Invasão à Área 51
2 I - A Chamada
E lá estávamos nós na escola, tendo aula de física. Nossa, aquela aula era um porre. Sério, aquele professor era um merda. Tão velho e gordo, só lhe faltava um chapéu vermelho e um macacão para confundirmos ele com o Mario. Olhei para o relógio enquanto copiava as questões na lousa, marcava 10:16. Faltavam exatamente quatro minutos para o término da aula e início do intervalo. E como eu o aguardava, sério, eu estava morrendo de fome. Minha barriga não parava de roncar enquanto eu copiava aquele troço. Sempre que eu olhava para a janela, distante de mim, eu via o quão bom o tempo estava lá fora, e eu preso aqui dentro de um cubículo.
— Aí, Leo. Você já está onde? – Indagou-me o filho da puta da carteira de trás, me cutucando.
— Falta ainda terminar de copiar a questão seis e a sete. – Disse, sem me virar em sua direção, copiando com pressa para que terminasse antes do horário do intervalo. – Por quê?
— Eu queria te mostrar um negócio. – Disse ele estendendo o celular até mim.
— Deixa eu terminar de copiar isso aqui e tu já me mostra. – Disse, secamente.
— Ah, cara. Foda-se isso aí, nós dois sabemos que você não vai responder essas questões e provavelmente vai pedir a resposta para alguém depois. Se liga nisso aqui. – Disse, aproximando-se de mim e me estendendo o celular com os seus fones de ouvido brancos.
— Bruno. – Disse, me virando em sua direção. – Se for mais um daqueles vídeos seus do South América Memes, eu vou te quebrar na porrada.
— Eu juro que não é, só se liga. – Disse ele, me entregando o celular.
Pluguei os fones e apertei play no vídeo. Havia uma imagem de um alienígena esverdeado pausada ao lado de Ricardo Milos, até que finalmente o vídeo começou. Ricardo era um homem brasileiro, moreno, musculoso, e que trajava nada além de sua bandana vermelha e sua tanguinha fina com o símbolo da bandeira dos estados unidos. Isso, ele estava seminu, mas essa era a graça de ver Ricardo. Pois ele dançava de maneira sensual em todos os vídeos em que aparecia, e dessa vez não era diferente.
Ele se aproximou junto de vários clones em direção ao que parecia ser uma base militar. Todos eles dançavam olhando para mim, isso era estranho ao mesmo tempo que era engraçado. Foda-se, continuei vendo. Eis que vieram os guardas da instalação, marchando em suas direções. Atiraram em alguns deles, que por sua vez caíram numa poça de sangue fazendo repetidas flexões, sim, não fazia sentido algum. E então os outros, sim, haviam outros porque eram muitos, se aproximaram dos guardas com os rifles e os sarraram, de maneira que “morreram” ressoando gritos que mais pareciam berros. Prefiro pensar que não houve estupro.
Finalmente, um dos Ricardos conseguira se dirigir em direção a um galpão trancado que na base havia, e dentro dele encontrara um alien verde que dançava uma música mexicana. Juntos, os dois “correram” para fora, ainda dançando.
Lá fora, um soldado americano os interceptara, disparando um tiro de M16 contra Ricardo, no entanto, surgira alguém para levar o tiro em seu lugar. Um alienígena alto e verde, que dançava “Dame Tu Cosita”. Ele pulou na frente de Ricardito, e se sacrificara para salvá-lo. E enquanto agonizava no chão gemendo “Ai, ai”, surgira uma figura emblemática. Um alienígena prateado, numa dança poderosa que ao executá-la, criou uma espécie de esfera cintilante em suas mãos, semelhante a um Kamekameha, e a atirou contra o sujeito que disparara contra o seu amigo. E, sobre os braços de Ricardo, o alienígena “Dame Tu Cosita” apagou num flash branco que apareceu na tela, dando lugar a uma nova cena num quarto luxuoso, onde ali estava ele e Ricardo sobre a cama. Ricardo o atacara por cima, enquanto só restava ao pobre “Dame Tu Cosita” gemer seus “Ai, ai, ai”. E finalmente acabara o vídeo.
— Mano, que porra é essa? – Indaguei ao Bruno, enquanto ria desse meme absurdo.
— A invasão à Área 51. – Disse ele, pegando de volta seu celular. – Já imaginou como seria?
— O quê? Aquela instalação que abriga aliens e discos voadores? – Indaguei.
