Into your loving arms
1 Capítulo Único
Notas iniciais
CAPÍTULO ÚNICO
Diante do espelho, fechei os últimos botões da minha camisa social e encarei meu reflexo. Parando para refletir, eu era verdadeiramente feliz com a minha vida.
Edward Cullen, 33 anos, professor universitário e chefe de família.
Virei de costas para o espelho e encarei Bella adormecida, atravessada totalmente esparramada em nossa cama. Observei o espaço livre ao lado dela e duvidei que eu mesmo coube ali apenas alguns minutos antes. Qualquer um que visse aquele móvel, diria que é uma cama bem grande. Mas os parâmetros mudavam quando se era casado com Isabella Swan-Cullen. Eu me perguntava como alguém tão pequeno conseguia ocupar tanto espaço, mas Bella conseguia se espalhar completamente pelo colchão quando dormia, deixando apenas espaços confusos para mim.
Observei minha esposa largada completamente torta, com o corpo coberto apenas parcialmente por um lençol embolado nela.
A noite anterior foi complicada. Vanessa, nossa filha caçula de 10 meses, chorou boa parte da noite e nós não sabíamos o porquê, Bella a embalou por horas até que a pequena voltasse a dormir. E depois, era Bella que estava chorando, questionando suas habilidades como mãe, então, num instante eu estava consolando minha esposa, negando todas as suas inseguranças, no instante seguinte, ela estava sobre mim, me beijando com voracidade e arrancando nossas roupas.
Desde o nascimento de Vanessa, Nessie como a chamávamos, Bella vinha tendo aquelas mudanças de humor repentina. Eu jamais reclamaria de ser atacado por minha esposa daquela maneira, mas eu queria poder entendê-la melhor para acolher seus sentimentos. Eu queria cuidar dela, era quase uma urgência para mim.
Eu conhecia Bella desde que éramos crianças, mas levou anos e muitas voltas da vida para que nos apaixonássemos e formássemos o casal que éramos…
15 anos atrás
– Eu apresento a vocês os formandos da Forks High School! – O diretor declarou no microfone e todo o auditório aplaudiu.
Jogamos nossos capelos para o alto em comemoração e começamos a dispersar, desfazendo as fileiras organizadas pela secretária do diretor em ordem alfabética de sobrenomes.
Tentei alcançar Emmett, meu melhor amigo desde o ensino fundamental. Abri caminho entre meus colegas de classe e alguns familiares, que já haviam conseguido se infiltrar na grande massa de formandos. Foi difícil alcançá-lo, mas não foi difícil encontrá-lo. Emmett era um cara alto e, ao longo do último ano, tinha ganhado bastante músculo graças aos treinos de futebol americano depois das aulas.
– Edward! Estamos formados, amigo! – Exclamou assim que viu eu me aproximar.
– Estamos formados! – Repeti.
Trocamos um breve abraço típico de rapazes, repletos de tapas nas costas um do outro.
– Finalmente acabou este inferno do ensino médio!
– Agora vem só a faculdade. – Ironizei, rindo. A faculdade devia ser milhares de vezes mais intensa do que o ensino médio, mas há tempos Emmett só pensava em se livrar da escola.
As famílias estavam começando a alcançar seus filhos na multidão de alunos e logo identifiquei nossos parentes chegando.
Minha irmã caçula, Alice, vinha na frente, rebocando a tiracolo sua melhor amiga, Isabella, que coincidentemente era prima do meu amigo. Certo, não era tanta coincidência assim, uma vez que elas duas só se conheceram graças à amizade entre nós dois.
Emmett era meu melhor amigo desde o primeiro dia de aula do ensino fundamental, nos tornamos inseparáveis desde o primeiro momento. A partir daí, conhecer a família um do outro foi inevitável. Alice e Bella, como a prima do meu amigo gostava de ser chamada, terem se conhecido foi apenas mais uma consequência da forte amizade que nós tínhamos. Elas duas terem desenvolvido um laço igualmente inquebrável, parecia obra do destino.
Bella era um ano mais nova do que Emmett e eu, e Alice, dois. Deste modo, as duas nunca frequentaram a mesma classe; mas, mesmo sem esse vínculo escolar, elas sempre foram melhores amigas.
No começo, não nos dávamos bem, existiu uma fase da infância que a rivalidade de gêneros falava mais forte. Porém, com o passar do tempo e de tantas relações familiares e amizades envolvidas, foi praticamente inevitável que nós 4 nos aproximássemos mais.
– Não acredito que meu irmão está formado! – Alice falou do seu jeito dramático de sempre e literalmente se jogou em mim, quase nos derrubando. – Parabéns, chato!
– Nem para me parabenizar você para de implicar comigo? – Tentei imprimir a indignação correta na voz, mas falhei categoricamente. Estava feliz demais, até mesmo para implicar com Alice. – Obrigado, irmãzinha. – Beijei o rosto dela.
Pela visão periférica, notei vagamente Bella também abraçar e parabenizar o primo.
Atrás delas duas, vieram meus pais, os pais de Emmett e, por fim, o solitário chefe Swan. Bella era criada apenas pelo pai desde que a mãe foi embora, quando ela era só um bebê. Talvez por isso ela tenha crescido tão próxima do primo e dos tios, pela necessidade de expandir um pouco seu pequeno núcleo familiar. Aquela era uma história que nós evitávamos mencionar, para não magoá-la, mas no meu íntimo eu precisava admitir o quanto a admirava por ter passado por tanta coisa desde tão nova e ainda assim ser uma garota tão forte.
Fomos abraçados e parabenizamos por nossas famílias, depois eles trocaram de lugar e assim cada um de nós recebeu também as congratulações da família do amigo.
– Mãe, podemos jantar todos juntos? – Alice pediu, logo depois que me desfiz de um abraço um pouco desajeitado com sua amiga. – Eu quero ficar com a Bella e acho que Edward e Emmett também vão gostar de estar juntos essa noite.
A ideia era boa e nós quatro olhamos para nossos pais em expectativa.
– Por mim tudo bem, se vocês concordarem. – Minha mãe liberou e passou a bola para os pais de Emmett.
– Acho que tudo bem. – A outra matriarca também permitiu. – Podemos ligar para o restaurante e alterar nossa reserva de 5 para 9 pessoas.
Os adultos rapidamente se fecharam numa conversa particular para resolver as questões práticas daquela mudança, enquanto nós quatro comemoramos e nos envolvemos num papo sobre planos futuros.
– Vocês já decidiram para qual faculdade vão? – Bella perguntou.
– Sim. – Emmett e eu respondemos juntos.
– Eu vou para Dartmouth, quero estudar algo voltado para preservação e cultura, estou pensando em estudar história da arte. – Prossegui.
– E eu vou estudar administração no Tennessee.
– Sabe que não vai herdar nenhuma empresa da nossa família para administrar, não é? – A prima o provocou.
– Nem só de herdeiros é feito o curso de administração.
– Eu sei, mas você não pode negar que o caminho é muito mais fácil para eles.
– Não posso negar mesmo, mas eu vou ser um administrador tão bom quanto qualquer um desses riquinhos que vão herdar o negócio da família sem precisar fazer o mínimo de esforço.
– É assim que se fala! – Encorajei.
– Ainda bem que eu tenho mais um ano para poder escolher qual curso vou fazer e onde. Parece uma decisão assustadora! – Bella ponderou.
– Você podia estudar gastronomia, sempre cozinhou tão bem! – Alice sugeriu.
– Isso é verdade. – Emmett concordou.
– Eu já pensei nisso, mas também penso em outras opções. É tão difícil pensar que vou estar tomando uma decisão para o resto da vida! – Suspirou.
– Você não precisa se preocupar com isso agora. Afinal, hoje é dia de festa. – Tentei minimizar sua tensão.
– Para mim faltam 2 anos mas eu já tenho certeza do que eu quero fazer! – Alice se meteu.
– E o que você quer fazer? – Emmett perguntou.
– Design! – Respondemos os três juntos e rimos.
– Ela sempre diz que quer trabalhar no estúdio da nossa mãe. – Expliquei.
– Não sei como você nunca ouviu ela dizer isso antes. – Bella completou.
Emmett deu de ombros. No melhor estilo de quem nunca ligou muito para absorver informações.
Dias atuais
Me perdi em pensamentos observando Bella adormecida em nossa cama e senti vontade de depositar um beijo em sua testa, mas desisti. O sono dela era bem leve e eu temia acordá-la, nós tivemos uma noite bem cansativa e ela precisava descansar. Soprei um beijo no ar, esperando que sua alma adormecida sentisse meu carinho mesmo de longe, e deixei o quarto.
No corredor, fui atropelado por um pequeno furacão de 1,20m. Minha filha mais velha, Elizabeth, ou apenas Lizzie, saía do banheiro já vestida para ir à escola.
– Bom dia, papai!
– Bom dia, querida.
– Onde está Bella?
Minha filha tinha tido outra mãe no passado, mas eu sabia que a relação dela com minha atual esposa era de puro amor, as duas haviam escolhido ser família uma da outra, assim como eu escolhi Bella para ser minha esposa.
