Invasão de Privacidade
11 One fine day!
Notas iniciais
“Linda;
Só você me fascina;
Te desejo muito além do prazer;
Vista, meu futuro em teu corpo;
E me ama, como eu amo você;
Vem, fazer diferente o que mais ninguém faz;
Faz parte de mim;
Me inventa outra vez...”
Linda
Roupa Nova
Apartamento Tommy (Domingo, 29/10 -05:10 a.m)
Cait
Sentada em uma das cadeiras na varanda, aperto o cobertor contra meu corpo protegendo-me do frio matinal, suspirando, olhando o horizonte encantada com a vista.
Essa fora uma das razões que me fizeram escolher este condomínio em particular quando decidi mudar para Starling: a vista esplêndida.
Evidente que minha prima morar aqui aliado a calma do local também foram fatores decisivos... “Terá a paz do subúrbio mesmo estando próxima ao centro da cidade” , prometera o corretor quando vim para fechar negócio após uma única visita.
—Se soubesse o que me aguardava teria escolhido qualquer outro lugar – murmuro baixinho, suspirando, as descobertas recentes me vindo a mente, entristecendo-me.
—Cait?! – Thomas chama com voz rouca parando a minha frente usando apenas a parte de baixo do moletom cinza que o convencera a deixar perto da cama caso precisasse levantar repentinamente. Já era mais do que suficiente saber que a pessoa responsável pelas câmeras podia vê-lo no banho freqüentemente. Para que dá mais munição desfilando pelo quarto nu em pelo?? Ciúme bobo? Não acho!– O que foi? Por que acordou tão cedo? Ouviu ou viu alguma coisa? – questiona, bocejando, as mãos bagunçando ainda mais o já bagunçado cabelo e coro mediante as lembranças da noite passada – Cait!? – chama novamente e “desperto”.
—Hã...Não, não ouvi nada – afirmo, encarando-o ..Cacete! Como pode ser tão lindo mesmo tendo acabado de acordar? E gostoso. Muito gostoso!, penso, seu riso divertido alertando que fiz mais do que pensar – Eu disse isso em voz alta não foi? -interrogo, ele confirmando com um aceno – Tenho que lembrar-me de pôr uma trava na língua quando estiver com você – digo, Thomas rindo gostoso, recuando alguns passos até sentar no beiral.
—Prefiro que não o faça. Adoro as coisas que faz com ela– declara sem nenhuma vergonha me fazendo corar da raiz do cabelo até a unha do pé.
—Thomas, por favor! – exclamo, vendo-o cruzar os braços a frente do peito, me olhando de um jeito que faz meu pulso acelerar – Ainda bem que ao menos aqui temos um pouco de privacidade. E pensar que foi justamente essa promessa que me fez fechar negócio no apartamento – digo, suspirando contrariada.
—Não está pensando em se mudar está? – questiona, franzindo o cenho.
—De repente...é um caso a se pensar– digo, dando de ombros – Se não conseguirem resolver esse problema com as câmeras, vou começar a cogitar essa possibilidade – admito fazendo-o inquietar-se.
—Não vai precisar meu amor. Vamos resolver, pode estar certa disso – garante – Ainda mais agora que podemos contar com a ajuda de Felicity. Tenho certeza de que ela e Greg juntos vão derrubara esse firewall, descobrir a origem do sinal e aí vamos pegar esse filho da mãe miserável e colocá-lo na cadeia– acrescenta, confiante.
—Tem muita confiança em minha prima, não é? – pergunto, não conseguindo esconder a pontinha de ciúmes que senti ao escutá-lo falar de Felicity de forma tão animada e confiante.
—Tenho, não vou mentir, afinal é tão competente quanto Mouse quando o assunto é invadir sistemas, derrubar firewalls e...- elogia, calando-se ao perceber (finalmente) meu incomodo – Está com ciúmes ? – questiona, o riso presunçoso me irritando mais.
—Tenho motivos não acha? – devolvo, inquietando-me na cadeira – Além de ela ser linda a admira profissionalmente, como acaba de deixar claro, vocês têm toda uma história juntos, viveram um romance tórrido que resultou em casamento..- enumero, irritando-me ainda mais ao ver seu riso aumentar – Falei alguma coisa engraçada por acaso? Ou menti? Porque deixou claro a pouco o quanto confia na capacidade de Lissy e nem tente dizer que tudo que viveram em Vegas quatro anos atrás foi sem importância afinal retornou a cidade quatro meses depois a procura dela apenas para explicar-se – lembro- Acho motivo mais do que suficiente pra sentir ciúmes! – declaro, emburrada.
—Discordo – rebate, tranquilo – Em primeiro lugar, admiro a você tanto quanto admiro Felicity. Admiro e respeito-as igualmente– afirma, saindo do lugar, caminhando em minha direção – Em segundo lugar, o que aconteceu entre mim e ela é passado, já disse isso e repetirei quantas vezes se fizer necessário até que entre nessa sua cabecinha linda– garante, tocando a ruga que se formara entre meus olhos –Se a procurei, na época foi por achar que lhe devia uma explicação, afinal sumi sem deixar vestígios depois me declarar e de tê-la feito casar-se comigo. Não acha que Felicity merecia ao menos saber o porquê? Se estivesse no lugar dela, não iria querer saber a verdade? — questiona
—Evidente que sim – respondo rápido, suspirando, erguendo o rosto a fim de ver o seu – Soube um pouco do que Lissy passou naquela época através de minha mãe — digo — Minha tia desabafou com mamãe algumas vezes lamentando o quanto sentia não ter podido evitar que Lissy passasse por todo o sofrimento que estava passando – revelo, olhando dentro de seus olhos.
