Inverno
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Fui o primeiro a acordar na casa. Pelo menos achei ao chegar à cozinha e encontrar minha mãe preparando o café. Vê-la em casa era algo raro, geralmente passa cinco minutos além de não falar comigo durante esse tempo. Tomei um susto, é claro. Principalmente depois do clima desagradável entre nós. Ainda espero pelo dia que tudo isso terá fim, ou melhor, o dia em que eu serei aceito. Já que em seu pensamento tudo que estou vivendo é um erro e o mundo me condena.
— Bom dia. — Falei indo em direção à geladeira.
— Bom dia. — Respondeu, sem olhar para mim. Ao menos, continuava com a educação que por anos passou para mim.
Depois disso continuamos calados. Enquanto ela não saia do fogão, eu preparava torradas para comer aquele dia. Sempre comia isso quando minha avó não estava acordada. E se tinha algo que acordava comigo, bom, esse algo era a fome.
Apesar de tudo, eu estava totalmente desorientado com sua presença. Em saber que antes éramos somente mãe e filho, sem pai. Que por conta de um erro acabou destruindo minha família. E agora, praticamente é cada um por si.
— Há chances de você me perdoar? — Indaguei quando me sentei à mesa.
Ela não me respondeu, continuava parada em frente ao fogão sem olhar para trás.
— Mãe... — A chamei dessa forma, apesar de tudo.
— O que você quer, John? — Finalmente ela virou e me olhou nos olhos.
— Exatamente isso. Você olhar para mim e ter uma conversa de adultos. — No momento me senti constrangido, já que perto dela eu era uma criança.
— Conversa de adultos? Se realmente você fosse adulto não teria me causado tanta decepção. — Voltou a olhar o fogo.
— Me desculpe, tá? Eu não queria que isso acontecesse, nem que as coisas fossem desse jeito. Mas simplesmente... — tremi quando o nome do loiro passou em minha mente — Só sinto. Não há como mudar. — E optei por não falar algo mais, nem mesmo falar de Liam.
— Um dia você olhará para trás e vai perceber que sempre estive certa quanto a tudo. Seus problemas ainda não começaram. Na verdade, começaram e da pior maneira possível. Viu que sua vida estava em jogo? — Desligou o fogo — Foi por amar um garoto você quase perdeu a vida.
— Que culpa eu tenho? Laura que é louca.
— Você também é. Tudo isso é loucura. Não é natural do ser humano. Você acha mesmo que um homem pode amar outro? Não consigo te imaginar de quatro na cama sendo enrabado por outro cara. — Perdeu a educação e deixou-me totalmente envergonhado. Apesar de tudo, suas palavras foram ofensivas.
Minha mãe estava agora olhando os armários e caçando algo para fazer, não sabia ao certo o que era. Mas fiquei observando-a depois da ofensa.
Era inacreditável tudo isso. Eu poderia ouvir isso de qualquer pessoa na rua, mas vindo dela... Doía. Dor essa que não conseguia explicar.
— Essa sua fase ingênua irá passar. — Disse ela.
— Espero. — Concordei.
Eu sabia o quão errado era tudo o que eu sentia. Na verdade, como qualquer um, eu estava confuso em relação a tudo. Eu gostava. Não queria considerar um erro meus sentimentos para com Liam. Mas ela era minha mãe. Minha mãe.
— Espero que um dia você me perdoe por tudo. Quem sabe você realmente possa estar certa. — Perdi a fome e me levantei. — Mas por enquanto, eu vou continuar fazendo o que realmente acho certo. Do que seria minha vida, meus pensamentos e argumentos se eu não vivenciasse tudo isso? — E dei de costas.
— Talvez, você pudesse abrir mão desse erro. Mães costumam perdoar. — Ela falou, fazendo-me parar.
— Está pedindo para que eu escolha entre você e ele? — Indaguei virando-me perplexo com o que ouvira.
