Notas iniciais
História chegando ao final

O motor das caminhonetes ecoava pela estrada esburacada, o barulho constante se misturando ao assobio do vento gelado vindo das montanhas. O comboio da resistência avançava em fila, com batedores à frente e dois veículos armados na retaguarda.

No banco traseiro de uma das caminhonetes fechadas, Edward estava com as mãos algemadas, o rosto voltado para a janela coberta por grades. Bella estava ao lado dele, silenciosa, o olhar fixo na estrada.

— A essas alturas, — disse Edward, quebrando o silêncio — Hargrove já deve ter enviado o exército atrás de mim. Perderam o contato há horas. Ele não vai esperar.

Bella virou o rosto para ele, os olhos estreitos, mas não respondeu de imediato. Podia sentir que ele estava tentando medir a reação dela.

— Você ainda acha que isso é um jogo de poder, Edward? — disse, por fim, com a voz baixa, quase cortante. — Não entende que, se ele vier atrás de você, vai arrastar todos nós junto?

Edward suspirou, recostando-se no banco.

— Eu entendo… e é por isso que precisamos chegar a La Push antes deles. Lá… eu sei que ela vai me ouvir.

Bella desviou o olhar. O nome não foi dito, mas ela sabia que ele falava de Renesmee.

O veículo sacolejou ao passar por um buraco, e por um instante o silêncio voltou a dominar. Lá fora, Jasper estava em pé na carroceria da caminhonete à frente, vigiando o horizonte com binóculos, enquanto Emmett, com o único braço, segurava firme a metralhadora montada, os olhos atentos.

Bella inspirou fundo, tentando sufocar o aperto no peito. Não respondeu nada. No fundo, estava preocupada — não apenas com o que poderia acontecer em La Push, mas com o que viria depois.

O comboio continuou a avançar, a tensão crescendo a cada quilômetro.



O comboio cortava as estradas úmidas e estreitas que levavam ao norte, as árvores altas de Washington formando túneis verdes que pareciam engolir a luz cinzenta da manhã. A tensão no ar era tão densa quanto a neblina que se arrastava pelo asfalto.

À frente, um dos batedores fez sinal e acelerou para o lado da caminhonete onde Emmett estava.

— Tem zonas de risco mais à frente, chefe, — avisou o homem, apontando no mapa amassado preso ao painel. — Movimento suspeito, talvez ninhos ou patrulhas hostis.

Emmett franziu o cenho, ajeitando a arma com a mão única.

— Jasper! — gritou pela janela lateral. — Temos que parar antes de enfiar o pé no vespeiro.

Jasper, que estava observando tudo da carroceria do veículo da frente, bateu na lateral para avisar o motorista e, depois, voltou-se para o homem que lhe entregava o rádio.

— Monta uma equipe de reconhecimento. Quero dois na frente, um na retaguarda. Vamos limpar o caminho antes de seguir — ordenou, sem tirar os olhos da estrada coberta de sombras.

Enquanto a equipe se organizava, Jessica caminhou com passos calculados até a caminhonete onde Edward estava preso. Ela abriu a porta, apoiando-se no batente, e sorriu com ironia.

— Senhor presidente… — disse, alongando cada sílaba. — Está pronto para dizer ao mundo a verdade?

Edward ergueu o rosto, surpreso.

— Do que exatamente você está falando?

Jessica inclinou-se mais perto, sua voz ganhando um tom quase teatral.

— Quando encontrarmos Jacob Black, você fará um anúncio mundial… contando toda a verdade sobre a invasão. Sem cortes. Sem mentiras.

Por um instante, Edward ficou em silêncio, apenas fitando-a com um olhar calculista. Lá fora, a neblina começava a se dissipar, revelando ao longe as primeiras casas abandonadas e postes inclinados de Forks.

O comboio desacelerou, todos atentos à próxima etapa. As zonas de risco estavam à frente… e, depois delas, o caminho para La Push.


Lá Push, Zona Segura.



Em La Push, a madrugada ainda pesava no ar, o som distante das ondas misturando-se ao canto de alguns pássaros que se arriscavam a anunciar o dia.

Renesmee estava sentada à beira da cama, observando Jacob dormir. O ferimento no ombro o fazia se mexer de leve, mas ele continuava respirando profundamente, exausto depois de dias de tensão e luta.

