Intrinsically

9 Capítulo 9


Notas iniciais
Dessa vez foi rápido. Boa leitura!!

Desviando de conversas, coisas e pessoas, Katniss andou a passos curtos e apressados pelo corredor lotado. Por duas vezes evitara Peeta, a última vez tinha sido a mais difícil.

Ainda ontem à noitinha, para total espanto dela, ele apareceu à sua casa. Carregava um pacote de cheetos e uma caixa de M&Ms. Graças aos céus foi Haymitch quem atendeu à porta, enquanto Katniss, da cozinha, escutava a curta e nada casual troca de palavras entre os homens. Peeta perguntou por ela, o pai dissera que estava indisposta. Peeta ofereceu os cheetos e os M&Ms a Haymitch e dissera que talvez ela gostasse, pois com cheetos e M&Ms não tinha erro. Em seu esconderijo, Katniss sorriu, achara doce a atitude. Haymitch agradeceu por ela, sacaneou com a filha e esta comeu os presentes durante o resto da noite de domingo.

Já naquela manhã de segunda-feira, ele surgiu na entrada da escola ao mesmo tempo em que ela passava pela porta. Teve a impressão de que Peeta a chamou, mas não ficou para ter certeza.

E ali estava, quase correndo para o gramado da escola a fim de encontrar os amigos e trombando violentamente com alguém. O impacto a jogou para trás e soltou um muxoxo de insatisfação.

— Só assim para conseguir falar com você, não é?

Katniss avermelhou-se e ergueu a cabeça para Peeta. Optou pela dissimulação, piscou os olhos com uma expressão que achava parecer de desentendida e exibiu os dentes num sorriso afetado.

— Desculpe, queria falar comigo? Não sabia.

Afobada, passou a mão desocupada nos cabelos, a outra levava o lanche. Peeta a analisou por um instante. O escrutínio a incomodou e, por isso, pigarreou.

— Fui à sua casa ontem, seu pai disse que estava indisposta. Você está bem? Gostou dos cheetos? – perguntou ele.

— Sim e sim. Obrigada, a propósito. Uma dor de cabeça chata me atormentou ontem.

A mentira veio fácil e ele acenou com a cabeça.

— E dos M&Ms?

— Quem não gosta de M&Ms?

Peeta sorriu abertamente e, puxa, que sorriso! Katniss teve que o acompanhar.

— Bingo.

Katniss olhou para os lados sem ter o que dizer, a alegria sumindo aos poucos e a vergonha a inundando. Em sua cabeça, o beijo nada discreto repassava várias e várias vezes. Será que ele pensava o mesmo?

— Gostaria que me desculpasse, — Peeta disse e Katniss franziu o cenho -sabe, pelo que rolou sexta.

— Ah. – disse amuada – Eu que agradeço por ter me levado para casa. No meu estado, coisas horríveis teriam acontecido.

— Eu devia ter percebido que não estava bem desde logo. Só me dei conta da gravidade quando você parou de me beijar, começou a tropeçar nos próprios pés e desmaiou na varanda em cima de mim.

Dane-se o rubor nas bochechas, o sangue de Katniss drenou no corpo inteiro. Ela nem conseguia pensar no que fizeram sem perder a compostura e Peeta falava com tanta naturalidade.

— Que merda. – xingou encabulada.

Precisava ir embora e não olhar mais na cara de Peeta.

— Até ma...

— Sai comigo um dia desses? — Peeta falou ao mesmo tempo.

Katniss engasgou e, de forma involuntária, fez careta.

— Mas eu nem te conheço direito.

— Estou lhe oferecendo uma ótima oportunidade para fazê-lo. — Peeta entortou os lábios — Vamos lá, Katniss. Me dê a chance de conhecer a garota que me beijou dois dias atrás. — pediu.

A morena sentiu o café da manhã revirar no estômago e o gosto azedo da bile na garganta. Para aliviar a tensão, fincou as unhas no papel pardo que cobria seu lanche.

— Lamento pelo que houve, de verdade. Não costumo ter atitudes tão ousadas. Fico lisonjeada pelo convite, mas terei que recusar. — resignada, Katniss agarrou mais firme o sanduíche que levava ao ponto de amassa-lo.

Tentou, em sua escolha de palavras, ser simpática e educada. Já saíra antes com um rapaz, mas com Peeta? O constrangimento ainda era latente demais para tal, além de que a possibilidade de sair com ele a deixava nervosa, que dirá a concretude disso.