— Não. Não é isso que está em jogo. Mas saiba que enquanto você viver desse jeito, jamais te aceitarei, ou melhor, nunca entenderei. Eu me esforço, mas isso é errado John. Tão errado que chega a me fazer passar noites chorando por você e me perguntar o que eu fiz para tamanha decepção. Sou tua mãe e ainda te amo, era de se esperar. — Disse aproximando-se de mim. — Mas as coisas, desse jeito, não estão certas.
Deixou-me sozinho. Parado olhando para um ponto fixo na parede, tendo um turbilhão de pensamentos quanto a tudo isso. Praticamente estava mandando escolher, decidir-me entre dois amores.
Não bastasse meu celular tocar e meu pai perguntar se era verdade o que estava acontecendo, dessa vez não neguei os fatos e falei com naturalidade. Ele, mesmo sem concordar foi bem diferente da minha mãe. A única coisa que me magoou foi ouvi-lo dizer que estou acabando com minha vida por uma escolha errada.
Fiquei parado observando a foto minha e de Liam aos beijos que Laura tirou e eu mesmo fiz questão de guarda uma cópia.
Amar alguém do mesmo sexo é uma escolha? É amor, não somente uma atração sexual. — Penso.
— Vamos? — Adam indagou despertando-me desses pensamentos.
— Sim. — Respondi ainda atordoado, pegando a fotografia e colocando no bolso.
Caminhávamos em silêncio e meu primo provavelmente havia percebido algo errado em mim. Preferi que ele ficasse calado e não comentasse nada. Queria ao menos tentar esquece o que se passou na cozinha e a conversa com meu pai. Eu estava carregando a culpa. Tudo que acontece agora é de minha responsabilidade. Sinto até que destruí o resto de família que eu tinha.
Vi o loiro parado observando o vai e vem de pessoas. Parei por uns minutos observando-o antes de dar o próximo passo. Será que meus pais estavam certo? Eu não suporto essa pressão contra mim e meu ato.
— John?! — Adam chama minha atenção.
Foi então que o acompanho até o loiro, mas não olhei em seus olhos. Como sempre fui abraçado por seu sorriso, que dessa vez não conseguiu trazer grandes efeitos. Mas que de certa forma deixou-me um pouco tranquilo.
Como já era de se imaginar, os olhares estavam todos em nossa direção. Depois de uma semana sem aula, que por sinal foi a melhor semana da minha vida quando me vi longe disso aqui, os alunos que passavam por nós não desviavam o olhar. Afinal, estavam reunidas as vítimas o herói da noite. Tive que rir por dentro quando me lembrei de Adam e a forma heroica como nos salvou.
— Quem será que vai me pedir autógrafos? — O pequeno brincou.
— Estou me sentindo um idiota. Como pude deixar-me ser dopado por uma garota. — Liam retrucou.
— A garota era louca, nunca iríamos imaginar algo do tipo. Você não sabia de nada. Ainda estou surpreso por John ligar os fatos e descobrir quem era sua admiradora secreta, doentia, psicopata ou sabe-se lá que palavra a define nesse momento. Mesmo que tenha sido tarde demais a descoberta. — Adam dizia ainda parado olhando cada pessoa que passava.
Eu apenas ficava em silêncio. Quanto problema é pouco tempo.
— E você, não vai falar nada? Aconteceu alguma coisa? — Liam tocou meu ombro e aproximou-se mais de mim.
— Está tudo bem. — Minha mão tocou a sua e a retirou do meu ombro. Sem grosseria. — Passou-se somente uma semana, impossível esquecer-se de tudo. Um mês talvez fosse o suficiente. — Respondo.
— Se Lisa ainda estivesse na direção, acho que ela conseguiria um mês facilmente. Essa nova direção é rígida demais. Ainda estou surpreso por não acabarem com os bailes. Se bem que depois do ocorrido nada mais acontecerá. E disso eu tenho certeza. — Adam falou dando um passo a frente. Ainda estava brincando com todos aqueles olhares que nos perseguiam.
— Isso significa que iremos fazer de agora em diante nossa própria festa. É até melhor, sem toda essa gente por perto.
— E ouvi falar que você tem uma bela casa. Sabe Liam, não gostava de você, mas agora posso dizer que simpatizo. — Disse o menor socando de leve o tórax do loiro.
