Inventei Você?
8 Senhoritas, estufas e lisiantos
Notas iniciais

Cecilia se disponibilizou a me ajudar com o rascunho logo no outro dia. “As pessoas, em geral”, disse ela em nossa rápida conversa por mensagens de texto, “se esquecem de que segundas-feiras são dias difíceis e só se preocupam com flores aos finais de semana, quando todos já estão felizes”. Estabeleci um lembrete mental: flores às segundas-feiras são inusitadas. Quer dizer... Vai saber quando uma informação daquelas poderia ser útil, certo?
Assim, dei uma folga para a tia Georgie e desci até a floricultura, encontrando o ambiente mais ameno como Cecilia disse que estaria. Ela e uma senhora riam atrás do balcão, e o gato de mais cedo dormia confortavelmente numa casinha com pilares de arranhar. Confesso que fiquei com inveja. Ao me verem, ambas sorriram em graus diferentes.
— Oi! — Cecilia riu, checando o horário em seu relógio de pulso. — Acho que eu perdi a noção da hora... Que cabeça, a minha. Como vai, Matthew?
— Bem — sorri de volta, acenando com a cabeça para a senhora e aguardando apresentações. — E vocês?
— Estamos ótimas, obrigada! Ah, essa é Noelle Mendez, minha melhor amiga, sócia e todos os bons adjetivos que conseguir encontrar. O Walt você já conhece.
— Muito prazer, senhora. Gato.
Noelle sorriu de escanteio, estendendo uma mão para que eu a apertasse. Aparentemente, todos tinham uma mão mais firme do que a minha.
— Senhora não, senhorita — corrigiu ela num tom jovial. — Veja se a devolva antes da meia-noite, senão a carruagem dela vai virar uma abóbora.
Cecilia riu de nervoso, saindo de trás do balcão para vir ao meu encontro. Era incrível como ela toda parecia sintetizar o que a primavera significava: perfume floral, cores quentes e ainda assim a simplicidade de quem se importava pouco com a aparência... Ou não tinha noção dela. Para contornar meus pensamentos, voltei a atenção uma última vez para Noelle:
— Seu pedido é uma ordem, senhorita.
Ela assentiu solenemente com a cabeça, nos dispensando com um gesto de mão insolente. Engoli em seco, ao passo que Cecilia deixou a loja aos risos.
— Parece assustado — ela comentou, erguendo os olhos castanhos para mim, com uma expressão engraçada no rosto. — O que foi, o gato comeu a sua língua?
— A senhora é bem intimidadora...
— Ah, relaxe, ela não tem nada contra você, é só o jeito dela dizer que se importa. Aliás, você até ganhou ela um pouco com aquele... Senhorita.
Não tive como me manter sério com a comicidade do seu apontamento. Após colocar o cabelo atrás das orelhas, Cecilia pigarreou.
— Então... Como vamos fazer?
— Ah, sim — limpei a garganta. — Onde você costuma... Como posso dizer...? Onde costuma “guardar” as suas flores? Tipo... O estoque ao ar livre?
— A estufa? — vi que ela queria rir, porém não riu por respeito. — Fica nos fundos de casa. Só algumas poucas que conto com fornecedores de outra cidade, mas de resto fica tudo lá nos fundos, ora.
— A-ah! Bom, faz sentido. Estufa, isso. Podemos fazer lá, já é um ambiente confortável para você e também tem tudo que precisamos.
— Ok! Espero que dê tudo certo.
Sorri de lado. Sua animação era certamente contagiante, porém eu não iria sair arreganhando os dentes sem qualquer terreno preparado primeiro. Enquanto percorríamos os poucos quarteirões que separavam a casa da floricultura, Cecilia esfregou as mãos uma na outra, sem se deixar abater.
— Então! Gostou do bolo? Aliás... Gostaram?
Ah, eu sabia que tinha me esquecido de algo!
— Muito! — elogiei sinceramente, coçando a nuca com a gafe. — Putz, eu... Esqueci completamente do pote, Cecilia, me desculpe.
Em resposta, ela emitiu um “tsc” descontraído. Olhei para ela de soslaio, curioso com sua reação.
— Não esquenta, é só um pote. Você não vai evaporar a qualquer segundo, pode me devolver outra hora. Além disso, é só um pote — ela repetiu, chutando uma pedrinha no meio do caminho com os tênis gastos. — Não vou morrer por isso.
Assenti com a cabeça, sentindo uma leveza estranha. Pelo visto, fiz alguma careta no processo, porque ela piscou um tanto confusa.
— Eu disse algo de errado...?
— Não, imagine — eu apressei em corrigir a interpretação errada. Procurei uma melhor escolha de palavras dessa vez. — Acho que... Hum... Eu nem acostumei em estar sempre preocupado com alguma coisa. Então...
— Algo pequeno como um pote não ter urgência é revolucionário?
Franzi a testa. Fui pego de surpresa pelo palpite certeiro.
— Exatamente...!
— Bem, não precisa se preocupar com nada além do necessário por aqui. Além de férias, você é meio que uma celebridade agora. Quem sabe não descola uns trabalhos por fora?
— É uma possibilidade, mas... Aí minha dívida com você só cresce...
Cecilia ergueu uma sobrancelha para mim, com uma expressão divertida estampada o rosto. Passamos pelo caminho arborizado em algum momento na conversa, porém não me atentei a isso estando no piloto automático. Aquela casinha tinha mesmo sua elegância.
— E quem disse que estamos contando?
— Bem, eu supus que sim — dei de ombros. — Todo mundo está sempre contando.
