uma vez, mas não pareceu importante, da outra vez, quando a coisa pareceu mais preocupante, eu chamei a polícia em uma denúncia anônima, mas eles não fizeram nada, porque a Bev disse que estava tudo bem. Então eu comecei a intervir. Da primeira vez ele pediu desculpas, disse que se exaltou e aquele monte de baboseira. — Savannah meneou a cabeça como se as lembranças fossem amargas. — Eu percebi que é isso que ele faz, ele bate nela em um dia e no outro pede perdão, promete que vai mudar e por um tempo até parece isso mesmo.

Savannah deu um suspiro triste e Bucky odiou tudo e todos que pudessem nublar o sol que ela era.

— O ciclo de abuso é muito mais complicado do que as pessoas pensam, porque não é linear, ele é como uma montanha-russa, cheio de altos e baixos. É sempre bom demais ou ruim demais, e a vítima geralmente fica confusa com isso... O questionamento “momentos ótimos compensam momentos péssimos?” é muito comum. — Savannah parecia saber muito bem do que estava falando. — Não é culpa delas, não se pode culpar as vítimas, você não pode culpar alguém que é constantemente manipulado, mesmo que essa pessoa pareça plenamente ciente de suas ações.

Bucky meneou a cabeça para a última parte, se vendo naquelas palavras, porque Steve e Sam o tratavam como essa vítima, mas ele não se sentia assim, ele se sentia culpado por tudo que tinha feito. Como se pudesse ter lutado mais pra impedir isso.

— Você não concorda comigo? — Savannah pareceu surpresa com aquele posicionamento.

— Não sei... Muitas coisas podiam ser feitar pra parar isso... — Bucky não estava falando de Beverly, falava de dele próprio. Uma parte de si tinha até esquecido que estavam falando de outra pessoa.

Savannah lhe ofereceu um sorriso compassivo, e por um segundo Bucky achou que sua vizinha sabia de tudo. Mas isso era impossível... Ela não teria aberto sua casa e estaria sentada ali pacificamente com ele se soubesse

— Impotência não é só estar amarrado ou preso, James, às vezes o que prende a pessoa está aqui. — Ela bateu o dedo indicador na lateral da testa. E apesar de sua relutância em aceitar aquilo como verdadeiro Bucky entendeu totalmente...

Às vezes a pior prisão é sua própria mente.

— Então eu continuo do lado dela, porque ela precisa ser protegida, e um dia ela vai estar pronta pra sair disso, e vai precisar de apoio. — Savannah terminou com um de seus sorrisos-sol.

Bucky se lembrou que estavam falando de Beverly e Ryan e não do Soldado Invernal e da Hidra.

— Você é uma boa amiga... — Ele se esforçou pra sorrir e nem foi difícil. Porque não era uma tortura sorrir pra Savannah.

— Qualquer um faria o mesmo. — Ela deu de ombros e desviou o olhar, quase como se não soubesse lidar com elogios.

Mas Bucky não achava isso verdade, não eram todas as pessoas que fariam o mesmo, a maior parte apenas desistiria de Beverly por ser mais fácil, mas Savannah era diferente... E talvez fosse exatamente isso que a tornasse o sol que ele tanto admirava, talvez fosse esse o motivo da simples presença dela parecer deixar tudo mais leve.

E ela era linda, ainda por cima. Como alguém seria capaz de resistir? Bucky tinha os olhos nela, como quem aprecia o nasceu do sol no horizonte.

— Então... faz quanto tempo que você mora aqui? — Perguntou casualmente, quando reparou que estava olhando fixamente para Savannah por mais tempo que o aceitável.

— Eu vim no meio da época do blip. — Ela respondeu, pegando Alpine que tinha acabado de beber o leite. — Separei da minha namorada, então precisei de procurar um lugar pra morar.

Ela disse “namorada”, claramente, com os olhos em Bucky, e ele percebeu que aquela ela media suas reações.

Foi estranho e um tanto fantástico em um primeiro momento, porque Bucky nunca havia conhecido alguém que dissesse com tanta naturalidade que gostava de pessoas do mesmo sexo. Será que as coisas eram mais simples no século vinte e um ou será que Savannah era uma exceção corajosa, que não se preocupava com a opinião alheia?

