Inverno
4 Capítulo 04
Notas iniciais
Eu poderia aproveitar a oportunidade e simplesmente me desprender dos braços fortes daqueles garotos que me seguravam, porém, estava sem reação ao encontrar o loiro depois de anos sem termos algum contato. Eu tentava assimilar a imagem do passado ao que estava vendo agora. Não! Não tinha sentido aquela mudança.
— Você tinha de aparecer para acabar com a festa. Está aqui, Liam, o herói dos necessitados. — Henry cuspia as palavras em sua face.
— Vou ter que contar até três para que você e seus amiguinhos sumam daqui agora? — O grave da voz de Liam me intimidou, a imagem angelical, desaparecia a cada palavra pronunciada.
— Não costumo receber ordens dos meus pais, quem seria você perto deles?
— Um. — Liam estalava os dedos.
— Dois. — Henry seguiu a sequência numérica provocando-o.
— Três. — O loiro não demorou para fechar o punho e socar o moreno que caiu no chão.
Fui lançado ao chão novamente, quando os garotos me soltaram para protegerem seu amigo, machuquei meu cotovelo por conta do impacto. Liam se desviava dos socos que o tatuado usava para acertá-lo, o mesmo fora lançado para longe quando o loiro usou a força que continha nas pernas, o ruivo fora atacado por outro garoto, que segundo Adam, era amigo de Liam. Henry fora o único a conseguir derrubá-lo no chão com um de seus chutes.
Liam levantou-se pronto para retribuir, porém, fora impedido pela garota cuja imagem era uma versão feminina do garoto que ele iria espancar, vulgo, sua irmã.
— Chega! Desnecessário.
— Sai da frente, Laura.— Henry bradou.
— Não. Essa briga sempre tem um péssimo resultado, não lembra da última vez em que a polícia teve de se envolver? Deixem pra continuar isso em outro lugar.
— E nesse outro lugar, até eu irei me envolver — a loira se pronunciou — Para terminarmos o que iniciamos a algum tempo atrás, não é Anna? — Pôs a mão em seus cabelos, arrumando-os.
— Achei que estava satisfeita com a surra que levou. — A garota considerada gentil por Liam, colocou-se ao lado de Liam, sorrindo de forma irônica para aquela que a provocou.
Pude sentir a tensão no ar. Era mesmo um inferno. Tudo por conta da vítima indefesa, ou melhor, o idiota aqui que não soube se defender diante de três inúteis. Estavam todos assistindo o que mais parecia ser uma cena de filme, como Adam costumava dizer sobre a escola.
— Vamos. — Henry ordenou, até que todos se retiraram. — O que vocês estão olhando? — Disse a todos aqueles que nos cercavam. Logo, todos voltaram as ações que antes estavam fazendo.
Dei conta de que ninguém não me notava ali no chão, nem mesmo Liam.
— Caralho, como eu fico com esse cotovelo machucado? — Gritei.
Somente Adam viera me ajudar, levantando-me.
— Levem-no para a enfermaria. — Dissera Liam.
O loiro me olhou por exatos cincos segundos até dá de ombros e desaparecer. Está bem, ele não lembrou de mim. Tinha de aceitar aquilo. Mas será que eu mudei tanto assim fisicamente? Não. Quem havia mudado era ele, eu já não o reconhecia. Queria mandar o mundo se fuder naquele momento simplesmente por não obter a atenção do garoto que mais senti falta em toda a minha vida, preocupando-me e vão. E agora, ele estaria ali, não dando a mínima.
— Eu te ajudo. — Anna se aproximou — Tobias, vá atrás de Liam, aquele olhar não significa que ele está bem.
Não era algo tão sério, a ponto de precisar de dois ajudantes.
— Você está bem? — Ela indagou.
— Estou. Nada demais.
— Não se preocupa, Henry e a gangue deles costumam causar problemas, e nós que temos a imagem negra na escola.
— Percebi isso depois de tudo que aconteceu.
— Um dia Henry terá o que merece. — Adam dissera.
— Ele sempre tem. As briga não ocorrem somente dentro da escola, existe muitas outras fora daqui, assim como outras coisas que não posso contar.
Eu tinha raiva de quem começava a falar algo e não concluía, mas por ser a primeira vez que eu dialogava com Anna, resolvi ignorar.
Eles me deixaram na enfermaria, me senti um bebê recebendo cuidados. Não era nada além de um pequeno ferimento no cotovelo, que por sinal, incomodava pra caralho, principalmente quando ela aplicou algo em cima.