—Então por que esse ciúme bobo agora?- questiona, acariciando meu rosto – Sei que a fiz sofrer, mesmo não intencionalmente, me arrependo disto, mas Felicity seguiu em frente e fiz o mesmo. Reerguemo-nos, seguimos com nossos planos e projetos, encontramos novos amores... – enumera, olhando-me carinhosamente — Não há o que temer. O que sinto por sua prima é um grande carinho e nada mais. Admito ter tomado um tremendo susto ao descobrir ser ela a mulher por quem Ollie estava tão apaixonado a ponto de pedi-la em casamento, mas novamente superamos – reforça, apoiando uma mão no encosto da cadeira, inclinando-se até ficar com o rosto tentadoramente próximo fazendo-me reter o ar mergulhando naquele azul intenso –Sei que não sou exatamente um celibatário, que meus relacionamentos foram todos fúteis e passageiros, mas isto mudou no momento em que me aceitou em sua vida – afirma, esfregando o nariz contra o meu, deslizando lateralmente, devagar, a barba por fazer pinicando minha pele.
—Ainda bem que não disse no momento em que te conheci! – brinco, sentindo meu centro pulsar na medida em que intensifica as caricias deixando beijos rápidos no trajeto a meu pescoço, o riso morno em contato com minha pele me fazendo gemer...Cristo! sequer me tocou e já estou em chamas! – Thomas, não faça isso! – ralho quando suga a pele prendendo-a entre os dentes.
—Não fazer o que?? –questiona, descendo para meu colo, repetindo o gesto ali, descendo mais um pouco, detendo-se no limite imposto pelo cobertor – O que está usando por baixo? Nada? – pergunta com voz rouca, erguendo os olhos que agora mostram uma tonalidade escura pelo desejo – Nada? – repete e aceno afirmativamente, cada célula de meu corpo vibrando ante o olhar lascivo que me lança – Sério? – indaga, as mãos sobre as minhas fazendo-me afrouxar o aperto deixando o cobertor ceder devagar confirmando minha nudez. Estremeço ao sentir seus lábios deslizando pelo vale entre meus seios, lambendo, sugando – Com frio? – sussurra sem descolar a boca de meu corpo, detendo-se ao alcançar um seio, tomando-o.
—Thomas! – sopro, arqueando o corpo, soltando o cobertor que se abre, expondo-me inteira – Thomas... pa..não devíamos...- balbucio entre gemidos, retirando os pés de sobre a cadeira, apoiando-os no chão frio, abrindo as pernas despudoradamente permitindo a deliciosa invasão, impelindo meu quadril de encontro a seu rosto num pedido mudo por mais caricias, gemendo cada vez mais alto, esquecendo-me do perigo de sermos flagrados caso algum vizinho escutasse saindo a varanda para verificar o que se passava.
Thomas tinha esse, digamos, poder sobre mim, de fazer com que me esqueça de tudo a volta excerto sua presença e naquele momento tudo que vi era a cabeleira negra entre minhas pernas levando-me a loucura com seus beijos, lambidas e chupões que me deixam completamente encharcada, pronta para recebê-lo, tudo no que conseguia pensar era em tê-lo inteiro dentro de mim.
—Thomas! – solto um gemido mais alto, quase um grito, quando a língua atrevida me penetra indo até o limite, saindo junto com o gozo que me deixa tremula, desejosa de mais.
—Amo seu gosto! – escuto-o dizer ao mesmo tempo em que sua boca cobre a minha e abro os olhos vendo o céu pintar-se em tons de laranja anunciando a aurora.
Reviro os olhos, suspirando, permitindo a doce invasão de sua língua, retribuindo cada caricia feita por ela na minha. Envolvo seu pescoço com meus braços sendo erguida segundos depois, o vento frio tocando algumas partes de meu corpo expostas pela ausência do coberto.
Sem interromper o beijo, Thomas inverte nossas posições sentando-se na cadeira outrora ocupada por mim, trazendo-me para seu colo. Gemo novamente contra sua boca ao sentir a rigidez de sua ereção sob o tecido de algodão.
Febril de desejo, movimento-me sobre ele, rebolando numa dança sensual, esfregando meu sexo contra seu pênis incitando-o, aumentando a dureza. Sorrio satisfeita ao escutar o urro baixo e rouco ao mesmo tempo em que suas mãos seguram firme meu quadril, ditando o ritmo frenético fazendo ambos arfarmos.
—Levante – ordena após alguns minutos, ofegante, cessando o contato entre nossos lábios e obedeço, umedecendo os meus com a ponta da língua ao ver seu membro saltar livre, majestosamente ereto, quando desce a calça rapidamente. Me encho de orgulho em saber ser a responsável por tal estado – Não dá pra pegar preservativo, portanto tenho que sair entes de gozar – sopra, segurando meu quadril mais uma vez, erguendo-me.
—Uhum ..- respondo com um murmuro apoiando minhas mãos em seus ombros enquanto me posiciono.
—Guie-me Cait – pede e novamente obedeço, levando uma mão a seu membro, segurando-o firme, encostando a cabeça vermelha e úmida em minha entrada. Queria ter ido mais devagar, porém a urgência venceu-me e desço num movimento único mal o sinto entrando em mim fazendo ambos soltarmos gritos roucos. Num lampejo de consciência, abro os olhos tentando enxergar as varandas acima de nós a fim de verificar que não estávamos sendo observados (mais observados), cravando as unhas na carne firme de seus ombros ao me sentir erguida, ele saindo quase que totalmente de mim somente para entra novamente, tão forte quanto tinha sido a primeira vez e mordo o lábio contendo o grito, o medo de sermos descoberto transparecendo em meu rosto a ponto de Thomas notar.
Envolvendo minha cintura com um braço, mantém-me junto a seu corpo enquanto inclina-nos pegando a ponta do cobertor com a mão livre, puxando um lado sobre nós, fazendo o mesmo com a outra ponta após ter-se recostado a cadeira, passando-a por sobre nossas cabeças visto que um lado estava maior do que o outro formando uma “caverna”.
