Inverno
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Hoje eu não acordei bem. Não enxerguei o sol da primavera, nem mesmo ouvi os pássaros cantarem. Estranho mesmo era perceber a breve garoa naquela estação. Parecia que o Inverno insistia em continuar.
Faltam apenas sete dias para que complete um mês do meu término com Liam. Dizem que com um tempo costumamos esquecer os romances que não deram certo, mas esse seria impossível jogar no mar do esquecimento. Era Liam, amigo de infância que ficou preso em meus pensamentos até quando ele resolveu desaparecer da minha vida. Amor de infância na qual reconheço agora. Dono de olhos jamais inigualáveis e de ações únicas. Por noites lágrimas involuntárias desciam de minha face. Confesso que ainda não me adaptei a conviver sem ele.
Houve dias em que nos encontrávamos nos corredores da escola e iniciávamos um breve diálogo. Terminávamos no “Estou me adaptando.” dito por mim até que nosso contato visual terminava sempre em que dobrávamos o corredor.
Liam continuava a me tratar da mesma forma, mas agora existia os seus limites. Adaptei-me a biblioteca da escola justamente para não me ver desnorteado e desorientado no pátio. Ele estava agora solitário. A paz reinou por esse tempo. Sempre em que encontrei Anna no corredor desejava assassiná-la. Confesso que errei, mas pedir para que Tobias fizesse aquilo com Liam foi algo estúpido.
Acabei percebendo que Tobias sempre foi apaixonado por Anna. Viviam numa espécie de triângulo amoroso e não tinham ideia. Novamente desejei a presença de Nat nessa escola só para surrá-la. Fui tão idiota. Mesmo por quase meio ano vivido aqui, desde a minha chegada tanta coisa mudou. Na verdade, até antes de por os pés nessa escola as coisas mudaram.
A começar por Nat, Henry e Adam. Um trio que teve que se dividir após a expulsão da garota, e era ela quem sustentava a amizade deles. O que antes era somente um, dividiu-se em dois grupos. Emma, Victor, Oscar Laura e Henry contra Liam, Anna e Tobias, digamos que até mesmo Adam participava disso, já que torcia sempre para que o moreno quebrasse a cara.
Logo as coisas começaram a ficarem pesadas. Depois houve a separação do grupo de Liam, traído por Anna e seu melhor amigo Tobias. Depois surgiu o amor doentio de Laura que demoraram a descobrir, que fora capaz de fazer Lisa ser expulsa, e até mesmo a Nat. Foi ela quem quebrou a corrente que unia o grupo de Henry, que depois de que souberam de seu segredo, viraram contra ele. Porém o moreno jamais se daria por vencido e revelou, também, segredos do seu grupo: Uma garota puta na qual a família não sabe, um traficante e um também homossexual.
Depois somente restou Adam, Liam e eu. Mas o destino costuma brincar com a vida das pessoas. E no final, o loiro teve que se separar de mim.
Hoje cada um vive a sua vida, embora eu saiba que Henry e Adam tenham se resolvidos. Os únicos em paz, pois até mesmo Emma, Victor e Oscar estão em guerra por seus segredos.
Eu sei que o mundo está apto a mudanças e nós também. Algumas geram bons frutos, outras acabam mudando drasticamente o nosso rumo. Eu poderia dizer que jamais pensaria que um dia me veria beijando outro garoto ou sendo mais sincero, namorando e transando com um. Hoje, mesmo que sendo difícil, sei o que quero. Sinceramente posso dizer que me aceito, mesmo sentindo muita falta da minha mãe. Meu pai, nas últimas ligações sempre me dava palavras de apoio. Para ele foi tão rápido a aceitação que continuou a me chamar do mesmo jeito de antes. Até mesmo brincou sobre Liam dizendo que queria o conhecer. Quem diria que um pai pudesse ser mais fácil de conquistar do que uma mãe. Se é que há diferença, vendo que os pais esperam que os filhos se espelhem nele, que levem a namorada pra casa ou que seja pegador. Enquanto as mães queriam um filho certo e trabalhador.