Por um instante, ela deixou os dedos deslizarem suavemente pelo braço dele e sentiu o calor conhecido, a presença sólida. Seu olhar se perdeu… e, por um minuto, ela voltou no tempo. Cinco anos atrás, Jacob não era o herói que salvava o mundo. Não comandava missões impossíveis, não carregava o peso de tantos. Ele era apenas o herói dela. E de Sarah. E de Will. Aquele homem que fazia piadas ruins no café da manhã, que consertava qualquer coisa que quebrasse na casa, e que, ao final de um dia difícil, segurava todos eles como se nada no mundo pudesse lhes fazer mal.

O devaneio foi quebrado por uma vozinha suave.

— Mamãe… — Julia estava na porta, de pijama, com os cabelos bagunçados e os olhinhos ainda sonolentos.

Renesmee se levantou, sorrindo, e a pegou no colo.

— O papai precisa descansar, amor. — beijou a bochecha da menina, sentindo o calor familiar do abraço pequeno.

Saíram do quarto em silêncio, fechando a porta devagar para não acordá-lo. O corredor estava mergulhado no aroma suave de café. Ao entrar na cozinha, Will já estava de pé, mexendo algo na frigideira com expressão concentrada.

— Bom dia, mãe. — disse ele sem tirar os olhos do fogão. — Estou fazendo café da manhã.

Renesmee sorriu, acomodando Julia na cadeira alta.

— Você está ficando cada vez melhor nisso.

Will deu de ombros, tentando esconder um sorriso orgulhoso.

— Achei que você precisava de uma folga… e que o papai ia gostar de acordar com algo pronto.

Renesmee o observou por alguns segundos, percebendo como o menino estava crescendo rápido demais. A guerra havia feito isso — roubado anos, mas também forjado nele uma maturidade precoce.


A porta se abriu suavemente, deixando entrar o ar frio e o som distante das ondas. Sarah entrou, tirando o casaco e pendurando-o no encosto da cadeira.

— Como está o Seth? — perguntou Nessie, ajeitando Julia no colo.

— Vai ficar bem. — Sarah respondeu com um pequeno sorriso cansado. — Leah está cuidando dele como se fosse um bebê. Acho que ele vai se recuperar rápido.

— E o papai? — a filha perguntou, com um tom de preocupação.

— Está descansando — Nessie disse, lançando-lhe um olhar suave. — Teve dias longos… todos nós tivemos.

Will colocou a travessa com ovos mexidos no centro da mesa e serviu café em três canecas. Sarah arqueou uma sobrancelha, olhando para ele.

— Então o milagre aconteceu… você fez café?

— E ficou bom. — Will retrucou, já prevendo a provocação.

— Sei… acho que prefiro sobreviver sem arriscar minha saúde. — Sarah riu, puxando a cadeira para sentar.

Antes que a conversa seguisse, Julia bateu com as mãozinhas na mesa.

— Tá bom, sim! Eu gosto do café do Will! — defendeu, a vozinha firme e determinada.

Will lançou um sorriso vitorioso.

— Viu? Alguém aqui tem bom gosto.

— Ou paladar infantil. — Sarah retrucou, mas já rindo.

A pequena disputa se transformou em brincadeira, com Julia tentando “proteger” o irmão mais velho e Sarah fingindo que ele estava envenenando todo mundo. A cozinha se encheu de risos — um som raro e precioso nos últimos tempos.

Nessie permaneceu observando-os por um momento, apoiada no balcão, o coração apertado. Talvez… talvez ainda houvesse uma chance para eles. Uma vida longe do medo, das fugas, das perdas. Uma vida em que os filhos pudessem simplesmente ser irmãos, discutindo por café e rindo por bobagens.


A risada leve de Julia ainda ecoava quando uma batida rápida e insistente soou na porta, cortando o momento como uma lâmina.

Sarah se levantou primeiro, ainda com um sorriso no rosto, e abriu. Collin entrou apressado, o rosto sério e o casaco marcado pela poeira da estrada.

— Preciso falar com o Jake. — disse sem fôlego, como se tivesse corrido. — Avistamos um comboio vindo pela estrada de La Push. Já estão próximos à praia.

Nessie se virou, tentando manter a calma.

— Collin… — começou, mas foi interrompida pela voz grave que veio do corredor.

— Civis? — perguntou Jacob, surgindo na porta do quarto, ainda com a faixa no ombro e o olhar alerta.

Collin balançou a cabeça.

— Não. Militares.

O ar na cozinha pareceu mudar de densidade. Sarah trocou um olhar rápido com Will, Julia se encolheu no colo da mãe, e Nessie sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Jacob respirou fundo, já com aquele semblante que ela conhecia — o de quem estava pronto para proteger, a qualquer custo.