Inventei Você?
10 Telefonemas, vinícolas e empregos
Notas iniciais

Após deixarmos o lanche com Noelle – a própria fera amansada –, Cecilia voltou ao seu posto assumindo a pose profissional que mais encaixava com sua clientela. Com mais um pote em mãos, um buquê de flores e mais uma promessa de devolução – que provavelmente não seria cumprida –, voltei pelo caminho da casa da tia George com ânimos renovados.
É claro. Antes de voltar para casa, passei pela tal vinícola que Cecilia havia comentado. A dona, Poppy, ficou feliz em informar que sim, tinha vaquinhas que compartilhavam o campo. Perguntei se eu poderia marcar duas visitas – uma para rascunhar tal vaquinha e a outra era surpresa. Poppy pareceu intrigada com as especificações, porém marcaram os dois horários. Era dinheiro para ela, então “pagando bem, que mal tem?”.
Deixei o cachorro-quente com a tia Georgie – que, por sua vez, surpreendeu-se com a segunda leva de comida da semana – e aproveitei para perguntá-la onde poderia encontrar materiais para pintura por ali. Mostrei-a meu rascunho feito uma criança, e recebi sua aprovação com um sorriso ladino. Prometi dar a ela o buquê depois de usá-lo e, finalmente, depois de deixar tudo em ordem, sentei-me ao pé da cama para dar continuidade à base do desenho.
Antes disso, porém, coloquei meus fones de ouvido e liguei para o Gil. Esperei até que ele atendesse, prosseguindo com a observação dos traços originais. Percebi, com certa surpresa, eu não via problema nenhum nisso.
— Matteroo! — Gil falou do outro lado da linha, me sobressaltando. Quase praguejei ao segurar prestes a cair no chão. — Você está vivo!
— É claro que estou — ri de nervoso. — E aí, Gil?
— Na mesma. Horário de folga é uma bênção.
— Muito trabalho por aí? — voltei a me concentrar no desenho, apagando delicadamente as raízes do cabelo. — Digo, mais que o normal?
Pude enxergá-lo dando de ombros. Ele sempre fazia isso.
— Está chegando o Dia da Memória, sabe? Estamos fazendo os preparativos. Além disso...
— Segundas-feiras — completei por ele.
— É. E você, como está aí no fim de mundo?
Ri com o termo. Comecei a desenvolver os cachos que pareciam casar com a estrutura do rosto. Cachos naturais era uma boa definição de amor próprio. E amor próprio equivale à beleza. De amor próprio eu não entendo nada, mas prosseguia tentando.
— Na verdade, eu... Estou muito bem. Melhor do que o esperado. As coisas por aqui são bem agitadas. Não vai acreditar no que aconteceu.
— Uma rinha de vacas? — Gil sugeriu um pouco animado demais. — Porque, você sabe, com galos é ilegal e é sinônimo de maus tratos.
— Claro que não! Meu Deus, Gil. O que você tem com vacas? — gargalhei. — É mais midiático que isso. Eu vou contar e você tem que acreditar, por mais absurdo que seja.
— Nossa, Senhor Misterioso, vá em frente.
Então, eu o contei. Desde o surto da estudante da tia Georgie até o dia mais cedo. Gilbert ouviu com atenção, sem concessões e até suas risadas foram minguando até o final da história... Ao menos, até onde chegamos ao ponto atual. Só aí então Gilbert exprimiu um suspiro incrédulo.
— Ah, puxa... Você foi só tirar umas férias e ganhou tudo de mão beijada! Caramba, Matt, isso é...
— Assustador?
— Também. Mas eu ia dizer que isso só pode significar uma coisa.
— Não comece, hein?
Gil riu do outro lado da linha, enquanto eu ressaltava o nariz fino e delicado. Continuei encarando-o quando Gil me respondeu.
— O que? Não custa, ela parece ser gente boa. Não precisa olhar todas as mulheres do mundo com um olhar romântico, Matt. Pode se surpreender com o quanto pode gostar de relações casuais. Aliás, vou querer uma foto da beldade para avaliar o caso.