— Estou indo. O intervalo acabou e ainda não falei com Liam direito. Qualquer coisa, é só me avisarem, está bem?
— Pode deixar. — Adam respondeu por mim.
Pude notar que Anna era bela, ora valente ora meiga. Tinha cabelos curtos e lisos, em uma tonalidade semelhante ao castanho. Acima do lábio uma pequena pinta, quase invisível que dava-lhe um certo charme.
Ela deu de costas desaparecendo da sala da enfermaria. Adam e eu fomos em seguida, não havia o movimento intenso de alguns minutos atrás, apenas alguns alunos que matavam aula, mas esses não deixavam de olhar para mim. Que merda eu tinha?
— Quer esperar a aula acabar ou comunicar que estávamos na enfermaria?
— Lá dentro é mais seguro. — Confessei.
— Está bem. Vamos.
Desde então eu não vi mais Liam ao sair da escola. Apenas aqueles que horas atrás haviam me machucado, porém, levaram uma boa surra. Me despedi dos alunos novos que acabara de conhecer e que simpatizaram comigo — felizmente —, principalmente depois do ocorrido. Mas eu não sou um pobre coitado que depende de ajuda. Odeio o fato de me acharem uma criança indefesa, eu nunca fui assim.
— Liam, não é? — Perguntei enquanto voltávamos.
— Sim. O odiado.
— Odiado?
— Ele não é simpático, muito menos costuma ajudar as pessoas. Mas por ser Henry, ele resolveu se meter.
"...Mas por ser Henry..." Provavelmente poderia ser pelo garoto mesmo, já que parecia não lembrar de mim. Engraçado, porque eu continuo lembrando dele, embora as lembranças sejam de um garoto sendo o oposto do que é agora.
— Ele sempre foi assim?
— Assim de que forma?
— Rude com as pessoas. — Eu tentava ao máximo não entregar a minha verdadeira intenção sobre as perguntas.
Adam parecia não desconfiar, fitava o céu nublado e assustava alguns gatos que surgiam no caminho.
— Sim. Estudamos juntos em seu primeiro ano aqui, foi então que a rivalidade entre ele e Henry se iniciou.
— De que forma?
— Liam sentou no lugar de Henry, mas ele não sabia. Henry o agrediu e até venceu. No segundo dia, ele tentou aproveitar de sua autoridade, mas Liam resolveu dá o troco. E desde então, os dois se tornaram esses rivais eternos.
— Nossa. Isso só vai ter fim quando alguém morrer.
— Não precisa exagerar. Eles parecem que gostam dessa confusão, principalmente Henry, como se seu ibope aumentasse na escola.
— Já sei o que você vai dizer...
— A famosa hierarquia escolar. — Falamos juntos.
Nossa conversa se estendeu, mas o foco não era mais nos dois rivais, apenas nos demais alunos. Dessa vez, eu pude apreciar mais a paisagem do lugar, embora não houvesse tantas árvores, era semelhante ao lugar onde fora cravado o meu nome junto ao do loiro. Bons tempos de amizade.
— Confusão no primeiro dia? — Indagou minha avó.
Tinha acabado de voltar do supermercado, estava em cima de uma cadeira guardando as compras no armário. Por sua idade, achei aquilo uma atitude digamos que um pouco... radical.
— Uns babacas tentaram me agredir.
— Aposto que foi Henry.
— Como sabe? — Indaguei surpreso.
— Aquele garoto sempre apronta. Quando menor, ele costumava passar o final de semana aqui.
— Pera aí. Agora não estou entendendo nada. — Olhei para Adam em busca de resposta, mas esse fizera cara de surpresa ao encontrar meus olhos.
— É bobeira, John. — Disse.
— Adam e Henry já foram amigos, John. — Minha avó proferiu as palavras, terminando de por por a última lata de azeitonas no armário.
— Chega, vó. Enfim, estamos com fome.
Nada pior do que você não ter informações sobre o passado das pessoas, principalmente quando essas são da sua família. Não consigo imaginar Henry sendo amigo de Adam, eles parecem dois desconhecidos.
— A comida sai em dez minutos.
— Certo. Preciso de um banho.
Era notável o incomodo que ele estava sentido. Talvez, o mesmo que eu, só pelo fato de amigos tornarem desconhecidos.
— Fui contratada! — Minha mãe surgiu no cômodo gritando e pulando como se aquilo fosse a melhor notícia do ano.