Adam passou o dia comigo e já era noite quando ele resolveu me contar que foi à casa de Liam tentar conversar com ele. Como assim?!
— O que você fez? V-você disse que eu ia embora? — Eu indaguei surpreso vendo-o apenas me olhar assustado após minha reação.
— Sim, fui. E isso aconteceu há dias, mas eu não queria te contar. — Ele movia a cabeça como se aquilo não fosse algo absurdo.
— Você não tinha esse direito, Adam.
— Eu sei. — Ele sentou-se ao meu lado. — Mas eu não acho certo o que ele fez com você, é tudo tão sem motivos. Dizer que você ir ia embora foi uma tentava falha de fazê-lo vir aqui tentar te convencer para ficar.
E ele não veio. Parecia realmente não se importar e estar disposto a me esquecer. Era Liam, um tanto quanto imprevisível. Meu coração apertou. Eu ainda estava chateado com Adam, pois ele não tinha esse direito de envolver em minha relação com o loiro, mesmo que suas intenções sejam positivas.
— Eu só não queria te ver assim, — ele prosseguiu — se acabando porque um garoto que te deu um pé na bunda. — Ele dizia tocando-me o estomago com o dedo indicador.
Era inevitável, mesmo com suas piadas falhas, Adam não me conseguia arrancar sorrisos.
— Me desculpa, tá? Eu sei que errei, mas é triste te ver desse jeito, John. Se ele não te quer, você tem que viver a sua vida. Existem tantos caras bonitos e legais por aí.
— Olha só quem está me dando conselho.
— Será que você pode tirar o foco de mim? Eu sei que vivi uma história de erros com Henry, mas por enquanto eu quero falar de você.
— Eu tento esquecer e você me faz lembrar. — Falei revirando os olhos e jogando-me na cama.
Eu não iria chorar. Até estava cansado disso, e as lágrimas costumavam vir quando todas as luzes estavam apagadas. Mas Adam de certa forma me animava, fazia-me por minutos me desligar da tristeza. Só que dessa vez ele estava trazendo tudo de volta.
— Eu nunca vou entender o motivo dessa separação de vocês. Acho que é algo passageiro, logo vocês estão juntos.
— Ele só fez isso pelo meu bem.
— É egoísmo e burrice, pois ele sabe que você não irá ficar bem com isso. — As expressões de Adam eram hilárias. Se Liam estivesse em sua frente, com certeza meu primo estaria apertando o seu pescoço.
— Eu irei me adaptar, Adam. Esse momento irá chegar.
— Agora sua mãe vai ficar feliz quando souber que você e Liam não estão mais juntos.
Minha mãe ainda não sabia de nada. Eu não tomei coragem para falar com ela desde o término. Queria primeiro aceitar isso para depois reencontrá-la. Não seria fácil. Provavelmente ela iria ficar feliz, afinal, era o que ela queria. Mas de qualquer forma ainda decepcionada comigo, pois eu iria dizer a ela que gostava de garotos. Acho que chegou o dia em que tenho que erguer minha voz. Já não sou mais criança.
— Do que é que os garotos estão conversando dessa vez? — Minha avó surge na porta com um olhar sapeca em seu rosto — John, você não jantou hoje e bom, só irei sair daqui quando você descer para comer.
Tinha dias em que eu realmente perdia a fome quando começava a pensar muito no loiro. Minha avó estava certa, eu teria que me alimentar.
Adam me puxou e juntos descemos. Alguém chamava na porta, e quem resolveu atender foi minha avó. Adam e eu apenas ficamos parados na sala para saber quem era a visita inesperada. Eu queria que fosse o loiro, aparecendo e me chamando para conversar. Eu com certeza iria esquecer de que teria que comer só para tê-lo perto de mim.
— Henry? — De forma uníssona Adam e eu pronunciamos.
O moreno estava parado e cabisbaixo. Sem jeito, coisa que nunca vi. Minha avó nos fuzilou por alguns segundos e voltou a sua atenção para o moreno. Eles ficaram parados provavelmente por mais de um minuto, até que ela quebrou o silêncio.
