Invasão
49 Não é um sonho
A noite se acomodava em um silêncio tranquilo, quebrado apenas pelo som suave do vento passando pelas árvores ao redor da casa. A lareira ainda crepitava baixinho, lançando sombras dançantes sobre as paredes. Jacob estava sentado na beira da cama, observando Renesmee dormir ao seu lado. Ela respirava de forma serena, os longos cabelos espalhados sobre o travesseiro, e o semblante calmo como se, finalmente, depois de anos, estivesse em paz.
Ele passou a mão pelos cabelos dela com carinho, e seu peito se apertou. Nos minutos que se seguiram ao momento de intimidade, algo dentro dele havia se libertado. As lembranças que antes eram fragmentos confusos agora vinham como flashes cada vez mais vívidos: o sorriso de Nessie no dia do casamento, Sarah ainda pequena segurando sua mão na praia, Will dando seus primeiros passos em direção a ele... cenas que haviam sido enterradas nas sombras da sua mente retornavam com força total.
Jacob fechou os olhos e respirou fundo, lutando contra a emoção que ameaçava transbordar. Ele se lembrava de tudo.
Mas junto com as lembranças, vieram também as palavras de Sam.
— Se você recuperar a memória, pode não suportar o peso de tudo que viveu. Pode afetar seu corpo... e sua mente. Precisa ir com calma, Jacob.
E agora ele compreendia o porquê. A dor de ter perdido tudo, de não ter estado ao lado da mulher que amava, de ter deixado seus filhos acreditarem que estavam sozinhos... era quase insuportável.
Ele olhou novamente para Nessie. Ela se remexeu suavemente, como se sentisse seu olhar, e depois voltou à tranquilidade do sono. Jacob estendeu a mão e entrelaçou os dedos nos dela com delicadeza.
Ele queria contar. Queria gritar que se lembrava de tudo, que o amor que sentia por ela estava intacto, que cada pedaço da vida que construíram tinha voltado para ele como uma onda devastadora e, ao mesmo tempo, reconfortante. Mas não podia. Ainda não.
Não agora.
Não quando o perigo ainda rondava, quando a segurança da família dependia da estabilidade de tudo ao redor.
Jacob se inclinou, beijou a testa de Renesmee e sussurrou:
— Eu tô aqui, Nessie. E não vou mais embora.
Ele deitou ao lado dela, puxando-a com cuidado para mais perto. Mesmo em silêncio, mesmo com o segredo pesando em seu peito, havia uma certeza dentro dele: agora, mais do que nunca, ele lutaria para proteger sua família. E daria tempo ao tempo… até poder dizer a verdade.
O aroma de café fresco começou a se espalhar pela casa, acompanhado do som abafado de risos e vozes animadas vindo da cozinha. A luz suave da manhã entrava pelas janelas, dourando o ambiente com uma serenidade quase mágica.
Renesmee se mexeu na cama, os olhos ainda sonolentos, mas o som familiar de risadas infantis fez seu coração acelerar. Por um breve instante, ela acreditou estar sonhando — mais uma vez criando cenários na mente onde Jacob estava ali, vivo, sorrindo, com os filhos ao redor. Mas, ao ouvir a voz grave e inconfundível dele, seguida pelas gargalhadas de Will e Sarah, ela soube: não era um sonho.
Ela se enrolou no lençol e buscou por algo para vestir, um short jeans e a camisa de Jacob, então caminhou em silêncio até a porta do quarto. Parou ali por um segundo, observando a cena diante de seus olhos com um nó na garganta.
Jacob estava na cozinha, de costas, mexendo uma frigideira com panquecas enquanto Will se sentava sobre a bancada, tagarelando sem parar sobre uma “grande aventura” que teve com o pai quando era pequeno — mesmo que Jacob não lembrasse, ele ouvia atento, sorrindo com os olhos. Sarah, sentada à mesa com a pequena Julia no colo, ria alto, completando a história com detalhes.
— E aí o papai tropeçou na areia e caiu com o sorvete todo no rosto! — Will contava empolgado, batendo palmas.
— Isso é verdade? — Jacob perguntou rindo, se virando de leve para encará-los com aquele sorriso torto tão dele.
— Verdade verdadeira! — Sarah respondeu. — E a mamãe ficou rindo por um bom tempo antes de ajudar!
