Inverno
13 Capítulo 13
Notas iniciais
(Capítulo narrado por Henry)
Não bastava ter que aturar ele me rejeitando, tinha que vê-lo se divertir como se eu não importasse? Se não quis ficar comigo, terá de aturar me ver ficar com alguém. Afinal, é desse jeito que descubro suas intenções. Nada mais prazeroso do que vê-lo apenas interessado por mim. É estupidez, talvez, mas é desse jeito que minhas certezas sobre o que somos aumentam.
A primeira vítima estava do meu lado, a mesma havia fixado seus olhos sobre mim desde que adentrei por aquela porta. Não demorei a puxar-lhe pela cintura e como uma fera faminta devorar seus lábios. Soube que tudo fora de acordo com o plano quando o vi olhando para mim. Provoquei.
Seu olhar entregava a infelicidade que estava sentindo naquele momento; eu sentia prazer ao vê-lo daquela forma. Não consigo entender e muito menos explicar, só sei que aquilo era o combustível para toda a nossa história. Amor e ódio, talvez. Amor? Não sei, mas jogo de sedução era algo que me alimentava de forma prazerosa.
Fora só alguns minutos para vê-lo partir. E com isso, dispensar a garota que estava comigo. Certo, eu venci!
Eu deveria está feliz, não devia? Como explicar o motivo de estar arrependido? Se é que eu estava. Algo em meu peito dizia que eu deveria ir atrás dele e pedir desculpas.
Deixa de ser estúpido, Henry. Esse não é você!
Dentro de mim, em meus pensamentos algo errado iria acontecer. Comecei a ficar aflito de repente sem entender o motivo daquela sensação, comecei a pensar em milhares de coisas tanto é que o som alto da festa havia desaparecido assim como as pessoas.
E lá estava eu no centro. Sozinho? Algo que sempre temi!
Onde está todo mundo? Cadê os que se importam?
Talvez um pedido de desculpa — dentre os milhares — possa resolver o problema.
E, sem pensar duas vezes, corri na busca do menor que navegava sobre as ruas desertas daquela noite. Sem proteção, cuidado ou alguém. Ao certo, eu iria me perder nas ruas sem saber em qual esquina ele havia dobrado, mas por conhecê-lo tão bem eu já tinha ideia da sua trilha até chegar a casa. Onde houvesse árvores, ele estaria lá.
Fora só correr e vê-lo caído no chão, com três brutamontes a depositar socos e chutes em seu corpo. Descontrolado, fora o que me tornei.
O primeiro pedaço de madeira que encontrei perdido no chão tornou-se a arma mais poderosa em minhas mãos, que acertei em cheio a cabeça do maior. Vendo o sangue que já descia por seu rosto, fazendo com que os demais ao redor se assustassem e o segundo tentasse me atacar, mas tamanho ódio que eu estava sentindo me fez acertar em cheio seu braço esquerdo o fazendo gritar de dor. O terceiro não tivera coragem de vir para cima ao decifrar meu olhar. Eu estaria prestes a matar alguém. E então, correram.
Tão frágil, tão pequeno e... Tão... Tenho que admitir, tão meu.
— Adam? — abaixei rapidamente para que pudesse mantê-lo acordado — Adam? — coloquei a mão em seu rosto, tentando fazê-lo me enxergar em sua frente — Adam!? — Gritei, mas fora tarde, seus olhos fecharam-se. — Estou aqui.
Caído no chão, imperfeito do jeito que sempre fora. O rosto úmido devido as lágrimas que misturavam-se com o sangue e faziam um percurso em seu rosto. As roupas sujas e amassadas, o corpo franzido pedindo o meu calor.
O que eu fiz? O ergui em meus braços e corri até a avenida em busca de ajuda, entrei no primeiro táxi — presente dos céus — que passou por ali, pedindo com urgência para que me levassem ao hospital. Devido ao horário, não enfrentamos trânsito nem sequer a implicância que o sinal de trânsito causa quando estamos precisando de ajuda.
