Intrinsically
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Katniss se apegava fácil a detalhes. Pequenas incursões que passariam despercebidas pela maioria das pessoas, a ela eram normais e notórias. Achava tanto uma benção quanto uma maldição.
Os detalhes fincavam as garras no cérebro como sanguessugas famintas. Não desligavam e vinham à tona despercebidamente. Uma palavra, um gesto, um olhar, uma música cantada, uma simples hesitação, uma roupa. Tudo isso roubava sua atenção e, quando recordava da situação, lá estavam os detalhes frescos na memória, tornando mais vívido o momento.
Katniss se apegava fácil a detalhes. Por essa razão, vendo Effie na porta de casa, vestida numa sofisticada bata e cardigã cor creme, o cérebro refrescou de que aquele cardigã era o mesmo que ela usava no dia em que foi embora.
Ofegante, ela se afastou de Peeta e agarrou na viga da varanda a fim de se estabilizar. Os olhos perderam o foco e lutavam para desembaçar. Por que estavam embaçados? Com a pouca força que lhe restava, tropeçou para fora dos degraus e, com passos vacilantes, foi embora.
Ouviu a voz de Peeta chamando e não parou, continuou pela calçada e puxou os cabelos até o couro cabeludo arder. Um grito entalado ameaçou sair e ela engoliu para o fundo do estômago aquela ânsia quase insuportável de berrar. Tinha consciência de que devia parecer uma louca tendo surto, mas não conseguia parar. Uma umidade irritante tomava conta de suas bochechas, só então percebeu que chorava silenciosamente, um tremendo contraste com o que de fato sentia.
Effie voltou, depois de machucar a familía. Não. Effie era o machucado, um machucado passageiro que deixou dores permanentes. Mãos agarraram-na pelo braço e a viraram. Peeta enxugou a bochecha dela com os polegares e, preocupado, a encarou.
— Qual é o problema, Katniss?
A garota olhou além do ombro dele, para o nada.
— Effie está tão bem cicatrizada na minha vida quanto uma ferida aberta que jogaram vinagre em cima. Ela nunca vai embora. — sussurrou para si mesma.
Mesmo sem entender o significado da confissão, Peeta a sufocou num abraço. Katniss não conseguiu retribuir, então se permitiu ser acalentada sem dar nada em troca.
— Era minha mãe. Sabe, aquela mulher. — esclareceu, a voz abafada no peito de Peeta. A camisa dele umedecida pela pele molhada foi um conforto necessário e nada familiar.
O único indício de que ele ouviu foi a mão que subiu e desceu nas costas dela. Apesar da relação deles se estreitar numa velocidade assustadora, Katniss, exposta daquela forma, não se sentiu a vontade. A dor do abandono era quase tão antiga quanto sua vida, precisava ser vista por alguém que a compreendesse inteiramente.
— Preciso de Gale. Pode, por favor, me levar até ele? – pediu, a voz fragilizada e embargada.
Peeta a soltou e, confuso, balançou a cabeça em concordância.
Abraçando o corpo, Katniss esperou por ele onde estava, enquanto o loiro buscava a moto estacionada na frente da casa dela. O vento que soprava deu-lhe arrepios, a roupa úmida nada aconchegante, mesmo com o calor do sol cobrindo a extensão da cidade.
Katniss lembrou -se de Haymitch. Inconsolável como estava, abominava a ideia de que ele soubesse da vinda de Effie sem contar-lhe nada. Repetia a si mesma que ele não podia ser tão cretino assim, não com ela, sua filha. Era um problema a ser resolvido quando resolvesse voltar para casa.
De repente, ela percebeu ao subir na moto de Peeta, não tinha mais lar a não ser a si própria.
**
Gale abriu a porta no segundo toque da campainha, Madge em seu encalço. Os dois sorriam, mas as feições alegres sumiram quando Katniss, abalada e triste, se jogou sobre o amigo. As lágrimas antes silenciosas se transformaram num som horrível e doloroso, o corpo magro da garota balançava em ruidosos soluços, arquejos escapavam e ela sofria dos pés a cabeça.