— Eu também não te suportava. Na verdade, não suporto quase ninguém nessa escola. — O loiro sorriu, também socando de leve o tórax de Adam.
Nesse momento vimos Henry passar sozinho. Não resolveu provocar ou algo do tipo. Vi os olhos de Adam perseguir o moreno que finalmente resolveu desaparecer na multidão. As primeiras mudanças acabaram de acontecer. Não estávamos vendo mais o garoto determinado e irritante, apenas uma sombra dele.
— Bom. Acho que já está na hora de entrarmos. — Adam falou, forçando um sorriso.
Obedecemos ao menor e então saímos dali.
Não consegui prestar atenção nas aulas. Estava tão perdido em pensamentos quanto a tudo, que nem mesmo notei quando o professor perguntou-me sobre a matéria. E só consegui responde-lo, minutos depois, algo que não tinha nada a ver com o assunto proposto por ele. A classe é claro, estava me encarando.
Quis insultar todos naquele momento. Que merda!
— John, você está bem? — Indagou o professor.
— Estou. Pode continuar a aula, respondi. — Notei a página da apostilha escrita no quadro e então resolvi abri-la.
— Não quer beber uma água? Se quiser, fique a vontade.
— Irei aceitar a oferta. — Levantei forçando um sorriso.
Caminhei pelo corredor que milagrosamente estava silencioso a ponto de me fazer escutar meus próprios passos.
Eu teria ido beber água se não encontrasse Anna no mesmo corredor que eu. Então tive que mudar a direção, sabendo que o caminho seria mais longo até encontrar outro bebedouro. Foi desnecessário fazer isso quando a ouvi chamar por meu nome e imediatamente parei.
— Então, John. Você conseguiu algo com Liam? — Ela indagou animada.
Pouco se importava com o ocorrido de uma semana atrás. Estava somente preocupada com Liam. Claro! Todos se preocupavam com o loiro rebelde dessa maldita escola. Sempre ele. Cadê os olhos que me cercam de preocupação e não somente de curiosidade?
— John? — Anna chamou meu nome mais uma vez quando não me ouviu responde-la.
E então eu me virei, retirei a fotografia de meu bolso e a mostrei. Seria o suficiente.
De imediato os olhos da garota já estavam úmidos, engolia o seco enquanto seus lábios estavam trêmulos. Vi Anna larga os livros no chão enquanto, ainda paralisada, continuava olhando a foto. Eu havia acabado, querendo ou não, de tirar um peso de minhas costas após jogar uma bomba nas mãos da garota. Se ela quisesse explodir espalhando a notícia para todos, já não teria problemas.
A mesma fotografia que destruiu minha relação com minha mãe, estava agora destruindo o seu coração. O poder de uma imagem.
Seus olhos encontraram os meus e por minutos ficamos assim. Sem nenhuma palavra que interferisse a cena. Eu queria sair dali. Claro que queria. Depois de feito eu com certeza estava disposto a tudo. E esse tudo com certeza seria algo ruim.
Coloquei a fotografia novamente no bolso e fiquei parado esperando alguma reação da garota.
— Durante todo esse tempo eu estava apaixonada por um veado? — A garota indagou pondo a mão sobre os lábios e deixando com que as lágrimas descessem sobre sua face.
O que eu teria de responder em momentos como esse? Fui eu quem resolveu contar toda a verdade.
— Olha, eu sei...
Quando menos espero, senti a pele de minha face queimar, como se estivesse em chamas após levar uma tapa de Anna. O som ecoou pelo corredor e eu implorava para que ninguém estivesse vendo aquilo. Para uma garota ela tinha força. Era de se esperar depois de saber que ela briga sempre nessa escola. E com certeza minha face estaria com seus cinco dedos marcados.
Voltei a olhá-la fixamente em seus olhos, segurando-me para não soca-la. Mesmo querendo muito após isso. Mas no fundo, o errado ali era eu. E não poderia fazer nada além de ouvi-la me xingar.
— Como eu pude te achar um bom garoto em seu primeiro dia aqui? — Indagou novamente.