É um erro pegar alguém ferido até que a ajuda chegue ao local. Mas meu desespero fora maior que minha paciência a ponto de estar ali, correndo com Adam pelos braços e entregando-lhe ao primeiro rapaz de branco que encontrei. Clamei por ajuda, caindo aos prantos no chão enquanto o via entrar na sala de emergência.
Meu coração se desesperou mais ainda quando tive que ligar para sua casa avisando para seus familiares o ocorrido, que duvidaram quando souberam que era eu que havia ligado. Não demoraram muito para estarem ali, todos... Até mesmo Liam.
— Adam! Meu neto, o que houve? — Sua avó indagava nervosa, segurando-me pelos braços como se eu fosse o culpado.
Eu estava tão assustado quanto ela que não consegui sequer pronunciar uma palavra, por medo da sua reação ou por ainda ter medo do que iria me aguardar caso ela achasse que o culpado daquilo fosse eu.
— Fala o que aconteceu, Henry! — Ela ainda gritava comigo.
— Anda garoto, fala o que aconteceu. — A mãe de John também estava a gritar. Perguntei-me qual a visão que elas tinham de mim a usarem da autoridade como se eu fosse o culpado.
No fundo, eu realmente era o culpado. Se eu não o provocasse ele ainda estaria... se divertindo, mesmo que sem mim.
— Eu o encontrei sendo agredido por três garotos. N-não fiz nada dessa fez, juro!
— Onde está o médico?! Preciso de informações. — A anfitriã saíra com sua filha procurando pessoas experientes que pudessem explicar o que havia acontecido.
— Henry, toma aqui esse copo d’água. — John dissera, entregando-me a bebida. — Você parece estar assustado com tudo isso, e confesso que nunca te vi assim.
— Sem perguntas, John. — Fui curto e grosso ao anunciar que não queria mais ouvir palavras.
Não quero ninguém se preocupando comigo. Chega de falsidade, seremos eternos rivais.
Todos foram para a sala de espera procurar por alguma informação, até que a notícia viera. Adam estava bem. Sofrera ferimentos na cabeça e um deslocamento em seu braço esquerdo, sem contar nos diversos machucados que eu pude notar em seu corpo. Apesar de descrever o seu estado, só vendo-o para entender o “bem”, e sei que não estava. Seu rosto estava tão machucado quanto meu coração arrependido.
— Eu quero vê-lo. — Dissera a senhora.
— Hoje ele merece um descanso e ainda está sob cuidados médicos, mas não apresenta risco algum de morte. E digamos que o garoto é forte, muitos costumam viver em coma ao sofrerem pancadas na cabeça. O garoto vai ficar bem. — Um homem alto, de cabelos grisalhos e de nariz pontudo dissera.
Feito isso, o mesmo homem dera costas e repetiu para que não nos preocupássemos.
Todos ficaram em silêncio, apesar de ainda me olharem com desprezo a ponto de criarem em mim certo incomodo.
— Tenho que ir; está tarde. Desculpem-me qualquer coisa, apenas... Apenas quis ajudá-lo. — Disse esperando alguma resposta. Mas nada falaram, era engraçado. Eu estava recebendo créditos por algo que eu não fiz. Eu sei que fui culpado. Mas como conseguem me culpar sem saber exatamente o que aconteceu?
— Eu o acompanho até a saída, Henry. — John dissera, levantando-se. Permaneci calado, assentindo com a cabeça.
Não houve tempo para despedidas, queria ao menos ver Adam mais uma vez. Eu saberia que desta vez ele iria realmente me odiar.
— Bom... chegamos. De qualquer forma, apesar de desejar profundamente que você sofra todas as vezes que me provoca na escola, eu o agradeço por trazer Adam e até mesmo por tê-lo encontrado.
— Não é preciso agradecer.
— Mesmo assim, o agradecimento foi feito. Preciso voltar, meus familiares precisam de mim depois do susto.
