Inverno
6 Capítulo 06
Notas iniciais
— Filho da puta! — Socou a porta.
— Vamos gritar pedindo ajuda, eles talvez irão nos escutar.
— Não, chega de gritaria por hoje. Logo aparecerão, principalmente Anna.
Concordei. Algo em mim queria que eu ficasse somente ali com ele, mesmo que estivéssemos naquele silêncio que me matava. O observei sentar em uma das cadeiras e por as pernas em outra, estendeu as mãos descarregando toda a tensão de seu corpo, passou a fitar o teto, passando as mãos em seus cabelos fazendo com que alguns fios caíssem sobre sua testa. A imagem do garoto frágil tomou conta dos meus pensamentos, a única semelhança era a física e o que realmente permaneceu desde o tempo que o conheci, fora a cor dos olhos cinzas... o que antes sentia medo transpira, agora, audácia. Fiquei cerca de dez minutos observando-o descansar. Pra ser sincero e mais exato, algo me inquietava enquanto observava-o.
Lá estava eu, de braços cruzados encostado a parede na esperança de que ele rasgasse o silêncio. Mas nada aconteceria se não tomasse atitude.
— Eu senti sua falta. — Falei, esperando resposta.
Nada. Apenas o olhar atravessado que me maltratava.
— Para de mistério. Chega! Já faz dias que estou aqui e parece que nunca fomos amigos.
— Para, John. — Finalmente se pronunciou o dono da voz grave, mas que ao mesmo tempo era encapada por uma camada suave. Era difícil acreditar que aquele som era emitido por ele. Puberdade define o que eu estava ouvindo.
— Parar? Você me pede para parar? Desde que cheguei aqui começaram a me olhar dos pés a cabeça, fui alvo desse seu inimigo, fui ignorado por você que quando menor não saia do meu lado, e agora me meti nessa guerra de vocês, justamente porque ainda carrego o laço de amizade que criamos.
— Não seja dramático, não precisa dessa encenação.
— Vai tomar no cu, Liam. Na boa, queria entender quem é você.
— Já pedi pra parar. — Liam levantou-se, olhando algumas anotações de papeis colados na parede.
— Não vou parar, que merda. Eu só quero entender! — Gritei, aproximando-se dele.
Eu iria fazê-lo olhar para mim, odiava conversar sem que me olhassem nos olhos.
— Olha pra mim! — Disse, segurando em seus ombros fazendo o mesmo se virar.
— Me solta! — Bradou, empurrando-me.
Não. Ele não iria me tratar daquela forma. A raiva tomou conta de mim, mesmo sem que eu entendesse. Empurrei Liam, revidando o que antes ele fizera, ele caiu junto as carteiras da sala. Era dado início a mais uma luta. O loiro se levantou vindo para cima de mim quase rugindo, logo provei da sua força; quem diria que ele seria tão forte daquele jeito, depois de todas as vezes em que era eu que o defendia vendo-o apanhar dos outros.
Quando Liam me derrubou também contra as carteiras, me levantei o mais rápido que pude antes que ele pudesse tomar o controle. Chutei a cadeira que estava em minha frente impedindo-o de vir em minha direção, falhei ao vê-lo pular e continuar a caminhar tendo como alvo o garoto que antes era seu melhor amigo. Era sádico; principalmente quando parecia sorrir da situação. Eu não perderia. Depositei um soco em seu rosto, fazendo-o por segundos ficar tentando captar o que aconteceu, até sentir sua mão em meu pescoço e com sua força, pressionar-me contra a parede. Logo, seus olhos cinzas estavam me hipnotizando. Pude ver o sangue descer de seus lábios, pude até mesmo ouvir seus batimentos e sentir a pressão de sua mão em meu pescoço.
Não. Eu não estava sentindo aquilo, eu não era, não queria e muito menos desejei. Estava sentindo sede, mas não uma qualquer. Mantive meus olhos fixos em seus lábios; não, eu não sou. Pensamentos confusos, talvez.
— Não era pra você ter voltado, John. — Pronunciou.
Ouvimos alguém bater a porta, quebrando toda a tensão que pairava no ar. Finalmente, acabou.
— Vocês estão aí? — Eu conhecia a voz a quilômetros de distância; era Adam.
Liam finalmente me soltou, dando de ombros logo em seguida. A porta fora aberta e a sala invadida pela luz do sol. Eu estava tremendo, mesmo sem entender o motivo.
