5 – Lost



Nem o frio quase insuportável do começo da noite foi capaz de acalmar Synyster. Pisando firme na neve enquanto ia até seu trabalho, ainda sentia o sangue latejar nas têmporas de raiva. Daquela vez Michelle tinha conseguido tirá-lo do sério...


— Syn, o que é isso? — a loira perguntou sacudindo os cartões postais de Jessica.

— Você andou revistando minhas coisas? — ele a mirou impaciente tentando se aproximar para pegar os cartões, mas ela recuou.

— Tinha que me ocupar com algo, não acha? — disse irônica — Já que tentar saber onde meu noivo esteve o dia inteiro foi inútil.

Ele suspirou

— Eu estava dando uma volta.

— Sozinho?

— Não — respirou fundo tentando ignorar o tom acusador da pergunta —, com a Jessye.

— Você não tem nem vergonha da admitir?

— A gente só conversou Michelle. Por que toda essa preocupação com ela?

— Eu não sou idiota Synyster, ou melhor, Brian. — corrigiu-se com humor negro — Eu vi o jeito que você olha pra ela e ainda por cima me escondeu isso? — ela ergueu os cartões como se fossem provas incontestáveis de uma traição.

— Por que isso não tem nada haver com você. É meu, devolve de uma vez!

— Não, eu vou dar um fim nisso!

Foi uma questão de segundos, num momento Michelle estava lá, segurando os cartões na sua frente e no outro estava abrindo a janela e retirando o elástico antes de jogá-los.

— Sua louca! — foi tudo que conseguiu dizer antes de sair do apartamento em busca das lembranças.



Não tinha conseguido recuperar tudo e a maior parte tinha se estragado na neve. Tudo que conseguiu fazer foi juntar o que tinha salvado e ir direto pro trabalho, por que se voltasse para aquele apartamento ia acabar dizendo e fazendo coisas de que poderia se arrepender.


— O que houve, Syn? — Valary perguntou assim que o viu entrar no bar.


— Sua irmã finalmente conseguiu. Eu estou realmente puto!


A garota deu uma olhada no bar, alguns funcionários já começavam a se preparar e olhavam furtivamente para os dois.


— Vem comigo, vamos conversar lá no escritório.


Synyster assentiu e a seguiu, colocando os cartões sobre mesa do computador antes de se sentar no sofá.


— Isso tem haver com a Jessica, não é? — a morena perguntou lhe oferecendo um copo de uísque que ele aceitou.


— É tão fácil assim adivinhar?


— A Chelle definitivamente não vai com a cara dela e seu jeito de agir não ajuda. É óbvio que ela é importante pra você.


— Nós somos amigos.


Só isso?


Synyster tomou um pouco do uísque e respondeu com franqueza:


— Não sei.


— Já aconteceu alguma coisa entre vocês?


— Há muito tempo, num momento... ahn... complicado.


Valary afundou no sofá com um suspiro.


— Syn, afinal o que aconteceu? Você é rico, podia ser famoso e imagino que a Jessica estava do seu lado. O que te fez abandonar tudo?


— A verdade é que... — ele baixou os olhos para o copo pela metade — Quando meu pai morreu, eu só tive vontade sumir, de fingir que eu era outra pessoa, e foi o que eu fiz.


— Não pensa assim — ela pôs a mão sobre seu ombro —, todo mundo fica confuso às vezes.


— Valeu. — murmurou pensando em como aquela poderia ser a irmã gêmea de Michelle. Nunca tinha visto pessoas mais diferentes.


— Mas...— começou insegura — eu posso fazer uma pergunta?


— Claro.


— Por que a Jessica não veio com você?


— Ela não sabia... Nós tínhamos planejado uma viajem pelo mundo depois do fim da escola, sabe? Significava muito pra ela, muito mais que pra mim. Ia ser a chance dela de se libertar de muita coisa. Então eu só disse que não ia, ela se ofereceu pra ficar comigo, mas eu recusei, a única coisa que eu aceitei foi a indicação do advogado que cuida das joalherias pra mim agora.


Valary franziu as sobrancelhas.


— Mas, como ela não soube então?


— Ele coloca dinheiro todo mês numa conta pra mim. — ele deu os ombros — A Jessye não é do tipo que fiscaliza a vida alheia, tudo que ela me pediu foi o endereço pra mandar esses cartões que a Michelle fez questão de destruir.


O olhar de Valary caiu sobre os cartões com a tinta manchada sobre a mesa e logo depois ela puxou o amigo para um abraço.


— Imagino que esteja confuso agora. — disse baixinho antes de separar lentamente e encará-lo com uma mistura de pesar e compreensão — Mas eu te aconselho a refletir bastante, você é meu amigo e a Michelle é minha irmã. Essa situação não está fazendo bem pra nenhum dos dois e eu não fico feliz vendo isso.


— É isso que eu vou fazer.


— Assim que gosto. — ela sorriu — Saiba que você tem o meu apoio e o apoio dos seus amigos, por que nossos sentimentos por você são os mesmos sendo Brian Haner ou Synyster Gates.