Renesmee levou a mão aos lábios, tentando conter a emoção. Aquela cena era simples... comum... mas para ela, era tudo. Era a confirmação de que ele realmente estava ali. Que Jacob Black, o pai dos seus filhos, o homem que ela amava, estava vivo e rindo com eles em uma manhã de paz.
Ela deu um passo à frente, e Jacob notou sua presença.
— Bom dia... — ele disse, com um sorriso suave, limpando as mãos no pano de prato e caminhando até ela. — Esperamos que você acordasse com o cheiro do café.
— E funcionou — ela respondeu, com a voz embargada, os olhos marejados.
Jacob a puxou com delicadeza para um abraço. Ela se deixou envolver, encostando o rosto no peito dele, ouvindo o som forte e constante de seu coração.
— Você está aqui... — ela sussurrou. — De verdade.
— Eu tô — ele respondeu, com os olhos fechados, como se aquilo também fosse uma forma de convencer a si mesmo. — E eu não vou mais a lugar nenhum.
Sarah e Will se entreolharam sorrindo. A pequena Julia balbuciou alguma coisa e estendeu os braços para a mãe. Nessie a pegou no colo e sentiu os filhos se aproximando, abraçando-a juntos. E Jacob os envolveu a todos, como se pudesse protegê-los do mundo inteiro só com os braços.
Aquela manhã foi marcada por panquecas queimadas, histórias engraçadas, e o sentimento de que, finalmente, algo estava se reconstruindo — não do ponto em que parou, mas de um novo começo, cheio de promessas.
E mesmo com o segredo pesando em seu peito, Jacob sabia: ele faria valer cada segundo ao lado deles.
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Depois do café da manhã, com as crianças distraídas brincando pelo acampamento sob o olhar de Claire e Emily, Jacob se aproximou de Renesmee, que terminava de organizar alguns pratos na pia.
— Quer dar uma volta comigo? — ele perguntou, com um sorriso suave nos lábios e um brilho tranquilo no olhar. — Prometo que será em um lugar seguro.
Nessie assentiu. — Claro. Estou precisando de um pouco de ar... com você.
Ele pegou uma mochila pequena com suprimentos e a conduziu para fora. As trilhas ao redor de La Push estavam mais restritas, com áreas mapeadas pela patrulha e zonas sinalizadas como perigosas por causa das criaturas e pragas que surgiram nos últimos anos. Mas Jacob sabia exatamente onde levá-la.
Caminharam em silêncio por alguns minutos até alcançarem uma clareira escondida entre as árvores, cercada de flores silvestres que resistiam ao caos da floresta. Ali, uma antiga pedra ladeava um pequeno riacho de águas calmas. O som da água correndo e o vento suave nas folhas criavam uma paz rara naquele mundo pós-guerra.
— Esse lugar ainda está intocado. É um dos poucos seguros que sobraram — Jacob disse, olhando ao redor como se verificasse cada detalhe.
Renesmee caminhou até o riacho, abaixando-se para tocar a água fria com a ponta dos dedos. — É lindo aqui. Nem parece que o mundo lá fora está caindo aos pedaços...
Jacob se aproximou por trás, envolvendo os braços ao redor da cintura dela. Ela se inclinou para trás, encostando-se ao peito dele, sentindo o calor, o toque familiar.
— Você sabe o que eu mais desejei nesses anos todos? — ele sussurrou.
— O quê?
— Saber de quem era esse sorriso que habitava meus sonhos. Assim, como agora.
Ela se virou de frente para ele, os olhos presos nos dele.
— Eu também desejei isso, Jake... tanto. Você não sabe quantas vezes eu sonhei com você... e acordei com o peito em pedaços por perceber que era só um sonho.
— Não é mais. — Ele passou os dedos pela bochecha dela, como se quisesse memorizar cada traço. — Eu ainda não lembro de tudo... mas sei que te amo. E quero viver esse amor com você de novo, desde o começo, todos os dias.
Ela sorriu, emocionada, e se inclinou para beijá-lo. Os lábios se encontraram com suavidade, um toque que misturava ternura e saudade, e logo se tornaram mais intensos, cheios de desejo e alívio. Como se aquele beijo estivesse sendo aguardado por tempo demais.
Jacob a puxou com mais força, os corpos colados, o coração acelerado. Mas antes que se entregassem por completo ao momento, uma voz os interrompeu.
— Jacob... posso falar com você?
Eles se afastaram rapidamente. Renesmee se virou e viu Hope parada na borda da clareira, os olhos fixos neles, a expressão indecifrável.
