Invasão dos Portais - Ato 1
1 Capítulo 1 - Começo
Notas iniciais
Os raios de sol atingiam em cheio o seu rosto, o que obrigava Ronaldo a desviar o olhar.
— Não desvie, olhe pra frente!— dizia em voz alta, para si mesmo
Com esforço, virava seu rosto em direção ao sol, tentando vigiar além de um pequeno pedaço de terra. O suor pingando, estava deitado em meio do mato que o circundava. Mosquitos não paravam de importuná-lo.
—Mosquitos? – pensou
Alguns entravam no interior de seu ouvido. Frustrado, dava tapas na lateral de sua cabeça, a ponto de afastá-los, fazendo aquela cena frustrante um pouco... Engraçada.
Enquanto pensava o quão desgraçada estava sua missão...
Um estrondo. Parecia um tiro. Ronaldo virou seu rosto pro monte de terra, apontou a pistola para o vazio, ignorou os mosquitos, e mirou... Mirou, para o ar, a espera que uma pequena cabeça subindo o monte de terra ficasse visível o bastante para ele disparar em cheio. E aí, era só ir pra casa.
Esperando com um pequeno sorriso no canto da boca, sabia que uma hora alguém ia aparecer, e vacilar. Mas...
Algo relou na sua perna, olhou pra trás, e viu nada mais que o mato rasteiro que balançava e farfalhava ao vento. Quando algo novamente o puxou pela perna, Ronaldo se afastou da areia em que permanecia, e a examinou... No mesmo momento, algo lhe atingiu o pescoço, paralisou seu corpo, e caiu inconsciente.
Não demorou muito para recuperar seus sentidos. Acordando na areia, que agora se transformara em uma imagem digital. De trás do monte de terra que vigiara tanto tempo, saiu um agente com um paletó elegante, com uma pistola paralisadora na mão, sorrindo, e rindo da derrota de seu adversário. Em instantes, o agente virou uma imagem digital azul, e desapareceu, como todo o resto do cenário daquele lugar. O que restara era uma sala de concreto cinza, com alguns montes de areia, que não eram projeções digitais. Além disso, a única coisa que sobrou foi uma pequena pistola, que se encontrava deitada, um pouco distante de Ronaldo. Como se acordasse de um sonho, fez cara de frustração. Levara meia hora pra vigiar o adversário, e foi atingido após uma pequena distração.
"Foi armação deles”, "Aproveitaram as horas passarem para me distrair, e assim, perder..." – Pensou, afinal, estivera tanto tempo parado ali que acabou esquecendo que tudo não passava de simulação. Ronaldo pegou sua pequena bolsa que permanecia no seu lado. Ela estava leve, levava apenas água, comida e as suas armas básicas. A pistola paralisadora e um pequeno objeto retangular, que escondia duas agulhas eletrificantes. Tudo aquilo foi inútil na simulação. Ronaldo caminhou para a porta de saída. Quando saiu da sala, viu o rosto sério de seu chefe, que esperava a saída dele com os braços cruzados. Ronaldo sabia o que ele iria falar.
— Um mosquito o atrapalhou? – Um agente falou, zombando.
— Trinta minutos. E simplesmente morreu. Como isso? – Falou seriamente seu chefe. — Graças a Deus foi uma simulação não é mesmo?
Ronaldo se acostumou com tal expressão séria, sabia que se ele deixasse de falar aquilo com um tom tão preocupado, iria falhar quando colocasse tais habilidades em prática. E por isso mesmo, não se pronunciou, caminhava até o final do corredor, dando a impressão de rebeldia. Mas assim como Ronaldo, os agentes já estavam acostumados com a cena. E trataram de começar as arrumações para a próxima simulação. O Chefe fitou Ronaldo até ele desaparecer do salão.
“Acha que eu acredito que ele está tão preocupado” pensou o pequeno agente.
Com os passos firmes, aquele jovem desajeitado e cansado andava no corredor do salão principal. Centenas de vozes acompanhavam-no ao seu lado. Centenas de pessoas atrás de suas mesas, transmitindo informações, falando com centrais, e mexendo em seus computadores, transferindo e recebendo notícias. Não dava pra acreditar que era uma agência secreta.
Um de seus amigos da agência, Mega, recebeu informações em um papel, e, logo que leu, virou os olhos preocupados para Ronaldo, que andava ao lado da central.