Fiz isso, pausando meu processo criativo para lhe mandar uma captura de tela da foto de perfil de Cecilia. Em resposta, Gilbert assoviou se fazendo de impressionado.
— Então! É uma beldade e gente boa. O que está esperando para chamá-la para sair?
— Nada de pressa. Nós nos conhecemos há menos de uma semana, Gil. Se eu for fazer isso, tem que passar do sábado. Está me entendendo?
— Matt... Vocês cozinharam juntos. Não banque o adolescente, por favor.
Ri de nervoso.
— Tá, e qual é a relevância dessa informação?
— Ora essa. Quer dizer que já é um belo avanço. Já é bastante intimidade, principalmente quando a pessoa não dá palpite no jeito que você cozinha.
— Oh...
A informação me pegou de calças curtas. Franzi a testa, consternado. Certo, poderia não ser o caso... Mas não havia como negar que a distração culinária havia sido muito divertida. Cecilia era uma ótima anfitriã – ou sócia? – e me deixou muito confortável. Só isso já dizia muita coisa a seu respeito. Por exemplo, se eu a convidasse para sair, ao menos seria um fora gentil.
— Talvez. Vou pensar no seu caso.
— Não é para pensar, é para fazer. Coragem.
— Ah, por favor — torci o nariz. — Essa frase me dá arrepios. Vou mandar o rascunho para a Pauline, nem que eu tenha que madrugar.
— Determinação, velho Carpenter. Não deixe a bruxa má te assustar.
Gargalhei imensamente mais feliz por ter conversado com uma alma amiga em meio a tanta agitação.
— Matt. Tenho que voltar ao trabalho e imagino que você também.
— Certo. Bom trabalho, Gil. Paciência com os clientes, hein?
— Eu vou tentar!
— Não é para tentar, é para fazer. Coragem.
Ouvi seu resmungo com certa satisfação. Então, desliguei o telefone e voltei a trabalhar no desenho. De relance, os lisiantos e mosquitinhos de Cecilia coloriam meu quarto e minha monotonia de segunda-feira.
Eu menti.
Não madruguei e nem madrugaria por Pauline. Uma madrugada criativa era muito diferente de sacrificar meu sono em nome dos prazos. Não, isso eu fazia no ensino médio. Hoje em dia, além de responder pelo meu nível de preguiça, havia aprendido com base em surras psicológicas que a única forma de ter paz e saúde mental – no meu caso, veja bem – era dormir adequadamente, comer adequadamente no limite do possível e entender que um dia tem 24 horas e estresses contínuos. Era absurdo manter uma positividade utópica de que nada me aconteceria ou me atingiria. O estresse viria, sim. Mas eu não podia deixá-lo me derrubar ou tirar meu sono. Isso só mostraria que o problema era maior que eu, e que eventualmente isso iria me sufocar. Portanto, a hora da naninha era extremamente preciosa por diversos motivos.
Finalizado o rascunho, na terça-feira, encomendei uma tela pequena e no horário marcado por Poppy compareci à vinícola. Com seus quarenta e poucos anos, Poppy ostentava fios grisalhos em meio aos cachos castanhos na altura dos ombros – estes lhe davam um ar sofisticado, casando perfeitamente a imagem com a pessoa.
Enfim. Ela me deixou confortável para pintar a vaquinha que Gilbert requisitou, então fiz a gentileza de deixá-la num fundo de uvas e árvores elegantíssimas. Era para ser uma representação fofa, mas ninguém disse que não poderia ser elegante e fofa. Pintei-a com tinta acrílica e acrescentei os detalhes com marcador permanente, obtendo um sorriso de aprovação de Poppy.
Ela parecia ser a única pessoa em Healdsburg que não ouviu sobre eu e Cecilia, o que era bom para me apresentar como turista desconhecido. Logo já fui apresentado ao seu irmão Pat, que apertou minha mão com firmeza. Aproveitei a deixa e perguntei-os se algum lugar estava contratando meio-período. Recebi um nome familiar em resposta.