6 anos atrás
Depois de me formar em história da arte na faculdade, acabei parando em Chicago, onde assumi uma vaga permanente na equipe de curadoria de um museu.
Após um dia normal de trabalho, eu estava voltando para casa onde encontraria minha esposa e nossa filha. Porém, o que eu não sabia é que aquele dia me traria uma surpresa fora da rotina. Assim que passei da porta do meu apartamento, ao invés de ver Lizzie brincando no tapete da sala, me deparei com malas colocadas ao lado do sofá.
– Tanya? – Chamei minha esposa conforme ia adentrando mais no apartamento. – Tanya? – Repeti do corredor.
– Nós precisamos conversar, Edward. – Ela disse assim que entrei em nosso quarto.
Tanya Denali, minha esposa que escolheu não mudar de sobrenome após o casamento, estava sentada na nossa cama, de lado para a porta onde eu estava parado, e nem sequer se moveu ao me ouvir entrar.
– O que está acontecendo? – Perguntei, atônito.
– Eu estou indo embora. – Tanya finalmente olhou na minha direção, seu rosto com uma emoção estranha, que eu não consegui identificar, mas com certeza permeada de determinação.
– O que aconteceu?
– Não aconteceu nada, Edward. Eu só acho que a gente não tem mais futuro.
– Como assim não temos futuro?
– Seja honesto, nós dois já não estamos dando certo há muito tempo.
– E você acha que a solução é ir embora? Sem nem tentar fazer dar certo? Sem nem ao menos me dar uma chance de melhorar?
– Nós tínhamos química e foi isso que nos uniu no começo, éramos intensos e dividíamos a mesma chama.
Ela tinha razão, nós éramos intensos e tínhamos química. Namoramos por apenas 4 meses antes de decidirmos nos casar. Não tivemos festa nem grandes preparativos, apenas fomos a um cartório e nos casamos, pedimos a um casal que estava lá para serem nossas testemunhas. Kate e Garrett de sobrenomes ilegíveis na assinatura foram nossos padrinhos de casamento, que nunca mais voltamos a ver.
Minha mãe passou 3 meses sem falar comigo por ter me casado sem sua presença, e esse tratamento de silêncio só acabou quando eu mandei uma mensagem contando que ela ia ser avó.
– Mas há tempos isso já não é mais suficiente para nós dois. – Tanya prosseguiu. – Nós queremos coisas diferentes agora, Edward. Eu quero retomar minha carreira de modelo, eu sinto falta disso desde que engravidei.
– Você não precisa me deixar para voltar a trabalhar, eu te apoio nos teus sonhos.
– Eu sei e é isso que eu amo em você. Mas eu sinto falta do agito, dos eventos e das viagens, enquanto essa vida pacata que nós temos agora é exatamente o que você sempre quis. Mas eu não sou a pessoa certa para estar ao seu lado. Eu sei que em algum lugar existe uma mulher perfeita para dividir esta vida com você e que você vai encontrá-la. Você merece! – Declarou com intensidade. – Quanto a nós dois, é melhor sermos sinceros com os nossos sentimentos e terminar agora que ainda somos amigos do que desgastar essa relação até não podermos levar mais.
– E Lizzie?
Ela olhou para a tela da babá eletrônica sobre a mesa de cabeceira, que exibia a imagem da nossa filha, de apenas um ano e dois meses, no quarto ao lado e sorriu.
– Nós sempre teremos um vínculo. Ela vai comigo, mas de maneira alguma quero te afastar dela. Podemos chegar a um acordo para compartilhar a guarda dela, não precisamos brigar por isso. – Ela se levantou e tocou meu rosto suavemente. Uma lágrima rolou pelo meu rosto. – Eu ainda quero que você faça parte da minha vida, Edward. Só que de um jeito diferente agora.
– E para onde você vai?
– Eu vou ficar na casa de uma amiga por enquanto, ela mora no extremo oeste do bairro, não muito longe daqui. Não quero me distanciar muito caso Lizzie precise de você.
Assenti.
Tanya me deu um beijo no rosto e saiu do quarto.
~*~
Quatro meses depois, eu estava esperando Tanya vir deixar Lizzie, agora com um ano e meio, para passar os dias comigo. Naquele período separados, tínhamos feito o acordo de compartilhar a guarda da nossa filha, ela ficava com Lizzie de segunda a quarta, eu de quarta a sexta e nós alternávamos os finais de semana. Naquela quarta-feira, eu estava à espera da minha filha e ficaria com ela até o final do domingo.
A campainha do apartamento soou e eu pulei da cadeira para abrir, já morrendo de saudades da minha pequena. Tanya ainda tinha passe livre na portaria do prédio, uma vez que tinha morado lá comigo, mas ela me devolveu as chaves, então sempre tocava a campainha.
– Papai! – Lizzie gritou no exato instante em que abri a porta.
– Que saudades, minha princesa! – A peguei dos braços da mãe e afundei meu nariz em seu pescoço, sentindo seu cheirinho característico de bebê. – Como vai, Tanya?
– Bem. E você?
– Bem também. – Respondi lhe dando passagem para entrar no apartamento.
Coloquei Lizzie no chão e ela correu direto para montar num cavalinho de plástico que estava no canto da sala.
– Alguma novidade? – Perguntei a Tanya.
– Nenhuma. A levei ao dentista ontem, mas foi apenas consulta de rotina, os dentes dela estão perfeitos.
– Que bom! E quanto a você?
– Consegui uma nova campanha, estou animada. Nós vamos viajar no final de semana e vamos até gravar umas cenas de helicóptero. Acho até bom que esse seja seu final de semana com Lizzie, seria complicado levá-la comigo desta vez.
Desde que nos separamos, Tanya tinha retomado sua carreira de modelo e, como nossa filha ainda era pequena, ela sempre a levava para os estúdios e locais de gravação.
– Que bom, fico feliz por você e por sua carreira estar indo bem.
– E você, alguma novidade?
– Não, está tudo na mesma para mim.
– Verdade? Nenhuma emoção na sua vida? Nem mesmo uma nova paixão?
– Não tenho espaço para romance na minha vida e você sabe, Tanya. Estou completamente focado na criação da Lizzie.
– Eu também estou, Edward, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra.
– Você está namorando alguém?
– Não, namorando não. Mas isso não significa que não tive uns dois ou três encontros casuais. Eu tive o cuidado de marcar sempre nos dias que a Lizzie estava com você, é claro, eu não estou pronta para trazer alguém novo para a vida dela ainda.
Parei um segundo para processar aquela informação, buscando dentro de mim a verdade de como me sentia ao saber que Tanya estava tendo encontros. E não achei nada. Nem ciúmes, nem mágoa, nem dor, apenas estava aliviado por saber que ela estava mantendo Lizzie longe daquilo. Nossa filha era a única coisa que importava, afinal.
– Mas você é romântico, Edward, vivi com você por dois anos e meio para saber disso. – Ela se aproximou de mim e tocou meu rosto com suavidade. – É totalmente você encontrar alguém para dividir a vida e trazer ela para a vida da Lizzie também. E eu sei que quando encontrar esta mulher, ela será perfeita. Não só para você, mas também será ótima para Lizzie e você tem meu apoio para apresentá-la a nossa filha.
– Obrigado, Tanya, mas isso não é mesmo necessário, eu não estou pensando em namorar ninguém no momento.
– Só estou dizendo que você deveria se abrir às possibilidades. – Deu de ombros. – Bem, eu tenho que ir agora. Nos vemos de novo no domingo à noite.
– Até domingo! – Acenei, vendo ela deixar o apartamento.
~*~
Domingo à tarde, após o almoço, aproveitei que Lizzie estava dormindo, para revisar a documentação da exposição que começaríamos a montar no museu na segunda-feira. Logo que anoitecesse, eu iria levar minha filha de volta para a mãe, após 4 dias e meio maravilhosos com ela.
Estava focado na tela do notebook quando o celular tocou ao meu lado.
– Alô.
– Sr. Cullen?
– Sim, sou eu.
– Seu número consta como contato de emergência de Tanya Denali, o senhor está ciente disto?
– O que houve com ela? – Perguntei alerta, ignorando completamente a informação de que Tanya nunca tirou meu número do seu contato de emergência, mesmo meses depois que assinamos o divórcio.
– Sr. Cullen, houve um acidente esta manhã com o helicóptero da Srta. Denali e sua equipe.
– Ela está bem? – Me levantei de supetão da cadeira, encarando Lizzie adormecida no sofá à minha frente.
– Sinto muito, mas não houve sobreviventes no acidente.
Tornei a cair sentado na cadeira.
Dias atuais
– Bella ainda está dormindo. – Respondi à dúvida da minha filha.
– Ela está bem?
A dúvida de Lizzie era compreensível, em geral minha esposa acordava cedo, primeiro até do que eu.
– Está sim, só está cansada. Sua irmã chorou a noite toda.