Peeta enfiou as mãos nos bolsos da calça e se inclinou para ela.

— Sem chance de reconsideração?

Katniss crispou os lábios e negou com a cabeça. Peeta inspirou fundo e soltou o ar, parecia um tanto decepcionado.

— Te vejo por aí, Katniss. — disse se retirando.

A garota emitiu um grunido baixo de irritação e esfregou as bochechas.

— Ah! — Peeta voltou -se para ela — Devo tomar cuidado com você?

Confusa, Katniss retorceu o rosto.

— Por que deveria?

— Sei lá, de repente você pula em mim e me beija por aí. — ele deu de ombros causalmente — Só quero estar preparado para o acontecimento.

Peeta virou -se rindo e foi embora. Katniss irritou-se mais ainda, dessa vez com ele.

— Foi você quem me beijou! – gritou para ele.

Ignorando a atenção indesejada das pessoas ao redor, desembrulhou o sanduíche e o mordeu raivosamente, mastigando com violência enquanto caminhava para o gramado. Peeta Mellark podia ser meio presunçoso quando queria, e mesmo assim o coração dela saltou um pouquinho sob a constatação de que ele pensava no beijo.

**

Professor Beete escrevia no quadro enquanto a turma se organizava nas carteiras. Katniss, acompanhada de Annie, chegou atrasada, a conversa com os amigos havia sido comprida. Eles (no caso Annie e Madge, pois Gale não ligava muito) exigiram os detalhes sórdidos do acontecimento, contou, inclusive, sobre o convite para um encontro. Annie riu a toda quando Katniss disse que negou, Madge e Gale também, embora mais contidos.

Deram-se conta do horário ao notarem o gramado praticamente vazio. Correram para suas aulas se esgueirando pelos corredores no intuito de não toparem com Heavensbear.

Katniss e Annie sentaram em carteiras no fundo da sala separadamente, pois não havia duas disponíveis uma ao lado da outra.

Katniss espiou a outra extremidade da sala, Annie acomodara-se na frente de Finnick. Ele ocupou-se em enrolar o cabelo de Annie na ponta do lápis, circundando uma mecha sem que a ruiva notasse. Em dado instante, Annie pegou Finnick no flagra e, de cara feia, puxou a mecha com a qual ele brincava e jogou o cabelo por cima de ombro esquerdo.

Katniss afundou na carteira vazia e tirou o caderno da bolsa. Alguém jogou uma bolinha de papel em seu braço. Com o semblante fechado, olhou ao redor, ninguém deu sinal de ser o autor da gracinha. Em seu escrutínio, viu Peeta uma cadeira a frente na fileira do lado. Curvado sobre o caderno, rabiscava displicentemente um desenho feio de casinhas e pessoas em forma de palito, parecia concentrado. Ela queria se sentir segura para aceitar seu convite.

Uma segunda bolinha de papel a atingiu. Dessa vez, Katniss inclinou-se e pegou o papel, desamassou-o e viu no interior o rabisco mal feito de uma bonequinha magrela com alguns fios vindos da cabeça e um vestido em forma de triângulo com a tentativa de ilustração do que seria um pênis, na boca. Abaixo estava escrito "Queremos biz, Everdeen".

Enraivada, Katniss fechou os olhos e contou até cinco antes de abri-los. Pegou a caneta que estava na carteira, rabiscou em letras miúdas "então faça você mesmo, babaca" e deixou o papel cair no chão. Que qualquer um pegasse, não se importava. Pelo canto do olho, viu Pólo, um dos anfitriões da festa, alcançar o papel com o pé, uma fileira depois dela. Katniss resolveu deixar para lá e escondeu a cabeça nos braços.

Professor Beete finalizou a escrita no quadro. Os alunos viam-se diante do cronograma do dia da excursão.

— Em dois dias teremos nossa excursão ao The Art Museum. A entrega das autorizações será na entrada do ônibus. — disse o professor e cruzou os braços — Não as aceitarei antes disso.

Beete ditou as instruções e uma sequência de nãos se seguiu:

Não atrasar

Não namorar durante a viagem

Não se esquecer que era uma aula, só que fora da escola

Não se separar do grupo

Não fazer gracinhas

Não fazer idiotices...