— Acho que o senhor Bell precisa de uma mãozinha na livraria — Pat opinou. — Ele não pediria, mas se oferecer talvez ele aceite.
— É verdade — Poppy concordou com uma expressão carinhosa. As pessoas por aqui pareciam levar bem a sério os cuidados com idosos. Não era de surpreender que tia Georgie houvesse se afeiçoado à cidade em um período de tempo tão curto. — Ele vai gostar do seu jeitinho. Se gostar de ler já é um bônus.
— Gosto — sorri de lado. — Não tanto, mas eu gosto. Obrigado... Espero que dê em algo.
— Se não der, ele com certeza vai saber te informar. O homem é puro coração e gentileza.
Assenti com a cabeça, e Pat me ofereceu uma carona no caminhão de bombeiros – o que, devo confessar, alegrou minha criança interna – até a livraria. Aproveitei a oportunidade para observar o caminho e o que havia para ser descoberto pelas ruas. Não tinha necessariamente uma profissão estabelecida para cada morador propriamente dito, mas tinha quem se orgulhasse de manter as tradições. Pat me explicou que as prováveis “concorrências” preferiam agir como fornecedores bem-estabelecidos do que correr o risco de não estabelecer uma clientela.
Ao chegar ao habitat natural do renomado senhor Bell, sorri pela familiaridade do ambiente. Pat me deixou lá com um aceno encorajador, então foi com esse ânimo que empurrei a porta.
Era um silêncio que só lá dentro. A parede cheia de livros abafava o ruído dos carros e das pessoas, mas ao entrar era possível captar ruídos próprios – páginas virando, lápis dançando pelas folhas de papel, teclas de notebooks sendo castigadas pela falta de tempo ou excesso de criatividade. Senti-me um intruso ao entrar e quebrar aquela aura quase sagrada, porém minha sorte residia em ter outra pessoa saindo enquanto eu entrava. O adolescente me “cumprimentou” com os lábios comprimidos para cima e um meneio de cabeça, partindo logo em seguida.
Muita informação para tão pouco tempo...
Então, vi o dito senhorzinho atrás do balcão, provavelmente tendo acabado de dispensar o garoto que saiu. Sua imagem me trazia muito conforto: os óculos pendurados por uma cordinha ao redor do pescoço ornavam com a aparência tranquila de quem gastou toda a vista lendo ou debruçado sobre papéis, bem como o montinho de cabelos brancos em contraste com seu paletó marrom surrado. Quando me viu, ele ergueu tanto os óculos para o nariz como um sorriso animado. Sorri junto antes mesmo que ele começasse a falar.
— Boa tarde, meu rapazinho! Em que posso ajudar?
— Boa tarde — rapazinho... — O senhor é o senhor Bell? Disseram para eu procurar o senhor.
— Oh, é mesmo? Em nome de quem?
— Pat e Poppy Graham. Mais Pat do que Poppy, digo... Bem, os dois me disseram para ver se o senhor precisava de uma mãozinha por aqui.
O livreiro assentiu solenemente.
— Ah, eles se preocupam muito com o velho Bell, é verdade. Sou tio-avô daqueles dois, sabe? Para eles eu sou o “tio Victor”, mas não os deixe descobrirem que lhe contei isso. Bem... É um pouco verdade. Veio para isso.
Assenti com a cabeça, estendendo uma mão com educação.
— Matthew. Mas meus amigos podem me chamar de Matt — sorri. — É um prazer conhecê-lo, senhor. O senhor tem uma ótima fama lá fora.
— Não diga! — ele apertou minha mão com os dedos finos. Era a primeira vez que encontrava uma mão menos firme que a minha. — Que bom. A maior riqueza que podemos acumular é nossa boa reputação. Vamos lá, Matt. Vou mostrar o lugar antes que comecemos a avaliar os danos, sim?
Concordei imediatamente.
Dinheiro era o de menos. O importante no momento era não ficar ocioso. Se fosse significar fazer companhia para alguém assim, melhor ainda.
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