– Eu posso dar um beijo nela? – Eu achava lindo o carinho que ela tinha pela madrasta, mas lembrei-me da nudez de Bella, mal coberta pelo lençol todo embolado, e achei melhor não ter que explicar para minha filha nossa atividade noturna.
– É melhor a gente deixar ela descansar. – Pus as mãos nos ombros de Lizzie e a guiei para longe da porta do meu quarto. – Venha, vou colocar seu café da manhã.
A levei para a cozinha e comecei a preparar as torradas que ela comia toda manhã.
– Papai, você e a Bella se conhecem há muito tempo, não é?
– Sim. – Sorri saudoso. – Mas por que a pergunta? Você conhece nossa história muito bem.
– É minha história favorita!
– A minha também, querida!
3 anos antes
Alice estava me perturbando com tantas mensagens. Ela insistia que eu deveria ir a Forks fazer uma visita para ela e nossos pais. É claro que eu amava minha família e sempre iria querê-los por perto, mas eu não podia suportar os olhares da minha mãe desde que me tornei pai solo.
“Eu sei que você vai tirar férias em breve.” Ela escreveu numa das mensagens. “Você deveria aproveitar para vir me visitar.”
“Você já sabe minha resposta, Alice.”
“Isso é por causa da preocupação excessiva da mãe desde que ficou só você e a Lizzie, não é?” Me alarmei com a resposta dela, eu nunca havia externado aquele sentimento para ninguém, nem mesmo para mim em voz alta. Eu me sentia péssimo por evitar minha própria mãe, mas eu simplesmente não podia suportar a piedade dela. Voltar para casa significava encarar tudo isso e eu simplesmente não estava pronto.
É claro que, nos 3 anos desde a morte de Tanya, eu não pude evitar que meus pais fossem até Chicago nos visitar, mas era diferente. Lá era meu território, mesmo que minha mãe exagerasse nos cuidados comigo, eu ainda estava no comando, eu tinha medo de perder o controle em Forks e acabar a mercê da piedade dela.
“De onde você tirou isso?” Respondi à mensagem após vários minutos pensando no que poderia dizer.
“Sou sua irmã, Edward, eu te conheço!”
“Muito mal, pelo visto.” Rebati na defensiva.
“Não precisa mentir para mim, sinceramente, eu te entendo e acho que me sentiria da mesma forma se estivesse no seu lugar.”
“Mas também entendo a mãe, ela só quer seu bem e eu preferia que você não a julgasse por isso.” Completou em seguida.
“Não a julgo, Alice, e juro que também tento compreendê-la, mas isso não significa que eu esteja pronto para lidar com tudo.”
“Por isso eu acho que é o momento perfeito para você vir, o pai e a mãe também vão estar de férias e vão viajar.” Não era exatamente uma surpresa eu estar de férias na mesma época que meus pais, afinal aprendi com eles as vantagens de tirar férias na baixa estação.
“Então por que você está me convidando?”
“Porque estarei só eu cuidando da casa dos nossos pais enquanto eles estão fora e talvez assim, quando a mãe voltar, perceba que você não está tão indefeso quanto ela pensa.”
Refleti um pouco sobre o assunto, Alice tinha um bom argumento. Além disso, eu queria que Lizzie conhecesse minha cidade natal, já fazia tanto tempo desde a última vez que fomos lá que eu duvidava que ela se lembrasse.
“Eu vou pensar, Alice.” Respondi por fim.
~*~
Esperei até ter certeza que meus pais tinham embarcado em sua viagem para poder confirmar à minha irmã que iria retornar para uma visita. Levei 4 dias para comprar as passagens e fazer a minha mala e a de Lizzie. Então, estava embarcando num avião rumo à Seattle, onde aluguei um carro para seguir viagem até Forks, minha cidade natal.
Após horas de estrada, que pareciam ainda mais longas com uma criança entediada no banco de trás, eu finalmente estava diante da casa onde cresci.
Lar doce lar!
Alice sabia que eu estava chegando, mas a casa parecia estranhamente vazia. Toquei a campainha e nada aconteceu.
“Chegamos.” Escrevi para minha irmã, talvez ela ouvisse o celular melhor que a campainha e viesse nos receber.
“Oh Edward, eu sinto muito!”
“O que está acontecendo?”
“Houve uma emergência no escritório e eu tive que vir resolver.” Ela trabalhava com nossa mãe e, com ela viajando, deduzi que era Alice quem estava no comando. “Acabei perdendo a noção do tempo e esqueci a hora da sua chegada.” Completou.
Bufei irritado com o contratempo.
“Certo, estou indo aí buscar a chave, só quero entrar logo.”
“Edward…”
“O que?”
“É a filial de Port Angeles.”
“Alice!”
“Eu sei, eu sinto muito!”
“Eu passei aí cerca de 1 hora atrás, se você ao menos tivesse me avisado eu poderia ter pego a chave e a essa hora estaria aquecido dentro de casa.”
“Eu achei que voltava antes de você, depois as coisas se complicaram e eu perdi a hora.”
“Não importa. Estou voltando aí para pegar a maldita chave.”
“Não precisa. Estou quase saindo, eu juro! Acabaríamos nos cruzando na estrada.”
Bufei de novo.
“Vou ligar para Jasper e pedir para vocês ficarem na casa dele enquanto eu não chego.” Ela escreveu logo em seguida.
“Não precisa incomodar seu namorado, nós vamos dar uma volta pela cidade enquanto isso.”
– Liz, parece que tia Alice teve um problema no trabalho e não está aqui para nos receber. Vamos ter que voltar para o carro.
– Ahhh. – Ela resmungou, jogando a cabeça para trás dramaticamente.
– Vamos, princesa, eu vou te mostrar a cidade onde eu cresci.
Voltamos para o carro e ela mesma se posicionou na cadeirinha do banco de trás. Comecei a dirigir pelas ruas de Forks, recordando como tudo era na época em que eu morava lá. Pouca coisa havia mudado.
– Ali é o hospital, onde o vovô trabalha. – Apontei para minha filha, conforme passávamos pelos pontos. – E ali está a escola onde eu estudei quando era mais novo.
Aproveitei que a rua estava deserta, e que eu já estava dirigindo a uma velocidade bem baixa, para olhar para Lizzie pelo canto do olho. Ela estava em sua cadeirinha olhando pela janela, observando a cidade conforme eu falava, mas parecia entediada.
– Princesa, o que você acha de descer do carro e continuar a pé para esticar um pouco as pernas?
Ela concordou, parecendo um pouco mais animada. Encontrei um lugar para estacionar e saltamos do veículo, dei a volta para encontrar minha filha do outro lado do carro. Ela olhou para mim e saiu correndo saltitante pela calçada larga.
– Lizzie, não corra! – Repreendi, mas percebi que estava exagerando no cuidado.
Ela tinha consciência para se manter na calçada e não correr para a rua. Além disso, estava bem diante dos meus olhos, apenas a alguns metros de distância. Aquilo não era Chicago, com multidões andando a pé, pessoas mal intencionadas prestes a fazer mal para uma criança e o trânsito caótico com um maluco capaz de invadir o meio-fio a qualquer momento. Aliás, não havia um carro sequer na rua e nem pessoas à vista. Então, que mal poderia fazer?
Ao atingir uma esquina, Lizzie parou e me esperou, como sabia que deveria fazer. Segurei sua mão e atravessamos juntos. Do outro lado, ela não voltou a correr, se mantendo do meu lado.
– O boliche! – Comentei surpreso de ver que aquele lugar ainda existia. – A gente sempre vinha aqui depois da aula. – Contei para minha filha.
Continuamos caminhando por um momento, eu ia relembrando como era a cidade na época que eu morava lá, enquanto mostrava para Lizzie os lugares. Às vezes ela fazia alguma pergunta ou outra.
– Acho que estou com fome. – Notei após alguns minutos. – E você?
– Eu não.
– Mas o que você acha de parar um pouco para comer?
– Tanto faz. – Deu de ombros, focada em pular os padrões do piso na calçada.
Olhei ao redor, pensando onde poderia comer alguma coisa. Havia uma padaria na esquina mais próxima que eu não me lembrava de ter visto antes, mesmo na minha última visita, quando já morava em Chicago.
– Aquele lugar é novo. – Comentei mais para mim mesmo, depois chamei Lizzie. – O que acha de entrar ali para comer algo, princesa?
Ela assentiu e veio segurar na minha mão de novo.
– Olha, papai, tem um parquinho! – Lizzie percebeu os brinquedos de plástico nos fundos do ambiente assim que entramos. – Posso ir brincar?
– Claro, vai lá!
– Edward? Edward Cullen?
Atrás do balcão do caixa, logo à direita da porta da padaria, estava Emmett, meu melhor amigo do ensino médio. Com o passar do tempo, acabei perdendo contato com a maioria das pessoas de Forks, mas não com Emmett. Embora nosso contato tenha se tornado menos constante com a distância física entre nós. A última vez que nos falamos, foi cerca de dois meses antes, quando mandei uma mensagem lhe desejando feliz aniversário, ele me respondeu com cordialidade e o assunto não se estendeu mais do que isto.
