Invasão
53 Revelação
O sol mal tinha despontado no horizonte quando Renesmee acordou.
Ainda sentia o peso da despedida de Jacob na noite anterior, mas sabia que não podia se deixar consumir pela preocupação.
Havia trabalho a fazer.
Ela se encontrou com Claire e Emily logo cedo, no depósito de suprimentos.
As três carregavam cestas de alimentos e utensílios para os trabalhadores que, sob a liderança de Quil, erguiam as novas casas para abrigar os sobreviventes que Jacob e os outros pretendiam resgatar.
— Vamos antes que o calor fique insuportável — disse Emily, ajeitando a cesta no quadril.
Renesmee assentiu, seguindo as duas pelas trilhas estreitas até a clareira onde Quil e outros homens batiam estacas no chão e levantavam paredes improvisadas.
O barulho de martelos, serras e vozes se misturava ao cheiro de madeira fresca e suor.
— Comida! — anunciou Claire, sorridente.
Quil ergueu o olhar, o rosto iluminando-se ao vê-las.
Ele largou o martelo e veio ajudar, chamando os outros para uma breve pausa.
Renesmee e as amigas distribuíram pães, frutas e garrafas de suco, tentando amenizar um pouco a dura rotina dos trabalhadores.
A gratidão estampada nos rostos sujos de poeira aquecia o coração dela, mesmo em meio a toda a incerteza.
Foi então que Hope apareceu, equilibrando dois galões de água.
O olhar dela encontrou o de Renesmee, e uma tensão invisível se estendeu no ar.
— Trouxe água fresca — disse Hope, com um sorriso que não alcançava os olhos.
Renesmee agradeceu com um leve aceno de cabeça, mantendo a compostura.
Não era hora de discussões, não com todos observando.
Quando terminaram a entrega e começaram a voltar para o centro da colônia, Hope caminhou deliberadamente ao lado de Renesmee, afastando-se um pouco das outras.
— Você deve estar se perguntando... — começou Hope, a voz levemente sarcástica — se é verdade o que eu disse sobre o bebê.
Renesmee respirou fundo, mantendo o olhar na trilha à frente.
— Não é da minha conta — respondeu, seca.
Hope soltou uma risada baixa.
— Deveria ser, não é? — provocou ela. — Afinal, é o Jacob.
Renesmee parou de andar, virando-se para encará-la.
O vento agitava os cabelos das duas, e por um instante o mundo pareceu congelar.
— Eu sei que ele não esperava por isso— disse Renesmee, sua voz firme, porém serena. — Sei que tudo o que aconteceu... foi antes dele saber quem era.
Hope pareceu surpresa pela calma dela, mas não recuou.
— Mesmo assim, essa criança vai ser uma parte dele — disse, com um brilho de desafio nos olhos. — Você está preparada para isso?
Renesmee não respondeu imediatamente.
Ela sabia que Hope queria vê-la abalada, queria cravar dúvidas em seu coração.
Mas Renesmee era mais forte do que isso.
Ela ajeitou a cesta nos braços, olhou Hope de cima a baixo e disse com tranquilidade:
— Estou preparada para amá-lo... e amar tudo que venha com ele.
Foi isso que escolhi no momento que o aceitei de volta.
E sem esperar resposta, virou-se e continuou seu caminho, deixando Hope sozinha na trilha.
O coração de Renesmee batia acelerado, mas seus passos eram firmes.
Jacob era dela.
E nem o passado, nem Hope, nem os desafios que viriam mudariam isso.
O caminho de volta à vila foi silencioso, quebrado apenas pelo farfalhar das árvores e o som distante dos martelos no acampamento.
Renesmee caminhava à frente, sentindo a brisa fresca da tarde no rosto, enquanto Claire e Hope vinham logo atrás.
Quando chegaram ao centro da vila, Claire olhou para Renesmee com um sorriso cansado.
— Vou direto para a cozinha... ainda precisamos separar mais mantimentos — disse ela, ajeitando a cesta no braço. — Se precisar de mim, sabe onde me encontrar.
Renesmee assentiu, abraçando-a rapidamente.