— Ei, John... — Chamei antes que esse caminhasse e, imediatamente, ele olhou para mim — Pode dizer ao Adam que não fui eu que o trouxe aqui? Sei lá, inventa qualquer coisa. Você sabe, isso não vai pegar bem para mim na escola. O que iriam pensar de mim se souberem que eu o ajudei?
— Você nunca muda. — Liam disse.
— Não me faça te dar uma resposta grosseira. É isso... Adeus.
E dei de costas.
A verdade é que eu estava mentindo. Se Adam soubesse que fora eu que o ajudei, sentiria mais ódio de mim, já que sempre costuma gritar na minha cara que não precisa da minha ajuda e iria achar que eu fiz isso como forma de pagamento pelo mal que o fiz.
Eu não iria abdicar minha popularidade por sua amizade. Logo eu, que tanto fui carente de atenção e estava agora no auge. A verdade é que me dói vê-lo distante de mim, mas sei iria doer mais ainda se eu ouvisse mais pessoas dizendo que de nada eu valho.
Popularidade pode até ser algo fútil, mas é hipocrisia dos demais dizerem que isso não importa, afinal, todo mundo faz algo em troca de atenção. Era isso que me fazia alguém naquela escola, eu estava ali pra impor autoridade, coisa que aprendi desde a infância.
Meu maior pecado foi decepcionar Adam, mas se ele ao menos entendesse [...]
(...)
— Meu aniversário é amanhã, e como você mesmo pediu, abri mão de passar com minha família para ficarmos em minha casa jogando vídeo game, assistindo filme, lendo história em quadrinhos ou até mesmo passarmos a madrugada acordados. Afinal, você é meu melhor amigo, Henry.
— E eu irei poder fazer tudo que eu quero? — Ele sabia perfeitamente qual eram as minhas intenções.
— Tarado! Realmente preciso ir. — O dono do sorriso grande havia atravessado a rua, despedindo-se de mim em um sinal com a mão.
Fora só dar mais alguns passos para receber a seguinte mensagem: “A festa realmente está de pé, não está?”
Maldita hora que foram me lembrar dessa festa. Caíra exatamente no dia do aniversário do Adam. Agora eu estava ferrado. Não quero deixar Adam sozinho logo nesse dia. Sei perfeitamente como é ser esquecido num dia tão especial, mas esta era uma das festas mais esperadas pelos alunos. Vou deixar pra pensar nisso amanhã, está tarde e com certeza acabarei ficando irritado.
Já estava deitado, ainda tentando dormir enquanto pensava no que faria hoje. Vi que se passava da meia noite, mas estava disposto a mandar os parabéns para Adam antes de o dia terminar, queria que este achasse que eu esqueci, o que seria impossível. Queria apenas ver sua cara de bobo e nervoso só de imginar que eu realmente poderia ter esquecido seu aniversário e de repente receber uma mensagem e visita surpresa.
Fora pensando tanto sobre o dia que acabei tendo um sonho com o seu aniversário, a única coisa que lembro era de ver o sorriso em seu rosto.
Acordei com Laura pedindo para ajudá-la com os preparativos da festa. Os jogos de luzes já começaram a serem instalados pelo jardim da casa até o local onde iria ser criada uma pista de dança.
— Está ansioso pra hoje à noite? Será tipo... Os novos populares daquele lugar. — Minha irmã sorriu, aparentemente feliz.
— Ah, claro. Não quero ninguém falando algo de ruim. Então temos que arrebentar nessa festa.
— Sabe que aquele seu amigo não será bem vindo, não é? — Disse-me entregando as pulseras neon.
Ela estava falando de Adam. Era engraçado o motivo de Emma, Oscar e Victor não curtirem o garoto.
— Espera! Você não se esqueceu de convidar Anna, Liam e Tobias, não é? — Minha irmã prosseguiu eufórica. Em pensar que nessa época éramos um grupo.
— Já fiz tudo isso, Laura. Não se preocupa, e já disse que o garoto não aparecerá aqui. Eu hein, eu só falo com ele pra pedir ajuda, ele é inteligente e se eu não passar de ano, você sabe...
