Inventei Você?
40 Epílogo

Em matéria de reunir pessoas, duas ocasiões são infalíveis: casamentos e enterros. No último ano, já havíamos tido um casamento; o enterro, que esperávamos mais para acontecer, infelizmente marcou o verão de 2017. Despedimo-nos da pobre Petúnia com a sensação de vazio no peito. Afinal de contas, ela tinha feito parte da vida de todos nós. Mesmo eu, que ainda estava no probatio de Healdsburg.
O que? Acharam que eu iria anunciar o enterro de um idoso? Ah, não. Todas as nossas tartaruguinhas de estimação vão viver até os 150 anos. Respirem fundo, crianças.
— Eu não queria que ela sofresse... — Cecilia lamentou ao meu lado, enquanto assistíamos ao show de horrores. — Minha pobre menina...
— Pense pelo lado bom — opinei, estreitando os olhos. — Ela foi doadora de órgãos.
— A gente vendeu os órgãos dela, Matt.
— Ela ainda assim foi uma heroína. Merece nossas honras.
Angie nos encarou de lado, soltando um grunhido.
— Meu Deus, vocês são muito esquisitos. Se eu não soubesse que era um carro, teria chamado a polícia. Pior que isso, só aqueles papos de The Sims.
Gargalhei com gosto, ainda que a máquina tenha acabado com a pobre Petúnia bem naquele momento. Sarah suspirou ao nosso lado, fotografando a cena.
— Essa aí é outra doida — Angie passou para o lado da amiga, sorrindo de um jeito engraçado. Parecia meio contaminada pela nossa loucura coletiva. — Fotografando a desgraça alheia, Sarah Palmer?
— Tô começando a trabalhar com Photoshop, pretendo homenagear a Petúnia com uma explosão bonita no fundo — Sarah explicou, como se não fosse nada demais. — Queria ter feito algo mais Tarantinesco, mas fica pra outra ocasião.
— Tarantinesco? — May abriu um sorriso maligno. — Quero uma maquiagem numa foto minha! Nova York é cheia de gente alternativa, chega a ser assustador...
Ryan franziu a testa, sendo levado voluntariamente pela mão da irmã.
— Mas o que é Taran... Ta...?
— Quando fizer 16 anos, a gente conversa sobre isso, amigão — ri de nervoso.
Pegamos o rumo de casa na minivan – um amém que ao menos ela existia –, após afivelar a criança no banco. Cecilia sorriu de lado para mim no banco do passageiro, e eu retribuí com um quentinho no coração. Recentemente ela tinha me permitido dirigir suas preciosidades, uma vez que eu tinha provado meu valor como esposo. Por lei, dividíamos tudo e todas as coisas, e etc.
Tudo bem, eu omiti o casamento justamente porque a união de tribos nunca existiu. Uma ida ao cartório foi o suficiente. Noelle não ficou muito feliz com isso, mas levou na esportiva depois que a Petúnia quebrou. Festas de casamento não eram lá muito bem-vindas quando o seu carro quebra, sabe?
Eu não vou mentir. Casamento não era bem o mar de rosas que eu esperava. Por mais que eu e Cecilia fôssemos uma boa dupla, dividir sua vida com outra pessoa significava muitas adaptações. Ainda assim, tinha sido a melhor decisão que eu já tinha tomado na vida. Todas as pessoas que eu amava estavam próximas. E tínhamos até o direito de sermos os tios legais de Ryan.
Foi o ano um de teste de encontros anuais de Healdsburg antes que as ovelhinhas desgarrassem de vez. Até então, estávamos indo muito bem. Sarah fazia seu curso em San Francisco, May mudou-se em definitivo para Nova York para cursar moda e Angie havia ser a fiel escudeira – ou segunda no comando – de Cecilia.
E eu e Cecília éramos um casal de subúrbio. Eu não podia querer mais. Tinha até um espaço de pintura própria para mim! Até hoje, eu nunca tive tanto carinho na vida. Não queria me gabar, mas eu tinha a melhor esposa de todas. Que ainda precisava conhecer os próprios sogros, mas talvez isso pudesse esperar mais um ano para se concretizar.
— O que vocês querem para o almoço? — Cecilia voltou-se para trás com um sorriso carinhoso. — Estávamos pensando numa grande fornada de lasanha.
