Invasão
37 Ele é Jacob Black
Sarah sentia como se o chão tivesse sumido sob seus pés. A figura à sua frente era real, mas tudo parecia um sonho tortuoso. Seu pai estava vivo. Ele respirava, falava, estava ali, mas seus olhos, que ela sempre conhecera como acolhedores e protetores, estavam preenchidos por uma confusão que a devastava.
Por um instante, ela achou que ele estava brincando, que talvez estivesse testando-a, mas a falta de reconhecimento em sua expressão era como uma lâmina cortando fundo. Lágrimas quentes escorriam por suas bochechas, e sua voz tremeu ao repetir:
– Sou eu... Sarah. Sua filha.
Jacob deu um passo atrás, o olhar fixo nela, mas com um ar de incredulidade. Algo dentro dele parecia se debater, como se as palavras dela cutucassem uma ferida antiga, mas ainda assim, ele não conseguia encontrar a conexão que ela tanto buscava.
– Você deve estar me confundindo com outra pessoa – disse ele, a voz grave, mas estranhamente suave, como se ele quisesse evitar machucá-la ainda mais. – Meu nome é Josh. Eu não tenho família. Pelo menos... não que eu me lembre.
As palavras dele foram um golpe. Sarah sentiu como se o ar tivesse sido arrancado de seus pulmões. Ele não se lembrava dela. O homem que ela passara anos admirando, que acreditara estar morto, estava ali, mas não era mais o mesmo.
– Não pode ser... – ela murmurou, a voz entrecortada pelo choro. – Não pode ser verdade. Você é meu pai! Eu passei os últimos seis anos da minha vida achando que você estava morto!
Jacob observava, sem conseguir entender completamente o turbilhão de emoções que ela exibia. Ele sentia algo dentro dele, uma pontada estranha no peito, como se as palavras dela cutucassem um canto esquecido de sua alma, mas era tudo um grande vazio.
– Sarah – ele disse lentamente, como se testasse o nome. – Eu... sinto muito, mas isso não faz sentido. Meu nome nunca foi Jacob. Eles me deram o nome Josh, e é o único que conheço.
Sarah não aguentava mais. Ela correu para ele, jogando-se em seus braços, o rosto molhado de lágrimas pressionado contra seu peito.
– Não diga isso – ela implorou entre soluços. – Você não pode dizer isso. Eu sei que é você! Eu sinto isso!
Jacob ficou imóvel, os braços pendendo ao lado do corpo enquanto ela o abraçava. Ele não sabia o que fazer. Não sabia o que sentir. Mas, enquanto ela chorava, algo no fundo dele se remexeu, um eco distante de algo que ele não conseguia decifrar.
Ele sentia a dor dela, mesmo sem entender por quê. Instintivamente, suas mãos subiram, hesitantes, pousando levemente nos ombros dela.
– Eu... – ele tentou falar, mas não encontrou as palavras. Algo nela parecia certo, mas sua mente gritava o contrário.
Sarah, no entanto, não soltava. Para ela, aquele era o reencontro que sempre sonhara, mas agora estava misturado com uma dor que nunca imaginara sentir.
Jacob afastou Sarah lentamente, segurando-a pelos ombros com cuidado. Ele olhou em seus olhos, e algo despertou em sua mente como um relâmpago em meio à escuridão. Aqueles olhos. Eram familiares, não apenas porque ela dizia ser sua filha, mas porque ele já os tinha visto antes. Não na realidade, mas em seus sonhos.
Por um momento, flashes de uma cena invadiram sua mente: ele balançando uma garotinha ruiva em um jardim ensolarado, o riso dela preenchendo o ar. Era um sonho recorrente, algo que ele sempre achara uma fantasia criada pela solidão ou pelo desejo de algo perdido. Mas agora, vendo Sarah, ele sentiu uma pontada no coração que o deixava sem fôlego.
– Você… – ele começou, a voz trêmula. – Seus olhos...
Sarah o interrompeu, o olhar firme mesmo com as lágrimas ainda escorrendo por seu rosto.
– Você não se lembra de mim porque perdeu a memória – ela deduziu, a voz carregada de dor e determinação. – É a única explicação. Meu pai jamais abandonaria sua família. Jamais.
Jacob desviou o olhar, atormentado. A ideia fazia sentido, mas aceitá-la era como abrir uma porta para um mundo que ele não estava pronto para enfrentar.
– Se o que você está dizendo é verdade – ele disse, a voz mais baixa, quase um murmúrio – então tudo que vivi até agora foi uma mentira.
Sarah deu um passo à frente, tentando alcançá-lo novamente, mas ele recuou.
– Preciso de respostas – ele disse, mais firme desta vez. O tom em sua voz deixou claro que ele não aceitaria mais incertezas.
Ele começou a caminhar, passos largos e determinados, enquanto Sarah o seguia, tentando acompanhá-lo.
– Espere! Aonde você vai? – ela perguntou, ainda chorosa, mas agora com uma ponta de medo em sua voz.