—Nossa cave! – brinca, me fazendo rir encostando a cabeça em seu ombro, soprando quando incita a mover-me novamente, pondo as mãos em minha bunda, apertando, deslizando-as para cima e para baixo – Está no comando baby – sussurra, e saio da inércia,rebolando devagar a princípio, iniciando uma cavalgada ritmada a seguir, ficando na ponta dos pés em busca de firmeza e apoio, cessando apenas quando atingimos o clímax praticamente juntos, relaxando.
Deito-me sobre seu corpo, tão suado quanto o meu, inalando o cheiro almiscarado que a mistura de nossos perfumes com o suor de nossos corpos exala. O cheiro do sexo de ótima qualidade que acabáramos de praticar.... Nosso cheiro! Único, maravilhoso...Nosso!,penso, suspirando, sentindo um friozinho gostoso quando abaixa parte do cobertor, descobrindo nossas cabeças e parte dos ombros fazendo-me aconchegar mais a seu corpo.
— Queria ficar o dia inteiro assim, aqui, com você – confesso, beijando seu pescoço, sentindo a pele vibrar quando ele ri.
—Posso dizer o mesmo e já que hoje é domingo, nada mais justo do que atender seu desejo – declara, beijando o topo de minha cabeça – Desculpe-me Cait – pede, de repente, e enrugo o cenho, confusa.
—Por que? – quero saber.
—Não consegui sair a tempo. Acabei gozando dentro de você – lembra e sorrio minimamente.
—Tudo bem. Meu anticoncepcional está em dia – asseguro, erguendo-me o suficiente para ver seu rosto – Mas que isto não se torne um habito ouviu? – admoesto em tom de brincadeira.
—Uhum.... não se tornara – garante, beijando a ponta de meu nariz – Quer mesmo passar o dia inteirinho comigo? Digo, não tinha feito outros planos nem nada? Não que esteja achando ruim, muito pelo contrário – afirma rapidamente e rio.
—Quero sim... Mas...- começo dizer, apoiando o queixo em seu peito – É melhor fazermos isto lá dentro...Não, melhor passarmos o dia em algum lugar onde possamos ter um pouco de privacidade – resmungo escutando Thomas suspirar.
—Toda esta situação é terrível, eu sei, mas iremos concertar isto – promete, acariciando minhas costas por sob o cobertor – Esse pesadelo vai ter fim, te prometo meu amor – reforça, me dando um selinho, o som de mensagem de um celular se fazendo ouvir dentro do apartamento.
—É o meu ou o seu? – questiono, aguçando os ouvidos, ele fazendo o mesmo.
—O meu – diz, suspirando mais uma vez – E pela insistência só pode ser uma pessoa! – exclama, torcendo o nariz ao escutar o som repetir-se mais três vezes praticamente seguidas.
—Thea acordada a esta hora? Será? – questiono fazendo-o menear a cabeça.
—Em se tratando de minha doce e delicada irmãzinha, tudo é possível – diz – E já amanheceu meu amor...caso não tenha percebido! – avisa em tom brincalhão, seu sorriso de menino me deixando encantada.
Como pode alguém ser terrivelmente sexy e sedutor num segundo, e um doce menino travesso no seguinte?,questiono-me ainda encantada, rindo ao vê-lo rolar os olhos ante nova rodada de alertas vindas do aparelho, o som ecoando pelo apartamento.
—Vamos entrar. Preparo nosso desjejum enquanto verifica o que sua irmã quer tão cedo em plena manhã de domingo – sugiro, erguendo-me devagar, ciente de que Thomas não havia saído de mim, surpreendendo-me ao ver que sua ereção não diminuíra praticamente nada – Ainda em alerta soldado? – o provoco, rindo e mordendo meu lábio de forma maliciosa, ambos levantando, enrolando o cobertor a nossa volta.
—Culpa sua doutora, que me deixa louco de tesão! – afirma sem nenhum constrangimento – Que tal ajudar meu amiguinho aqui a relaxar antes de ir preparar nosso café da manhã? – sugere, aproveitando a proximidade para me abraçar apertado.
Amiguinho???-Humm..acho que pode resolver isto sozinho, sem minha ajuda soldado – provoco-o mais uma vez, induzindo-o a caminhar para dentro do apartamento, rindo alto quando quase caímos por ele tropeçar na calça moletom enrolada em seus pés fazendo-o soltar um impropério.
—Tá rindo né! Queria ver se tivéssemos levado um tombo e nos machucado feio a ponto de precisar sair correndo para o hospital enrolados neste cobertor apenas – dramatiza, no entanto, rindo, livrando-se da peça enquanto adentramos – Quanto a resolver essa questão sozinho – indica a própria cintura com um gesto de cabeça –Acho muito cruel de sua parte não querer ajudar – reclama, fazendo bico, me apertando mais contra si sem soltar o cobertor, colando a boca no ponto sensível em minha nuca (havia girado em seus braços ficando de costas para ele), mordiscando a pele – Que me diz doutora? – questiona, a voz rouca de desejo me excitando.
—Digo....que... se dependermos que seu amiguinho relaxe para sairmos – o parafraseio – não iremos a lugar nenhum! – exclamo, apoiando as mãos no encosto do sofá a minha frente, inclinando meu corpo até deitar deixando minha bunda empinada para ele, que solta um palavrão antes de inclinar-se sobre mim
—Segure – ordena, pondo as pontas do cobertor em minhas mãos – Segure firme Cait. Se cair ficaremos expostos as câmeras – recomenda, as mãos passeando por minhas costas até deterem-se em minhas coxas, sua ereção roçando a parte interna – Desta vez saio antes de gozar – murmura, encaixando-se entre minhas pernas, as mãos segurando meu quadril com firmeza, me penetrando devagar.
Fecho os olhos saboreando a sensação de ser invadida deliciosa e lentamente, arfando cada vez que para, moendo o quadril numa dança erótica. Mordo o lábio, gemendo, esticando meus pés até ficar nas pontas, mal tocando o chão, as mãos firmes de Thomas apoiando-me. Meu corpo desliza para cima e para baixo, o tecido macio do estofado acariciando minha pele. Não reconheço minha própria voz ao gritar seu nome pedindo mais.... Mais forte, mais rápido...mais fundo. A sensação de nossas pélvis chocando-se quando me atende me leva a um grau de excitação até então nunca experimentado, amolecendo meu corpo a ponto de quase soltar o cobertor. Quase.