— Gente, o que aconteceu aqui? Era pra vocês estarem arrumando as salas e não deixando-as nesse estado. — Adam adentrou a sala, observando o estrago que tínhamos feito.
— Fica com seu primo, vamos fazer uma troca. — Ele não esperou resposta, apenas saiu da sala. Deixando-me a sós com Adam.
— Nossa, o que houve? Vocês brigaram? Que merda, você vive se metendo em confusão.
— Não foi nada, Adam. — Não dava pra esconder o quão triste estava, o resultado foi minha voz fraca.
— John? Você está bem? — Meu primo correu, aproximando-se de mim.
— Eu estou — menti — Mas enfim, vamos arrumar isso aqui, quero logo voltar pra casa. — Falei, levantando do chão uma das cadeiras próxima de mim.
— Se é assim, mas caso queira conversar, estou aqui. — Sorriu.
— Não se preocupa. Já disse que estou bem.
Com Adam, a arrumação fora diferente e mais ágil. Digamos que terminamos rápido por conta da conversa, fazendo-nos perder a noção do tempo. No final de tudo, todos nos encontramos mais uma vez no pátio da escola. Adam deitou-se em um dos bancos, enquanto Anna fizera o mesmo em outro banco próximo dali.
— Estou morta! — A garota disse.
— Levanta, Adam, vamos.
— Meu Deus, estou cansado, John, espera um minuto. — Ele protestava, ainda deitado no banco.
— Nada disso, vamos agora.
— Eu os acompanho até em casa. — O loiro se pronunciou.
— Não precisa. Não tenho medo de Henry — falei olhando para ele e dessa vez encontrei seus olhos — E se você não vai, Adam — tornei a atenção para meu primo — irei sozinho.
Dei os primeiros passos sem me preocupar com quem deixei. Já estava na hora de não bancar o idiota para Liam. Durante muito tempo eu sentia pena dele, até que o vejo sendo ingrato comigo. Meu orgulho, dessa vez, permanecerá comigo.
— Ei, espera! — Meu primo gritava.
Eu diminui a velocidade dos meus passos para que o mesmo se aproximasse de mim.
— Eu já estou cansado e você me faz correr dessa forma.
— Você mesmo disse que gosta de fazer exercícios.
— Gosto, mas não exageradamente. Tenho certeza que não irei caminhar hoje, preciso de um banho, de comida e da minha cama.
— Estou precisando do dobro disso.
Disso e mais um pouco. Fui diretamente ao banheiro, sem avisar minha avó que eu já estava em casa, mas isso, Adam já teria feito. Eu não sabia ao certo por quanto tempo fiquei embaixo do chuveiro, mas tinha ideia de que não fora pouco, talvez, pensar no loiro fora o motivo da demora. Sai do banheiro enrolado com a toalha na cintura.
— Não, eu não vou! Para de insistir. — Adam entra em meu quarto falando ao telefone. Pareceu ficar assustado e sem reação alguma quando me viu — Vou desligar. — E fora o que fez logo em seguida.
— Com quem você falava?
— Bom... — provavelmente estava bolando alguma mentira por conta da pausa que fizera — Uma vendedora insistente pedindo para comprar um de seus produtos. Ela não me deixa em paz, a cada meia hora me liga. — Colocou o celular no bolso e logo em seguida deitou em minha cama.
— Vai mesmo achar que eu acredito nessa mentira?
— Não estou mentindo. Por que acha isso?
— Esquece, acredito em você.
Não queria iniciar algum desentendimento entre meu primo e eu. Então, optei por aceitar a mentira.
— E então, vai ficar aqui no quarto mesmo? Ainda tenho que me vestir...
— E qual o problema? Somos primos.
— Eu sei, o problema é que não me sinto bem pelado na frente dos demais.
— Isso significa que você nunca transou. Espera aí! — Adam pulou da cama — Você é...
— Virgem? Claro que não! É um ponto de vista diferente.
— Por que?
— Na hora do ato você só quer saber do prazer.
Sim. Eu nunca admiti mas nunca tive uma relação mais íntima com alguma garota. Já fiz coisas quentes, claro. Sempre que estava pra acontecer, existia algum imprevisto. A única coisa que fiz, foi me despir na frente da última garota que fiquei e antes de acontecer, os pais dela chegaram em casa. Por sorte, fingimos fazer trabalho escolar — a desculpa mais usada do mundo — e eles não desconfiaram de nada.