Madge e Peeta trocaram olhares, a garota confusa e preocupada, Peeta meio assustado. Gale acariciava os cabelos de Katniss e murmurava palavras num consolo quase impossível. Quando parecia pouco mais calma, Gale conduziu a amiga para dentro.
Sentindo-se um completo estranho, Peeta não ousou segui-los. Fosse o que fosse, Katniss não contava com seu apoio. Frustrado e apreensivo, sentou – se sobre a viga do cercadinho da varanda. Teve a imensa necessidade de esmurrar alguma coisa, de preferência uma superfície dura para que a dor na mão o distraísse da tremenda inutilidade que sentia naquele momento.
Achava-se um babaca egoísta por, nem que por um ínfimo segundo, ter pensado em Gale como confidente especial de Katniss, em quem ela podia confiar e desabar sem reservas, enquanto que ele, bem... era apenas o cara que a levou de moto até lá. Mas isso não importava dada a enormidade da tristeza da garota. Pelos fragmentos da história, tirou a conclusão de que a mãe não morava com ela, talvez não a visse há algum tempo. Ainda assim, não imaginava o que de tão horrível acontecia debaixo daquilo tudo. Desanimado, bufou.
— Oi.
Peeta se virou, as mãos apoiadas sobre a madeira. Uma farpa entrou em seu dedo com o atrito do movimento. Madge fechou a porta e tomou impulso para subir no cercado, ao lado dele. Peeta respondeu com um maneio de cabeça e cutucou o dedo machucado, o local onde a farpa entrara começava a inchar. Madge suspirou e Peeta a olhou. Parecia querer dizer algo, mas permaneceu calada. Ele e Madge só trocaram meia dúzia de palavras desde que se conheceram, seriam um tanto tristes as circunstâncias para uma conversa.
Depois de dez segundos, ela falou:
— A mãe de Katniss a abandonou há nove anos. Nunca se falaram ou se viram depois disso.
Peeta retesou as costas e, desconfortável, se mexeu.
— Tio Haymitch era louco pela esposa, fazia tudo que podia para agradá-la. Obviamente, não foi suficiente. – Madge continuou e deu de ombros — Katniss nunca soube o motivo de ela tê-los deixado. Mas, sabe, não acho que um motivo real tornaria a situação menos horrível. Quer dizer, que tipo de mãe vai embora, para começo de conversa? Parece-me injustificável, já que eles eram uma família.
Peeta piscou, absorvendo a enxurrada de informações. Foi inevitável não pensar em Lucile e Henry, seus pais. Eles não escolheram deixá-lo, a morte os obrigou. Não conseguia imaginar uma vida em que um deles optasse por isso.
— Casais se separam diariamente, seguem a vida, tudo bem. – Madge arrancou um pedaço de tinta que descascava na madeira — Já as mães e os filhos... É um amor incondicional, na teoria. Acho que isso é o que mais machuca Katniss. Ela conheceu a falta de amor muito cedo, descobriu que, ao contrário do que muitos pensam, o ódio nem sempre é o antônimo de amor. Antes fosse. Ele, pelo menos, implica sentimento, você sabe que existe algo, uma fagulha. A indiferença, por outro lado, tende a ser o mais cruel dos estados.
O estômago de Peeta deu um nó. A doce e divertida Katniss sofria por algo que fugia de seu controle.
— Não sei o que dizer – sincero, devolveu. E era verdade, o que diria diante de tal revelação?
Madge pôs a mão sobre a dele e a apertou de leve.
— Não há o que ser dito, mas o que ser feito. Katniss é uma das garotas mais legais que conheço, incrível como ela só. – a garota sorriu – Temo que ainda não percebeu isso. – Madge o encarou e encolheu os ombros — Gale não queria que eu te contasse.
Peeta concordou com um balançar de cabeça, mesmo que discordasse em seu coração.
Madge prosseguiu:
— Disse que era algo que Katniss deveria fazer. Mas, conhecendo-a como é, suspeito que esse dia talvez nunca chegasse. – cansada, respirou fundo — E tenho fé no que você sente por ela, gosto da relação de vocês. Você faz bem a ela e sei que se importa com Katniss. Acredito que fará bom uso da informação.