E então a garota deu de costas e correu. Como era de costume, estava sozinho observando-a se afastar cada vez mais. Repetindo: Sozinho.
Não desisti de ir ao bebedouro e pus água gelada em minha mão levando-a ao meu rosto na tentativa de amenizar a queimação. Havia sentado sobre uma das escadas um pequeno grupo de pessoas que me encaravam. Provavelmente não tinha presenciado a cena de Anna dando-me uma tapa, mas com certeza tentavam deduzir alguma coisa ao me verem molhando a face.
Perdi até mesmo a vontade de ir para sala de aula ficando por ali mesmo. Se alguém sentisse minha falta e me procurar, eu iria inventar quaisquer desculpas de última hora.
Parado, observando o pouco movimento de alguns alunos. Até pensei em subir para biblioteca e buscar refúgio. Confesso que não estava a fim de encarar ninguém por hoje.
Praticamente fui forçado a ter que escolher entre o amor que me deu a vida, que seria minha mãe e o meu amor além da vida, que seria Liam.
— Olha só, John matando aula. É isso mesmo que eu vi? Os efeitos de rebeldia começaram a surgir. — Adam surge atrás de mim.
Eu olho ao redor na tentativa de saber se já era intervalo escolar, mas não vi metade dos alunos no local.
Então apenas forcei mais um sorriso e deixei espaço para que ele sentasse, mas Adam não sentou.
— Consegui fugir para te buscar. Vamos? — Estendeu a mão e sorriu.
Adam se preocupava comigo, mas não tocava no assunto. Como meu parente, sabia que o problema além de amoroso também era de família. E entrar nesse assunto renderia horas de puro estresse, lágrimas e ódio.
Apenas segurei a mão do menor e não me importei com olhares.
Adam e eu caminhávamos juntos pelo corredor vazio, até que pudéssemos escutar vozes vindas de uma das salas. Ficamos em silêncio, prendemos a respiração e conseguimos identificar de qual sala estava vindo o som. As vozes eram conhecidas. E deduzíamos o que acontecia.
— Você não pode mais andar conosco, Henry. O que irão pensar? — Emma disse.
— E bom, sua sexualidade agora virá à tona para todos da escola. Eu já estava cansado de receber regras, agora é você quem obedece. — A voz agora era de Oscar.
— E ainda tem o Adam. Coisa que jamais imaginaríamos. — Emma continuou.
Adam e eu fizemos um esforço para olhar pela brecha da porta, e então vimos Henry sentado enquanto os três outros estavam em a sua frente. Emma sentada de pernas cruzadas em uma das carteiras, Oscar em pé e com um sorriso no rosto, enquanto Victor estava calado e de braços cruzados.
— Posso te falar algo? — Emma indagou.
O moreno continuava ainda em silêncio.
— Sempre achei que Laura realmente fosse louca, sabia que ela iria acabar mostrando as garras qualquer dia. Afinal, é da mesma família que você. E finalmente você sabe a verdade sobre seu irmão. Algo que Laura nunca te contou, mas que todos nós sabíamos.
Silêncio. Henry nem mesmo olhava nos olhos dos outros, continuava com a cabeça baixa e olhos fechados.
— Eu já disse tudo que tinha pra falar. Agora quem manda nessa escola somos nós. São três contra um, então pense bem antes de tomar alguma atitude. — Oscar concluiu.
Eles esperaram alguma resposta do moreno, que por um minuto ficou em silêncio. Até que finalmente ele resolve se pronunciar. Henry ficou de pé, encarando os outros e depois deu aplausos para cada um.
— Sério tudo isso que ouvi? — Ele gargalhou.
Olhei para Adam que não tirava os olhos do moreno. A qualquer momento, com certeza ele seria capaz de atravessar aquela porta se uma briga desse início.
— Vejamos: Vocês estão querendo guarda meu segredo e o da minha família em troca da autoridade sobre mim? É isso mesmo que ouvi?
Oscar apenas rir com a provocação do moreno, que firme não poupa as palavras.