— Quem transgredir as regras, perderá cinquenta por cento da nota semestral. — sentenciou Beete.

Protestos indignados dos alunos insurgiram.

— De quem não calar a boca agora também. — ameaçou com tranquilidade e os reclamões calaram-se instantaneamente.

Katniss anotou as informações em seu caderno e fez a nota mental de pedir a Haymitch que assinasse a permissão.

— Alguma dúvida? — Beete perguntou.

Várias mãos se ergueram e sucedeu-se uma sessão de perguntas e respostas, as quais Katniss pouco se importava. A cabeça estava ocupada demais com o não que dissera mais cedo.

**

No dia da excursão, a mãe de Annie, às sete da manhã em ponto, parou na casa de Katniss. Esta resolveu deixar o pai tomando café e pediu carona à amiga, já que, de toda forma, a mãe a levaria à escola. Katniss correu para o automóvel, a bolsa sacolejando nas costas.

Sra. Cresta verificava o batom no retrovisor e Annie mexia no celular. Sorrindo, a mais velha cumprimentou a morena.

— Bom dia, Sra. Cresta. — respondeu.

Annie virou -se e mostrou a língua para Katniss, que retribuiu o gesto.

Na escola, ao lado do ônibus, três alunos iniciavam a fila. As meninas saíram do carro e a mãe de Annie as acompanhou.

— Annieta. — chamou.

Annie retorceu o rosto em desgosto por ser chamada pelo nome completo e Katniss abafou a risada.

— Mãe?

Sra. Cresta aproximou -se das duas e beijou a bochecha da filha.

— Lembre-se de que arte é cultura e toda cultura é...

— Toda cultura é válida. — Annie completou — É, eu sei, mãe. Obrigada. — beijou o rosto da mãe.

— Tenham um bom passeio, querida. — Sra. Cresta disse abraçando Katniss.

— Obrigada.

Enquanto olhavam-na ir embora, Annie falou:

— Cara, eu amo a minha mãe, mas nunca vou entender o mau gosto dela ao escolher meu nome.

— Seu nome não é feio, só é diferente, como o meu.

— Ah, querida, o seu é um diferente legal. O meu parece a indecisão de uma mulher entre Ana e Julieta.

Enquanto andavam para a pequena fila, o carro de Finnick surgiu na rua e ele pulou para fora. Comia um dunnut coberto de açúcar recheado de chocolate quando alcançou as duas.

— Bom dia, meninas. – cumprimentou alegre — Annie, sua cara está inchada, tem certeza de que acordou?

— E você? Tem certeza de que seus dentes não vão apodrecer com tanto doce de manhã cedo? — rebateu Annie.

— Sempre arisca. — disse passando por elas.

Annie e Finnick terminaram muito bruscamente dois anos atrás. Foi ela quem tomou a decisão do término, Finnick sequer teve oportunidade de considerar. Annie nunca dissera à Katniss os motivos que a levaram a tal decisão, embora a morena pensasse que a amiga, mesmo sendo tenaz e segura de si, não se sentisse confiante o bastante quando era namorada de Finnick, dado o tamanho de seu fã clube. Katniss entendia Annie, era melhor abrir mão do que poderia ser a se machucar tentando.

— Ele ainda gosta de você. — pensou alto e maldita fosse a cabeça sem filtro que tinha. No instante em que falou, teve vontade de recolher as palavras.

Annie fez som de descaso e dispensou com a mão o comentário.

Passados vinte minutos desde que chegaram, a fila estava grande. Professor Beete recolhia as permissões devidamente assinadas a medida que os alunos entravam no ônibus, quando Peeta chegou montado numa moto preta e barulhenta. O coração de Katniss involuntariamente deu um puxão ao vê-lo. Beete bateu palmas chamando sua atenção. Encarou o professor, que estava com a mão estendida, na porta do ônibus. Era sua vez de entrar.

— Sua permissão, Katniss.

Com rapidez, tirou o papel da bolsa e o entregou, escapulindo para a segurança do ônibus. Logo atrás, Annie a seguia para o meio do corredor. Ambas acomodaram-se nos assentos e aguardaram a partida.

**

— “O Papado sendo Oferecido ao Santo Gregório, o Grande” é uma obra do pintor italiano Giovanni da Fiesole, mais conhecido como Fra Angelico. – Beete explicava a quarta obra pela qual passavam.