E a conversa tomou um rumo diferente. O almoço fora tranquilo, o assunto girou em torno da entrevista que minha mãe tivera. Era noite, eu e Adam estávamos assistindo um filme policial em meu quarto. Por incrível que pareça, eu senti saudade da voz do meu primo.
— Sério que Henry e você já foram amigos?
— Eu sabia que você iria me perguntar isso, até que demorou algumas horas. — Ele respondeu, sentando-se na cama que antes estava deitado.
— Claro que eu iria perguntar.
— Não tem problema. Já fomos amigos sim. Mas dizem que em algum momento, as coisas tem um fim.
— Entendo.
Eu realmente entendia. Era só saber que Liam e eu já fomos amigos, porém, pelo que parece Adam e Henry brigaram para que esse fim acontecesse, em meu caso foi diferente, não houve brigas, apenas saudades.
Acabamos dormindo deixando a TV ligada. Acordei sentindo o braço de Adam me envolver. Mas que diabos era aquilo? Olhei rapidamente para a porta do quarto e por sorte estava fechada, mas eu não lembro de ter passado a chave e provavelmente alguém teria nos vistos dormindo daquele jeito. Eu não queria acordá-lo de uma forma brusca e dá uma péssima imagem ao meu primo, então com cuidado, sai daquilo que parecia ser um abraço.
Parece que Adam pareceu sentir falta, acordando logo em seguida, imaginou estar abraçando um travesseiro, mas infelizmente, era eu.
Não houve bom dia. Após o café da manhã em família, meu segundo dia no inferno iria iniciar em alguns minutos.
— Espero que hoje seja mais tranquilo.
— Não vai ser. Sempre tem alguma confusão, claro que nem sempre eu presencio e fico sabendo no dia seguinte.
O que eu estaria fazendo ali?
Tínhamos acabado de chegar, os olhares diminuíram comparado ao dia anterior mas da mesma forma, ainda me incomodavam. Eu poderia xingar todo mundo, mas para evitar a confusão logo no início das aulas, seria melhor manter o meu silêncio. Vasculhei por todo o meu plano de visão na tentativa de encontrar Liam. E ele estava lá, ao lado de Anna e Tobias. Não notou minha presença.
— Fica aqui. — Ordenei.
— Aonde você vai?
— Resolver um problema.
— Não, John, não me diga que vai se meter em confusão novamente. — Ele segurou em meu braço tentando me impedir.
— Eu vou somente... agradecê-lo.
Ou talvez tentar saber se ele lembra de mim.
Adam retirou suas mãos de mim deixando-me ir. No pequeno trajeto eu pensei em recuar, mas esse não seria eu. Notaram que eu estava me aproximando. Implorei em pensamentos para que eles não saíssem dali, Tobias fora o primeiro a sair. Anna sorriu ao me ver, deu-lhe um longo beijo e também se afastou.
Ao encontrar os olhos cinzas, temi o que aconteceria. Na verdade, fiquei nervoso. O silêncio estava me incomodando mas ao mesmo tempo me deixando seguro.
— Então? — A sua voz cortara o silêncio.
— Eu só queria agradecer por ontem. — Tentei não demonstrar meu nervosismo ao falar com ele depois de... anos.
— Só isso?
— Somente.
E dei de ombros. Quanta grosseria e tudo isso olhando em meus olhos. Estava certo, ele não lembrara de mim. Mas porra, tínhamos idade o suficiente para mantermos as memórias do passado. Se é pra ser assim, eu não iria falar mais nada, foda-se Liam.
— Qualquer coisa pode me procurar, Lennon.
Lennon?
(...)
— Meu nome é John. Não precisa ter medo de mim.
Liam recolhera suas roupas do chão, vestindo-as rapidamente. Um espirro ecoou por todo o beco.
— Bonito o nome, John.
Nem pareceu o garoto que minutos atrás fora abusado. Conseguira por um sorriso no rosto mesmo diante daquilo. Tal atitude me pegou de surpresa, justamente por usar a máscara da felicidade mesmo diante de tanto sofrimento que muitas vezes deixara transparecer.
— Digamos que é em homenagem a John Lennon.
— Te chamarei de Lennon para me distinguir dos demais.
— Não. Isso me irrita, seria uma ofensa ao eterno e verdadeiro John.
— Está bem, Lennon. — E sorriu.
— Ainda posso te agredir com essa madeira se continuar me chamando assim.
(...)
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