— Temos então Emma, a garota do vídeo. O que aconteceria se o mesmo vídeo chegasse aos olhos de seus pais, ou melhor, familiares? Te mandariam pra casa dos seus avós, com certeza não é? — Ele olha a loira, que fica paralisada com tamanha ameaça.
— Você não é louco. — Ela cospe as palavras em sua face.
— E você Oscar. Nem mesmo Emma e Victor sabem das drogas que você entrega aos usuários dessa escola. Ou será que sabem? Vai dizer que você achava que nunca te vi indo aos fundos da escola para vender seus “materiais.” — Henry fez aspas no ar — E com certeza iria render um belo problema para você não somente na escola, como fora daqui. Quer envolver policia?— O moreno então empurra o tatuado para longe dele que cai sentado em uma das cadeiras.
— Você seria mesmo capaz? — Emma ainda insiste, agora tentando resolver a situação.
— E você Victor, ruivo, bonito e bom... Dizem que um conhece o outro há quilômetros de distância. Ou você acha que não sei que você é gay? E que tem um caso escondido com o garoto do terceiro ano? — O ruivo, que estava calado, resolve então avançar para cima de Henry, mas provavelmente pensou duas vezes antes de tomar tal atitude.
Adam olhou para mim totalmente assustado com tudo que ouvia. Era muita informação para nós.
— Foram segredos que nos uniram, e se esses forem revelados acabam destruindo nossa reputação aqui dentro. — Ele continua.
— Está bem, você venceu. — Oscar levanta-se tentando controlar sua raiva.
— Venci? Por um acaso existe algum tipo de jogo? Certa vez ouvi que quem brinca com fogo no final acaba se queimando. — Olhei para Adam e imaginei que provavelmente ele tenha conversado com Henry — Não vejo problema em expor meus segredos, não depois de tudo que estou passando. Já vocês... Não posso dizer o mesmo. — Henry sorriu mais uma vez — Ou posso?
— Oscar está certo, Henry. Você venceu, pronto! Está feliz? Continuamos acompanhando você. — A loira levantou e tentou se aproximar do garoto.
— Quem disse que agora me importo com vocês? No final, posso acabar me queimando. Por mim, eram vocês que deveriam estar no lugar de Laura. São tão loucos quanto ela quando pensaram em me colocar para trás. Mas esqueceram de que sempre observo tudo. A partir de hoje serei sozinho, e se tentarem novamente interferir em minha vida. Bom, pensem bem. — Ele provocou com seu sorriso no rosto, marcando as covas.
Então Adam e eu nos afastamos da porta para não sermos flagrados por Henry.
— E só mais uma coisa. Não ousem tocar um dedo em Adam. Nem mesmo insultá-lo na minha ausência. Se eu descobrir... Bom estão avisados.
Vi o quão sério Adam ficou ao ouvir isso. Escondemo-nos em outra sala vazia logo à frente enquanto ouvíamos os passos de Henry cada vez mais distantes.
Estávamos tão atemorizados com as informações que só conseguíamos olhar um para o outro. Laura, Emma, Oscar, Victor e Henry. Todos com segredos que jamais passariam pela minha cabeça. E eu que sempre me achei tão esperto, me senti um inútil por não saber disso antes de Adam.
— O príncipe agora virou rei. — Sussurrei para Adam, roubando-lhe um sorriso sincero.
Ter dito que Henry agora era o rei do lugar fora a coisa mais real que saio de minha boca. Ele carregava, sozinho, segredos dos outros que poderia acabar com a vida de cada um. E me senti na pele de Victor caso a sexualidade dele fosse realmente um problema sério como a minha.
— E achei que ele iria ser humilhado. Eu irei atrás dele. — Meu primo sussurrou.
— Tem certeza?
— Não. Mas, sei que Henry é capaz de matar alguém quando estressado. É melhor eu tentar ao menos manter as coisas em controle.
— Você está certo.
Fui com Adam até a porta e o vi correndo pelo corredor. Iria demorar um tempo até encontrar Henry. Ou não. Escutei um som semelhante ao de uma lata de lixo que provavelmente fora arremessada contra algo.