Enrolo o tecido em meus pulsos unindo minhas mãos a fim de prender as pontas com mais firmeza, estremecendo, o gozo vindo segundos depois me deixando entorpecida sobre o móvel, ofegante, as gotas de suor escorrendo por meu corpo, morrendo contra o tecido aveludado.
Thomas investe mais duas vezes, estocando firme, saindo de mim, como prometera, antes de gozar. Sinto o jato quente escorrer por minhas pernas e suspiro, sobressaltando-me ao ser penetrada novamente numa estocada única, ele movendo-se freneticamente as minhas costas, as mãos ávidas explorando meu corpo, detendo-se nos seios, apertando-os até o limite da dor. Gozo mais uma vez para minha surpresa e deleite, ele fazendo o mesmo após ter aproveitado minha pulsação para sair, desabando, exausto e (agora sim) saciado, sobre mim.
Durante um tempo indeterminado permanecemos imóveis, deitados sobre o encosto do sofá, eu por baixo, nossos corpos pegajosos pelo suor, nossa respiração voltando ao ritmo normal lentamente. Suspiro tentando lembrar se alguma vez algum homem havia me satisfeito tão plenamente quanto Thomas o faz, a resposta vinda de imediato: Não!
— Não o que? – questiona em meu ouvido e rio baixinho.
—Não vai ficar sabendo o que quis dizer com este Não que escapuliu de meus pensamentos – digo, acariciando seus braços – Satisfeito? – pergunto sem nenhum constrangimento.
—Por hora, sim – responde igualmente, erguendo-se, me trazendo junto, girando-me em seus braços outra vez – Que tal vestirmos algo? Sentir sua pele contra a minha é um afrodisíaco potente demais e quero chegar vivo ao final deste dia! – brinca me fazendo rir alto – Além do mais, estou faminto! E você? – admite.
—Também estou – confesso, olhando em volta a procura do que vestir, visualizando sua camisa sobre o tapete – Pega pra mim – peço, apontando-a.
—Sim senhora – ouço dizer ao mesmo tempo em que sinto-o deslizar, somente então me dando conta de que iria se expor ao sair debaixo do cobertor.
Viro a cabeça em sua direção para protestar e retenho o riso ao vê-lo segurar uma almofada a frente do corpo escondendo seu “amiguinho”.
—Pensou que iria me expor não é? – diz em tom jocoso e confirmo com um aceno – Não sou tão bobo quanto pareço – assegura, sentando sobre o braço do móvel, estendendo a camisa para mim.
—De fato. Tem seus momentos de esperteza soldado – brinco, virando-me, vestindo a camisa cuidadosamente para não me expor.
—Sabe, não fosse o perigo de essa criatura soltar os vídeos na internet, até que essa coisa de câmera seria divertido – declara e o olho boquiaberta – Dá pra entender aquele pessoal que se inscreve naquele programa...como é mesmo o nome? – indaga, aceitando o coberto que lhe estendia.
—São tantos: big brother, largados e pelados...só escolher – exemplifico, arrumando meu cabelo, prendendo-o no topo da cabeça, abotoando a camisa enquanto o observo.
—Isso! – exclama, enrolando o cobertor a cintura – Nunca entendi o porque as pessoas participam desse tipo de show até agora – prossegue, rindo ante meu olhar de repreensão – Vai dizer que não gostou de brincar de cabaninha agora a pouco ou de nossa brincadeira debaixo do edredom ontem à noite? – questiona com a cara mais lavada do mundo!
O encaro alguns segundos antes de responder.
—Se disser que não estaria mentindo. Foi divertido sim, não nego– admito –Mas não gosto da idéia de estar sendo observada em minha intimidade. Toda ela, não apenas o sexo – afirmo, caminhando para a cozinha – Outra coisa: as pessoas que entram neste tipo de reality Sabem que estão sendo monitoradas. Escolheram passar vivenciar essa experiência seja por dinheiro, fama, ou sei lá o que. Nós não tivemos esta opção – friso, abrindo os armários, notando a quase ausência de mantimentos – Qual foi a ultima vez que fez compras para casa Thomas? – pergunto, me voltando para ele, pondo as mãos na cintura ao vê-lo sentado no chão com meus pets – Vai realmente querer sair de casa Hoje? – pontuo.
—Não, mas você merece uma folga do estresse do big B aqui – diz, girando o indicador sinalizando o ambiente a nossa volta, fazendo nova careta ao escutar o celular – Se Thea estiver me perturbando com bobagens a esta hora....- deixa a insinuação no ar, levantando-se rápido, seguindo para o quarto sem me responder.
Suspiro dando atenção aos armários novamente, Sherlock e Watson pulando sobre a bancada, sentando-se de frente para mim, observando-me.
—Não se preocupe Sherlock, sua ração está a salvo – brinco, afagando suas cabeças.
Decido preparar uma das coisas que melhor sei fazer na cozinha (sem falsa modéstia): crepe. Pego os ingredientes, escolhos dois recheios práticos e que já estavam à mão: atum e queijo, me dedicando ao preparo de nosso café da manhã, cantarolando uma melodia vinda de algum lá fora, mexendo meu corpo no ritmo lento da balada.
— Cait, importa-se se formos aos Glades agora pela manhã? – ouço Thomas perguntar cerca de meia hora depois e me volto encontrando-o de pé em meio a sala terminando de abotoar a camisa, o cabelo molhado e o cheiro de sua colônia denunciando-o.
—Tomou banho? Sem mim? – reclamo, fazendo bico, ele vindo até mim com um de seus sorrisos de menino enfeitando a face.