Na época de Bucky nenhuma garota — ou rapaz — diria uma coisa como aquela em voz alta, a menos que quisesse ser visto pela sociedade como um depravado ou como uma aberração...

E em um segundo momento ficou até aliviado, afinal se ela gostava de garotas, Bucky tinha entendido todos os sinais anteriores errados e Savannah, felizmente, nunca se interessaria por ele e dessa forma as coisas nunca deixariam de ser simples.

— Sinto muito. — Foi honesto, porque terminar um relacionamento longo devia ser algo difícil.

Não que Bucky soubesse com propriedade, porque nunca teve um só relacionamento longo na vida. Envolvimentos rápidos sim, mas qualquer compromisso nos anos 40 virava “namoro” e isso sempre levava a “casamento” ou a um pai muito bravo, e Bucky evitava esses tipos de problemas...

— Não sinta, a gente só descobriu que somos melhores como amigas. — Savannah sorriu e deu de ombros casualmente. — E a Sierra não me expulsou, a gente só meio que percebeu que era estanho transar com outras pessoas com a ex no quarto ao lado.

Bucky engasgou com a própria saliva e teve uma crise de tosse. Aquilo era uma informação que ele não precisava saber, com certeza.

Outra coisa bem clara em sua época é que nenhuma garota admitiria ter feito sexo antes do casamento, elas tinham sido criadas e doutrinadas para acreditar que o certo era que se casassem puras, castas, para honrarem o branco. Bucky respeitava isso, mas no fundo achava besteira... apenas outra das coisas que jamais direita em voz alta.

Felizmente alguém bateu na porta e o salvou daquela cena vergonhosa.

— Acho que é a pizza. — Savannah se levantou, colocando Alpine acomodada no sofá

Bucky também se levantou, indo em direção a porta enquanto pegava a carteira no bolso de trás do jeans.

— O que você está fazendo? — Os fios ruivos cortaram seu caminho.

— Eu vou pagar... — Ele respondeu como se fosse a coisa mais óbvia da terra.

— Ah, mas de jeito nenhum. — Savannah o impediu de passar erguendo um dedo em riste. —Eu convidei, eu pago. Além disso, mesmo se você quisesse, eu já paguei pelo celular.

Ela apontou o aparelho sobre a mesa de centro e Bucky teve que franzir as sobrancelhas porque não fazia ideia de como ela tinha feito aquilo.

Sam tinha ensinado algumas coisas sobre tecnologia naqueles últimos dias, mas não tinha mencionado aquele detalhe.

— Da próxima vez você me convida e você paga. — Savannah declarou de modo simples, enquanto girava a maçaneta. — É desse jeito que funciona entre os amigos.

“Próxima vez”, essas palavras ecoaram na mente de Bucky e ele sorriu involuntariamente.

Enquanto isso, Savannah abriu a porta e teve uma mudança tão brusca de postura assim que viu o entregador que foi impossível não notar.

— Oi... — Era provavelmente o “oi” mais estranho que já tinha ouvido dos lábios dela.

O rapaz estendeu a pizza e seus olhos percorreram o corpo de Savannah descaradamente. O maxilar de Bucky travou de imediato.

— Eu te conheço de algum lugar? — O entregador perguntou estreitando as sobrancelhas.

— Eu não acho. — Savannah moveu a cabeça negativamente. — Obrigada e tchau.

Ela fechou a porta atrás de si antes de cair no riso.

— Merda... — Xingou baixinho enquanto ainda ria.

— Algum problema? — Bucky estava realmente confuso com a cena.

— Eu marquei um encontro com ele pelo tinder semana passada e dei o bolo nele. — Ela fez uma careta e caiu no riso de novo. — Droga, eu amava essa pizzaria...

Seguiu com a pizza em direção a mesa, enquanto a mente de Bucky se dividia em dois pontos principais, Savannah obviamente gostava de moças e rapazes... O que era surpreendente e fez Bucky ter vontade de fazer mil perguntas, mas ele não sabia se devia ou se podia, por isso resolveu focar na outra parte da frase:

O que é um tinder? — Assim que a pergunta saiu de seus lábios e Savannah virou claramente surpresa, Bucky se arrependeu de ter aberto a boca.