No entanto, ele ainda era uma pessoa que eu mantinha alta estima e estava feliz em poder revê-lo pessoalmente.
– Emmett!
– Quem é vivo sempre aparece! – Ele deixou seu posto atrás do balcão para vir me dar um abraço firme.
– É bom vê-lo, amigo!
– Aquela era Lizzie?! – Ele perguntou parecendo chocado. – Está enorme!
– Está sim… – Respondi saudoso, lembrando da minha garotinha bebê. – O tempo está voando! Ela está com 4 anos agora.
Emmett a viu cerca de 3 anos antes, da última vez que estive em Forks, quando ainda era casado com Tanya.
– Ela é uma menina linda, sorte que não puxou ao pai.
– Vá se foder, Emmett! – Rebati e nós dois rimos.
– Estou brincando. Você está de parabéns por ela, meu amigo!
– Obrigado, ela é o meu orgulho!
Uma adolescente apareceu atrás de mim requisitando atendimento.
– Bem, eu tenho que voltar ao trabalho. – Emmett me respondeu, voltando ao seu posto atrás do caixa.
– Claro, estou te atrapalhando.
– Mas deveríamos marcar de colocar os assuntos em dia outra hora.
– Com certeza!
Emmett atendeu a garota tirando seu pedido, depois ele mesmo vestiu uma luva descartável e serviu o croissant dela. Aproveitei o momento para observar os expositores e escolher algo para comer também.
– Eu vou querer um capuccino e um muffin de mirtilo. – Fiz o pedido ao meu amigo, lhe entregando o cartão de crédito para pagar.
Seria bom fazer Lizzie comer alguma coisa também, mas seria difícil tirá-la do parquinho tão cedo, então deixaria para cuidar daquilo mais tarde. Emm retirou o pedido e foi até a máquina de café preparar o meu cappuccino. Enquanto isso, guardei o cartão de volta na carteira e me preparei para ir até a parte do balcão onde ficavam os muffins.
No entanto, ao me virar, esbarrei em algo e pude ouvir um arfar surpreso.
Era Isabella Swan, prima de Emmett e melhor amiga de Alice, que estava logo atrás de mim com uma expressão de choque congelada no rosto. Em sua mão estava um copo de café, mas ele estava quase vazio e sua tampa caída no chão. O líquido escuro que deveria estar dentro do copo escorria pelo colo dela em direção ao decote quadrado de sua blusa.
– Eu… hã… me desculpe! – Tentei formular algo coerente, mas minha atenção estava presa na direção que o café escorria.
Eu conhecia Bella desde criança e por algum tempo ela não foi nada além da prima do meu amigo e amiga da minha irmã mais nova. Eu não sabia dizer exatamente quando, mas de fato chegou um momento em que algo mudou em mim.
Houve um tempo que eu pensava em peitos. Eu pensava muito em peitos! E Bella tinha peitos. Então eu pensava nos peitos dela. Como seria vê-los ou tocá-los? Eu ficava acordado até tarde imaginando peitos e então eu dormia e sonhava com peitos.
Aos 30 anos, eu já tinha superado a puberdade há tempos e tivera experiências suficientes com peitos femininos para não precisar mais fantasiar tanto. Eu queria me concentrar no rosto dela e me desculpar pela bagunça que criei, talvez até fazer algo para consertar, mas ao olhar para aquele decote molhado de café eu me sentia de novo como um adolescente inexperiente, perdido na imagem de uma pequena parte daqueles montes carnudos exposta pelo decote da blusa. E eu precisava admitir que o tempo fizera muito bem a ela, Bella adulta parecia ainda mais curvilínea do que a adolescente com o corpo em desenvolvimento que eu me lembrava de encarar furtivamente.
20 anos atrás
Eu estava sozinho no meu quarto jogando videogame. Era férias de verão, eu e Alice (com 13 e 11 anos, respectivamente) não tivemos escola, mas nossos pais não estavam de férias e tiveram de ir trabalhar. Minha irmã estava no andar de baixo com a amiga, Bella, aproveitando o raro dia de sol em Forks para nadar no rio que passava nos fundos da nossa casa.
Após perder uma partida do meu jogo, percebi que estava sentado na mesma posição há bastante tempo e decidi me esticar um pouco antes de começar outra rodada. Caminhei pelo meu quarto e parei junto à janela, lá embaixo vi Bella sozinha sentada numa espreguiçadeira no deque dos fundos. Mas onde estava Alice? Por que ela deixou sua visita sozinha?
Decidi descer para checar e no caminho não cruzei com minha irmã em cômodo algum. Abri a porta de vidro que levava ao deque e Bella ainda estava sozinha.
– Onde está Alice? – Perguntei a ela.
– Sua mãe ligou e ela foi atender lá dentro.
– Ah! – Foi a única coisa que consegui responder.
Talvez minha irmã estivesse usando a extensão do telefone no escritório do nosso pai, isso explicava porque não a vi em lugar algum no caminho do meu quarto até o deque dos fundos.
– O que você estava fazendo? – Ela perguntou, interrompendo o silêncio que se formou depois da minha resposta não muito elaborada.
– Estava no meu quarto, jogando videogame. – Me sentei ao lado dela, num cantinho de sua espreguiçadeira, decidido a lhe fazer companhia até minha irmã voltar.
– Sozinho?
– Sim, Emmett está num acampamento de verão e eu não tenho proximidade com mais ninguém para convidar para passar o dia.
– Ah, sim. Eu soube do acampamento. Meus tios mandaram ele para lá para aprender sobre regras e disciplina, Emmett estava com notas baixas e desinteressado na escola, os pais dele esperam que no próximo ano letivo esse comportamento não se repita.
– Bem, e é por isso que eu acabei jogando videogame sozinho nessas férias.
Um silêncio longo se formou entre nós após eu concluir aquilo. Olhei ao redor, procurando um possível assunto para enquanto estivéssemos a sós.
– Edward, você já beijou alguém? – Bella perguntou de repente.
– O quê? – O susto da pergunta me fez crer que não a ouvi direito.
– Angela, da minha sala, disse que beijou Eric York e que foi estranhamente bom. Como algo pode ser estranho e bom? Você sabe como é?
– Não, eu não sei. – Respondi. – Eu nunca beijei ninguém.
– Nem eu… – Ela ponderou por alguns segundos. – Mas eu queria saber como é. E você?
– O que tem eu?
– Também quer saber como é?
– Acho que sim.
– E se…
– E se? – Incitei.
– E se a gente descobrir juntos como é?
Senti minhas mãos suarem e meu coração acelerar. Ela queria me beijar? É claro que eu já pensava em beijar uma menina, mas nunca pensei nela dessa maneira. Mas por que não? Se a própria Bella teve a ideia, aceitar me parecia instigante. De repente, eu estava ansioso para beijá-la.
Me acomodei melhor na espreguiçadeira, virando meu corpo totalmente de frente para ela.
– Você quer que eu te beije? – Bella assentiu, sem responder nada verbalmente, ela estava completamente corada e com o olhar baixo, evitando meu rosto.
Eu apoiei uma mão de cada lado do corpo dela no assento e me inclinei levemente para frente. Ela também se inclinou um pouco e fechou os olhos. Me aproximei ainda mais, sentindo sua respiração no meu rosto. Virei de leve a cabeça para o lado, desencontrando nossos narizes e instintivamente também fechei os olhos.
Continuei me aproximando até meus lábios roçarem nos dela. Lembrei de como era beijar o rosto da minha mãe, da minha irmã ou de qualquer outra pessoa, então, da mesma forma, fiz biquinho e estalei um beijo na boca de Bella. Mas não parecia ser daquela forma que eu via nos filmes e nas séries. Então, tentei mais uma vez.
Comecei novamente, encostando meus lábios nos dela. A sensação foi estranha, a pele dela era macia na minha e também se movia em contato comigo, tive o impulso de me afastar, mas resisti a ele e permaneci focado no meu objetivo de beijá-la. Então me arrisquei a separar os lábios e sugar levemente. Aquilo pareceu surtir algum efeito. As mãos dela pousaram nos meus ombros e ela também abriu a boca. Repeti mais uma vez o gesto e apoiei minhas mãos em sua cintura, exposta pelo biquíni, trazendo seu corpo um pouco mais para perto de mim.
Ousei passar minha língua em seus lábios, testando sua reação. Tomei coragem e invadi sua boca por completo, nossas línguas travando uma batalha entre si. As mãos de Bella subiram dos meus ombros até minha nuca, se entrelaçando a mim, enquanto explorávamos um ao outro. Tentei nos aproximar ainda mais, mas a falta de jeito fez meu dente bater contra o dela e nós nos separamos assustados.
Imediatamente, abri os olhos por reflexo e vi Bella sentada ereta novamente, com uma das mãos sobre os lábios. Pensei que talvez eu devesse dizer alguma coisa a ela, mas antes que eu pudesse formular algo, ouvimos a porta do deque correr ao nosso lado e eu pulei de sua espreguiçadeira assustado.