—Desculpe, mas não deu para esperar. Estava pegando de calor – justifica-se, envolvendo minha cintura, deixando um beijo estalado em meu pescoço – Além do mais não era Thea quem estava enchendo minha caixa de mensagem...milagrosamente! – exclama me fazendo rir, “roubando” o crepe recém frito que pendia do grafo em minha mão.
—Quem era essa pessoa tão impaciente? – quero saber.
—Eram – corrige-me – Mais de um – anuncia — Mouse e Jay avisando que alugaram o apartamento ontem após saírem do seu, Oliver pedindo-me para ter cuidado porque Donna ficara hospedada no apartamento deles, coisa que já havia presumido, e Harper querendo saber se tinha encontrado os papeis que deixara para mim atrás do balcão na Verdant – enumera, sentando-se – Por isto quero ir ao Glades. Preciso verificar, in loco, algumas coisas – explica – Se não se importar, evidente – acresce – Podemos levar os pugs para passear e deixar os gatos aqui em casa. Só fechar as portas direitinho – sugere.
—Não sei Thomas. Depois do que aconteceu ontem estou um pouco insegura em deixá-los sozinhos – admito, olhando meus bebês de pêlo, mordendo o lábio.
—Podemos deixá-los com alguém de sua confiança, contanto que não seja Felicity por razoes obvias – declara e rolo os olhos.
—Até quando acha que conseguirá evitar minha tia Thomas? E se ela vier morar num dos apartamentos vagos do condomínio? – questiono vendo-o arregalar os olhos – A possibilidade existe já que Lissy falou que Donna gostou muito daqui...até agora – lembro, dando-lhe as costas, retirando o ultimo crepe da frigideira, pondo-o no prato, voltando-me para encará-lo – Então?? – indago, apoiando as mãos no balcão, inclinando levemente a cabeça.
—Não sei quanto tempo conseguirei evitar o confronto, e saiba que por mim falaria com ela o mais rápido possível – afirma – Mas como não quero começar a terceira guerra mundial desafiando as ordens de Ollie e Felicity, tentarei ao máximo adiar o inevitável – diz, servindo-se um pouco de café.
—Será que há motivos para preocupação? Será que após tantos anos Donna ainda te odeia? Será que se lembra de você? – questiono.
—Sou inesquecível amor! – diz, sorrindo.
—Convencido!! – exclamo, estapeando-o – Vou tomar um banho e me trocar, melhor dizendo, por a mesma roupa de ontem. Vê se não come tudo – recomendo, saindo, estancando no segundo degrau do desnível da sala – Ah, põe um pouco de ração pros bebês por favor – peço, retomando a caminhada para seu quarto.
—Não respondeu minha pergunta – grita.
—Ok. Podemos ir – respondo sem me voltar, seguindo direto para o banheiro.
Tomo um banho refrescante tentando não pensar nas malditas câmeras, permanecendo a maior parte do tempo de costas para o lado onde supomos estejam instaladas.
Envolvo-me na toalha pensando numa maneira de vestir a roupa sem me expor demais, a idéia de me esconder sob o edredom cruzando minha mente. O grande problema era que isto chamaria atenção do observador. Não havia um motivo plausível para tal atitude a menos que eu soubesse das câmeras.
Suspiro pesadamente, abrindo uma das portas de seu guarda roupas, descobrindo, surpresa, que havia um conjunto de saia e blusa meus ali.
—Quando esqueci isto aqui? – questiono-me, vestindo calcinha e sutiã, retirando a roupa do cabide, vestindo-a, notando que fora lavada e passada.
Como não trouxera minha bolsa na noite anterior, escolho um dos perfumes de Thomas, o mais suave que encontro, pondo-o em pontos estratégicos.
Escovo o cabelo vigorosamente optando por deixá-lo solto, passo um pouco de brilho nos lábios (este me lembrava de ter deixado em seu apartamento), me olho no espelho uma vez mais antes de retornar a sala, estranhando a ausência de Thomas.
Enrugo o cenho procurando por ele, escutando sua voz levemente alterada na varanda, Homer deitado entre as portas atento aos movimentos dele. Era incrível como se apegara a Thomas tão rápido se comparado a sua atitude com Ronnie, meu ex noivo. Homer o detestara desde o primeiro dia em que o vira. Já Thomas....
—Thea, as coisas não são como parecem. Precisamos ter cuidado. São vidas de famílias inteiras envolvidas – ouço-o dizer enquanto me sirvo, estranhando o tom duro que usava com a irmã.
Não os vi interagir muitas vezes desde que nos conhecemos, mas pelo pouco que Lissy e os demais comentam, tem muita paciência com ela suportando mesmo as brincadeiras mais pesadas, por assim dizer, das quais é vitima, portanto o tom de agora era no mínimo estranho.
Olho o relógio em meu pulso admirando-me o adiantado da hora. Já passava e muito das sete da manhã. Quase oito na verdade.
—Nossa, julgava ser mais cedo – digo para mim mesma erguendo os olhos ao escutar as portas da varanda serem fechadas – Tudo bem? – pergunto, cuidadosa, ao vê-lo se aproximar coma expressão contrariada.
—Não muito – responde, sincero – Somente meu pai conseguindo provar o quanto sabe ser persuasivo quando quer – declara, irritado.
—Não era com Thea que falava ao telefone? – a pergunta sai antes que possa evitar e me repreendo mentalmente – Eu ouvi dizer o nome dela quando entrei – justifico-me.
—Era sim – confirma, parecendo não importar-se por ter escutado sua conversa – Não me mandou mensagens, mas em compensação acordou cedo e toda entusiasmada com o tal projeto da Global – bufa – Te explico no caminho – diz ante meu olhar inquisidor – Decidiu como quer fazer com os gatos? – questiona.
—Sim. Vou deixá-los com Sara. Ela adora os dois tanto quanto adora os pugs. Me sentirei mais segura – afirmo, terminando de comer meu terceiro crepe, tomando o restante do suco – Vou só lavar essa louça, escovar os dentes, arrumar os pets e saímos – enumero, Thomas retendo-me quando tento pegar a louça.
