Lorenzo Castellamare

12 de outubro de 2019

Início da madrugada

Meu coração martelava dolorosamente em meu peito e minha respiração saía pesada, audível e bastante descontrolada conforme eu me dirigia até a sala de autopsia. Poderia muito bem ser resultado da correria que fiz do escritório até aqui por meio de tantas escadas quando recebi o chamado menos de cinco minutos atrás, somada a rápida mudança obrigatória de roupa para adentrar o espaço médico, mas a realidade é que toda a cafeína ingerida durante as últimas horas somente agora estava dando o ar da graça.

Cinco xícaras. Todas de uma vez.

A sensação era que eu estava ligado nos 220W – talvez até mais. Nem parecia a pessoa controlada e analítica que tinha lutado em ser nos últimos dias. Contudo, os fatores do dia anterior modificaram muito rapidamente a minha maneira de agir, e, por isso, quando adentrei a sala onde os outros me esperavam, olhos fixos sobre o homem morto – nossa pauta principal no momento – eu já estava quase que completamente sem ar algum nos meus pulmões, aparentando, provavelmente, um completo louco em abstinência.

— Lorenzo, que bom que você chegou – Joseph Raynott me dirigiu um cumprimento rápido, mas não tirou seus olhos do trabalho que o médico legista fazia no corpo estendido na superfície metálica logo em sua frente. Não sei se foi por educação ou apenas distração, mas meu amigo não pareceu notar meu estado de espírito agitado, e fiquei grato por isso.

Ele segurava um caderno em suas mãos e eu sabia que estava fazendo o papel de assistente naquele instante.

— Descobriram algo? – Eu os olhei apenas para em seguida respirar fundo e prestar total atenção na calma com a qual Christian Packard manejava os instrumentos, o bisturi terminando de fazer a incisão nos tecidos internos do estômago da vítima antes de, com o auxílio da tesoura cirúrgica, ele retirar o órgão por completo e colocá-lo sobre a balança.

Gradativamente, conforme eu assistia, minhas batidas cardíacas retornavam ao seu ritmo normal – ou o mais próximo disso que toda a cafeína ainda ativa permitia chegar. Pisquei rapidamente algumas vezes, me concentrando.

Apesar do meu grande desconforto em usar as obrigatórias vestes plastificadas de proteção para adentrar a sala de autopsia que agora parecia tão fria quanto a própria morte, me vi inclinado para a frente, hipnotizado pela prática e destreza que o doutor apresentava sem sequer hesitar conforme seguia com seu trabalho.

Alguns instantes muito intensos se passaram em silêncio enquanto o médico avaliava o órgão recém extraído.

— Anote o peso, por favor, Joe, e faça um corte histológico* para levarmos ao laboratório – ele soltou um suspiro antes de erguer seus olhos para mim por apenas dois segundos. – Ainda que eu esteja apenas começando o procedimento da autopsia, Lorenzo, posso afirmar que a ligação com o assassinato das duas vítimas anteriores é bastante clara, e por isso acredito que a causa da morte é a mesma. Uma única facada no coração que fez esse infeliz homem sangrar até a sua vida se esvair por completo.

— Então o molde da faca usada nas vítimas anteriores serviu?

— Como uma luva – Christian afirmou sem mudar sua expressão facial.

E, mesmo sabendo que ainda teriam muitas horas para procura e análise de substâncias no corpo da vítima que poderiam ter alguma influência sobre esta morte até que de fato a mesma fosse concluída com precisão, essa simples constatação feita por Packard já fazia meu cérebro trabalhar mais rápido outra vez. O método, a cena do crime, o perfil da vítima, eram todos os mesmos.

Um homem acima dos 30 anos, assassinado dentro do seu carro, numa rua deserta sem quaisquer testemunhas, uma única facada no coração.

Mas, se fosse também como nas outras duas vezes anteriores, significava que estávamos de volta à estaca zero, e então esse seria apenas mais um crime a ser creditado para o maluco da vez, porque, para nosso infortúnio, esse assassino não cometia erros de deixar digitais, DNA ou qualquer ligação daqueles que matou consigo mesmo. Pelo menos até agora.

Sem quaisquer provas palpáveis, além das muitas hipóteses que já tínhamos, não poderíamos fazer nada e ele (ou ela como minha intuição dizia) continuaria a matar todos os homens infiéis que encontrasse pela frente até que se sentisse saciado, morresse, ou então fosse capturado por nós.

E eu simplesmente me recusava a deixar alguém assim à solta.

Talvez eu tenha tido alguma reação que nem eu mesmo percebi enquanto pensava, mas Christian soltou um suspiro em seguida e deu um passo em minha direção.

— Não perca as esperanças ainda, meu jovem. Vocês vão achar o culpado por essas mortes. Logo.

Acabei soltando um riso frustrado enquanto repassava todas as zero informações que tínhamos coletado.

— Não temos praticamente nada. Como pode ter certeza? – Acabei perguntando retoricamente. Era para ter sido uma resposta sarcástica, mas Packard abriu um sorriso para mim. Um sorriso que parecia muito mais sombrio do que deveria ser.