— Essa mesma. Já imaginou o tanto de coisas que devem estar escondidas lá dentro? – Disse, não conseguindo segurar sua empolgação. – Armas alienígenas, naves, aliens em cativeiro...
— Provavelmente o Omnitrix tá lá. – Disse, zoando com a cara dele.
— Você duvida? – Disse ele, semicerrando os olhos em minha direção.
— Não, não. Que isso... o escudo do Capitão América também tá lá. De onde você acha que ele tirou o escudo que deu ao Falcão no final do Vingadores Ultimato?
— De onde você acha que saiu a máquina em que ele se transformou no Capitão América no primeiro filme?
Confesso que eu ri dessa.
— Você só pode estar de sacanagem, tá bom. Vamos parar de teorizar sobre o que tem dentro da área 51, porque nunca vamos conseguir entrar lá pra ver se de fato é real. – Disse eu, me virando para ver o relógio, e guardando minhas coisas ao avistar 10:19 no relógio redondo que tinha acima da lousa.
— E se a gente pudesse? – Disse Bruno, levantando-se de sua carteira.
— Como, cara? – Indaguei a ele. – É impossível. Eles têm uma segurança enorme. Se virem alguém há dez metros de distância da base eles já metem bala. Você não viu os vídeos dos motoqueiros que tentaram invadir lá? Eles quase foram presos, ou baleados.
— Mas nós não somos esses motoqueiros. – Disse ele, jogando-me uma piscadela. – E eles não conseguiriam atirar na gente.
— Ah é? Então como é que iríamos nos desviar das balas? – Indaguei, franzindo a sobrancelha.
— Correndo igual o Naruto, ué. – Disse o marginal. – Nós seríamos mais rápidos que as balas.
— Ah, não fode! – Disse ainda rindo.
— É sério. – Disse, tentando me persuadir enquanto deixávamos a sala.
Passamos em meio a um corredor recheado de alunos que seguiam todos no mesmo sentido, na mesma direção. Exceto aqueles dois que passaram por nós, o rapaz loiro e o outro moreno, mas fodam-se eles, eu estava com fome. Seguimos por aquele corredor e descemos até a cantina, e Bruno não parava de me atazanar com essa ideia.
— Mano, não dá pra gente invadir uma base militar apenas nós dois. Tira essa ideia da sua cabeça. – Disse para ele, enquanto comíamos na mesa do refeitório.
— Tá, Leo, e se a gente convocasse um exército para invadir com a gente? – Disse ele, com um sorriso no rosto.
— Tá bom, mas onde é que vamos achar pessoas dispostas a isso? – Indaguei, já temendo a resposta.
.
Olhávamos para a tela do Facebook na área de criar eventos enquanto pensávamos qual a melhor forma de chamarmos usuários a cometerem um crime federal conosco. Decidimos então criarmos um perfil falso, numa conta americana, afinal, não queríamos que chegassem até nós se desse merda. Mas nunca que isso aconteceria, era uma ideia idiota. Porra, quem é que seria louco igual nós de invadir a área 51? Sim, eu confesso que eu estava gostando da ideia, era engraçado. Já criaram vários eventos fakes na web, como por exemplo a “Mesa redonda para discutir o que a Maria Chiquinha foi fazer no mato.”, a “Aterrissagem do padre dos balões.” E qual seria a diferença dessas para essa aqui?
— Que nome você acha que devemos colocar? – Indagou-me Bruno.
— Não sei... Que tal “Invasão À Área 51”? – Disse.
— Isso, aí criamos um fake americano pra por um evento em português. – Disse ele ironicamente.
— Tá, tá bom... – Pensei um pouco. – Que tal “Invasion To Area 51, Let’s Catch Some Aliens”?
— Não, não... Tem que ser algo que fique gravado na cabeça de quem ler.
Olhava para o computador da sala de informática e não conseguia pensar muita coisa, porra. Nunca pensei que a escolha de um nome fosse tão complicada, sério. Todos os outros alunos estavam acessando outras coisas, fossem elas site de jogos, youtube, facebook, site de fofocas, ou o caralho que fosse. Ninguém estava de fato fazendo a pesquisa sobre as calotas polares que a professora Gertrudes de Geografia havia pedido. Até que eu olhei para a cabine ao lado, e vi, o Pedro estava vendo pornô. No meio de todo mundo. Mas parecia que ele disfarçava com uma aba anônima e fones de ouvido, e sempre que alguém passava por ele, o sujeito trocava para uma pesquisa sobre as malditas calotas polares, mas ele não me enganava, eu vi a mulher posta sobre a mesa levando rola daquele homem que mais parecia o Shrek versão Black. E o que mais me impressionou, talvez fosse esse o motivo de eu não o delatar para todos da sala, foi o título do vídeo: “Storming The White Ass”.