—Deixe que faço isto. Arrume-os enquanto lavo a louça – sugere, já recolhendo pratos, talheres e copos.
—Ok – respondo , girando, saindo da cozinha com Homer e Marge em meu encalço.
Retorno ao banheiro, escovo os dentes, bocejo um pouco de enxaguante bucal, enxugo boca e rosto, reponho o brilho, volto para a sala cruzando com Thomas no caminho.
—Droga – xingo ao lembrar que não trouxera os transportes nem as coleiras – Tenho que passar em meu apartamento para pegar o transporte para os gatos e as coleiras para os cães – aviso assim que Thomas retorna – Está com pressa? – quero saber, segurando Sherlock em meus braços.
—Nenhuma –assegura, segurando Watson em seus braços – Vamos? – chama, indo até o aparador, pegando as chaves.
—Fechou tudo? – pergunto, olhando em volta.
—Uhum – murmura, enfiando a chave na porta, abrindo-a, ficando de lado para que passasse.
—Marge, Homer, venham – chamo, os dois disparando para o corredor, animados.
Aguardo-o trancar a porta caminhando a seu lado, em silencio, até os elevadores, Thomas apertando os botões dos dois. Entramos no primeiro que chega, descemos no meu andar, pegamos ração, potes, transporte e coleiras. Aproveito para ligar para Sara avisando que deixaria os gatos com ela.
Saímos do prédio onde moramos já no carro de Thomas, parando a porta do que Sara e Ray moram. Aguardamos alguns minutos até que vemos a loira atravessar as portas do mezanino vindo ao nosso encontro com cara de sono.
—Desculpa se te acordei – peço, sem graça.
—Não acordou. Na verdade mal consegui dormir depois da reunião em seu apartamento – diz, pegando os transportes – Só os dois? Homer e Marge vão com vocês? – indaga.
—Vão. Pego-os assim que retornamos – aviso.
—Sem problema. Sabe que amo esses dois – afirma, brincando com Watson através da tela – Divirtam-se crianças! – exclama, piscando para nós.
—Você também – retribuo, acenando enquanto Thomas põe o carro em movimento dirigindo-se para a saída do condomínio.
Vejamos que mais me aguarda, penso, apoiando a cabeça em uma mão.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Glades(09:20 a.m)
Tommy
Durante o percurso até os Glades, esclareço a Cait a razão para minha pequena discussão com Thea minutos atrás e do motivo para querer ir aos Glades.
Não cheguei a ler com atenção os papeis que Harper me trouxera, no entanto o que li me deixou profundamente irritado e saber que minha irmã estava se deixando ludibriar pelas promessas falsas contidas no projeto exibido por nosso pai potencializara o sentimento.
—Tem certeza que seu pai não fará o que se propõe para o bairro? – ouço-a questionar enquanto estaciono na área interna da Verdant, onde combinara encontrar Harper – Pelo que falou, o projeto irá beneficiar muita gente, especialmente aqueles que não tem casa, emprego fixo. Receberiam isto com o prédio que seu pai, digo, a empresa construiria para eles não é isto? – indaga, soltando o cinto quando desligo o motor.
—Conjugou os verbos no tempo correto meu amor – digo, fazendo o mesmo que ela – Os projetos, do tal resort urbano e do prédio de apartamentos populares para onde supostamente relocariam aqueles que vendessem suas casas e para os moradores de rua que vivem pelo bairro, beneficiariam muita gente. No entanto não é isto que acontecera – afirmo, acenando para nosso DJ e subgerente.
—Sem querer bancar o advogado do diabo já o sendo: como pode ter tanta certeza? – questiona-me.
—Pra começar, nenhuma empreiteira assumiria a construção de duas obras deste porte seguidamente quanto mais ao mesmo tempo, como disse aconteceria. É prejuízo na certa. O tempo e recursos que precisaria dispor para manter as duas obras, a quantidade de maquinário e mão de obra humana necessárias seria absurda – explico, ajudando-a a retirar os pugs, travando o carro quando terminamos de fazê-lo – Junte a isto todo tramite legal necessário para a prefeitura liberar ambas obras. O custo do resort iria as alturas e consequentemente impossibilitaria os apartamentos populares serem dados aos ex moradores do bairro como forma de indenização a uns e doação a outros. O lucro teria de vir de algum lugar para cobrir todos os gastos, portanto aumentariam o valor de cada casa e apartamento de ambos os projetos sendo obrigados a cobrar algum valor da população relocada, mesmo que simbólico – concluo – O que foi? – pergunto ao vê-la me olhar com um sorriso indecifrável no rosto.
—Nada. Apenas pensando em quantas facetas mais irei descobri em você – exclama, me dando um selinho.
—Sou uma caixinha de surpresas! – exclamo, retribuindo o beijo rápido – Para alguma coisa o tempo que trabalhei na empresa teria que servir – afirmo, segurando uma das guias enquanto envolvo seus ombros com um braço, conduzindo-a – Harper – cumprimento.
—Bom dia boss, doutora Snow – devolve, sorridente – Está é Sin, uma amiga – apresenta a garota a lado.
—Sin? – indago, arqueando a sobrancelha.
—O que tem demais o me chamar Sin? – retruca a garota, erguendo o queixo.
—Nada – respondo, erguendo uma mão – Então, o que descobriu? – pergunto, dando atenção a Harper novamente.
—Em primeiro lugar ninguém esteve no bairro tentando comprar casas ou terrenos – informa.
—Andou um pessoal fazendo pesquisa umas semanas atrás, querendo saber quantas pessoas viviam no bairro tendo ou não casa – Sin acrescenta, agachando-se, esticando a mão para o pug – Ele é bravo?
—Não, não é – Cait responde – Nenhum dos dois é – garante, deixando Marge cheirar e brincar com a garota.
—Além dessa pesquisa que a Sin falou, um cara que se diz candidato a candidato a vereador nas próximas eleições também andou circulado por aqui. Detalhe: veio em um carro com a logo da firma de sua família boss – Harper revela e respiro fundo.