— Não foi esse nosso acordo. Decidimos estar quites se ajudássemos um ou outro. E só. Se formos por essa linha de raciocínio, eu estaria devendo bem mais a você do que o contrário.
— Você levou a sério mesmo o lance do acordo...
Ela se fingiu de ofendida, destrancando a cerca para os fundos com habilidade. Um brinde aos movimentos rotineiros, então...
— Eu levo tudo a sério!
— Percebe-se — ri pelo nariz.
— Não me venha com deboches, senão eu digo para a Nona que o senhor não está se comportando. Aí a abóbora esmagada será você.
— Nona?
Cecilia fez que sim, caminhando ao meu lado para os jardins dos fundos.
— É como eu chamo a Noelle. É ambíguo, já que nonna é “avó” em italiano.
— A senhorita Mendez não parece ser italiana.
— Oh, não, ela é porto-riquenha.
Não consegui segurar a gargalhada que se seguiu. Por sorte, Cecilia riu junto a mim. Talvez eu devesse assumir minha nova personalidade de riso solto... Ela não era de todo ruim, afinal de contas.
— Admita que é uma bela pegadinha.
— É até difícil dizer que é um falso cognato justamente porque é um apelido — concordei. — Você é engraçada.
— Jura?
Seu tom de voz era tímido. Retraído, até. Confirmei com um meneio, ao passo que ela parecer ter ganhado o elogio da sua vida. Compreendi que estava diante de alguém com profundas inseguranças, parecidas com as minhas. Então, fiz mais uma anotação mental: elogios sempre que possível. Não era nenhum sacrifício.
— Gentileza a sua... Bem, tem alguma ideia de onde quer começar, senhor artista? Aliás, como... Como isso funciona? É tipo Jack e Rose em Titanic ou...?
Senti minhas bochechas pegando fogo. Eu sequer tinha francesas a serem reivindicadas, que dirá ser comparado ao Leo DiCaprio!
— O que? Não, eu não faço esse tipo de pintura. É... Muito renascentista. Muito íntimo e expositivo para uma modelo real — foi minha vez de rir de nervoso. — Além disso, em minha opinião, hoje em dia isso é muito prepotente. Sabe...?
— Como, exatamente?
— Digo... Usar a arte como desculpa para desnudar alguém. Existe uma grande distância entre o nu artístico e o nu vulgar... E é por esse motivo que não me aventuro nesses terrenos. Entende?
Cecilia aquiesceu, me mostrando um banco para nos sentarmos. Tudo era tão tradicional que tive vontade de arranjar um macacão e um chapéu de palha, deitar no gramado e matar o tempo contemplando as nuvens no céu.
— Corpos são sagrados — ela opinou pensativa. — Apesar de que sou ignorante quanto ao assunto, então... Por favor, corrija-me sempre que julgar necessário.
— Tenho a leve impressão de que você não seria ofensiva nem se tentasse. E outra! Todo mundo têm direito a opinar.
— Nunca se sabe até que ponto a ignorância pode ser uma bênção... Mas enfim. Por favor, diga-me o que preciso saber e fazer.
Ajeitei-me no banco, de frente para ela.
— Primeiramente, só vou usar os moldes do seu rosto e corpo para compor a mulher na pintura. As particularidades como o tipo de cabelo e cor podem ser alteradas apenas por questão de estética e paleta de cores. Não quer dizer que tenha algo de errado com a sua aparência se eu o fizer.
— Ok.
— Por exemplo... Seria pouco atrativa uma pintura com uma mulher loira, com um vestido amarelo e segurando flores amarelas.
Cecilia franziu o nariz de um jeito cômico.
— Hum... Muita informação para as vistas.
— Sim — ri baixo, pegando meu bloco de desenho na bolsa. — Acho que... Só tente manter uma expressão tranquila que eu cuido do resto.
— Certo. Alguma cor específica para a sua... Paleta de cores? Qual é o tema?
— “Beleza primaveril”... E ainda não sei.
— Típico — ela soltou um riso anasalado. — Acho que posso sugerir algo em cores quentes ou mornas, então.
— Por favor, você é a especialista em flores — sorri. — Sou muito leigo nesses termos.
Daí, ela se levantou e olhou ao redor, procurando uma vítima para atacar. Permaneci observando seus movimentos, impotente quanto à admiração de seu conforto no ambiente. Lá, era ela quem mandava e desmandava. E aí de quem ousasse meter o bedelho.
— Podemos fazer um arranjo com peônias e mosquitinhos — ela sugeriu, erguendo as duas amostras para que eu as avaliasse. — Ou, então, um com lisiantos e lírios-do-vale. Qual você prefere?
Analisei as duas opções com um olhar clínico. Enxerguei em meio a elas uma terceira alternativa – afinal, nem tudo se tratava de preto ou branco. Após apoiar o braço na mesinha da pequena floresta, sorri ao encontrar um equilíbrio.
— Por que não juntamos os mosquitinhos com os... Como é o nome? Lisandro?
— Lisiantos — Cecilia corrigiu com uma risadinha divertida. — Pode ser! Vou montar um buquê, então.
Fiz que sim. De início, eu iria só aguardar quietinho no meu cano, porém ao ver seu nível de concentração pacífica ao lidar com as flores, vi ali minha chance de conseguir o que estava procurando. Enquanto Cecilia estava se organizando, em seu misto de concentração na tarefa e distração do resto do mundo, procurei fazer o mesmo. Coloquei meu lápis para trabalhar.
Eu estamparia uma modelo desprevenida. Parte da beleza primaveril se encontrava nas belezas escondidas, não é mesmo?
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