Adam não desconfiou de nada, de fato, eu era um ótimo mentiroso, diferente dele. Retirei a toalha ali mesmo, jogando em seu rosto, retirei uma cueca vermelha da gaveta e logo a usei, assim como as demais vestes. Realmente, não tinha o porque de se preocupar com Adam.
— E então? Morreu? E ah, da próxima vez pegar essa toalha e joga...
— Enfim, estou com fome. — Não deixei com que ele continuasse a frase, imaginando-o falar algo obsceno.
— Também estou. Estava esperando você.
Adam e eu saímos do quarto indo diretamente para a cozinha. Encontramos nossa avó que nos serviu. Meu estômago implorava por alimento e creio que o mesmo agradeceu eternamente quando comecei a comer. Adam não parava de falar, comentamos com nossa avó o ocorrido. Estranho era o fato de ela não se apavorar com isso, dizia ser apenas aventuras da juventude, que logo todos seriam amigos. Ah, amigos...
Voltei para o quarto com Adam, que parecia estar ligado a mim.
— Preciso dormir, meu corpo implora por descanso. — Eu pulei na cama, deitando-me de bruços.
— O dia nem terminou e já estou cansado. — Adam também jogou-se na cama, ficando do meu lado.
Fechei os olhos, preparando-me para ser desligado do mundo.
— Já está dormindo?
— Não, mas queria.
Ao abrir os olhos, o encontrei olhando para mim, o mesmo sorriu logo em seguida. Não havia ânimo para que eu pudesse retribuir o sorriso, voltei a fechar os olhos tentando esquecer o ocorrido de horas antes. Respirei fundo até que lembranças do último contato com Liam surge em meus pensamentos. Aquilo não era certo. Tornei a realidade quando encontrei meu primo ainda com os olhos abertos ao meu lado, por um minuto, me senti confortável por sua presença.
— O que foi? Estou incomodando? Poxa, estou até calado.
— Não. Pode ficar aí.
— Está bem. Vou ficar bem quietinho deixando você dormir.
Eu sorri por vê-lo tão bobo naquele momento e novamente, deixei com que minha visão escurecesse quando fechei os olhos. Logo, a mão de Adam invadiu meus cabelos proporcionando-me uma leveza e o sono que eu estava sentindo tornou-se agradável. Aquilo era errado, ou talvez certo por sermos primos, mas era... gostoso sentir aquela espécie de carinho. Não deu tempo para pensar em mais nada, simplesmente dormi diante daquele gesto.
— Ei, acorda. — Senti a mão de Adam fazer leves movimentos em meu tórax.
Adam as vezes era chato mas eu acho que não conseguiria ficar com raiva dele, por pensar nele, eu não me arrependo de ter vindo para cá. Adam não substituiu o lugar que um dia pertenceu ao Liam, mas metade do que o loiro conseguiu, ele estava conquistando, seríamos, de fato, grandes amigos.
— Já amanheceu? — Olhei para a janela vendo que estava escuro — Ai Adam, ainda é noite. — Voltei a fechar os olhos.
— Eu sei. Mas a tarde acabamos pegando no sono, e se não quer passar a madrugada acordado, é melhor levantar agora.
— Estava tão bom, que por mim permaneceria dormindo.
— Dormir é uma das coisas mais gostosas do mundo, principalmente quando temos direito a algum sonho bom, como eu tive. Mas então, tô indo jantar.
— Pode ir, chego depois. Vou molhar o rosto.
Fiz o que havia dito a Adam, porém, escovei os dentes mais uma vez. Fui diretamente para a cozinha, mas não encontrei meu primo lá. Então resolvi procurá-lo na sala. Peguei o costume de sempre comer conversando com ele, e aquele não seria uma das noites sem o mesmo.
A porta de entrada estava aberta e me bateu certa curiosidade. Adam provavelmente teria ido colocar o lixo para fora. Porém, me enganei ao vê-lo conversando com quem eu não queria encontrar naquele momento. Usando uma jaqueta preta, sentado no que imagenei ser uma intruder 1800 — que vive passando nos comerciais de TV.
— O que faz aqui? — Indaguei.
— Você disse que queria entender quem sou eu. Então, te darei a oportunidade de me conhecer. — Ele sorriu.
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