Intrínseco
11 Capítulo 11
Ele não podia voltar pra casa, mas não podia assistir, ficou vagando nas sombras ao lado da arena, ouvindo os espantos dos telespectadores, percebeu que Marcus morreu em algum momento. Tentou pensar em qualquer outra coisa, ficou amassando um sanduíche de rosbife velho que estava na mochila, olhando as migalhas em sua mão, percebeu que não podia o deixar para trás, no momento em que ele mais precisava dele.
Esperou tudo ficar silencioso e escuro, tão escuro que era quase impossível enxergar suas próprias mãos. Encaminhou-se até a entrada da arena e aproveitou do poder que seu pai, rico e influente tinha. Pagou para entrar.
Ele não tinha muito tempo, sabia que poderia morrer por simplesmente pisar lá, teria que ser rápido. Procurou pelo corpo de Marcus primeiro no alto, imaginando que talvez ainda estivesse pendurado. Chegando perto, percebeu ele no chão. Estirado, todo torto, como um saco de feijão jogado de qualquer jeito no canto.
Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, quando viu seu pescoço cheio de sangue duro e seco. Marcus estava com os olhos abertos e eles gritavam misericórdia. Não era mais o garoto bruto e rebelde vendido pelos Jogos.
Sabia que as câmeras o seguiam e sentia que não tinha muito tempo. Colocou um embrulho no chão, virou o corpo de Marcus para endireita-lo e tentou esticar seus membros rígidos. Pegou o pão no embrulho e começou a salpicar migalhas por todo seu corpo.
― Se acalme agora, a dor já passou, siga seu caminho de volta para casa...
Enquanto repetia o mantra ensinado no seu Distrito, sua mente vagava para anos antes. O símbolo da neve no dedo machucado, o chiclete como começo da amizade, o adeus incerto com a palavra migalhas usada erroneamente.
Sejanus tentava dar outro significado para migalhas em morte.
Fale com o autor