— Está bem. É que estou com medo de que algo venha a dar errado.
Se eu continuasse ali, ela provavelmente iria continuar a falar de mais coisas como a cor do esmalte que teria que usar ao tamanho do vestido — comprou três e ainda não se decidiu —, até mesmo qual tipo de penteado usar. Típico de garotas.
Havia chegado o horário da festa.
Eu estava tão perdido pela quantidade de pessoas presentes que não fazia ideia de que tudo aquilo fora convidado. A música já havia embalado todo mundo com seu ritmo e as pessoas pareciam já estarem satisfeitas com tudo que presenciavam.
O que eu iria fazer? A primeira coisa que fiz fora me enturmar com os novos amigos de Laura e a partir dali ingeri diversas doses de bebida. Devem imaginar o estado que fiquei. Eu havia esquecido tudo. Absolutamente tudo.
Copo de conhaque seguido de outro, assim como lábios de pessoas desconhecidas que passavam mais de cinco minutos me olhando. Sim, eu estava beijando as garotas a minha frente.
Até sentir minha bexiga dar sinal de que havia pouco espaço ali, devido à quantidade de bebida que eu estava ingerindo. Fui ao banheiro às pressas e descarreguei o líquido amarelado.
Ao terminar de lavar as mãos, fui caminhando pelo corredor vazio da casa — já que todos estavam no jardim — e agarrei a pessoa a minha frente que estava encostada a parede, tacando-lhe um beijo e sendo correspondido. Éramos duas pessoas bêbadas, tanto que nem mesmo suportávamos o peso do corpo um do outro.
Pra você ter noção do quanto eu estava bêbado, não me lembro sequer das pessoas que eu havia beijado aquele dia e nem de quantas provaram dos meus lábios.
Voltei para festa preparando-me para beber mais e aproveitar a noite, até ouvir xingamentos atrás de mim.
O que eu vi fora Adam sendo expulso por Laura, Emma, Victor e Oscar. Ele me olhava incrédulo esperando alguma reação minha. Puta que pariu! Isso tinha que acontecer agora? A grande ironia disso tudo fora o fato das memórias voltarem a surgir, mesmo em forma de pequenos flashbacks.
— Henry, você não vai falar nada? — Ele indagou.
— Falar o que? — Usei da indagação como resposta. Estava apreensivo com os olhares de todos ao meu redor. Queria que Adam entendesse os meus motivos, mas eu sei que ele nunca iria entender.
— Henry... — Ele dissera e seus olhos tornaram-se um mar de lágrimas. Era frágil.
— Vai embora, garoto! Você não é bem vindo aqui. — E disse, pondo fim a tudo que um dia fomos.
Foi quando este deu de costas, e mesmo que em passos lentos, ele desaparecera atravessando a multidão. Eu deixei escapar o que poderia ser hoje o motivo do meu sorriso.
Quem iria entender o considerado "desgraçado" do Henry? Afinal, eu era a pessoa mais amada e ao mesmo tempo odiada por todos da escola. O que fiz fora por um motivo fútil, mas ao mesmo tempo desejado por todos. Menos hipocrisia, por favor.
Pior do que aquela noite, fora acordar procurando-o para pedir-lhe desculpas e entregar o seu presente — a camisa que ele sempre comentava com a imagem do Capitão-América. — O que recebi em troca fora um olhar preciso e determinado a dizer que não queria mais me ver por perto, cuspiu as palavras de desprezo em minha face, dizendo ao mesmo tempo que estava com pena de mim. E ele estava certo, afinal, eu havia perdido a verdadeira amizade vendo que as outras são todas feitas por interesse.
E antes mesmo que eu partisse, Adam retirou do bolso um envelope, entregou-me e fez questão de me ver abrindo.
Eu estava tão assustado quanto ele ao observar o pequeno pedaço de fotografia.
O que encontrava-se na imagem eram meus lábios colados aos de Liam.
“Feliz aniversário, Adam.”
Estava escrito na fotografia.
(...)
Notas finais
É isso, beijão!!
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