— Porque, Castellamare, dessa vez o assassino deu um deslize – e então me entregou um ziplock com identificação, e dentro dele havia um longo fio de cabelo. Meu sangue correu mais rápido com a percepção do que era aquilo. – Estava grudado no sangue perto da ferida no peito do falecido, difícil de encontrar, admito. Não fosse a limpeza do corpo, não teríamos visto. A pessoa com a faca não deve ter percebido o erro enquanto o matava. Peça para levaram até o laboratório e então fazerem a análise do DNA, uma busca no banco de dados. Eu tenho certeza de que esse não é um cabelo dele.

Por impulso eu olhei para a cabeça careca, lustrosa e ainda intacta do cadáver ali. Quase me permiti abrir um sorriso, as peças finalmente se encaixando, como um sucinto acender de luzes. De repente tudo estava claro em minha cabeça, e eu sabia que para Packard e sua mente afiada também.

A única conexão entre as vítimas até então, além da forma como foram assassinadas e serem todos homens com mais de trinta anos, foram os deslizes que eles cometeram em suas vidas conjugais. Eles não se conheciam, suas famílias também não, mas o histórico de infidelidade estava lá para todos verem.

Muitos ainda discordariam do que eu vinha assumindo já há algum tempo, mas o perfil se encaixava, e quem melhor para estar cometendo essa série de assassinatos que uma mulher com antecedentes ruins em sua vida amorosa, com gatilhos recentes de traição e perdas dolorosas quais não conseguiu lidar, correndo atrás de vingança contra homens que feriam suas esposas da mesma forma que um dia alguém havia feito com ela? Que forma mais simbólica de efetuar essa vingança que dentro do carro das próprias vítimas com uma única facada certeira no centro do coração desses homens? Apenas para em seguida deixá-los morrer com uma última visão do seu grande erro e daquilo que tirou suas próprias vidas?

De lado para a balança eletrônica que marcava o peso dos órgãos, do outro lado da maca, Joseph me olhava em dúvida, talvez sem entender o súbito ânimo e adrenalina que faziam meu coração se agitar mais uma vez. Eu esperava que Christian explicasse para ele, pois no momento eu não poderia fazer isso.

Agora, finalmente, tínhamos algo que poderia nos levar até a assassina e provar minha teoria.

— Alguém já te disse hoje que você é simplesmente sensacional, Packard? – Eu dei um leve tapa em seu braço antes de começar a andar em direção à porta, de costas para ela, ainda olhando para os dois pares de olhos que me fitavam sem piscar.

— Não, mas eu aceito o elogio. Obrigado, rapaz.

Saiu como um resmungo, mas eu repeti o quão incrível ele era até que alcancei a saída. E tão rápido quanto me movi, sua expressão também mudou. Ele conferiu Joe que fazia anotações em seu caderno e depois voltou-se para mim.

— Castellamare, você…

— Tomarei cuidado – me apressei em dizer, pois existia um sinal de alerta em seus olhos que eu já havia visto antes. Preocupação. – Ligue se conseguir mais informações, sim?

Seu olhar permaneceu o mesmo, sustentando o meu e quase vacilei em meus passos com a percepção.

— Castellamare – ele repetiu meu nome como um aviso, seu tom indeciso e avaliativo –, mais tarde eu e você…

— Para onde está indo, Lorenzo? – A voz de Raynott fez com que Christian se calasse, e a conexão entre nós se quebrou em seguida. Balancei a cabeça para os lados.

— Vou pedir para Eleanor encontrar a identidade dessa mulher – consegui dizer a Joe, apesar de desconcertado, e rapidamente me recompus. – Ligue para Elias e avise que você vai se atrasar para ficar com sua sobrinha hoje pela manhã! Vamos precisar de você. Esse caso pode estar muito perto de um fim.

Em um instante eu voltei a me mexer para longe deles, com pressa e colocando os pensamentos em ordem. Nenhum dos dois tentou me interromper no processo, sabiam minha prioridade, eles também tinham um trabalho a fazer.

Já do lado de fora me livrei daquela roupa de proteção inteira e a deixei onde deveria ficar para a higienização, mantendo comigo apenas aquilo que Christian havia me dado. Incrivelmente, eu acabei dando uma risada nasalada quando voltei a encarar o ziplok em minhas mãos.

Pela pequena abertura na porta, vi os dois dentro da sala trocarem um olhar furtivo perante minha atitude. Senti um arrepio tomar minha espinha. Mas o que seria isso senão a ansiedade somada a todas as outras coisas energéticas que me consumiam?

— Me procure mais tarde, Packard! – Eu gritei para ele, sem me esquecer de sua frase inacabada. – Terminaremos essa conversa depois.

Enquanto corri de volta ao meu escritório, fiz uma promessa a mim mesmo: nenhuma outra morte inocente viria acontecer durante esse caso. Não comigo como responsável dele.

Notas finais
*Corte histológico, resumidamente, trata-se de um procedimento biológico utilizado para estudar tecidos orgânicos no microscópio de luz e identificar diferenças entre suas texturas para enfim analisar e identificar as razões de tais distinções.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.