Estavam diante de uma pintura intermediária entre o fim do período Gótico e início do Renascimento. Peeta entortou a cabeça para o lado. Para ele, não havia nada de muito grandioso na obra, mas Beete falava com tanta empolgação que tentou de verdade ver tudo o que o professor tão apaixonadamente descrevia. Dois homens sentados podiam ser vistos, um num trono e o outro num banquinho, ambos carecas e trajados em batas. Atrás deles, via-se um castelo e casinhas.

Enquanto o professor descrevia a têmpera e o ouro usados pelo artista, Peeta avistou Katniss pouco distante, particularmente bonita naquela manhã. Apoiava o caderno em um dos braços enquanto fazia anotações do que Beete explicava, a testa franzida em concentração. Peeta não era de escrever, preferia apenas ouvir. Ainda olhando para Beete, postou-se ao lado dela em silêncio.

— Sinceramente, já vi obras melhores. – cochichou.

Katniss interrompeu a escrita por um breve instante e o olhou.

— Tenho uma prima que faz pinturas estupendas e bem mais impressionantes que essa. – concordando, ela disse baixinho.

— Já viu o palácio chinês? – perguntou Peeta referindo-se a uma das maravilhas do museu. Ficara deveras empolgado para conhecer desde o anúncio da excursão.

Katniss balaçou a cabeça em negação.

— Nunca tinha vindo aqui, estou ansiosa para conhecer a casa de chá japonesa. A mãe de Annie disse que era um barato.

Annie, pensou ele, devia ser a garota ruiva que andava com ela, a qual estava na fileira da frente vendo a obra. Peeta viu a oportunidade de ouro de engatar numa conversa com Katniss e a agarraria com certeza.

— Podemos ir juntos quando Beete nos liberar para explorar, se quiser.

A garota mordiscou o lábio e olhou para frente.

— Tudo bem.

Peeta quase sorriu em comemoração, mas se conteve com o júbilo internalizado. Ele só não sabia por que ela negara seu convite para um encontro. Desde a festa, pensava em Katniss mais do que gostaria e queria conhece-la melhor. Desejou ir direto ao ponto.

— Por que me disse não?

A morena arregalou os olhos minimamente e o encarou.

— Pra falar a verdade, não sei. – tentando aliviar o clima, ela acrescentou – Você não me parece ruim.

— Não pareço ruim? – ele fez uma careta – Sendo bem franco com você, gostaria que me desse a chance de mostrar-lhe que não sou nada mal, um pouco bacana até.

A tentativa de aliviar a tensão ainda não funcionara, visto que Katniss continuava meio sem graça.

— Escute, se for constrangimento por causa de sexta, relaxe. Aquilo a deixou mais interessante ainda.

Katniss arfou e bateu a mão na testa. Peeta riu.

— Parece-me que a conversa de vocês é mais estimulante do que o pré-renascentismo, Katniss e Peeta. – Beete falou alto.

A turma inteira olhou para trás, para os dois e Peeta, sem um pingo de vergonha, botou um sorriso dissimulado na cara.

— Nada é tão mais estimulante que sua aula, professor.

— Ah é? Então deixe que julguemos isto, faça-nos o favor de compartilhar o que você e Katniss diziam, por favor.

Katniss levantou as vistas para Peeta, os olhos bonitos irritadiços, os dele, divertidos. Era agora ou nunca.

— Perguntava à senhorita Everdeen se gostaria de sair comigo sexta, no horário que ela quiser.

A comoção foi geral. Surpresos e zombeteiros, os alunos riam, Beete revirou os olhos e Katniss, bem, ela parecia prestes a matá-lo. Desde que saísse com ele, não ligava se o fizesse.

— Chega, chega. – Beete ordenou. – Katniss, pelo amor que sinto pela arte, quer respondê-lo logo para que eu continue minha aula, por gentileza?

— Aceita logo, garota. – alguém disse.

Katniss estreitou os olhos, apertou o caderno nas mãos e permaneceu calada. Beete tomou isso como sua deixa e seguiu com a aula, dessa vez indo para outra ala.

Peeta andava com as mãos nos bolsos ao lado da garota que continuava calada, até que:

— Sexta à noite está bom para mim.

Por pouco, Peeta não socou o ar em comemoração.

Notas finais
Comenteeeemmmm por favor ♥ Até logo!!