Intruso
4 Aulas
Notas iniciais
♥
Naquela semana as aulas começariam e eu particularmente não estava nem um pouco animada.
Bem, nada contra a escola em si, eu gostava do lugar e me dava super bem com quem quer que fosse, até mesmo tinha as moças da limpeza no Facebook, mas aquele ano sem dúvidas ia virar um caos. Motivo? Eduardo iria estudar comigo e aquele era o pior motivo que poderia existir. Graças ao santo pãozinho com requeijão não nos colocaram na mesma sala, mas mesmo assim ia ser horrível ter que dividir minha casa e minha escola com aquele traste.
Na manhã do primeiro dia eu acordei super atrasada. Não, dessa vez não era culpa das minhas novelas, eu simplesmente não havia conseguido acordar na hora.
Me arrumei em tempo recorde e em menos de cinco minutos eu já estava na cozinha para tomar café.
Apenas Eduardo e minha mãe estavam lá, meu pai só acordava mais tarde pra ir trabalhar e as aulas das duas crianças começariam somente na outra semana. Sabe, eu adoraria ser criança ainda.
— Bom dia, Lia. — Minha mãe deu um sorriso. — Animada pra rever seus colegas?
— Mãe, eu tenho cara de quem está animada? — Perguntei, suspirando.
— Lia, me poupe né, as férias inteiras você reclamou que queria voltar para a escola. — Ela disse. — Edu, por que você não tenta contagiar essa garota um pouquinho? Ela fica tão ranzinza logo de manhã...
Eduardo riu. Aquele garoto parecia bem em ter que mudar de escola, incrível né? Talvez na outra escola ele fosse um gangster maluco.
Depois de minha mãe nos deixar de carro no portão da escola — o que foi totalmente desnecessário, já que não eram nem cinco minutos de caminhada da minha casa para lá — e encher minha cabeça com avisos para tomar cuidado e não arranjar problemas, eu e Eduardo entramos como se nem sequer nos conhecêssemos.
Ao me ver cruzar o portão, Nanda logo veio ao meu encontro junta de nosso amigo Hugo.
— É sério mesmo que você não vai nem sequer mostrar a escola pro Edu? — A garota questionou.
— Oi pra você também Fernanda. E não, não sou obrigada a nada. — Falei.
— Sinceramente Lia, você é um monstro.
— Nanda, minha cara Nanda, se você veio só pra ficar me enchendo a paciência sobre o Eduardo, já pode sair.
Nanda cruzou os braços, me fitando com indignação.
— Quem é Eduardo? — Hugo se pronunciou.
— Aquele garoto que eu te contei mais cedo, Hugo. — Fernanda respondeu.
Hugo franziu a testa, tentando se lembrar, até fazer um som como "Ah!" e assentir.
— Por que você não vai ajudar o cara, Liara? — O garoto perguntou. — Até onde eu fiquei sabendo, ele é bem legal.
Eu encarei Hugo com indignação. Ele também era meu amigo há bastante tempo, nos conhecemos na sétima série e desde então andamos juntos. O garoto sempre foi um dos mais inteligentes da sala e sua personalidade na maior parte do tempo era calma e serena, que, refletida com seus cachinhos loiros, o fazia parecer um anjinho.
— Por favor, né.— Revirei os olhos. — Se estão tão incomodados com aquele lá estar sozinho, vão lá fazer companhia pra ele.
— Hã... Acho que agora é um pouco tarde né? — Nanda apontou com a cabeça para onde a peste estava.
Junto dele estavam Bruno, Marcos e Alexandre, os três "reis bonitões" do período da manhã. Aqueles caras, mesmo sendo apenas típicos adolescentes bagunceiros, eram conhecidos por praticamente toda a escola e a maioria das meninas tinha um crush neles. Mas não era algo surpreendente, já que os três eram extremamente gatos. Tipo, muito mesmo.
— O que a realeza tá fazendo perto do traste do Eduardo? — Perguntei.
— Acho que recrutando um novo membro bonitão. — Nanda disse, boquiaberta.
— Sem chance... — Hugo murmurou. — Liara, estou começando a acreditar em você sobre esse cara ser um mané.
Continuei a observar Eduardo. Ele não sabia a enrascada que estava se metendo com aqueles caras...
Então o sinal de entrada bateu, fechando nossas bocas e também fazendo os olhares das garotas da escola, que até então estavam fixos em Eduardo, serem desviado e todos voltaram a seus caminhos.
O dia estava começando bem ruim.