— O que você quer aqui? — A mais velha indagou.
Certamente Adam não contou para ele que eles dois agora estavam em paz. Quis até mesmo socar o meu primo por tamanha burrice. Mas se levarmos em conta o que Henry já causou para nossa família, ele estava certo. Minha avó com certeza ficaria uma fera se descobrisse sozinha.
— Pedi seu neto em namoro, aqui, na sua frente.
Certo. Acedam os holofotes, abram as cortinas e me entreguem a pipoca. Como assim?! O velho sorriso do moreno se formou. Flores? Era muito... Não sei explicar. Mas eu estava tão assustado com aquilo, que com certeza pensei no pior. Henry era tão audacioso que nem mesmo se intimidava com a autoridade da minha avó. Era também corajoso, e isso para mim sempre foi uma qualidade sua.
— Eu vou desmaiar. — Adam murmurou.
— E acho que nossa avó vai morrer do coração depois de surrá-lo.
Todos estavam parados, em silêncio. Mas o moreno continuava com aquele sorriso em seu rosto. Contei até cinco. Depois disso eu ouvi minha avó reclamar e xingar o garoto milhares de vezes. Mas ela estava certa em tudo que disse a ele.
— Posso falar? — Ele indagou, conseguindo chamar sua atenção.
— Mas sempre estamos aptos a ouvir as pessoas. — Ela disse, e em seguida abriu mais a porta. Não queria deixa-lo parado na rua, então deu espaço para o garoto passar. Então Henry entrou e se sentou.
O moreno olhou para Adam e piscou. Até eu me senti desconfortável com aquilo. Henry era muito corajoso, enfrentar minha avó não era algo fácil. Principalmente depois de tudo que ele já fez.
— Vocês dois, cozinha. — Ela apontou para Adam e eu.
— Eu acho que mereço ficar aqui, não é? — Adam disse, um tanto quanto sério.
— Cozinha, agora! — Ela disse.
Nunca vi minha avó daquele jeito. Adam não mais insistiu e me puxou com ele para lá.
— Não creio nisso. — Ele disse, sentando-se na cadeira e levando as mãos para o cabelo.
— Nunca irei duvidar de Henry na minha vida.
— Isso foi lindo. — Adam disse agora sorrindo.
— Você também está ficando louco. Porque o que ele está fazendo é loucura.
— Mas é lindo de qualquer forma. Há um tempo eu disse que ele teria que conversar com minha avó, enfrenta-la e pedir desculpas.
— Isso era o certo a se fazer.
— Ela gosta de Henry, John. Eu sei.
— Eu também disso, Adam. Vocês eram amigos antes e com certeza ela enxergava a mesma coisa que você enxerga nele. — Fui até a geladeira e a abri.
— Meu coração ainda tá acelerado. Eu achei que ele iria somente conversar, mas assim... Pedir em namoro é demais.
— Não parece que é o Henry. Tem certeza? Tô achando isso tão gay pra alguém másculo como ele.
— Vai pra puta que o pariu.
— Mas é a verdade. O Henry costuma tratar as pessoas como lixo e vê-lo assim, com flores na mão, à noite, aqui em casa, te pedindo em namoro na frente de todos. Pra mim é gay, apesar de romântico.
— Você fala isso porque Liam não fez o mesmo.
Eu bati a geladeira com força. Por que ele tinha que tocar no nome do loiro? Era tão desnecessário. Embora Adam estivesse certo, nunca houve um pedido de namoro oficial, mas agíamos como tal. Eu nunca me importei para com isso, pois sabíamos que apesar da palavra “namoro” não existir, éramos um casal.
— Desculpe. — Ele disse.
— Tudo bem. — Falei, indo em direção ao cesto de pães tentando novamente esquecer Liam.
— Adam, pode ir. — Minha avó surge no cômodo. Ela estava calma, porém um tanto séria.