— Obrigada, Claire. Pelo trabalho... e por tudo.
Claire piscou para ela antes de se afastar, deixando Renesmee e Hope a sós.
Por um instante, Renesmee pensou em simplesmente seguir seu caminho.
Mas não podia mais ignorar.
Respirou fundo, virou-se para Hope e, com a voz firme, disse:
— Escuta... — seus olhos encontraram os de Hope, sem hostilidade, apenas uma franqueza difícil de rebater. — Você precisa parar de usar essa criança para tentar atingir meu casamento.
Hope cruzou os braços, a expressão fechada.
— Eu não estou...
— Está, sim — cortou Renesmee, sem levantar a voz. — Eu entendo que seja difícil. Mas pense no seu filho... não no seu orgulho ferido.
Hope pareceu querer retrucar, mas as palavras morreram em sua garganta.
Foi então que uma voz jovem se intrometeu:
— Que filho?
— perguntou Sarah, que se aproximava, a expressão confusa e preocupada.
Renesmee congelou por um segundo, surpreendida pela presença da filha.
Hope deu um passo para trás, desconfortável.
Sarah olhou da mãe para Hope e de volta para a mãe, esperando uma resposta.
— Como assim Hope espera um bebê... do meu pai?
O mundo pareceu ficar em silêncio.
Renesmee fechou os olhos brevemente, sentindo o peso do momento.
Sabia que não poderia mais adiar essa conversa.
Mas precisava encontrar as palavras certas...
Palavras que não destruíssem a confiança da filha.
Ela soltou um suspiro e estendeu a mão, chamando Sarah para perto.
— Vamos conversar... só nós duas — disse suavemente.
Sarah hesitou, olhando para Hope com uma expressão mista de surpresa e decepção, mas então caminhou até a mãe, aceitando a mão estendida.
Renesmee lançou um último olhar firme para Hope — um aviso silencioso para que ela se retirasse — e então conduziu Sarah para longe, em direção à casa.
O sol começava a se pôr atrás das montanhas, tingindo o céu de tons dourados e laranjas.
E Renesmee sabia que, a partir daquele momento, sua força como mãe seria mais necessária do que nunca.
Mãe e filha caminhavam de mãos dadas com Sarah até em casa. O silêncio entre elas era denso, como se o ar pesasse mais a cada passo.
Quando entraram, Will estava sentado no sofá, folheando um dos livros antigos que Jacob sempre deixava por ali. Ao ver a expressão séria das duas, fechou o livro rapidamente.
— O que aconteceu? — perguntou ele, se levantando.
Renesmee fechou a porta atrás de si, respirou fundo e fez um gesto para que ambos se sentassem.
— Precisamos conversar — disse, a voz baixa e carregada de emoção.
Sarah cruzou os braços, o olhar desconfiado.
Will se acomodou no sofá, esperando.
Renesmee se ajoelhou na frente deles, ficando à altura dos seus olhos.
— Eu sei que vai ser difícil ouvir... — começou, sentindo a garganta apertar. — Mas vocês merecem a verdade.
Sarah mordeu o lábio, os olhos já brilhando.
— Hope... está esperando um bebê — Renesmee disse, tentando manter a calma. — Um filho do seu pai.
O silêncio caiu como uma pedra no meio da sala.
Will piscou, como se não tivesse entendido direito.
Sarah ficou imóvel por alguns segundos — então se levantou abruptamente.
— Eu não acredito nisso! — explodiu, as lágrimas saltando dos olhos. — Como ele pôde?! Ele... ele não pensou na gente?
— Sarah, calma... — Renesmee tentou segurá-la, mas a filha recuou.
— Não, mãe! Você quer que eu fique calma sabendo que enquanto a gente sofria achando que ele tinha morrido, ele estava... com outra?
— Ele não lembrava da nossa vida — sussurrou Renesmee, sentindo a própria dor espelhar a da filha. — Ele estava perdido, Sarah. Ele também sofreu.
Sarah apertou os punhos, tremendo de raiva e tristeza.
Will olhou para a mãe com os olhos marejados:
— E agora? Ele... vai deixar a gente?