– Edward, o que você está fazendo aqui? – Alice passou pela porta e me olhou desconfiada.
Felizmente não estávamos exatamente em frente à porta de vidro, dessa forma, ela só nos viu quando saiu da casa.
– Estava fazendo companhia para sua visita, que você deixou sozinha.
– Sei… – Minha irmã estreitou os olhos. – Estava acontecendo alguma coisa aqui?
– Não! – Neguei rapidamente, praticamente me entregando.
Ela ainda me encarou por um momento. Vagamente, notei Bella de costas para nós, mexendo em sua bolsa, que estava em outra espreguiçadeira ao lado. Também percebi sua orelha bastante vermelha e presumi que seu rosto estivesse da mesma cor. Torci para que minha irmã não tivesse notado aquilo também. Por fim, Alice pareceu desistir do que quer que estivesse pensando e mudou de assunto.
– A mãe está no telefone e quer falar com você.
Assenti para ela e entrei novamente em casa, deixando as duas amigas a sós novamente no deque.
Eu beijei Isabella. A amiga da minha irmã. Eu beijei Isabella. Aquela informação ecoava na minha cabeça repetidamente, quase como um mantra, enquanto eu caminhava em direção ao telefone.
3 anos atrás
– Deixe eu te ajudar com isso. – Peguei um guardanapo sobre o balcão e fiz menção de limpá-la, mas Bella recuou um passo.
– Com licença? – Somente diante do seu olhar irônico, percebi para onde estava direcionando minha mão.
– Ah, claro! É melhor você fazer isso. – Entreguei o guardanapo a ela.
– Obrigada. – Ela aceitou o papel e começou a secar o decote, embora parte de sua blusa ainda estivesse molhada e grudada na pele. – Pelo que me lembro, você não era assim tão desastrado, Edward Cullen.
Então ela se lembrava de mim? Não sei por que, mas aquela constatação me trouxe uma pontinha de satisfação.
– Acho que é uma habilidade recém adquirida. – Dei de ombros e ela riu leve. – Tem algo que eu possa fazer para te compensar? Comprar um novo café?
– Não é necessário, eu não preciso pagar pelo café aqui.
– Não? – Ela negou com a cabeça. Apesar de curioso, não fiz mais perguntas sobre aquilo. – Então, se eu não posso substituir seu café, tem algo mais que eu possa fazer para te compensar? Te mandar um cartão de desculpas, quem sabe?
– Um cartão? – Ela riu e eu percebi que gostava daquele som, me dava vontade de fazê-la rir mais. – Da onde você tira essas ideias, Edward?
Não vi Lizzie vir correndo em minha direção, apenas senti quando ela se chocou contra a parte de trás das minhas pernas.
– Quem é você? – Perguntou sem rodeios, se escondendo parcialmente atrás de mim.
– Sou Bella, e você? – A mulher respondeu com um tom gentil, sem se importar com a irreverência da minha filha.
– Elizabeth Anne Cullen.
– É um prazer conhecê-la, Elizabeth Anne Cullen. – Desta vez, Bella sorriu abertamente ao repetir o nome completo dela.
– Querida, quando as pessoas perguntarem o seu nome, elas não querem saber seu nome completo. – Expliquei.
– E o que eu devo responder?
– Apenas Elizabeth. Ou Lizzie, se você gostar que as pessoas te chamem assim.
– Bem, se vocês me derem licença eu preciso ir me limpar. – Bella pediu educadamente, apontando para a blusa e saiu, desaparecendo por uma porta de acesso restrito aos funcionários.
– Papai, eu quero tirar o sapato. – Lizzie voltou a pedir minha atenção.
A ajudei com os tênis e as meias, depois ela voltou correndo para o escorregador de plástico. Direcionei minha atenção para Emmett, atrás do balcão com meu pedido nas mãos, esperando para me servir. Ele tinha assistido toda aquela cena meio embasbacado.
– Aquela era a Bella? – Perguntei a coisa mais idiota que poderia. É claro que era ela. Estava mais madura e confiante do que a adolescente que eu me lembrava, mas com certeza era ela.
– Sim, era minha prima. – Mesmo assim, Emmett me respondeu. – Nós dois somos sócios nessa padaria.
– Quando isso aconteceu?
– Há uns dois anos. Me formei em administração e tentei trabalhar em outros lugares, mas não deu certo, ela estudou gastronomia e se especializou em confeitaria, então decidimos abrir esse lugar juntos. Eu cuido das contas e ela comanda a cozinha.
Assenti. Aquilo fazia sentido, Bella sempre mandou muito bem na cozinha. Diante de uma falta de resposta minha, Emmett me entregou o cappuccino e o muffin. Agradeci a ele e achei melhor pegar uma mesa para me sentar.
Enquanto comia, não pude deixar de encarar a porta dos funcionários, por onde Isabella tinha desaparecido, na esperança de poder vê-la de novo. Eu não sabia explicar exatamente o que senti depois daquele esbarrão, mas era um sentimento bom. Como se ao vê-la, alguém que fez parte da minha juventude, eu pudesse finalmente sentir que estava de volta para casa.
A vi passar novamente pela porta, parecia apressada, com um novo copo de café na mão. Ela parou rapidamente perto do balcão para dizer a Emmett algo que não consegui ouvir. Eu queria uma nova chance de falar com ela, por isso saltei da mesa onde estava sentado e parei ao lado da porta principal da padaria, para onde ela se dirigia. Procurei me manter longe de seu caminho, para evitar outros acidentes com café.
– Gostaria de me desculpar mais uma vez pelo incidente com seu café. – Pedi.
– Está tudo bem. – Sorriu minimamente.
– Mesmo assim, se houver algo que eu possa fazer para compensar…
– Não é necessário. Mesmo!
– Eu ainda me sentiria melhor se pudesse te compensar de alguma forma.
– Só tente não derrubar mais bebidas quentes em ninguém, certo?
– Tudo bem, eu vou tentar. – Sorri.
– Acho bom conseguir se manter longe de mais confusões ou terei que te botar para fora.
– Da sua padaria?
– De Forks!
Sua resposta me fez gargalhar.
– Talvez eu não esteja brincando.
O tom forçado de mistério na voz dela me fez rir ainda mais alto.
– Você sempre foi essa tonta engraçada, Bella! – Ela me lançou um olhar esquisito. – Por favor, foi um elogio!
– Está bem, vou aceitar como um. – Concordou mas não mudou seu olhar torto na minha direção.
– Bem, não vou mais te segurar aqui. – Abri a porta para ela. – Mas se houver algo mais que eu possa fazer por você me avise.
– Talvez eu pense em algo, depois te aviso. – Ela meneou a cabeça num aceno para mim e saiu.
Voltei para a mesa onde eu estava e eventualmente consegui afastar Lizzie dos brinquedos para comer alguma coisa. Depois, quando ela voltou ao parquinho, eu passei a responder alguns e-mails e fiquei lendo artigos até Alice mandar mensagem dizendo que estava de volta à casa dos nossos pais.
~*~
Na manhã seguinte, acordei primeiro. Talvez ainda adaptado ao fuso horário de Chicago, uma hora à frente de Forks. A casa estava completamente silenciosa, enquanto Lizzie e Alice ainda dormiam, mas eu apreciava a calma. Curtindo esse sentimento, desci até a cozinha e preparei uma caneca de café na máquina, depois me sentei perto da janela para bebê-la observando a correnteza constante do rio por entre as árvores nos fundos da casa.
Terminei meu café e ainda era o único acordado. Lavei minha caneca e subi para meu quarto, meu antigo quarto de adolescente, para arrumar a cama e trocar de roupa.
Foi quando ouvi meu celular tocar.
– Oi, mãe. – Atendi após ver o nome escrito no visor.
– Edward Cullen, como você ousa esperar eu e seu pai viajar para ir a Forks? – Ela esbravejou do outro lado da linha. – Por favor, me diga que essa história que eu ouvi foi uma alucinação, que você não fez isso com sua mãe.
– Mãe, é verdade, eu estou passando minhas férias com Lizzie em Forks.
– Eu vou voltar para o aeroporto agora mesmo e pegar o primeiro voo para casa!
– Pai, por favor, não deixa ela fazer isso! – Gritei no telefone, na esperança que meu pai estivesse perto o suficiente para escutar minha súplica.
– Fique tranquilo, eu não vou deixar ela ir a canto nenhum. – Escutei a voz do meu pai um pouco mais distante. – Esme, nós acabamos de começar nossas férias.
– Carlisle, nosso filho está em Forks. Na nossa casa! – Meus pais começaram a discutir do outro lado da linha.
– E eu estarei bem aqui quando você voltar no final das férias, mãe. – A tranquilizei.
– Não me importa, Edward! Se você tivesse me dito que iria para casa eu nem teria viajado, para começo de conversa.
– Exatamente por isso eu não disse nada. Não queria que você cancelasse as suas férias por minha causa.
– Férias nenhuma é mais importante do que meu filho e minha neta na minha casa depois de anos.