– Vou pedir explicações – ele respondeu, o tom carregado de uma raiva crescente. – Para todos que me esconderam a verdade. Para todos que mentiram sobre quem eu sou.
Enquanto caminhava, Jacob lutava contra a enxurrada de emoções que o consumia. Ele estava confuso, irritado, e, acima de tudo, traído. O que mais o atormentava era o fato de que, por mais que não se lembrasse dela, algo dentro de si o dizia que Sarah falava a verdade.
– Isso não faz sentido – ele murmurou para si mesmo, as mãos fechadas em punhos. – Por que alguém faria isso comigo?
Sarah, mesmo confusa e machucada, sabia que não podia deixá-lo sozinho naquele estado.
– Pai... – ela chamou, hesitante. – Você não precisa enfrentar isso sozinho.
Ele parou, virando-se para ela. Por um instante, ela viu um vislumbre do homem que ela lembrava: forte, protetor, mas agora com uma dor profunda nos olhos.
– Eu não sei se sou seu pai – ele disse, quase como um pedido de desculpas. – Mas, se há alguma chance de que você esteja certa... eu não vou descansar até descobrir a verdade.
E com isso, ele continuou seu caminho, mais determinado do que nunca. Sarah o seguiu em silêncio, sabendo que aquele momento marcava o início de algo maior do que ambos poderiam imaginar.
Enquanto Jacob caminhava em direção ao vilarejo, um turbilhão de pensamentos o consumia. A imagem do olhar de Sarah se misturava com os flashes do sonho recorrente da garotinha no jardim. Ele tentava juntar as peças do quebra-cabeça, mas cada resposta que surgia trazia mais dúvidas."Por que esconderiam algo tão importante de mim? Por que me chamariam de Josh se meu nome é Jacob? E por que sinto que ela... que Sarah realmente é minha filha?"
A cada passo, sua raiva aumentava. Ele não sabia ao certo a quem culpar, mas a ideia de ter sido enganado, de ter sua identidade roubada, era insuportável.
Sarah o seguia em silêncio, o coração apertado pela confusão e pela alegria amarga de reencontrar o pai. Apesar de tudo, ela sabia que não era o momento de pressioná-lo.
Quando chegaram ao vilarejo, Riley estava conversando com Sam em frente a uma das casas. Ao ver Jacob se aproximar com Sarah logo atrás, Riley ficou imóvel, os olhos arregalados.
– Sarah? – Riley exclamou, a surpresa evidente em sua voz.
Sarah parou, olhando para ele com o mesmo espanto.
– Riley? – ela disse, a voz quase um sussurro. – Você está vivo?
Riley tentou dizer algo, mas as palavras não saíam. Ele olhou de Sarah para Jacob, claramente nervoso.
Jacob percebeu a reação de Riley e, naquele instante, tudo ficou claro.
– Então é verdade – Jacob disse, sua voz grave e cheia de determinação. Ele avançou até ficar cara a cara com Riley e Sam. – Vocês sabiam! Vocês sabiam quem eu sou, quem ela é, e me esconderam tudo!
Sam tentou intervir, mas Jacob ergueu a mão, interrompendo-o.
– Não me venha com desculpas, Sam! Eu quero respostas. Agora! – Jacob gritou, a fúria finalmente transbordando. – Por que me enganaram? Por que me chamaram de Josh? Por que esconderam minha família de mim?
Riley abaixou a cabeça, claramente desconfortável.
– Não era para ser assim... – ele começou, a voz baixa.
– Não era para ser assim? – Jacob repetiu, com sarcasmo. – Então o que era para ser, Riley? Que eu vivesse uma mentira pelo resto da minha vida?
Sarah olhou para Riley, ainda chocada.
– Você sabia que meu pai estava vivo o tempo todo? – ela perguntou, a voz cheia de dor.
Riley respirou fundo, levantando o olhar para Jacob.
– Nós fizemos o que achávamos melhor – ele disse, a voz hesitante.
– Melhor para quem? – Jacob rebateu, com a voz cortante.
Sam tentou novamente intervir.
– Jacob, escute. Não foi uma decisão fácil. Achamos que estávamos te protegendo.
Jacob deu um passo para trás, olhando para ambos com incredulidade.
– Protegendo? Vocês acham que mentir para mim, roubar minha identidade e me separar da minha família era proteção?
Riley tentou se explicar.
– Jacob, não é tão simples. Você perdeu a memória, e...
Jacob o interrompeu.
– E vocês decidiram me transformar em outra pessoa em vez de me ajudar a recuperar quem eu realmente sou.
Havia um silêncio pesado no ar. Sarah, com lágrimas nos olhos, deu um passo à frente, ficando ao lado do pai.
– Ele não é só meu pai – ela disse, encarando Riley e Sam. – Ele é Jacob Black. E ele merece saber toda a verdade.
Jacob cruzou os braços, o olhar fixo em Sam e Riley.
– Vocês têm muito o que explicar – ele disse, a voz fria e firme. – E eu não vou sair daqui até ouvir toda a verdade.
Sam e Riley trocaram olhares nervosos, sabendo que não poderiam mais fugir.
Fale com o autor