A barriga de Ryan roncou audivelmente com a sugestão. Todos, exceto Ryan, rimos da fofura da cena. Ele ficou constrangido, coitado.
— Ótima ideia! — Sarah sorriu, espremida em meio às outras duas. — Tem um ano que eu só como fast food e bolacha...
— Idem — May suspirou. — Nova York não é tão glamourosa com novatas quanto O Diabo Veste Prada me fez acreditar...
Angie olhou para ela como se estivesse louca.
— Mas, meu amor... A Miranda Priestly é literalmente o diabo de O Diabo Veste Prada, que glamour é esse que você esperava?
May deu de ombros, parecendo constrangida por um momento.
— Ah, não sei... Chegar atrasada nos lugares depois de atravessar a Quinta com um copo de café na mão correndo o risco de derramar no meu tailleur chique era meio que o meu sonho...
Angie gargalhou, mas Cecilia apressou-se em bronquear em seu tom gentil de sempre:
— Não a desanime, Angie... Ainda pode ser o seu sonho, May, talvez só precise adiá-lo um pouco... Tenho certeza de que, em breve, a Times Square vai estampar suas criações em todos os telões possíveis.
Com um sorriso, May retorquiu:
— É assim que se consola uma amiga, sua desalmada.
— Ah, Amelia, é que alguém tem de ser o policial mau para existir o policial bom. É a exigência da dinâmica, não é?
Sarah riu em seu canto, ao passo que estacionei em frente de casa. Em frente à nossa casinha de contos de fada. Era impossível não sorrir ao chegar num lugar aconchegante daqueles. Agora que as dívidas estavam devidamente pagas, graças à senhora Parker, podíamos respirar um pouco mais aliviadas. Em meio a um acordo de dívidas e estadia mensal do mordomo-mirim uma vez por ano, as duas estavam se entendendo bem.
Ryan, que ia ao colo de Sarah na minivan – vamos apenas fingir que isso não é uma infração de trânsito, sim? –, correu alegremente pelo gramado assim que foi solto. Sarah ofertou um sorriso amarelo para nós.
— A gente cuida dele pra vocês. O que é aquilo ali? Vocês montaram um golzinho nos fundos?
— Foi — sorri. — Ryan ama futebol, a gente queria que ele se sentisse em casa enquanto estivesse aqui, você sabe? Ele não está acostumado nem com a gente e nem em ficar tanto tempo longe dos pais. Não queríamos decepcionar nem a ele e nem aos pais... Quer dizer, nem eu e nem a Ceci sabemos como cuidar de crianças.
— Estão mandando muito — Sarah passou o braço ao redor do meu, recostando-se em meu peitoral no ápice do conforto. — É bem fofo, na verdade. Vocês agora são os tios que estragam a criança quando os pais não estão por perto?
— Exatamente — gargalhei. — Com a exceção de que de vez em quando a gente tem que se virar em dez pra considerar as perguntas reflexivas daquele caderno danado... Aí nós tentamos manter a paz e a ordem.
Cecilia avizinhou-se a mim pelo outro lado, fazendo com que eu formasse o recheio de um sanduíche de saudade.
— Perceba que ele disse tentamos — Cecilia gargalhou. — Toda hora mandamos mensagem para os senhores pais. Sei lá, interferir na educação do filho alheio é zoado. Principalmente da minha vida.
— Pois saibam que eu estou na fila de adoção — Sarah abriu um sorriso amável. — No topo da fila! Vocês são uns pais postiços maravilhosos.
E nós, os pais postiços, sorrimos tranquilamente. Era muito reconfortante saber que a gente é importante para alguém. No meu caso, agora, para várias pessoas.
— Vou lá brincar com o mocinho — Sarah se desvencilhou de nós, adiantando-se para beijar Cecilia na bochecha. — Se precisarem de mim, é só gritar.
Ela assentiu com a cabeça muito seriamente, para logo depois ir correr pelo gramado tão contente quanto Ryan. Nós dois rimos dos seus gestos sempre tão espontâneos e imprevisíveis. Cecilia não se soltou de mim enquanto entrávamos em casa, e me peguei sorrindo com a mudança de tudo no período de um ano.