– E eu já prometi que estaremos aqui quando vocês retornarem, mãe! Não precisa antecipar sua volta. Alice disse que vocês voltam em 20 dias, certo? Teremos uma semana inteira juntos até eu ter que voltar para Chicago.
– Ah, meu filho! – Suspirou, com um tom de voz completamente diferente. – Eu só queria que você soubesse que tudo o que faço é porque te amo e quero fazer o possível para ajudar a fazer sua vida melhor.
– Eu sei, mãe. Mas estou bem, você não tem nada com o que se preocupar.
– Eu nem sei o que faria se estivesse no seu lugar, com você e Alice sem seu pai.
– Mãe, eu e Alice já somos adultos, você não precisa se preocupar.
– Mesmo assim, eu não saberia o que fazer. Por isso queria ajudar a tornar sua vida mais fácil, da maneira que eu puder.
– Mãe, eu e Lizzie estamos bem e você vai ver isso com seus próprios olhos, assim que voltar de viagem. Daqui a 3 semanas. – Completei.
– Está bem, filho.
– Agora vá aproveitar sua viagem com o pai, nós estaremos bem aqui quando vocês voltarem.
– Tchau, filho. Eu te amo.
– Também te amo, mãe. Tchau.
Desci as escadas novamente, vendo que não era mais o único acordado na casa. Ouvi a voz da minha irmã vindo da direção da cozinha, mas não era ela que estava sentada no sofá, de costas para a escada.
Ao ouvir minha aproximação, Bella virou-se, exibindo seu rosto para mim, então eu tive a confirmação de que era ela.
– Você de novo?! – Falamos juntos.
– Vocês já se encontraram? – Minha irmã perguntou, aparecendo detrás da ilha da cozinha.
– Nos esbarramos ontem.
– Literalmente. – Bella completou.
– Aliás, me desculpe mais uma vez pelo café.
– Está tudo bem, eu já disse.
– Onde foi isso? – Alice quis saber.
– Na padaria.
– Você foi na padaria da Bella?
– Eu não sabia que era dela, para começo de conversa.
– E por que você foi lá?
– Porque você me deixou trancado fora de casa, Alice. Aliás, por que eu estou sendo interrogado aqui? Ninguém vai me explicar o que Bella está fazendo aqui tão cedo de manhã?
– Ela vem me ver toda quinta-feira.
– Tecnicamente eu costumo ir no apartamento dela. – Bella corrigiu. – Mas hoje eu sabia que ela ia estar aqui, na casa dos seus pais.
– E qual o porquê dessa tradição?
– Alice tem uma encomenda recorrente de croissants na minha padaria e toda quinta-feira eu venho entregá-los.
– Então, quer dizer que além de confeiteira você também é entregadora? – Me joguei no sofá ao lado dela.
– Não, mas Alice é uma cliente VIP, por isso eu venho fazer as entregas pessoalmente.
– Alice é sua cliente VIP? Acho que você precisa melhorar a clientela da sua padaria. – Provoquei minha irmã.
– Vá se foder, Edward! – Ela retrucou novamente fora de vista, escondida atrás de algum armário da cozinha.
– Ela é minha amiga! – Bella a defendeu, me dando um empurrão de leve.
– Então, Bella, além de ficar atrás de pessoas prestes a se virar, o que mais você tem feito da vida? – Perguntei, passando o braço sobre seus ombros.
– Eu não estava atrás de você, eu estava passando e você esbarrou em mim. E acho melhor você tirar esse braço daqui se não quiser apanhar.
Eu ri. Ela me direcionou um olhar maléfico que me fez rir ainda mais, mas retirei meu braço dos seus ombros.
– Mas é sério, eu não sei mais nada sobre você. Se Emmett não tivesse me dito ontem eu ainda nem saberia que a padaria é sua.
– O que você quer saber, afinal?
– Sei lá, qualquer coisa. Não sei nem se seu nome ainda é o mesmo ou se mudou de sobrenome.
– Essa é sua forma sutil de perguntar se eu sou casada, Edward? – Ergueu uma sobrancelha para mim e ouvimos Alice gargalhar em algum ponto da cozinha.
– Não era isso… – Respondi um pouco atrapalhado.
– Não, eu não sou casada. Meu nome continua sendo Isabella Swan.
– Eu não perguntei por isso. – Rebati, ainda um pouco desconcertado.
– Aham, claro! – Seu tom sarcástico me deixou ainda mais embaraçado.
– Vocês dois, deixem de discussão boba e venham comer. – Alice apareceu novamente junto da ilha, onde abriu a caixa que estava sobre ela e retirou um croissant.
– Estou bem, obrigada. – Bella disse.
– Eu vou querer provar um desses aí. Preciso saber se estão tão bons quanto o muffin que comi ontem. – Fui para junto da minha irmã e me sentei numa das banquetas da ilha.
Lizzie desceu correndo as escadas, o que eu estava prestes a repreender; mas, faltando três degraus para atingir o andar inferior, ela parou, notando nossa visita.
– Eu me lembro de você. – Virou a cabeça levemente de lado, enquanto encarava Bella com curiosidade. – É a moça de ontem.
– Eu também me lembro de você. – Bella sorriu. – Elizabeth Anne Cullen.
– Pode me chamar de Lizzie. – Respondeu, continuando a descer.
– Lizzie, então.
– O que você está fazendo aqui, na casa do vovô e da vovó?
– Eu vim ver sua tia, ela é minha amiga. – Explicou, paciente.
Surpreendentemente, Lizzie se jogou nos braços de Bella.
– O que Bella prometeu a ela? – Alice me perguntou.
Dei de ombros.
– As duas mal se falaram ontem.
– Você vai brincar comigo, moça? Tia Alice sempre brinca comigo.
– O nome dela é Bella. – Relembrei a minha filha.
– Bella, vamos brincar?
– Bem, só se for um pouquinho, eu tenho que voltar ao trabalho.
– Legal! Vou pegar minhas bonecas lá no quarto!
– Lizzie, não corra! – Repreendi, mas era tarde, ela já tinha desaparecido escada acima.
Desde que Lizzie nasceu, meus pais encheram um dos dois quartos de hóspedes de brinquedos, deste modo, o quarto praticamente tinha se tornado exclusivo dela.
Pouco depois, ela retornou com duas bonecas nas mãos, mas desceu mais devagar do que antes.
– Você quer ser a cantora ou a bailarina? – Exibiu as duas bonecas.
– Bem, eu canto muito mal, então acho que a bailarina. – Bella escolheu.
– Isso quer dizer que você dança bem? – Desafiei erguendo uma sobrancelha e ela me lançou um olhar irritado.
– Não deve ser difícil dançar como uma boneca.
– Vem, Bella, a apresentação já vai começar. – Lizzie exigiu.
Ela começou a cantar a música de um filme infantil, que eu não me lembrava exatamente qual, enquanto Bella rodopiava sua boneca sobre a mesa de centro.
– Isso aqui está divino! – Comentei comendo meu croissant.
– É claro que está, foi Bella que fez. – Minha irmã disse simplesmente.
– Você não tem medo que ela fique esnobe te ouvindo falar assim?
– Pelo que eu me lembro, o esnobe aqui era você. – Bella se meteu.
– E irritante. – Alice emendou.
– Então essas reuniões semanais de vocês duas são para falar mal de mim? Vocês ainda não perderam esse hábito?
– Não se dê tanto valor, você não é tão importante.
– Bella, você está brincando comigo! – Minha filha reclamou, uma vez que tinha sido deixada de lado com o início conversa.
– Lizzie, venha comer também. – Chamei.
– Não quero!
– Elizabeth! – Repreendi.
– Eu estou brincando, papai!
– Mas você tem que comer.
Ela bufou e revirou os olhinhos, mas levantou-se e veio para a ilha da cozinha também.
– Tia, faz chocolate quente para mim?
– É claro, meu amor. – Alice levantou-se e foi buscar o achocolatado.
– Também está na minha hora, eu tenho que ir.
– Você vai voltar, não é, Bella? – Apesar de estar de costas para mim, eu sabia que a pequena estava fazendo sua melhor carinha de coitada.
– Claro! É só pedir a sua tia para me chamar. – Respondeu gentilmente e se pôs de pé. – Bem, eu realmente tenho que voltar para a padaria.
– Eu te levo até a porta. – Me ofereci e a acompanhei.
– Você não me disse que viu Bella ontem. – Alice acusou quando ficamos a sós.
– Não tive oportunidade. Quando você chegou nós só jantamos e logo eu fui dormir, estava cansado da viagem.
– O que aconteceu exatamente?
– Exatamente o que dissemos. Nos esbarramos, o café virou em cima dela, ela foi se limpar, depois eu pedi desculpas, ela me perdoou e foi embora. Nada demais.
O que Alice não precisava saber era que eu tinha passado as últimas horas, desde o dia anterior, revivendo aquele esbarrão na minha cabeça. Pensando no quanto Bella tinha mudado naqueles anos e o quanto eu queria conhecer melhor essa nova versão dela.
– Edward, você não estava flertando com a Bella, estava?
– Isso seria um problema para você?