Adam nem mesmo falou algo, apenas levantou e saiu correndo do lugar, deixando-nos a sós. Eu estava curioso para saber o que havia acontecido. Mas ela não disse nada. Ficou pensativa.
— Você deixou? — Eu tentei quebrar o silêncio desagradável.
— O garoto parece está disposto a mudar.
— Eu presenciei essa mudança. — Falei, tentando-a deixa-la tranquilo e dando-lhe um copo d’água. — Vamos dar mais uma chance para ele.
— Adam o ama. Meu neto é tão ingênuo, mas ele tem que viver a sua vida. Não posso mais interferir.
— Isso significa que ele está crescendo.
Quem era eu pra ficar falando isso de Adam? Também estou na mesma fase de crescimento, um jovem, imaturo. Depois disso, minha avó sorriu tocando-me o ombro. Continuávamos a conversar.
Minha avó já sabia do meu término com o Liam, mas sendo uma mulher adulta evitava esse assunto. Melhor do que ninguém, ela sabia dos males da saudade.
Era manhã, o sol novamente não deu o seu sinal no horário previsto. Demorou a surgir por dentre as nuvens. Adam e eu caminhávamos conversando sobre a noite passada. Era oficial, ele e Henry estavam namorando. É estranho falar em namoro de dois garotos. Confesso, mas estava me adaptando e esse tipo de pensamento ia embora rapidinho.
— E vocês irão assumir para o público? — Eu indaguei.
— Não há necessidade disso, John.
— Sim, entendo. Vão viver da mesma forma que Liam e eu vivíamos.
— Vivemos em uma sociedade em que muitos não aceitam. Não esconderemos nada de ninguém, mas isso não significa que devemos explanar para o mundo.
— Sou eu terminando um namoro e você iniciando um. Pelo menos Henry vem crescendo, já estava mais do que na hora.
— Concordo com você.
Fora somente observar o loiro em minha frente para que eu pudesse ficar em silêncio e deixar Adam falando sozinho. Foram olhares de bom dia e até qualquer hora. Com direito somente a um sorriso em que forcei para parecer está bem.
— John, eu tô falando com você. — Adam chamou minha atenção apertando o meu ombro.
— Oi?
— Eu perguntei se você não tá achando o dia estranho.
— Ah, sim. — Confirmei mesmo sem entender.
As aulas foram iniciadas. Como era impossível permanecer naquela escola e não lembrar ele. Adam mesmo procurando me desconcentrar por milhares de vezes era impossível. As palavras ditas pelos professores eram inaudíveis, pois até mesmo palavras perdidas no quadro me fazia pensar nele. O professor estava falando sobre o meio ambiente, embora estejamos no ensino médio, esse assunto nunca deixa de existir. Só fora ler a palavra árvore, que na mente veio de imediato o nosso primeiro beijo. Chuva, a nossa primeira vez. E assim foram se passando as horas, somente pensando em Liam.
Depois disso, eu comecei a bocejar quando a aula estava tornando-se insuportável. Foi nesse momento em que o sinal tocou e eu agradeci milhares de vezes por isso. Convidei Adam para ir à biblioteca comigo e ele aceitou. Henry e ele teriam que continuar com a imagem de que vivem em guerra. É até divertido, eles não veem mais problema nisso, portanto que estejam bem de verdade.
— E estamos indo para o céu. — Adam brincou.
— A paz reina naquele lugar. Bem mais calmo que aqui.
— Se bem que eu não tô vendo mais tanta movimentação, depois a extinção dos grupos nada mais de interessante acontece nessa escola.
Foi aí, nesse exato momento, assim que Adam terminou de falar, que ouvimos algo. Logo, o mesmo som estridente ecoava por todos os lugares da escola. Olhei para Adam assustado temendo o pior, até que ele segurou em minha mão também assustado. Gritos.