Ao entrar na sala junta dos meus dois amigos, percebi a agitação do primeiro dia no ar. Todos estavam eufóricos comentando sobre as férias, exibindo seus materiais novos e colocando o assunto do tempo fora em dia. A professora de geografia, uma velhinha baixinha, não parecia estar contente com a barulheira.
Sentamos no fundo, como sempre fazíamos. Meus olhos se mexiam freneticamente pelo lugar, procurando a única pessoa que eu queria ver dentro da sala.
— Bom dia pra vocês também, classe. — Ela disse quando a sala pareceu se acalmar. — Pelo visto esse ano vai ser difícil, hem? Deixem essa euforia toda pro intervalo, agora é aula de geografia.
Então a barulheira baixou e todos se sentaram em seus lugares. Meus olhos ainda corriam pelo lugar, mas pelo visto nada.
Quando coloquei meus fones e desisti de procurar, levando em conta que talvez essa pessoa tivesse faltado, Hugo, que estava do meu lado, me cutucou.
— Olha quem tá aí. — Ele cochichou.
Levantei meu olhar para a porta e avistei, finalmente, o que eu tanto procurava.
— Atrasado no primeiro dia, Felipe? — A professora cruzou os braços e balançou a cabeça. — Vai pro seu lugar, vai.
O garoto riu baixinho e então sentou num lugar vazio que por sinal era exatamente na minha frente.
Olha, aquele dia tava ficando bom.
Antes que se pergunte quem é Felipe, eu te respondo: Felipe é a pessoa mais perfeita da face da terra e também meu crush desde a sexta série. Ele era bonito como um príncipe e também era muito fofo, além ser de inteligente e fazer amizade com quem quer que fosse. Definitivamente perfeito.
Assim que a professora começou a chamada, Felipe se virou e me fitou, o que sem dúvidas me deixou muito surpresa.
— Liara, tem algum lápis ou caneta pra emprestar? — O garoto perguntou num cochicho. — Eu fiz o favor de esquecer meu estojo em casa hoje.
— Tenho os dois. — Respondi, com uma risada baixa e agradeci a Deus mentalmente por ter deixado reservas no estojo. Estendi os objetos para Felipe, que sorriu e me agradeceu.
É, podemos dizer que o meu crush era um ótimo crush pelo simples fato de que ele me notava e era legal comigo. Era um ótimo começo, principalmente pra mim, que tinha tendência a gostar de caras que não me conheciam ou que não tinham chance de gostar de mim. Pois é, a vida tem dessas.
Depois de três aulas seguidas admirando as belas costas de Felipe, o sinal para o intervalo bateu. Eu poderia ter ficado chateada por perder a minha visão dos deuses, mas Nanda e Hugo nem me deram tempo pra isso, pois logo me puxaram pra fora da sala para que a gente não perdesse nosso lugar de sempre. Naquela escola havia uma regra silenciosa de que você deveria escolher com cuidado seu lugar para ficar durante a hora do lanche, pois esse seria seu lugar até o final do ano. Se tivéssemos sorte, conseguiríamos chegar no nosso lugar de baixo da escada antes que qualquer pessoa pisasse lá.
Quando chegamos no nosso cantinho, arregalei os olhos ao perceber que já haviam pessoas lá. E bem, não eram apenas pessoas, eram os três membros da realeza junto com ninguém mais ninguém menos que Eduardo.
— Ei, olha! É o Ed... — Nanda exclamou e eu rapidamente a interrompi tampando sua boca.
— Acho que vamos ter que procurar outro lugar. — Falei quando meu olhar se encontrou com o de Eduardo.
Puxei meus amigos pra longe daquele lugar, mais necessariamente pro corredor da biblioteca, que na verdade não era tão longe assim. Quando soltei Nanda, ela começou a protestar:
— Liara! Você tem algum tipo de problema? Poderíamos ter ficado no mesmo ambiente que a realeza! Já pensou? Passar todos os intervalos lá... — Ela suspirou, como uma garotinha apaixonada. — Mas você pirou completamente! Poderia falar com o fofo do Edu pra ele deixar a gente ficar lá, mas não, você tinha que sair correndo!
— Ai Fernanda, sinceramente... Eu não gosto daqueles caras, porque mesmo eles sendo super gatos, eles são panacas. E quanto ao Eduardo, nós não nos conhecemos enquanto estivermos dentro dessa escola.
— Que criancice, quantos anos você tem? — A garota revirou os olhos. — São meninos, Lia. Menino bonitos! Quem liga se são panacas?