– Ela é minha melhor amiga, eu não quero que ela seja magoada. Principalmente pelo meu irmão.
– E por que você presume que eu vou magoar ela?
– Eu não presumo isso, só quero que você seja cuidadoso. Bella é importante para mim e ela já está muito machucada, há 8 meses ela terminou um relacionamento de 7 anos. Eu sei que minha amiga está mal e eu só quero que você seja cuidadoso com ela.
– Eu serei, Alice. – Prometi. Afinal, tudo o que eu queria era poder ser cuidadoso com ela.
~*~
No sábado, acordei cedo sozinho de novo e, como nos outros dias, decidi tomar uma caneca de café. Mas, diferente das outras vezes, optei por algo mais elaborado do que as cápsulas que meus pais tinham na máquina. Sendo assim, vesti uma blusa quente e saí numa caminhada, a caminho da padaria de Emmett. E de Bella.
Durante todo o caminho, tentei me convencer de que estava indo até lá na tentativa de ver meu amigo, ou que queria apenas um café diferente e nada mais, mas sendo sincero comigo mesmo, eu não me importaria se visse Bella novamente.
Chegando lá, a primeira coisa que notei foi que não era Emmett quem estava atrás do balcão do caixa e sim uma moça jovem, que me atendeu com cordialidade. Olhei as opções de cafés escritas nas placas na parede atrás dela e pedi um latte com avelã.
– Por favor, será que você pode me dar uma informação? – Perguntei para a moça, quando ela me entregou o copo com o latte. – Estive aqui outro dia e encontrei um antigo amigo, gostaria de saber se posso encontrá-lo hoje.
– Como se chama seu amigo?
– Emmett.
– Ah, é o chefe. Ele não vem hoje, ele só atende no balcão nas nossas folgas. Mas a outra sócia está na cozinha, normalmente ela está aqui todas as manhãs, exceto nas quintas-feiras, que ela sai por algumas horas para entregar uma encomenda especial. – Eu sabia do que se tratava, a encomenda de croissants da minha irmã. – O senhor deseja falar com ela?
– Eu posso? Não quero atrapalhar.
– Vou comunicar que o senhor está aqui.
A atendente deixou o balcão, uma vez que eu era o único cliente tão cedo na padaria, e foi até a porta de acesso restrito a funcionários, onde vi Bella entrar no outro dia.
– Com licença, um cliente quer falar com a senhora.
A moça abriu passagem, me deixando aparecer na porta. Diante de mim, vi uma cozinha industrial, Bella apressada indo de um lado a outro e mais dois funcionários.
– Ponha uma touca! – Ela advertiu apontando uma caixa perto da porta, antes mesmo até de olhar para mim.
Obedeci seu comando, peguei uma touca descartável na caixa que ela apontou e cobri os cabelos.
– Edward? – Finalmente me notou.
– Estou atrapalhando?
– Não. Não, mesmo. Mas aqui é sempre corrido pela manhã, então se você não se importar de testemunhar essa loucura pode ficar.
– Na verdade, estou achando bem interessante ver os bastidores de uma cozinha profissional.
– Então, bem-vindo ao caos. Emily, é hora de colocar os pães no forno. Depois pode começar a massa dos biscoitos amanteigados. – Instruiu uma das ajudantes, emendando com nosso assunto num fôlego só. – Nesse horário, normalmente deixamos pré prontas todas as massas do dia, depois o pessoal só vai assando conforme a demanda do balcão. – Me explicou.
– Posso ver vocês como vocês preparam alguma receita. – Perguntei de repente.
– Isso depende. Você jura que não vai roubar minha receita e abrir uma padaria concorrente?
Eu gargalhei.
– Eu não seria capaz de representar concorrência para você nem mesmo se fosse o aluno mais aplicado da história da confeitaria.
– Nesse caso, venha aqui mais perto, estou fazendo tortinhas de limão. Aliás, você devia provar uma dessas depois que estiver pronta, modéstia à parte são um grande sucesso aqui da padaria.
– Vou lembrar disso quando fizer meu próximo pedido.
– Então, algo específico o trouxe até aqui? – Perguntou, enquanto porcionava os ingredientes numa tigela grande.
– O café. – Mostrei meu copo a ela. – Também pensei que talvez pudesse ver Emmett de novo, mas a moça no balcão disse que ele não está.
– Sim, Emmett não fica aqui todos os dias, normalmente ele só vem duas ou três vezes na semana, para tirar as folgas dos balconistas.
– Foi o que ela me disse lá fora.
– Quer deixar algum recado para Emmett? Eu posso transmitir sua mensagem quando o vir.
– Não, não era nenhum assunto específico. Eu realmente vim para beber alguma coisa, mas pensei em aproveitar a viagem para cumprimentar meu amigo. Como ele não está, achei que seria educado cumprimentar você.
– Agradeço a lembrança. Também vou dizer a Emmett que você esteve aqui perguntando por ele.
– E você, vem trabalhar todos os dias? – Não consegui evitar a pergunta.
– Sim, eu venho todas as manhãs, mas nem sempre fico o dia todo. Às vezes, quando terminamos esse caos que você está vendo, eu deixo a cozinha nas mãos dos auxiliares e saio para resolver outras coisas. Outras vezes eu fico até mais tarde, como naquele dia que nos esbarramos.
– Acho que podemos dizer então que aquele foi meu dia de sorte.
– É uma forma de pensar, apesar de eu ter saído daquele esbarrão levemente queimada.
– Me desculpe, mais uma vez.
– Então, você quer ou não aprender essa receita? – Mudou de assunto.
– Por favor!
Ela começou a listar todos os ingredientes que já tinha colocado na tigela, mas eu não consegui absorver nada do que ela estava falando, fascinado demais com sua agilidade e habilidade na cozinha. Me perdi por alguns segundos, focado apenas em admirá-la. Só saí do transe, quando seu olhar pousou no meu e ela me flagrou encarando.
Após colocar todos os ingredientes, ela deixou a batedeira misturando a massa e me levou para outra bancada, para assistir o preparo do recheio e do merengue da torta.
Com a massa misturada, ela me perguntou se eu queria abri-la, o que eu aceitei. Ela me fez vestir um avental, lavar bem as mãos e, ainda assim, calçar luvas, tudo com muita cautela para garantir a higiene dos alimentos. Primeiro, colocamos a massa sobre a bancada e Bella me deixou moldá-la um pouco com as mãos para sentir a consistência, depois me entregou o rolo para que eu abrisse a massa.
Pensei que estava fazendo tudo certo e até que indo bem, mas a risadinha dela ao meu lado destruiu minhas expectativas.
– A massa precisa estar nivelada toda na mesma espessura, para manter o padrão em todas as tortinhas. – Explicou.
Bella pegou o rolo das minhas mãos e, com uma habilidade impressionante, abriu a massa toda uniforme e numa velocidade que meus olhos mal puderam acompanhar. Depois, ela cortou os moldes redondos na massa e eu pude voltar a ajudar a colocar os discos no fundo das mini assadeiras.
Depois, recheamos juntos as tortas, ela me explicou que era preciso pesar para garantir que todas tivessem a quantidade exata de recheio. Enquanto eu lentamente colocava cada unidade sobre a balança, para poder encher com o recheio, ela fez quase o dobro da minha quantidade. Por fim, colocamos o merengue. Ela me deixou decorar apenas duas unidades, visto que meu trabalho com o saco de confeitar estava sendo claramente um desastre. Depois ela assumiu, fazendo pingos perfeitos de merengue sobre o recheio.
– Leah, tem algum forno disponível para essa fornada de tortinhas de limão?
A auxiliar apontou para a patroa um dos fornos, e ela colocou a bandeja com as mini assadeiras distribuídas regularmente.
– Pronto, agora é só esperar. Em 30 minutos estarão assadas.
– Obrigado pela demonstração particular, Bella, foi muito divertido poder participar do processo, mas agora acho que já atrapalhei vocês demais. Vou me sentar lá fora para terminar o meu café – Recuperei meu copo em cima de uma das bancadas.
– Esse aí já deve estar frio, me deixe lhe oferecer outro.
– Não é necessário.
– Eu faço questão. Emily, Leah? – Se dirigiu às funcionárias. – Vocês dão conta do resto por aqui?
As duas assentiram. Tiramos nossos aventais, luvas e toucas e retornamos ao salão da padaria. Diferente de quando eu cheguei, o lugar agora estava lotado. Mesmo assim, conseguimos uma mesa no canto.
– O que você estava bebendo?
Eu ia protestar, dizendo que não precisava mesmo de outra bebida, mas ela tirou a tampa do copo na minha mão e constatou:
– Latte com avelã. Me espere aqui, que eu já trago outro.
– Como você adivinhou? – Olhei para a bebida parcialmente tomada, onde a espuma já tinha se dissolvido inteira no líquido marrom.
– A cor e o cheiro. – Deu de ombros, como se aquilo fosse simples. – Eu já volto.