— Tem alguma ideia? – Perguntou Bruno, ao ver que eu abria o Google Tradutor.
— Estou só vendo uma coisa. – Disse, sem fazer alarde.
E botei “Storming” e lá apareceu a tradução para português: “Assalto”. Era perfeito!
— É isso! – Disse, olhando para Bruno, e então para a tela. – Esse é o nome! “Storming The Area 51, They Can’t Stop All of Us”.
Seus olhos brilharam, tanto como os meus.
— Caralho, genial! É isso! – Tomou o teclado para ele, e fez algumas correções. – Mas deixa só eu arrumar umas coisinhas aqui e voilà!
E ficou: “Storm Area 51, They Can’t Stop All of Us”.
Batemos as mãos como era nosso habitual cumprimento, e de fato, ele era merecido. Havíamos criado o nome perfeito para o ato. Adicionamos uma foto tirada de um satélite que achamos no Google, e tratamos de decidir o dia e o horário.
— Alguma ideia? – Perguntou Bruno.
— Bom... – Disse, passando a mão por entre meu queixo, alisando meus resquícios de barba. – Precisamos de tempo para preparar um exército, ainda mais um montado do zero.
— Tem razão. Então vamos dar um mês de preparação? – Disse Bruno.
— Você tá louco? Um mês é muito pouco. Vamos conseguir reunir apenas umas cem pessoas para a invasão se dermos esse prazo.
— É o suficiente. – Disse, tentando soar convincente.
— Vamos fazer o seguinte... Que tal... dois meses? – Disse, tocando em seu ombro. – Quanto mais gente, mais chance temos de conseguirmos.
Ele respirou fundo, e assentiu.
— Tá bom, mas eu defino o dia e o horário.
— Beleza. – Disse franzindo a testa e a sobrancelha, deixando-o tomar o teclado novamente.
Ele definiu que a invasão acontecesse no dia 20 de setembro de 2019, às 03:00 horas da manhã, até às 06:00.
— Por que tão cedo? – Indaguei.
— Nós precisamos de tempo para nos preparar, além disso onde você já viu um exército preparando um ataque ao meio dia? Com todo o batalhão inimigo vendo os seus passos... Nós precisamos ser sorrateiros, como verdadeiros ninjas! A verdadeira batalha começa ao amanhecer.
— Saquei... e onde vamos marcar de nos encontrarmos? Tem algum lugar próximo que possamos nos encontrar com o nosso “exército”?
Sério, eu estava levando aquilo na zoeira. Porque quando eu finalmente engatava como algo sério, ele me vinha com uma piada. Ninjas? Tsc! Naruto já acabou faz tempo. Bom, enfim...
— Tem um ponto turístico aqui perto onde podemos nos encontrar com o pessoal. Vamos adicionar uma descrição aqui como: “Nós vamos todos nos encontrar no centro turístico da Área 51 e vamos coordenar nossa entrada de lá. Se nós corrermos igual o Naruto, nós podemos ser mais rápidos do que suas balas. Vamos ver aqueles aliens!”
— Ficou legal. Agora traduz pro inglês. – Mandei, e assim o fez.
E estava tudo pronto, só faltava clicar com o mouse para finalizar e estava feito o nosso evento, para que todos pudessem ver e participar. Bruno moveu sua mão até o mouse, e antes que clicasse eu a segurei com a minha mão direita. Ele rapidamente olhou para mim confuso.
— Bruno. – Disse.
— Que foi?
— Isso é só na zoeira, né? – Indaguei sério, fitando-o.
— Claro, cara. Vai ser só meme, ninguém vai levar a sério. É provável que ninguém queira participar disso. Leo, relaxa. Fica suave. – Disse sorrindo.
Soltei sua mão, e ele clicou com o botão esquerdo do mouse finalizando o processo e deixando público o evento no Facebook. Não conseguimos ver se alguém entraria, pois já havia acabado a aula.
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