Antes, as paredes opacas não tinham nada de muito significativo em matéria de decoração; agora, Cecilia havia me permitido pintar as paredes de verde-menta, distribuir minhas aquarelas pelos cômodos e emolduramos as fotos dos casamentos num mural bonito. Faltava vida naquela casa, e agora deixávamos as portas escancaradas para que a vida fizesse o seu trabalho. Eu estava orgulhoso do nosso progresso.
— Você faz o molho? — Cecilia indagou para mim distraidamente. — Eu gosto do seu molho... E eu tô com um pouco de preguiça do liquidificador...
Eu gargalhei, aproveitando a proximidade dela para lhe dar um beijo na testa. Cecilia ergueu a cabeça para me encarar, exibindo um sorriso brincalhão.
— Não me diga que tem uma piada sobre molho vindo por aí.
— Ter eu até tenho, mas hoje não!
— E o que foi? — ela me roubou um beijo, o qual eu sequer reclamei. — Ficou rindo da piada sozinha, meu bem?
Neguei com a cabeça, mantendo o sorriso idiota no rosto.
— Não, eu só estou feliz... Você é adorável, Ceci — esclareci.
— Ah, é? — suas bochechas coraram, e eu me vi obrigado a beijar cada um delas. — Bem, eu faço um esforço absurdo, se você quer saber.
— Eu discordo. Eu durmo do seu lado, tenho propriedade pra falar.
Foi a vez dela em gargalhar, e então ela girou o corpo para ficar de frente para mim. Tirei a franja de seus olhos, recebendo um sorriso como agradecimento. Acariciei suas bochechas com carinho.
— Eu fico extremamente feliz apenas em amar você, Cecilia Carpenter.
— A sonoridade é impecável — ela riu afetuosamente. — Ainda me ama, é?
— Ainda! Bobinha. A morte da Petúnia te deixou desestabilizada, não foi?
Cecilia aquiesceu, fazendo bico. Achei graça, coitada.
— Um pouquinho...
— Você ouviu o que a Sarah disse — sorri, convencido. — Nós mandamos muito bem. Já dá pra adotar um cachorro!
— Vou pensar nisso com carinho. Mas, por ora, precisamos d um carro novo. Como você disse, eu estou desestabilizada.
Abafei meu riso em meio aos seus cabelos, e ela também deu uma pausa no almoço para se aconchegar num abraço. Ficamos quietinhos por alguns instantes, até que ela voltou a me fitar com a expressão doce.
— Mandamos bem mesmo, não é? — Cecilia sussurrou, segurando meus dedos com delicadeza. — A gente supera essa. Digo, a Petúnia.
— É só vender os órgãos dela e a gente supera, sim...
Ela gargalhou, como esperava que fizesse. Então, me permiti atrasar o almoço mais um pouco e beijá-la com gosto. Senti seu sorriso despontar nos lábios, e aproveitei aquele momento especial. Registrei a memória em minha cabeça com o máximo de detalhes possíveis.
— Talvez a gente possa começar com um cachorro — Cecilia cedeu, estreitando os olhos ao se soltar do meu abraço. Mulher cruel. — Mas, agora, Matthew, o senhor precisa se concentrar no seu molho.
— No meu molho, Cecilia? — gargalhei com maldade. — A gente pode o chamar de Gunther?
— Quem, o molho?
— Não, o cachorro! Pode ser um husky?
— Não. Eles são barulhentos e eu gosto de silêncio.
— Há controvérsias... Tem dias aí que você ama muito o barulho...
Cecilia suspirou, com as bochechas coradas.
— Matthew?
— Hum?
— E que tal você ficar quietinho?
Soltei um muxoxo, negando com a cabeça.
— Decepcionante, Cecilia. You’re breaking my heart.
— Faça isso pelo Gunther — ela argumentou, abrindo a geladeira. — Pense nele, talvez, como um beagle.
— Ou um dachshund! Também é uma boa!
— Eu disse que vou pensar.
— Você pode pensar fazendo outras coisas!
— Na-ah. Já encarnei a Esmagadora de Corações. Em honra à Petúnia.
— Quer saber? Eu sempre odiei aquele carro.
Cecilia morreu de rir com a minha piada sem-graça. E eu continuei irritando-a durante o preparo daquela lasanha. E talvez na sobremesa, também. E, como dizem...
O resto é história. Nada inventado, dessa vez.
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