— Cada dia que passa eu me surpreendo mais com a cara-de-pau da Fernanda... — Hugo murmurou.
— Na próxima vez eu vou pensar bem antes de arrumar uma amiga que só pensa em garotos. — Bufei. — Deixa isso pra lá, tá? Vamos apenas procurar outro lugar.
— É, pelo visto vamos mesmo ter que abandonar a corte real. — Minha amiga fez uma cara semelhante a um cachorrinho sem dono.
Caminhamos pela escola procurando qualquer lugar sem muita gente, mas aquela era uma tarefa completamente impossível. Naquele ano a diretoria havia aberto as portas para muito mais alunos, e isso incluía o pessoal de uma escola das redondezas que fora fechada recentemente.
Quando finalmente encontramos um lugar quase vazio, eu podia dizer que não era o melhor lugar do mundo. Mas não era tão ruim assim.
— Vamos ter mesmo que comer junto com o clube de xadrez? — Nanda cochichou quando paramos em frente a mesa que tinha apenas três pessoas sentadas, uma menina e dois meninos.
— Fernanda, é o único lugar disponível. — Falei. — E é só por hoje, amanhã nós definitivamente vamos chegar cedo na escada.
— Essa eu quero ver... — Hugo disse.
Colocamos nossos lanches em cima da mesa e automaticamente as três pessoas nos encararam.
— Podemos sentar aqui? — Perguntei e a menina assentiu. Ela usava óculos e tinha os cabelos loiros presos em um rabo-de-cavalo bagunçado. — Hum... Eu sou a Liara e esses dois são o Hugo e a Fernanda. Não se preocupem muito com a nossa presença, vamos ficar aqui só por hoje.
— Ah, claro... — A garota disse. Sua voz era baixa. — Eu sou a Ágata e eles são Enzo e Daniel, somos do clube de xadrez.
— Que não é bem um clube, já que vários membros saíram da escola e provavelmente o pessoal da diretoria vai acabar nos forçando a encerrar nossas atividades. — O garoto chamado Daniel disse. Ele tinha a pele morena e os olhos bem puxados, se assemelhando a um índio, só que um índio de boné.
— Daniel. — Enzo deu uma cotovelada nele, abaixando o tom de voz. Enzo era bem diferente de Daniel, com cabelos bem escuros e a pele pálida, cheio de pintinhas no rosto, além de ser super magro. — Isso não é o tipo de coisa que você pode sair falando...
— É sério? — Hugo perguntou. — A diretoria fecha os clubes?
— Fecha, não sabia? — Ágata disse, com seu tom calmo. — O número de membros tem que chegar até cinco pra ser considerado um clube.
— Se vocês quiserem entrar pra ajudar a gente, as portas estão abertas. — Daniel deu uma piscadela.
Eu o encarei, segurando a risada. Aquele garoto não parecia um membro do clube que era considerado apenas para os intelectuais.
— Daniel, come e para de falar, vai. — Enzo enfiou um monte de bolachas Club Social na boca do amigo. — Não levem em conta o que esse panaca diz, ele pode ser bem indiscreto as vezes.
— Ou sempre. — Ágata completou. — Mesmo que nosso clube precise mesmo de ajuda...
Hugo deu um sorriso compreensivo. Aquela era a hora em que algum de nós três deveria dizer que iria entrar para o clube, mas ninguém se pronunciou, mesmo que eu e Nanda soubéssemos jogar xadrez e Hugo tenha sido o campeão da sala no primário.
Depois daquilo ninguém mais falou nada, nem Daniel. Apenas lanchamos e esperamos o sinal bater para voltarmos pra sala.
As aulas passaram como um jato. Para um primeiro dia de aula os professores estavam passando lições até de mais, sem contar que alguns já até haviam anunciado projetos. A única coisa que me manteve desperta foi ver as costas de Felipe. Sim, as costas dele eram lindas.
Quando o sinal da saída bateu, eu peguei meu celular para checar a bateria, quando vi que minha mãe havia mandado uma mensagem no Whatsapp.
"Filha, você e o Edu vão ter que voltar a pé hoje, o carro deu problema e não tem como buscar vocês. Se cuidem."
Ah, voltar pra casa a pé não seria um problema, eu sempre fazia isso.
Quer dizer, não seria um problema se não estivesse chovendo e eu estivesse sem guarda chuva.
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Dica IV: Nunca estude na mesma escola que o Eduardo, você corre riscos de perder seu lugar no intervalo.
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