— Sério? — Ela estreitou os olhos e ele não viu outra saída a não ser mover os ombros, porque não fazia a menor ideia do que dizer. — Essa é a sua pergunta?

Droga... Bucky pensou em um jeito de sair daquela situação, podia dizer que era brincadeira, mas o sorriso totalmente sol de verão que Savannah lhe deu fez com que sua mente falhasse.

— Você é impressionante, James. — Ele não soube bem se era um elogio ou uma crítica. — Casa-trabalho; Cozinha; Lava; Salva gatinhos na chuva; Não deixa um babaca bater em mulheres; Reconhece os próprios erros; Não se aproveita de garotas em situações vulneráveis, porque mal olhou pra minha blusa molhada; Não é preconceituoso, porque não ficou estranho quando eu disse que namorei uma menina; E agora, quando eu deixei claro que gostava de garotos também, você não me encarou como se eu fosse uma devassa que sai com qualquer um; Você só quer saber o que é um tinder.

Bucky demorou dois segundos para processar tudo aquilo, um pouco porque era muita informação que Savannah havia colhido e muito porque ela lhe olhava de um jeito tão intenso naquele momento que ele teve que desviar.

— Você estava me testando? — Perguntou surpreso. Talvez qualquer outro se sentisse um tanto ofendido, mas não Bucky, na verdade ele achou Savannah muito perspicaz e esperta pela atitude.

Provava que apesar de tudo ela não era ingênua de confiar em qualquer um... Não que Bucky se achasse digno de confiança. Depois do lance com a porta ele tinha começado a pensar que Savannah fazia pouco caso de sua própria segurança, o que felizmente não era verdade.

— Você é um cara; você é branco; e você é muito gostoso. Isso é basicamente o topo do privilegio, só faltou ser rico. Então eu tinha que ter certeza que você era legal. — Ela enumerou e Bucky piscou algumas vezes pala lidar com o choque.

Ela não disse em voz alta que eu sou gostoso. Ninguém faria isso. Ele tentou negar achando que não tinha escutado com clareza.

— Eu não sou amiga de gente chata; de homofônicos ou boys embuste. Também não sou amiga de machistas, racistas ou nazistas. — Ela terminou de explicar, dando de ombros como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Garota esperta.

— Quem em sã consciência seria amigo de um nazista? Ninguém gosta de nazistas. — Bucky se limitou a responder essa última parte e Savannah deu o melhor sorriso de todos.

Será que ele tinha escutado certo a parte do gostoso? Não... Impossível.

— Exatamente! — Ela apontou, enquanto se jogava no sofá, esperando que Bucky se sentasse também e, ao invés de abrir a pizza, pegou o celular e procurou algo nele. — E isso é um tinder...

Mostrou a tela e logo emendou uma explicação sobre fotos, bios, likes, matchs e outras coisas assim, mostrando cada etapa do processo enquanto falava...

Bucky entendeu o conceito, um tipo de ferramentas para conhecer pessoas, o que era interessante, mas soava um tanto imprudente.

— Então você conhece alguém que está atrás de uma tela e decide se encontrar com essa pessoa assim do nada... Isso não é perigoso? — Ele perguntou, quando Savannah terminou sua explicação.

— Bom... — Ela fez uma careta culpada. — Tecnicamente pode ser perigoso sim... Mas somos millennials gostamos de viver perigosamente.

Bucky riu de canto da cara que Savannah fez, a modernidade era uma coisa muito estranha...

— No geral a gente marca em um lugar público e torce pra não ser um serial killer. — Ela soltou uma daquelas risadas-sol, usando um humor negro que não pareceu muito apropriado.

O tal tinder era muito perigoso...

— Não é mais fácil sair e fazer amigos do jeito tradicional? — Ele sugeriu, querendo mesmo era pedir que Savannah tirasse aquela isca de assassinos loucos do celular.

— Então... — Ela apontou, fazendo a careta culpada outra vez. — Eu não tenho um argumento bom o bastante para rebater isso, então vou usar o: é tudo culpa da internet. — Riu, movendo os ombros de forma inocente.

Era fácil se perder no sorriso de Savannah, Bucky podia assistir aquela cena o dia inteiro e jamais se cansaria.