—Saberia dizer se fez promessas e quais foram? – questiono.
—As de sempre: creches, hospitais, escolas, casa para quem não tem, emprego – enumera ele, dando de ombros – A mesma ladainha. Na verdade, não fosse o carro não chamaria minha atenção.
—Será algum candidato que seu pai pensa em apoiar? – Cait questiona, curiosa.
—Honestamente não sei – respondo – Conseguiu o que te pedi? – pergunto, ele enfiando a mão no casaco, retirando um chaveiro de lá, entregando-me.
—Estava com uma mulher, uma enfermeira aposentada, que trabalhou com sua mãe – informa – Ela abre o lugar de vez em quando, mas apenas para limpar. Não tem mais nada lá dentro. Gostava muito de sua mãe e diz que assim a homenageia, mantendo o lugar que tanto gostava em ordem – diz.
—Uhum...entendo – digo, olhando a chave em minhas mãos, pensativo.
—É logo aqui perto. Uns oitocentos, novecentos metros – Harper comenta – Quer ir até lá? – pergunta.
—Quero – respondo após um tempo.
—Levo vocês – se oferece.
—Posso levar os cães? – a garota pergunta – Não vou fugir com eles, fique tranquila – acrescenta rápido.
—Não pensei que fosse fazer isto – Cait diz, entregando-lhe a guia e faço o mesmo, acompanhando-nos – Para onde estamos indo? – quer saber.
—A clínica de minha mãe – revelo, olhando o horizonte a nossa frente – Ela abriu para oferecer serviços básicos para os moradores quando ninguém mais quis vir trabalhar no hospital por medo da violência. Na época, uns trinta anos atrás, as coisas eram bem piores do que são agora. Ao menos é que dizem – conto enquanto caminhamos.
—Não posso falar pela época citada, já que não era nascida, mas garanto que hoje em dia as coisas são bem ruins aqui – Sin declara, seguindo alguns passos a nossa frente – O hospital funciona a meia boca. Poucos médicos dão plantão por aqui. Temos que ir ao geral no centro da cidade, não temos praças, as crianças menores ficam à toa pela rua quando não estão trancadas em casa para que as mães possam trabalhar já que temos apenas uma creche em todo o bairro. Também só temos uma escola elementar funcionando. A outra fechou final do ano passado – enumera, acenando para uma loia do outro lado da rua.
—Nossa! – Cait exclama, surpresa.
—No que diz respeito a emprego, as coisas melhoraram um pouco depois que abriram a boate – Harper frisa – O senhor e o senhor Oliver terem dado preferencia a moradores para trabalhar fez toda a diferença – garante.
—Uhum – murmuro, permanecendo em silencio enquanto Cait continua a conversar com os dois, meu coração acelerando a medida em que nos aproximamos do lugar onde minha mãe fora baleada numa tentativa de assalto, as lembranças vindas em ondas cada vez mais fortes, cegando-me momentaneamente.
—Thomas? Thomas, tudo bem? – a voz de Cait chega a meus ouvidos parecendo vir de muito longe.
Pisco seguidamente, olhando sem vê-la a princípio, seu rosto tenso surgindo a minha frente gradativamente.
—Sente algo? -reinquire, tensa.
—Minha mãe foi baleada dentro do carro, em frente a clínica – revelo – Tinha acabado de falar comigo pelo telefone dizendo que logo estaria em casa...o que nunca aconteceu – relembro.
—Sinto muito – ela diz, apertando minha mão, solidaria – Não quer deixar para outro dia? – pergunta.
—Não. Vamos hoje – afirmo passando uma segurança que não sentia.
Paramos em frente a porta, olhando a fachada envelhecida alguns segundos antes de por a chave na fechadura, abrindo-a. Deixamos a luz e o vento entrarem primeiro, “limpando” o ambiente antes de nós mesmos o fazermos. Lá dentro constato o que Harper falara: apesar de a pintura estar gasta assim como moveis e maquinário, o lugar estava limpo, quase sem poeira nem teias de aranha. A impressão que dava era que estavam em recesso e iriam retomar os trabalhos a qualquer momento.
Seguimos casa adentro devagar, olhando cada ambiente sem pressa. A porta aberta acaba por chamar atenção das pessoas, que se aproximam, questionando se a clínica seria reaberta, elogiando, saudosas, a época em que podiam contar com a ajuda dos profissionais que trabalhavam ali e da boa senhora dona do lugar.
Não vou negar: fiquei bastante mexido. Com tudo. Cada lembrança, cada história que vinham nos contar. Cada recordação boa e não tão boa guardada na memoria dos moradores dali, ora ligada a clínica, ora ligada a minha mãe, ora, para minha surpresa, ligada a meu pai. Descobri que ele fora ao lugar algumas vezes (poucas) ajudar em alguma campanha ao lado de mamãe. Nunca soube disto. Por nenhum dos dois.
A enfermeira aposentada da qual Harper falara foi uma das ultimas pessoas a vir falar conosco nos convidando para almoçarmos em sua residência.
Durante a refeição, mais história me são reveladas pro ela, pela filha e o genro, membro do corpo de bombeiros de Star, uma das muitas crianças nascidas no interior da clínica.
Não havia sido aquela minha intenção quando fui aos Glades mais cedo. Tudo que queria era descobrir o porque do interesse do conglomerado liderado pela Global no lugar e foi justamente isto a única coisa que não descobri. Não entendia porque um bairro pobre, violento, de repente virara o foco do interesse de meu pai e seus sócios incluindo Robert Queen, ainda mais sabendo o quanto este repudiou quando Oliver decidiu usar a antiga e abandonada fábrica pertencente a família Queen transformando-a numa boate.