No momento em que resolvi correr com Adam, ouvimos somente dois tiros. O suficiente para causar pânico em toda a escola. Pessoas empurrando umas as outras na tentativa de se esconder, enquanto meu primo e eu corríamos sem saber para onde ir. Encontramos pessoas chorando. Novamente mais um tiro, o suficiente para mais pessoas gritarem desesperadas. Eu não largava a mão de Adam enquanto corríamos na multidão.
Eu não podia voltar, nem mesmo sair. Desliguei-me de todos os meus medos e fui procurar o loiro, puxando Adam comigo. No caminho Henry estava também assustado com tudo que ouvia, Adam só teve tempo para um abraço rápido enquanto corríamos. Mais um tiro. Henry puxou Adam com ele e me deixaram sozinho, eu os perdi no meio da multidão, mas corri na mesma direção que eles. Estavam todos desesperados. Milhares de alunos com seus celulares em seus ouvidos.
Nunca foi tanto o desespero e o medo da morte como esse dia. Eu corria pelos corredores que estavam ficando vazios. Eu não iria sair dali sem encontrar Liam, não mesmo. Ainda correndo, ouvi outro tiro, dessa vez mais próximo. Era idiotice, e também burrice o que eu estava fazendo, mas eu não posso sair daqui sem encontrar os olhos que me acalmam. Não posso perdê-lo mais uma vez. As lágrimas já desciam por minha face quando eu não o encontrava, até então ser puxado pela cintura enquanto outra mão impedia-me de falar.
Eu encontrei os olhos cinza novamente.
Estávamos em uma sala de aula no térreo. Todos em silêncio e assustados. Sim, todos: Henry e Adam também estavam ali, escondidos em outro lugar eu vi Victor agachado por trás de cadeiras, enquanto Oscar cuidava da porta. Até ser lançado para trás quando a mesma brutamente foi empurrada e Tobias junto a Anna entrar ali.
Era como se fosse uma grande ironia do destino. Inimigos reunidos para morrer.
Liam me pressionava na parede, até afastar sua mão de meus lábios, ainda pedindo por silêncio. Era tão inacreditável ver todos chorando. Anna protegida nos braços de Tobias, enquanto Victor prendia os braços em seu joelho. Adam e Henry abaixados e agarrados enquanto Oscar estava lançado no chão com as mãos na cabeça. A rivalidade ali fora quebrada, todos lutavam somente para sobreviver. Era tudo tão sério, tão caótico e tão tenebroso. Os corações acelerados em desespero, olhares assustados que viviam se encarando.
— Eu te amo. — Foi somente esse sussurro em meu ouvido para me desligar de todos na sala.
Liam também estava assustado, mas parecia está ali para me proteger. Quando na verdade eu também o protegia. Até mesmo a ideia do término fora esquecida.
Anna tentava desesperadamente ligar de seu celular para alguém, enquanto afogava o rosto do tórax de Tobias. Adam fez o mesmo, eu o via falar com minha avó e contar tudo o que estava acontecendo.
Passos. Todos nós ouvimos, e foi aí que nos escondemos mais ainda nos esconderijos (desnecessários) que encontrávamos, mas somente havia armários, cadeiras e mesas. Não era o suficiente para nos escondermos.
A loira entra em lágrimas pela porta. Emma sobre a mira de uma arma. Laura com um sorriso sádico no rosto lançou a garota no chão. Ela atirou no teto, o que fez Anna gritar e abraçar Tobias mais forte ainda.
Não havia vida naquele olhar diabólico de Laura. Como ela estava ali e o porquê de estar portando uma arma ninguém sabia. Mas a loucura tomou conta do seu raciocínio.
— Vocês são tão previsíveis, se escondendo na sala em que marcávamos para nos reunir. — Ela disse cuspindo as palavras e apontando a arma para cada um de nós. — Foi sorte encontrar Emma tentando fugir.
Ninguém se atreveu a falar. Todos tão assustados.
Quando a morena me viu com Liam apenas gargalhou alto, ela apontou a arma para mim e fingiu atirar. Eu fechei os olhos, mas não houve tiro.
Novamente gargalhou. Estava do mesmo jeito que a encontrei quando incendiou a escola.
