Invasivo
1 único
Desde que os conheci, eu não falava muito de mim, embora ter existido tal pergunta pelo líder que sempre andava com um chapéu de palha na cabeça: quando é o seu aniversário?
Não falava muito de mim e nem disfarçava a minha falta de interesse, mas Luffy mandou essa e talvez porque ele é lerdo ou porque é uma peste mesmo. — Desculpa, mas podemos mudar de assunto?
Felizmente ele se distraiu com uma borboleta e não insistiu como de praxe. No entanto, outro colega que estava presente me faria de novo essa pergunta mais tarde. — Qual é o problema do seu aniversário? Por acaso você nasceu em 1900 e tá retrocedendo que nem Benjamin Button?
Olha, marimo conseguiu ver um filme até o final – porque o normal seria ele cair no sono nem na metade do filme.
- Zoro, não lembro de você ter dito o seu.
- 11 de novembro. E o seu?
- Por que essa curiosidade?!
Eu e Zoro nos odiávamos, frequentemente buscávamos briga por qualquer besteira e era comum não querermos saber um do outro, éramos obrigados a nos suportar caso quiséssemos frequentar o mesmo círculo de amigos. Por isso foi tão estranho ele ter ficado curioso. Só saberia o motivo alguns meses depois: Zoro era gamado em mim.
Eu não falava de mim pra pagar de cool que nem o idiota do marimo fazia. Mas sim porque eu tive um passado problemático e que um dia Usopp descobriria jogando meu nome na internet pra dizer a todos que eu vinha de uma família rica. A partir daí, eles veriam que eu faço aniversário junto dos meus 3 irmãos, como o artigo do wikipedia expõe, e minha vida passaria a ser um livro aberto.
Contudo, não gostava de comemorar a data por 2 de março ter virado o pior dia do ano pra uma criancinha rejeitada como eu era. Esse era o motivo de eu não ter contado a ninguém, mas foi mais fácil que imaginei: Luffy prometeu que ninguém me daria sequer um parabéns e foi dito e feito. 2 de março chegou e ninguém havia desejado parabéns, até que...
Era noite e esperava a visita do marimo no meu apartamento, ele havia esquecido o violão que já havia separado envolvido na sua capa em cima do sofá. Zoro gostava de música. Ele tinha uma banda de post-punk com Kid e Law. A campainha soou e gritei do banheiro que a porta estava aberta. Zoro adentrou o imóvel e parou no batente da porta do banheiro, vendo-me enxaguar o rosto por ter acabado de fazer a barba. Como o ignorei, foi para cozinha atrás de alguma coisa para beber – era de praxe.
Zoro gostava de beber. Assim que saí do banheiro, ele já estava à vontade no sofá vendo televisão e uma long neck numa mão. O violão que deixei no sofá pra ele só entrar, pegar e sair fora, estava encostado na parede. Eu revirei os olhos e pensei em fazer algo para ele comer.
- Onde tá indo?
- Não vou deixar você beber ficando horas de barriga vazia.
- Como sabe?
- Apenas sei.
Disse revirando os olhos, mas assim que cheguei na bancada, Zoro me surpreendeu por trás fechando um braço no meu pescoço. – Toma.
Ele disse balançando um saquinho que segurava na mão do braço em volta do meu pescoço. Olhei pra aquilo incrédulo e não pude acreditar que era um presente. — M-marimo. – Disse me virando e ele até abriu o olhar ao ver o meu rosto, devia tá mais pálido do que cal. – I-isso é um presente?
- Sim! – O idiota mostrou todos os dentes como Luffy fazia — assim como também estava sendo igualmente invasivo com aquele presente – Feliz aniversário!
Eu quase caí duro, mas o atropelei e quando vi estava jogado no sofá, sentindo uma dor insuportável no coração. – Isso é um gatilho... – Disse com dificuldade. – Me odeia tanto, marimo estúpido?
Na minha cabeça voltava imagens da minha infância com os meus irmãos me torturando num joguinho que haviam acabado de inventar. E o olhar de descaso do meu pai com todos os machucados que eu mostrava para prová-lo.
- Cozinheiro, desde que te disse que te amava, eu coloquei na cabeça em te fazer mais feliz. – Zoro começou a falar e meu estômago também embrulhou ao me lembrar que esse idiota estava apaixonado por mim. – Mas algo impede o seu retorno.
- Talvez por que eu não te amo?
- Sério? Por que não me parece quando nos beijamos.
- Cai fora daqui!
- Espera, deixa eu terminar de falar... – como não disse nada, por tentar colocar meus pensamentos em ordem, ele continuou sendo invasivo: — compreendi que talvez seja o seu passado que te impeça a amar. E também pensei que já estava na hora de você ver uma data tão importante de uma forma mais feliz...
Eu suspirei exausto e continuei a falar nada, pra mim eram tudo lorotas. Eu ainda estava sentado no sofá, Zoro se sentou ao meu lado e estendeu mais uma vez o saquinho. — Abra, você vai gostar.
Fiz um bico puto, mas apanhei o embrulho de sua mão, quando o rasguei me encontrei com um isqueiro prateado com a frase “Suck it and see” cravado nele. Era exatamente como o do clipe e algo quente tomou meu peito. Eu era fumante e também muito fã de Arctic Monkeys. — Pensei que não gostasse da banda! Só quem é fã sabe desse isqueiro!
- Pois é, por você escuto até essa banda ruim. E aí, não é boa a sensação de ganhar um presente?
Eu fiquei sem graça com o que ele disse, mas não desviei o meu rosto dele e ele também não. Um beijo foi inevitável e passava na minha cabeça que aquele aniversário não estava sendo tão ruim. Nos separamos, ofegantes. – M-marimo... – Disse me afastando de seus lábios doces. – Isso é um estupro!
- Quê?! Pirou de vez?
- Você está me obrigando a fazer algo que não quero.
Disse isso olhando pra única boca que me dava tesão nos últimos meses.
- Como não quer? Estava até mesmo me apalpando nos peitos!
O vão entre nós diminuía assim que falávamos algo.
- Quê-ê?? Eu estava te empurrand-, te afastando, idiota!
- Conta outra.
E novamente selamos nossos lábios. Talvez quando estivesse ofegante e suado, sobre seu corpo igualmente exausto, eu diria “eu te amo também”.
Fale com o autor