Tá admito, na época também achei uma loucura por conta dos fatores de risco, pois, mesmo estando no inicio do bairro, ficaria exposta a violência. No entanto, a atitude de meu amigo em dar preferencia aos moradores na hora de contratar pessoal, a revitalização trazida pela boate aquela pequena parte do lugar, além de ele e Felicity (ela esteve o tempo inteiro a seu lado durante o processo de instalação) terem caído nas graças das pessoas, provaram que nem tudo ali era ruim, que nem todos eram viciados, ladroes etc.
Quanto a mim, não fui, na época, contrário a decisão de meu amigo...mas também não morri de amores. Não olhava com bons olhos o lugar por motivo mais do que justo. Na minha mente fora aquele lugar, aquelas pessoas, que me roubaram o que mais tinha de precioso no mundo: minha mãe.
Tomei, como Thea dizia, ranço do lugar e fui bastante resistente quando Ollie veio a mim convidando-me a fazer parte da Verdant. Para ser sincero não entendia a simpatia que ele e Felicity sempre tiveram do lugar. Aceitei o convite, porém nunca havia ido muito além dos limites imaginários que delimitam a área da boate e seu entorno. Até hoje.
—Engraçado, desde que cheguei a Starling, sempre que ouço falar nos Glades ou é sobre algum ato de violência ou sobre eventos na Verdant. Nunca pensei que o bairro era tão....- escuto Cait dizer enquanto manobro o carro saindo do estacionamento da boate – Tão...
—Simpático, receptivo, agradável – completo a frase por ela, acenando a Harper e Sin, que nos aguardavam sair para fechar o portão – Também não – admito – Mesmo tendo a boate, jamais fui tão longe, por assim dizer, bairro adentro. Nunca me interessei em conhecer as fronteiras além Verdant , confesso.
—Justificável – Cait diz, acariciando meu braço – Deve ter sido difícil voltar aquele lugar, não é? – pergunta e respiro fundo antes de responde.
—Não sei se voltar é o termo correto – pondero deixando-a confusa -. Só estive na clínica uma única vez Cait, quando foi inaugurada – revelo – Jamais retornei ao local nem mesmo quando minha mãe era viva e não me pergunte o porquê, pois não saberia te responder. Depois que minha mãe foi ferida entrando num coma do qual não saiu, meu pai desativou a clínica e nunca mais voltou ou permitiu que eu fosse ao local nem mesmo quando prestaram homenagens a ela – conto – Na adolescência estava mais preocupado em agredir meu pai de todas as formas imagináveis, nada, além disto, me importava durante um bom tempo – confesso.
—Entendo – Cait afirma, suspirando – O que vai fazer? Em relação ao projeto de seu pai, digo – pergunta.
—Não sei ao certo – admito – Minha prioridade é não deixar que Thea se iluda. Ela ficou bastante entusiasmada com tudo que viu e ouviu na reunião e sei que meu pai irá tirar proveito da situação – presumo, franzindo o cenho – Agora entendi termos sidos convocados a participar da reunião na empresa – concluo.
—Ele queria trazê-los para o lado dele, suponho – Cait pondera, mudando de assunto repentinamente – Thomas, podemos passar no supermercado antes de irmos para casa? – pergunta.
—Claro. Quer comprar algo? – pergunto, curioso.
—Sim, pra você, ou melhor, para sua casa – diz, rindo de minha expressão de surpresa – Sua dispensa está praticamente a zero Thomas. Se quiséssemos comer em casa a noite teríamos que pedir em um restaurante ou cantina – comenta – Quando foi a ultima vez que fez compras? – questiona.
—Uns dois, três meses, acho – digo, enrugando o nariz em uma careta, escutando-a rir pelo nariz.
—Homens! Acham que os alimentos se multiplicam sozinhos ou voam até sua casa, por certo! – exclama em tom brincalhão.
—Bem, não passava muito tempo em casa, quando queria comer ia a algum lugar, logo não me preocupava com isto...até certa doutora entrar em minha vida – digo, tirando uma mão do volante , pegando a sua, levando a meus lábios num beijo casto – De agora em diante ficarei atento, prometo.
—Sei...vou fingir que acredito – brinca – E até onde me consta, foi você quem entrou em minha vida soldado. Melhor dizendo, caiu! – rebate e rio.
—Dou graças por isto! – exclamo, entrando no estacionamento de uma rede de hipermercados famosa – Vamos levá-los? – questiono após estacionar, indicando os pugs com um gesto de cabeça.
—Melhor não. Deixe uma janela entreaberta que ficarão bem – pede, soltando o cinto – Comportem-se que trago um petisco pra vocês meus amores – diz, afagando-os.
—Hum... E não é que ficaram quietinhos – espanto-me quando nos afastamos — Pensei que iriam gritar quando saíssemos – comento ao ver os dois deitarem sobre o banco traseiro de meu carro.
—Meus filhos não são escandalosos – rebate, sorridente — Só não os levo porque as pessoas ficam me parando o tempo inteiro pedindo para brincar com eles e acabo me atrasando – justifica-se, abraçando minha cintura.
—Uhum, entendo – digo, apoiando o braço em seus ombros, seguindo abraçado a ela até o interior da loja.
Cait pega um carrinho e começamos a fazer as compras, caminhando entre os corredores.
A certa altura, nos separamos, ela indo até o setor de frios enquanto permaneço no de secos, especificamente na parte onde ficam cereais, biscoitos, chocolates e afins.
Distraio-me lendo o rotulo de uma embalagem e não percebo a aproximação da loira até escutar sua voz.
—E eu ainda duvido quando dizem que o mundo é um ovo! – ergo os olhos encontrando Donna Smoak parada alguns passos a minha frente, mãos na cintura, sobrancelha erguida numa expressão de ironia.
—Está falando sozinha mãe? – a pergunta vem junto com sua emissora, Felicity, que surge por detrás da mãe, estancando, assustada ao me ver.
—Não. Com um cafajeste! ...
Continua
‘...Vem, conquistar meu mundo;
Dividir o que é seu;
Mil beijos de amor;
Em muitos lençóis;
Só eu e você...”

Fale com o autor