“Será que fui tão ruim na simulação?”
Mas não era isso, Mega fez um gesto e apontou para o próprio pescoço, avisando que tinha algo no pescoço de Ronaldo. Ao passar a mão, sentiu um calombo. E um líquido escorrendo. Provavelmente o local estava roxo e machucado. Era o local atingido pelo tiro paralisador. O pequeno agente devolveu um gesto para que Mega não se preocupasse. Mega exibiu um sorriso, e continuou seu trabalho monótomo. Ronaldo devolveu o sorriso, atrasado, e continuou a andar até o elevador. O salão era branco, cheio de mesas, e largo o bastante para todos sentirem sua presença. Olhares se viraram ele, que ignorou e continuou a andar. Entrando no elevador, pressionou o andar térreo, e em instantes, a porta de ferro se fechou, e um solavanco atirou Ronaldo para... cima...
Ronaldo tentou esconder a sua expressão preocupada. Mas era tarde demais, a câmera do elevador o captou. “Pronto, alguém da central irá avisar o meu estado pro chefe, e em breve, uma ligação...”
A pulseira metálica de Ronaldo vibrou. Com um aperto em um botão, a voz do chefe se espalhou pelo elevador.
—Está assustadinho Ronaldo? – zombou
—O que aconteceu? Estou me sentindo meio fraco – Falou Ronaldo, pousando os dedos no pequeno calombo de seu pescoço.
—Era uma simulação, mas o tiro foi verdadeiro, não reparou que a pistola não foi materializada?
—Não esperava por essa. Mas nada acontecerá certo? – Perguntou preocupado
Uma risada se espalhou pelo elevador. Ronaldo não perdeu tempo e interrompeu a comunicação. O elevador parou e ele saiu. Quando a pulseira vibrou novamente.
—Chora – falou Ronaldo
—Estou seriamente em arrancar esse maldito botão de desliga. Não interrompa a comunicação de repente ok? Não me faça pensar que algo de ruim aconteceu com você. – Falou seriamente o chefe.
—Ok, desculpe, câmbio desligo – Falou Ronaldo zombando
—Vai lá, vai lá... Boa noite. – falou o chefe, encerrando a comunicação
Ronaldo se acalmou. Chegou à porta da pequena sala metálica onde se encontrava o elevador. Uma pequena máquina de impressão digital o esperava. Após alguns segundos escaneando seu dedo, a porta abriu, e Ronaldo sentiu o cheiro do rio que passava atrás da sua casa. Subiu a escada que se revelava no meio do escuro, e chegou ao seu quintal. O machucado não doía tanto, mas ainda havia um temível calombo em seu pescoço. “Malditos”, “No mínimo querem que eu leve a simulação mais a sério”, pensou Ronaldo, zombando de si mesmo.
Estava a incríveis três anos na agência. Entrou quando era uma criança qualquer. Mas mesmo assim era surpreendido com uma coisa ou outra. Aquilo, de fato, o preocupava.
Subiu uma pequena trilha de barro, a porta que antes era metálica, fechava camufladamente na parede de barro do rio. Subindo os degraus, agora com mais disposição, pegou a pistola... Opa! De repente, Ronaldo se esquecera de tudo que aprendeu, guarde a pistola. Esconda a pulseira metálica. Ponha a bolsa no compartimento a vácuo ao lado da parede de barro. Não é a toa que a agência leva uma “secreta” no final. Ronaldo fez tudo isso, e só depois que se acalmou realmente. Encontrava-se em seu quintal. Pegou a chave de casa, abriu ela, e agora, estava livre pra descansar. Solitariamente...
Trocou a roupa, tomou banho, leu alguma coisa e foi dormir. Estava ali. Depois de um dia normal. Meses sem nada pra acontecer. Algo poderia ocorrer no próximo dia não é mesmo? Mas os pensamentos de Ronaldo se fixavam em outra coisa, na pulseira metálica. Com a sigla “ASOECD” gravada em sua lateral. “Agência Secreta de Operações Especiais e Causas Desconhecidas”. Estava ali há três anos... Três anos? Não, era mais. Cinco, dez, não se sabe. Quando se mexe no tempo, não dá mais pra saber.
E adormeceu, preocupado com seu futuro.
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