— Vocês acham que eu iria esquecer de vocês? — Ela disse agora séria. — Somos todos amigos, vamos morrer juntinhos. — Novamente gargalhou, caminhando pela sala alternando a mira da arma para cada um de nós.
Sirenes, polícia. Acharíamos que aquilo era o socorro, mas todos nós estávamos presos em uma sala, prestes a sermos mortos por uma louca, tomada pelo ódio.
— Pobre Emma, fingindo ser minha amiga durante todo esse tempo. — ela riu — Vadia desgraçada! Nem mesmo foi me visitar. — Ela fuzilou a garota com o olhar e caminhou em direção a ela, pondo a arma sobre sua cabeça. — Você só usa dos peitos que tem para conseguir o que deseja, então quer dizer que se eu atirar em seu cérebro não faz importância. Certo?
Emma não conseguia dizer nada, prendia o choro e ficava de olhos fechados. Laura usou da mão para atacar a face da garota. E levantou-se novamente.
— Laura essa é a arma do papai? — Audacioso como sempre, Henry mostrou sua coragem para todos nós quando tentou se aproximar da irmã.
— Exatamente, onde você acha que passei antes de chegar aqui? — Ela ria. — Não ouse se aproximar, Henry, nem mesmo pouparei você da morte. — A morena mirou em seu irmão.
Um pai portando uma arma em casa. Sua família era tão conturbada quanto a minha.
Adam olhava tudo aquilo em lágrimas, ele tentou por vezes chamar Henry, mas o garoto não o obedecia.
— Por que isso, Laura? — Ele indagou.
— Vocês acham que eu sou louca! — Ela gritou.
A verdade é que ela Laura não é normal. Amor doentio que acaba novamente colocando a morte em jogo.
— Você não é louca. — Henry disse em um tom calmo.
— Como provar para esses idiotas? Chamaram-me de louca, Henry. Mas eu não sou louca, eu somente amo. — Sua última palavra veio com um murmuro.
Amor. A palavra era essa. Os olhos da morena foram diretos para Liam, ela sorriu. Mas ele nem mesmo retribuiu.
— O Liam... — Henry fez uma pausa procurando palavras — Ele te ama, não é Liam? — O moreno olhou para o loiro procurando afirmação.
Liam somente maneou a cabeça em confirmação.
Mas Laura somente gargalhou novamente, tomando de volta a personalidade sádica.
— Mas eu não estou aqui somente para amá-lo, mas para matar o idiota que arruinou a minha vida. — Sua arma veio em minha direção.
— Vamos conversar, Laura. — Henry tentou novamente se aproximar da irmã.
Mas o inesperado — ou esperado — acontece. Ela atirou no próprio irmão. Fora por pouco, que não presenciamos uma morte. Henry levou a mão ao seu braço e caiu no chão. Adam correu para socorrê-lo, enquanto o choro de Emma era maior do que a gargalhada de Laura.
— Sua louca. — Tobias disse.
Era raro ouvi-lo, mas o grandão era corajoso.
— Cala essa boca! Pensando bem, por que você não se declara pra Anna antes de morrer? É uma ótima oportunidade. — Ela apontou a arma para ele.
Mas o maior ficou calado, mostrando-se inseguro. Todos ali temiam a morte. Na presença de uma arma, o medo era maior do que a coragem. Principalmente depois de vermos que ela realmente seria capaz de atirar em alguém.
Adam retirou sua camisa para prender nos braços do garoto. Eu via tudo aquilo e ainda não acreditava se era verdade. O moreno se segurava para não insultá-la, pois apesar da dor, seu olhar também era raivoso.
Laura continuou a fazer movimentos com a arma enquanto caminhava em silêncio, viera até a direção de Liam, e ali na minha frente, depositou um beijo em seus lábios. Foi anormal.
— Vocês viram? Ele me ama! — Ela gritou, voltando para o lugar que antes estava.
Liam passou a mão em seus lábios, limpando-os. Mas a garota não se importou com isso.
— Laura...