— Obrigado, de verdade. – sorrindo minimamente, agradeceu e olhou para frente – Só não sei se Katniss vê em mim alguém com quem contar.
— Peeta, Katniss não faz amigos com tanta facilidade. Olhe para nós, somos amigas desde o primeiro ano, isso porque Gale foi nossa ponte de ligação. Suspeito que, se não namorássemos, Katniss e eu seríamos estranhas uma para a outra.
“Com o tempo, ganhei espaço em sua vida, mas não pense que jamais senti-me excluída. No início, vendo a interação dela com Annie e Gale, seus amigos de infância, achava as chances de uma amizade pouco promissoras. Assim, tomei a liberdade de estreitar os laços e deu certo.”
O garoto apertou a pele inchada do polegar e se concentrou na pontada de dor.
— Você já deu o primeiro passo e tomou atitudes ousadas que desafiaram a estabilidade de Katniss. Devo dizer que a encantou. Espere mais um pouco, ela vai se abrir. – Madge encerrou e pulou do cercado, deu batidinhas no short e sorriu para Peeta.
— Gale é seu melhor amigo, mas você é o garoto que a conquistou, não ignore isso.
Madge voltou para dentro da casa e o deixou sozinho remoendo a conversa. O garoto que a conquistou. Não podia dizer até que ponto isso era verdade, porém, sabia de si mesmo. Katniss o conquistara, e ele faria o que estivesse em seu alcance para nunca mais vê-la sofrer daquele jeito, ou, pelo menos, ser para ela alguém a quem pudesse recorrer.
Por isso, com uma nova determinação em mente, Peeta a deixou em casa mais tarde. Já era noite e ela sofria menos. Katniss entregou-lhe o capacete e fungou. Antes que ela alcançasse a varanda, baixinho, Peeta xingou a si próprio e saltou da moto.
Ofegando, parou diante dela. O cinza das íris de Katniss estava mais escuro e ao redor o vermelho cobria todo o resto. Olhos cansados e inchados de tanto chorar o contemplaram. Ele limpou a garganta, envergonhado do que estava prestes a dizer.
— Chego atrasado em quase tudo, inclusive na sua vida. – começou e deu um sorriso sem jeito – Sinto muito por sua mãe, Katniss.
Ela abaixou os olhos e fungou mais uma vez. Peeta não sabia o que dizer, nunca precisou consolar ninguém. Quando os pais morreram, ele que foi consolado. A dor era tão grande e assustadora para a cabeça de criança dele que não cogitou consolar nem o próprio irmão. Então, pensou no que Madge dissera. O garoto que a conquistou. Em silêncio, Katniss chorava, os dedos esfregando a pele do rosto com força. Peeta tomou coragem e disse:
— Sei que não é a mesma coisa, embora tenha, em um grau diverso, perdido minha mãe. Conheço a dor e, tudo bem se você tiver raiva, tudo bem chorar, gritar. Tudo bem sentir dor. Permita-se sentir. Só... – fez uma pausa, organizando os pensamentos – Só não deixe de viver, por favor.
A face de Katniss assumiu expressão de surpresa diante do tom de súplica.
— Não vale a pena viver de passados infelizes e esquecer-se do resto. Você é uma garota fantástica, merece bem mais do que a vida lhe ofereceu. Eu sinto muito, Katniss. – Peeta colocou a mão na bochecha dela e beijou-lhe a testa. Demorou-se no ato, os lábios sobre a pele morna da garota. Sentiu os braços de Katniss timidamente abraçarem-no, e ele tratou em corresponder.
— Mais importante que um amor, prometo-lhe ser seu fiel amigo e compartilhador de aventuras, mesmo as mais tempestuosas. – declarou. Com o rosto dela escondido em seu peito, ele franziu a testa para as palavras que dissera, soando românticas demais até para ele, que não tivera a intenção. Aparentemente funcionou, pois Katniss, pouco a pouco, relaxou no abraço. Por fim, ela disse:
— Guardarei com carinho em meu coração.
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