— Me diz... qual foi a conclusão que você chegou sobre mim? — Ele perguntou, quando começou a ficar estranho manter os olhos fixos nela por tanto tempo.

— Que você é de boa e eu posso ser sua amiga. — Savannah declarou com simplicidade e Bucky deu um sorriso triste. Ela não sabia nem da metade...

Se soubesse os dois jamais estariam ali sentados no mesmo sofá.

— Mas e aí, James... — Os pensamentos melancólicos de Bucky foram cortados pela voz entusiasmada de Savannah. — O que você descobriu de mim, enquanto me olhava da sua sala de interrogatório?

A pizza esfriava sobre a mesa de cento, mas Savannah não parecia preocupada com isso, ela apenas se virou de lado no sofá, apoiando o cotovelo no encosto para encarar Bucky de frente.

Uma parte dele ainda se sentia terrível por não contar a verdade sobre quem era, essa parte acusava constantemente que aquela amizade — ou seja lá o que fosse — entre os dois, nunca sobreviveria ao inverno. Mas outra parte dele, não o velho Bucky, uma parte nova e diferente, sempre dizia: como o inverno vai chegar se Savannah é o próprio verão?

— Eu descobri que você é muito bagunceira e que precisa urgentemente dar água para as suas plantas. — Ele respondeu, virando-se um pouco na direção dela também e se deixando levar pelo sol ardente, sem temer a insolação.

— Porra, como eu sou sem graça! — A risada de Savannah preencheu todo o apartamento e contagiou Bucky.

Quando esse som se tornou silêncio, com os sorrisos ainda vivos em seus lábios, seus olhos estavam presos de novo...

Bucky segurou o ar dentro dos pulmões, como se isso pudesse parar aquele exato segundo no tempo, porque tudo que ele queria naquele momento era erguer a mão para tirar uma mecha ruiva bem fina que estava grudada no rosto de Savannah.

O antigo Bucky teria feito isso, e então faria uma piada boba, a chamaria de “boneca”, comeriam pizza e dançariam, e talvez ele a beijasse no fim da noite. Mas esse Bucky não se encaixa mais...

O Soldado Invernal, por sua vez, não conhecia nada além de morte e sangue, ele se manteria distante, a menos que Savannah fosse sua missão. Ele também não se encaixava ali.

Bucky aceitou que não era mais nem um, nem outro, não sabia quem era, mas se conformou com ser um pouco de cada aquela noite, ele ficou ao invés de partir, mas não ergueu a mão para tocar Savannah, porque ainda precisava manter uma certa distância. Era mais seguro assim...

No entanto, Savannah não parecia inclinada a aceitar distâncias, porque ela aproximou um pouco mais quando se arrastou no sofá e ele pode jurar que ela teria ido em frente, ela teria se aproximado mais e mais, até que não houvesse distancia alguma... caso alguém não tivesse batido na porta.

Savannah franziu as sobrancelhas e se levantou. Uma parte de Bucky sentiu alivio imediato, era melhor assim... mas a outra parte se perguntava o que teria acontecido?

E, entre todos os obstáculos e problematizações que sua mente criou naquele momento, ele notou que queria não ter sido interrompido, — nem pela porta, nem por sua própria mente — queria ter fechado os olhos e sentido os lábios de Savannah nos seus. Apenas isso.

Não era como se estivesse apaixonado... Longe disso. Bucky conhecia amor e não era daquele jeito. Ele só queria ficar por perto, orbitar em torno do sol que Savannah era, porque isso era leve e lhe fazia esquecer o inverno em seus ossos. E sim, ela era linda, atraente e muito interessante, Bucky com certeza a beijaria se pudesse, mas... Não tinha nada a ver com coisas do coração.

Notas finais
Huuummm tá rolando um clima, não é mesmo? Esse é o meu capitulo preferido até agora, pra dizer bem a verdade eu podia esquecer que tenho um enredo e ficar pra sempre escrevendo momentos aleatórios desses dois de tão fofos que eles são juntos. O próximo se chama "Abby" e sim é ela na porta (porque todo mundo tem aquele amigo que empaca foda kkkkkk) *Nas versão MCU Bucky é o mais velho de 4 filhos (informação que tá no museu), a irmã alergica a gatos que ele cita é a Rebecca (que é a única irmã dele nas HQs) Beijos e até mais!