Brian sorriu de volta, tinha muita sorte.


— Vamos trabalhar? — ele tomou resto do uísque no copo — O Matt vai me matar se descobrir que eu te deixei na mão por causa de uma crise existencial.


Valary riu enquanto saíam do escritório. Como se fosse uma ironia pela ausência de Matt, a noite foi uma das mais agitadas pelas quais já tinha passado e algumas coisas continuaram seguindo a rotina. As mulheres lançando bilhetes para dentro do bar, tocando sua mão quando servia a bebida, e seus sorrisos em resposta que algumas tomavam com encorajamento.


Synyster se surpreendeu percebendo que o trabalho tinha ajudado a acalmar seus pensamentos, apesar de algumas coisas ainda insistirem. Mais de uma vez tinha pego a si mesmo olhando para o ponto no balcão onde Jessica tinha se inclinado para falar com ele e pensando no que teria acontecido se tivesse avançado quando estavam tão próximos no sofá daquele apartamento mais cedo.


— Err... Val, não sei nem como te pedir isso... — disse quando expediente já havia acabado e a amiga tomava o último drinque antes de fechar o bar. — Posso dormir aqui?


Valary ergueu uma sobrancelha, mas não demorou a compreender.


— Não quer encontrar com a Chelle, não é?


— Só por essa noite. Eu preciso ficar sozinho com meus pensamentos.


— Hm... — a morena tomou o resto do conhaque em sua taça e puxou um molho de chaves da bolsa colocando-as sobre o balcão — Fecha tudo direitinho, pode dormir no escritório.


Ele pegou uma das mãos da amiga e a beijou


— Valeu!



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Michelle acordou consciente do espaço vazio do lado de sua cama. Não se conformava com aquela reação dele. Como seu noivo poderia se importar mais com cartões postais de uma amiga que não via há anos do que com os sentimentos dela?


Isso não era justo.


Mas sentia sua falta. O grande motivo de tudo aquilo era que o amava, tanto que aceitou viver naquele apartamento mínimo acreditando que era tudo que ele poderia pagar e mesmo depois, quando descobriu a verdade, não reclamou, mas nem assim ele parecia confiar o suficiente nela. Escondeu seu passado, escondeu os cartões, escondeu Jessica.


Mesmo assim ia provar mais uma vez seu amor por ele.


Iria dar o braço a torcer.


Saiu da cama e buscou o celular na bolsa até achar o número de quem achava que sabia onde Synyster estava.


— Fala, Chelle. — Valary atendeu meio sonolenta.


— Te acordei, Val?


— Hm, mais ou menos, o Matt está se arrumando pra ir à produtora agora, eu estava tentando voltar a dormir.


— Eles ainda não resolveram aquele problema?


— Não. Mas o Jimmy disse que se dependesse da determinação do Zacky em voltar pra ver a Jessye, eles não tinham ficado lá nem vinte minutos.


— Falando dela...


— O Syn me contou sobre a discussão de vocês.


— Então você sabe onde ele passou a noite?


Valary respirou fundo do outro lado da linha.


— Sei, mas... Chelle, eu sei que você faz isso por que está com ciúmes, mas se as coisas continuarem assim, não vai ser bom pra nenhum dos dois. Você sabe, não é?


— Eu quero conversar com ele, acertar as coisas.


— Ok, ele pediu minha chave pra dormir lá na Radiant Eclipse.


— Obrigada, Val.


— Juízo, Chelle.


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“Parece tão diferente quando está vazio.”


Synyster pensou sentado em um dos bancos que rodeava o bar. Ainda eram oito da manhã e a equipe de limpeza ainda não tinha retirado os vestígios das últimas pessoas lá dentro. Guardanapos, copos deixados nos lugares mais improváveis e — ele não duvidou — alguma camisinha em um dos cantos ali.


Mas o que realmente lhe causou uma sensação estranha foi a impressão que falta de limpeza deixava algo como vazio, como um mau presságio.


Balançou a cabeça se livrando daqueles pensamentos. Depois do que tinha feito, aquela não era a hora pra maus pressentimentos. Tinha destrancado a porta principal, ligado pra Jessica e pedido pra que ela fosse encontrá-lo no bar. Ia falar pra ela tudo que estava sufocado dentro de si, ia arriscar tudo por ela.


Decidiu ir até o bar preparar algo para relaxar e se aquecer. O inverno estava cada vez mais rigoroso e o aquecimento do bar começava a ser posto a prova. Escolheu uma boa vodka e começou a encher um copo quando ouviu o barulho das portas da frente sendo abertas. Demorou um segundo tomando coragem para erguer os olhos e ver Jessica esfregando as mãos calçadas em luvas de couro enquanto se aproximava do bar. Seu sobretudo xadrez roxo e preto estava salpicado de neve assim como seu cabelo solto sobre os ombros.


— Que bom que veio. — disse sem se virar.


Ela estacou meio sem entender, mas seus olhos seguiram até as prateleiras as costas do amigo.