— Desculpa interromper — Hope disse, com um tom mais calmo do que o esperado. — Eu só... preciso conversar com você.
Nessie olhou para Jacob por um instante. Ele pareceu hesitar, mas Renesmee tocou o braço dele com delicadeza.
— Tá tudo bem — ela disse com sinceridade. — Eu entendo. Assim como eu tive Nahuel... você teve ela. Vocês viveram juntos por anos. Conversem. Eu vou voltar para as crianças.
Jacob olhou nos olhos dela, como se quisesse dizer mil coisas, mas apenas assentiu. — Obrigado.
Renesmee lançou um último olhar a Hope antes de caminhar para longe, com o coração apertado, mas a cabeça erguida.
Ela sabia que o amor deles não se apagaria com uma conversa... mas também sabia que certas histórias precisavam ser encerradas antes que novas pudessem, de fato, começar.
Jacob permaneceu em silêncio por alguns segundos depois que Renesmee se afastou, observando as folhas dançarem ao vento enquanto sentia a respiração pesar no peito. Ele então voltou-se para Hope, os olhos sérios.
— Fala, Hope... o que você quer conversar?
Hope respirou fundo, cruzando os braços, como se precisasse reunir coragem.
— Não vou mentir. Ver vocês dois juntos dói,nós vivemos muita coisa. Eu estive com você quando ninguém mais estava.
— Eu sei disso — Jacob disse, com honestidade. — E sou grato. Nunca vou esquecer o que você fez por mim, mesmo que tenha mentido pra mim sobre minha vida,
Hope desviou o olhar por um momento, como se aquelas palavras fossem tanto um alívio quanto uma ferida.
— Mas agora você tem ela de volta — continuou ela, a voz embargada. — E eu tô aqui… me sentindo uma sombra. Como se todos esses anos significassem nada.
Jacob deu um passo mais perto, tentando ser cuidadoso.
— Hope, o que eu vivi com você… foi real. Mas eu nunca fui inteiro. Havia um vazio constante, uma sensação de que algo me faltava. Agora eu sei o que era. Era ela. Minha família.
Ela fechou os olhos por um segundo, contendo as lágrimas. Quando os abriu, a expressão estava diferente — mais firme, mas também mais triste.
— Então você vai ficar com ela?
— Sim — Jacob respondeu sem hesitar. — Eu amo a Renesmee. E amo meus filhos. Mas não quero ser cruel com você. Se eu pudesse evitar te machucar, eu evitaria. Só que… continuar te alimentando de uma esperança que não posso cumprir seria mais injusto.
Hope soltou um riso amargo e abaixou o olhar.
— Eu imaginei que você diria isso. — Ela então passou a mão pelo ventre, num gesto tão sutil que Jacob quase não percebeu. — Mas… tem uma coisa que você precisa saber.
Ele franziu o cenho, desconfiado.
— O que foi?
Ela o encarou, os olhos marejados agora.
— Eu tô grávida, Jacob.
O tempo pareceu parar por um instante.
O ar ficou pesado, os sons da floresta sumiram. Jacob sentiu o impacto como um soco no estômago. Ele abriu a boca para dizer algo, mas as palavras travaram.
— Você… tem certeza? — ele perguntou por fim, com a voz rouca.
— Sim. Descobri há algumas semanas. Ia te contar antes... mas aí tudo aconteceu tão rápido, o encontro com Sarah, a Renesmee… — ela deu de ombros, vulnerável como nunca. — Eu não queria usar isso para te prender. Só achei que… você tinha o direito de saber.
Jacob passou a mão no rosto, tentando processar.
— Eu não sei o que dizer...
— Sei que isso não vai mudar as coisas — disse Hope. — Mas muda alguma coisa. Eu só quero saber o que vai ser daqui pra frente. Eu não espero que você volte pra mim. Mas esse bebê… ele é seu também.
Jacob assentiu lentamente, ainda tentando absorver a notícia.
— Eu vou estar presente. Não importa o que aconteça entre a gente, esse bebê vai ter um pai. E você não vai passar por isso sozinha.
Hope respirou fundo, como se aquele compromisso fosse tudo que ela precisava ouvir — mesmo que o coração dela estivesse em pedaços.
— Obrigada, Jake. De verdade.
Eles permaneceram em silêncio por alguns instantes, cada um afogado em pensamentos distintos. No horizonte, o sol começava a se inclinar, pintando o céu com tons dourados e laranja.
O mundo deles havia mudado mais uma vez. E nada seria simples a partir dali.
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