Medo. Eu precisa me desligar deles. Eu dei alguns passos antes de prosseguir.
— Costumamos na vida cometer certos erros, porém, existe o perdão. — Fiz uma pausa procurando palavras em que pudesse chamar sua atenção de verdade — Eu sei que você ama o Liam, todos nós sabemos disso. Mas para você conseguir o amor dele, é necessário que você faça por onde. Todos nós aqui somos seus amigos. — Eu olhei para todos pedindo confirmação, eles maneavam a cabeça afirmando — Você viu? Todos são seus amigos. Largue essa arma, ninguém aqui lhe condenará, pelo contrário, te daremos apoio.
Eu me surpreendi quando encontrei a primeira lágrima descer de sua face. Até mesmo ela estava assustada com aquilo. Logo vi suas mãos tremerem enquanto segurava a arma, que agora estava apontada em minha direção.
— Você tem uma família. Enquanto a minha foi quebrada e separada. Você é de bem com a vida, enquanto eu demorei a aceitar o que só você sabe. O perdão e a paciência são dádivas concebidas aos humanos, mas cabe a nós sabermos lidar com isso. No fundo, eu sei que você é uma boa pessoa. Estou mentindo?
— Não. — Ela disse em desespero, com voz chorosa.
— Você é uma menina linda. Nós sabemos disso, nem só de erros vivem os homens. E você entende do que falo. Há sempre uma nova oportunidade.
A morena continuava a chorar, porém com a sua arma ainda apontada em minha direção.
A garota estava distraída, prestando atenção somente em mim. Eu queria que alguém fosse esperto o suficiente para que entendessem a minha estratégia. Tobias foi o único a perceber. Eu o via caminhar em passos lentos atrás dela e resolvi prosseguir.
— A polícia está lá fora, nós faremos o possível para que você não seja presa. Acredite em nós, todos estamos aqui para te ajudar.
Porém, um movimento errado de Tobias assustou a garota. E acidentalmente ela atirou.
O silêncio logo após o tiro. Os olhares em minha direção.
Levei meus olhos ao lugar onde senti queimar. Sangue.
Eu me lembro de ver Tobias correr para segurar Laura. Mas depois disso, meus joelhos encontraram o chão. Lembro também de ver Oscar correr e logo em seguida a sala ser invadida por policiais. As mãos do loiro envolveram meu ombro. Ouvi Adam chamar por meu nome, mas sua voz parecia soar fraca. A força ia indo embora. Levei minha mão ao local perfurado e vi meus dedos serem molhados pelo sangue, e a camisa branca que eu usava tornando-se vermelho vivo. Meu corpo involuntariamente caiu, mas antes de encontrar o chão os braços de Liam foram rápidos e me segurou. Eu vi seus olhos. A sua voz eu já não mais podia ouvir, mas eu sei que ele chamava por meu nome. Eu pude sentir suas lágrimas tocar a minha face. Pude sentir também sua mão em minha perfuração na tentativa falha de fazer parar de sangrar. O cinza transformou-se em escuridão.
Vi-me pequeno, observando as estrelas. Depois eu me em um passeio com a família, onde ganhei meu primeiro livro. Mais tarde me vi no mesmo lugar onde encontrei Liam sendo espancado pelos garotos. De repente estávamos em minha casa brincando. Depois eu ouvi os gritos dos meus pais brigando. Agora eu estava com minha avó e reencontrando Adam na cozinha. Reencontrei Liam crescido aparecendo pra me defender. Vi Henry e seu sarcasmo provocando-me. O meu primeiro beijo. Vi Emma e Anna brigarem. A minha primeira vez. Presenciei o choro de Adam. O dia em que Laura incendiou uma das salas. Vi o meu término. Henry com flores. E novamente vi os olhos cinza e seu corpo prendendo-me na parede. Eu vi um resumo da minha vida.
Notas finais
http://vocaroo.com/i/s0jNcZ94RzwV
Até o próximo capítulo, meus queridos. Amo todos vocês.
Fale com o autor