Intrusa
1 Prólogo
Notas iniciais
A neve caía. Nos aconchegamos mais perto um do outro, esperando conforto na única existência em que podíamos confiar.
A garota ainda estava lá.
“Quem é o Hikaru-san?” nós havíamos perguntado. Com quem ela falava? Ambos? Não chamávamos “ambos”. Aquela garota, que vivia fora de nosso mundo, saberia nos diferenciar?
Ela não soube.
– Por favor... – disse a menina, em tom de súplica. Voltamos nossas cabeças para ela. – Não chorem.
E congelamos, assim como as lágrimas que pensaram em sair.
Deveríamos estar realmente deploráveis naquele momento.
Aquela menina virou as costas, e colocou-se a andar. Pra longe de nosso mundo, mundo que ela não conseguira passar dos portões.
E então, ela chegou.
Seus cabelos, se bem nos lembramos, eram negros. Negros e secos devido ao frio. E seus olhos eram de um preto de igual esplendor, com um tom de mistério. Aquelas grandes, gélidas e enigmáticas orbes.
Em seus lábios, havia um sorriso. Talvez alegre, talvez sarcástico. Não ficamos com ela o suficiente para saber.
Era curiosa para uma menina de nossa idade. Possivelmente o fato mais estranho sobre ela fosse ser ingênua o suficiente para se aproximar de nós.
Parou em nossa frente.
Nossos olhares se encontraram, e ela falou:
– Olá, Hikaru-san. – para o da direita. – Olá, Kaoru-san – para o da esquerda.
Alguma coisa em nossa mente travou.
Ela era desconhecida. Uma total desconhecida, uma garota simplória que viera a nós.
Mas sabia quem era quem.
Uma parte de nosso amado mundinho ruiu naquela hora.
Enquanto nos recuperávamos do choque, ela se virou. Mas antes, voltou-se novamente para dizer:
–Adeus, Kaoru-san – para o da esquerda e –Adeus, Hikaru-san – para o da direita.
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