Renesmee segurou o rosto do menino com as duas mãos, obrigando-o a encará-la.
— Nunca. — Sua voz saiu firme. — Nunca, William.
— E olhando para Sarah, completou: — O amor do seu pai por vocês é real. Mais forte do que qualquer outra coisa.
Sarah respirava com dificuldade, tentando conter o choro.
Renesmee se levantou e abraçou a filha, que, depois de alguns segundos de resistência, desabou nos braços dela.
— Eu sei que dói, minha pequena — murmurou Renesmee, acariciando o cabelo da filha. — Mas precisamos confiar nele. Confiar que, mesmo com tudo isso, ele nunca deixará de ser nosso porto seguro.
Will se juntou ao abraço, e por um momento, os três ficaram ali, unidos, buscando forças uns nos outros.
Renesmee sabia que não seria fácil.
Mas, enquanto estivessem juntos, poderiam enfrentar qualquer tempestade.
Qualquer uma.
Oeste de La Push, 6 horas após a partida do grupo de resgate.
O grupo avançava pelo Oeste, a noite estava prestes a chegar, enquanto o vento seco carregava poeira e o cheiro forte da floresta distorcida pelas zonas vermelhas. Jacob ia à frente, com Sam, Riley, Seth e Paul em formação fechada, cada um atento a qualquer sinal de perigo.
As árvores retorcidas pareciam sussurrar. O som abafado de patas arranhando o chão chamou a atenção de todos.
— Movimento à frente — murmurou Riley, levantando o punho para sinalizar parada.
Jacob estreitou os olhos e viu — dezenas de formigas gigantes surgindo por entre as árvores, com mandíbulas reluzentes e corpos grotescos.
— Preparem-se! — gritou Jacob.
Em segundos, as armas foram erguidas. O grupo se espalhou para flanquear os monstros.
As formigas avançaram em ondas furiosas. Paul foi o primeiro a disparar, acertando uma direto na cabeça. Seth, rápido como sempre, deslizou por baixo de uma das criaturas, cortando suas patas traseiras com um golpe preciso de seu facão.
Jacob lutava como uma tempestade, a expressão fechada, movendo-se entre as criaturas com golpes fortes e certeiros. O cheiro ácido das feridas abertas das formigas se espalhava no ar.
Uma das criaturas saltou em direção a Riley — Sam disparou primeiro, derrubando-a no ar antes que alcançasse o amigo.
O chão tremia sob o peso dos insetos. Mas eles eram melhores. Mais unidos. Mais fortes.
Após longos minutos de batalha, o último dos monstros tombou, e o silêncio retornou, cortante.
Todos ficaram imóveis por alguns instantes, ofegantes, observando os corpos retorcidos ao redor.
Jacob limpou o suor da testa com as costas da mão e olhou para o céu escurecendo completamente.
— Vamos acampar aqui — disse. — Amanhã chegamos à zona sul.
Eles não precisaram de palavras.
Trabalharam juntos para acender uma fogueira segura e cercada por pedras. A luz laranja da chama dançava nos olhos cansados de todos eles.
Sentaram-se em círculo, bebendo dos cantis e dividindo pequenas porções de carne seca.
— Já fazia tempo que eu não sentia a adrenalina correndo assim — disse Paul, rindo entre goles.
— E pensar que eu reclamei de carregar duas facas extras — comentou Seth, arrancando risadas do grupo.
Sam observava tudo com um sorriso discreto, enquanto Riley esticava as pernas para frente, olhando para as estrelas ocultas pelas nuvens vermelhas.
Jacob permaneceu em silêncio por alguns instantes, sentindo o peso da responsabilidade e, ao mesmo tempo, a força daquele laço entre eles.
— Amanhã — disse ele, quebrando o silêncio — vamos trazer o que restou da nossa história de volta pra casa.
Os homens assentiram em respeito, os olhos brilhando com algo mais forte que esperança: lealdade.
A chama da fogueira refletia em seus rostos endurecidos, e por aquela noite, antes da grande luta que os esperava, eles se permitiram apenas... ser irmãos de guerra.
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