— Droga de espelho, queria te dar um susto.


— Não é tão fácil. — ele se virou e colocou um copo no balcão diante dela. — Vodka, suave.


— Mas Brian, você sabe que eu não bebo.


— Eu sei, mas será que tem tanto problema assim me acompanhar, só numa dose?


— Bem, eu... — ela olhou para o copo, insegura — Desculpe, não posso.


Synyster não insistiu, não queria que ela se sentisse desconfortável. Tomou do seu copo e do dela, e os deixou atrás do balcão junto ao resto da louça de que a equipe de limpeza cuidaria.


— Vamos pro escritório?


— Ok.


Ela o seguiu pelo caminho conhecido, dessa vez de um jeito bem mais calmo do que da primeira. Synyster sabia que ela estava curiosa, mas parecia esperar que ele começasse a se explicar então se manteve em silêncio.


— Eu tenho uma coisa séria pra falar pra você Jessye.


— Eu também — ela disse inesperadamente —, mas fala você primeiro.


— Bem... O que eu queria dizer é... Eu gosto de você.


Ela pareceu desconcertada por alguns momentos e Synyster quase pôde ver os pensamentos sendo processados até que ela respondesse:


— Eu também Brian. Você sempre vai ser meu melhor ami...


— Não, não desse jeito. — ele se aproximou deixando menos de vinte centímetros de distância entre os dois — Como mulher, entende? Nesses últimos dias, eu a Michelle passamos a maior parte do tempo brigando, por sua causa Jessye, por que eu não paro de pensar em você.


— Mas... eu pensei que nós fôssemos...


— Pensou que nós fôssemos amigos? Nós somos, mas não isso. Tem algo mais e eu sei que você também sente isso.


— Eu pensei...


— Você estava errada. — interrompeu, engolindo seco — Acredite, eu tentei me convencer disso, mas todas as vezes que eu te vejo... — ele segurou seu braço e Jessica soltou o ar, perplexa.


— Brian, e-eu não sei o que dizer.


— Só me responde se eu estou sozinho nisso, se você não me olhou nenhuma vez como mais que um amigo.


— E-eu não posso.


— Por que não? Qual é a dificuldade?


— Eu estou grávida do Zacky!


Jessica ofegou como se as palavras a tivessem sufocado até aquele momento e Synyster abriu a boca sem emitir nenhum som. Os dois permaneceram assim por alguns instantes até que ele finalmente colocasse os pensamentos em ordem:


— A gente pode resolver isso, eu vou ficar do seu lado.


— Brian, não é tão simples assim. — ela sentiu os olhos arderem e previu as lágrimas — Você não pode fazer isso comigo Brian, você não pode acordar um dia e dizer que eu tenho que decidir se eu gosto de você quando já estou com outra pessoa. Isso não é justo! — ela soltou um soluço quando a primeira lágrima transbordou — Eu simplesmente não posso fazer isso.


Synyster sentiu algo se apertar dentro do peito ao vê-la chorar, não tinha aquela intenção, nunca teve. Ergueu uma mão e tentou secar seu rosto com as costas dos dedos.


— Desculpa.


Jessica o encarou com os olhos vermelhos, mas assentiu.


— Sei qual pode ser sua reação — ele suspirou inseguro — Mas me dá um beijo? Não precisa me olhar assim, juro que nunca mais toco nesse assunto de novo enquanto você não quiser, mas... me deixa fazer isso?


Jessica engoliu seco e umedeceu os lábios, visivelmente nervosa. Brian esperava pelo momento em que ela viraria as costas e iria embora dali, deixando-o sozinho, mas, para sua surpresa, ela assentiu.


— Sim — respondeu baixinho.


Ele pôs as mãos sobre a cintura fina muito suavemente, sentindo que poderia machucá-la ou que ela poderia escapar entre seus dedos se fosse ansioso demais. Jessica estava muito consciente do silêncio, a sala vazia só era tomada pelo som de sua respiração e, talvez, pelas batidas de seu coração que parecia tentar sair do peito. O que estava fazendo? Por que tinha dito sim?Sua mente trabalhava freneticamente tentando encontrar as respostas, mas não teve tempo antes que o hálito dele tocasse seus lábios e ela se desse conta do quanto suas bocas estavam próximas, quando uma voz os interrompeu.


— Mas que merda é essa?!


Os dois se exaltaram. A voz de era de Zacky e ele estava parado, na soleira da porta, com um brilho de fúria nos olhos verdes.



Quantas vidas ainda vamos tirar?

Quantos corações destinados à partir?

Nenhum lugar para correr, não podemos escapar

Cheios de nós mesmos, presos ao nosso destino

O fim está batendo à porta

O fim está batendo à porta.



Notas finais
Jack: Eu não queria vir, mas elas me chantagearam com chocolate, então... Depois de séculos essas pregui...Ai! Quem foi que jogou isso?! e-é ...Enfim, se gostaram, deixem reviews, sim? Falta mais dois capítulos pro final. Té mais, beijo do Jack! -q
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.