Ainda pensando em tudo que ouvi caminhei até o banco em que eu costumava sentar. Aos poucos os alunos iam saindo da sala de aula e deduzi ser o intervalo. Estive tão atordoado que não notei o sinal.
— Sentiu minha falta?
E quando ouço a voz do loiro, meus pensamentos agora giram em torno dos meus problemas e eu. Engulo o seco e dou espaço para que ele sente.
Nem mesmo consigo responder ou olhá-lo nos olhos como da vez que o encontrei no início da aula.
Liam e eu ficamos calados por minutos, e então o loiro resolve rasgar o silêncio com os dentes.
— Eu fiz alguma coisa? — Ele indaga.
— Não. — Respondo um segundo após sua pergunta. Tão rápido que até me surpreendo.
— Você está me tratando diferente. Tipo... Agora.
— É coisa da sua cabeça. Estou bem. — Minto.
— Não está, John. Te conheço tão bem como sua mãe.
Maldita hora em que tocou no nome da minha mãe, fazendo-me lembrar da conversa que tive com ela horas antes.
Fico em silêncio sem ter o que responder, sentindo novamente a mesma tristeza que desapareceu nos momentos em que estive com Adam descobrindo todos os segredos.
— Você não quer me falar mesmo o que aconteceu?
— Quase morremos em um incêndio. Minha mãe pediu-me para escolher entre você e ela. Meu pai está magoado comigo. Anna sabe toda a verdade. Estou a ponto de explodir com tudo isso. — Finalmente consigo descarregar tudo preso em mim.
Foi quase como um insulto quando fixei meus olhos nos do loiro e o vi assustado.
— Já estou cansando-me desses problemas, Liam. — Continuei — Não aguento mais toda essa pressão em cima de mim. Não aguento mais. No fundo minha mãe tem razão.
— Razão?
— Os problemas que ela falou. O ódio do mundo.
— Você acha que sua mãe tem razão em achar que seremos infelizes? Sua mãe tem o cérebro menor que uma ervilha e é tão imatura quanto nós. — Então o loiro também se exalta.
— E será que seremos felizes com o mundo contra nós? Tomei uma tapa na cara de Anna quando ela soube a verdade, assim como ouvi insultos da minha mãe. E meu pai falar que o que sinto por você é errado. E os outros, o que achariam disso?
— John, você se preocupa tanto com os outros assim? Para com isso. — E o loiro volta ao seu tom de voz normal tentando controlar os meus ânimos.
— Está tudo se apertando, Liam. Eu não aguento.
— Vai ficar tudo bem entre nós. — Ele diz tentando tocar em mim.
E então, como uma bola de ar quando ultrapassa seu limite, eu explodi.
— Para de ser egoísta, Liam. Tudo seu é achar que tudo ficará bem entre nós. Mas eu me preocupo com os outros. Preocupo-me com minha mãe e meu pai, até mesmo como Anna deve está nesse momento ou sabe-se lá os futuros problemas que iremos causar.
Até mesmo gaguejo com tamanho nó que forma-se em minha garganta. Meus olhos lacrimejavam.
— John… — Ele tenta me acalmar.
— E-eu quero ir embora. — Falei levantando-me.
— Eu te levo em casa. — Ele de pé oferecendo-me ajuda.
— Preciso pensar, Liam. Deixe-me só.
Dou o primeiro passo e consigo, com dor, deixar o loiro sozinho em pé. Não quis olhar para trás. Isso só aumentaria mais a dor em meu peito. Enxugo as lágrimas dos meus olhos e sei que alguns alunos notaram meu choro. Meu coração aperta quando me sinto arrependido por descontar em Liam tudo que estava guardado dentro de mim.
Quando então me viro para voltar e desculpar-me com ele.
Vejo Tobias dando um soco em Liam. É aí que meu coração por minutos resolve parar e voltar a bater no momento em que grito o nome do loiro.
Notas finais
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Ah, o capítulo novo de "Do Mesmo Sangue" ainda sairá essa semana. Obrigado pela paciência. Amo vocês!!
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