Fiquei sentado na nossa mesa, assistindo ela ir até atrás do balcão, preparar dois copos e retornar, me entregando um deles. Não fui capaz de adivinhar se ela bebia o mesmo que eu ou algo diferente, mas também não quis perguntar
Ficamos sentados naquela mesa, conversando amenidades e bebendo nossos cafés por meia hora. Então Bella teve que retornar à cozinha para ver os doces que deixamos no forno.
Ela retornou logo, com uma caixa de entrega nas mãos.
– Aqui estão suas tortinhas.
– Obrigado. Quanto te devo? – Perguntei, já pegando a carteira do bolso.
– São um presente.
– Não é certo eu não pagar por elas.
– Eu não posso colocar as tortinhas que você decorou para vender, os clientes vão achar que a qualidade da padaria está caindo.
– Aw.
Ela riu.
– Edward, apenas aceite minha oferta!
– Eu aceito, obrigado. – Peguei a caixa.
– Eu coloquei algumas a mais para você levar para Alice e Lizzie.
– Obrigado.
– Bem, sinto muito por te deixar agora, mas preciso voltar à cozinha.
– Está tudo bem, eu compreendo. Também acho que já vou. Obrigado mais uma vez pela aula de confeitaria, pelo latte e pelas tortinhas. – Acenamos um para o outro e partimos para lados opostos.
Ao voltar para casa, cruzei com um carro deixando a estrada de acesso à casa dos meus pais. Alice estava na varanda, com uma caixa nas mãos.
– Onde você estava? – Ela perguntou assim que me aproximei, sem me dar chance de falar primeiro.
– Fui tomar um café. Bella mandou tortinhas de limão de presente para nós. – Mostrei a caixa da padaria.
– As tortas dela são maravilhosas!
– O que é isso? – Apontei para a caixa que ela segurava.
– Não sei. Chegou ontem no escritório destinado à mãe, como nem eu e nem ela estávamos lá, um dos funcionários veio me trazer hoje.
Entramos juntos em casa e Alice foi abrir seu pacote. De dentro da caixa, retirou um livreto e pequeno ramo de flores desidratadas. Eu ainda não sabia do que se tratava, mas ao folhear as páginas, a expressão da minha irmã se iluminou.
– Uma revista de design vai dar uma festa daqui a duas semanas para premiar alguns projetos que se destacaram e nosso escritório foi nomeado em algumas categorias!
– Parabéns, Alice! Vocês merecem ter seu trabalho reconhecido. – Fui abraçá-la.
– Eu vou contar para a mãe! – Ela pegou o celular no bolso e se afastou de mim ainda eufórica, enquanto digitava algo na tela.
– O que aconteceu? – Lizzie perguntou, ela vinha descendo as escadas bem a tempo de me ver abraçado à minha irmã, comemorando.
– Tia Alice foi indicada para um prêmio importante no trabalho.
– Ah! – Lizzie respondeu, um pouco decepcionada. – Pensei que tinha acontecido algo legal, tipo vocês ganharam uma barra de chocolate gigante.
Eu ri. Para ela, tudo que era sobre trabalho se tornava automaticamente entediante.
– Bem, não tem chocolate gigante, mas se você comer frutas agora no café da manhã, talvez tenha outro doce depois do almoço.
~*~
Nos dias em que eu estava em Forks, redescobri o prazer de fazer uma caminhada tranquila sem destino. Da primeira vez que fiz aquilo, foi para tirar Lizzie de casa, ainda na mesma semana que chegamos. Alice não estava de férias e, para passar tempo conosco, ela mudou o trabalho para home office, mas minha filha não entendia aquilo e estava dando um tempo difícil para a tia. Por isso, a levei para uma caminhada, para tirá-la de casa e dar espaço à minha irmã.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Então, teve o sábado que eu saí para comprar café. Depois, quando Alice precisou de paz novamente para trabalhar, repeti a caminhada com Lizzie. Ela tinha adorado o passeio da primeira vez e foi bastante eficaz. No terceiro dia de trabalho remoto da minha irmã, cheguei a chamar minha filha mais uma vez para sair comigo, mas naquele dia parecia impossível tirá-la da cama. Assim sendo, saí para andar um pouco sozinho.
Estava andando sem rumo, por uma rua diferente das outras vezes, quando uma figura conhecida saiu de um estabelecimento a uns metros de distância. Era Isabella, ao aparecer na calçada, ela virou-se de costas para mim, provavelmente sem nem me ver, e seguiu caminhando na mesma direção em que eu ia.
Apressei o passo, me aproximando dela sorrateiramente.
– Assim eu vou achar que você está me perseguindo. – Falei quando cheguei bem perto do seu ouvido.
Ela pulou assustada e se virou para me encarar.
– Você que aparece em todo lugar que eu estou. – Rebateu.
– Não é disso que eu me lembro.
– Primeiro, apareceu na minha padaria.
– Eu era um cliente.
– Depois, você estava na casa da minha melhor amiga. – Continuou, ignorando minha objeção.
– Era a casa dos meus pais.
– Que está sob os cuidados da minha melhor amiga, que eu visito toda quinta-feira.
– Para entregar a encomenda de croissants. – Lembrei.
– Exato! Depois você apareceu na padaria de novo.
– Novamente, eu era uma cliente.
– E agora, você apareceu na porta do meu médico.
– Médico?! Você está sentido alguma coisa?
– Não, é apenas um check up, chega uma hora que o corpo cobra. Os 30 anos exigem cuidado.
– Você ainda não tem 30 anos, Bella.
– Mas estou bem perto.
– Não seja exagerada! Se me lembro bem, seu aniversário é em setembro, você mal completou 29 anos.
Ela bufou.
– Que seja, Edward! Você é fiscal de idade alheia agora?
Eu ri e achei sensato não discutir mais. Pensei em alguma forma de mudar de assunto.
Percebi que, enquanto conversávamos, seguíamos andando na mesma direção que ela ia antes de me ver.
– Para onde está indo agora?
– Para casa.
– Posso lhe acompanhar? Onde você mora? – Emendei as perguntas, na esperança que a segunda a distraísse de negar a primeira.
– Na mesma casa de sempre.
– Com seu pai? – Estranhei, afinal ela era uma mulher adulta.
– Infelizmente, meu pai sofreu um infarto uns anos atrás e não resistiu. Agora a casa é minha.
– Eu não sabia, sinto muito.
– Está tudo bem. É o ciclo da vida, afinal. – Deu de ombros.
– É um jeito evoluído de encarar os fatos.
– Estou tentando aprender a conviver com isso.
Continuamos andando em silêncio por mais alguns minutos. Apesar do tema pesado da nossa conversa anterior, o silêncio era leve.
– Sabe, eu realmente acho que a gente deveria parar de se encontrar por acaso e marcar qualquer dia, só para variar um pouco.
Tirei meu celular do bolso, desbloqueei e entreguei para ela.
– O que é isso?
– É para você salvar seu número e a gente poder marcar algo qualquer dia.
Ela me lançou um olhar duvidoso, mas pegou o aparelho e salvou o contato. Depois, peguei-o de volta.
– Te mandei uma mensagem, para você salvar meu número também. – Expliquei, ao mesmo tempo em que ouvimos o toque vir de sua bolsa.
Senti uma gota de chuva atingir meu rosto. Olhei para o céu e o vi completamente cinzento. Logo outras gotas caíram também, rapidamente se transformando numa chuva densa.
– Não parecia que ia chover hoje.
– Bem-vindo de volta a Forks, lugar onde pode chover a qualquer momento. – Ela riu de mim.
– Bem, para quem está familiarizada com o clima local, você também não está vestida de acordo. – Observei sua camiseta, que apesar de ser de mangas longas, parecia ter um tecido bem fino. Sem casacos, capas ou guarda-chuvas.
Bella bufou.
– Você devia ser menos crítico, sabia? Mexa-se e vamos encontrar um lugar para nos abrigar.
– Tem uma igreja ali. – Apontei, começando a caminhar com ela.
– Está pensando em rezar agora?
Revirei os olhos.
– A igreja é um local seco para a gente se esconder até a chuva passar.
– E como você sabe que vai estar aberta?
– A casa de Deus não está sempre aberta para os fiéis?
– Você se converteu agora?
– Fale menos e ande mais, Bella.
Apressamos o passo e, como previ, a porta da frente estava escancarada. Não havia mais ninguém lá dentro, o que era bom, o lugar estava calmo e silencioso para que esperássemos a chuva passar. Andamos até o fundo do ambiente, bem perto do altar, onde estava mais quente. Bella deu um giro, observando tudo ao redor e tentou disfarçar, mas notei ela passar as mãos pelos braços, tentando se aquecer.
Minha roupa estava bastante molhada nos ombros, mas as mangas e a barra estavam relativamente secas, diferente da blusa dela que, com seu tecido fino, estava completamente ensopada. Eu comecei a despir meu suéter molhado.
– O que você está fazendo? – Perguntou horrorizada.
– Tirando a camisa, não está vendo?
Por baixo, eu usava uma regata branca simples, que não servia para me aquecer, mas pelo menos permaneceu seca sob a outra camada de tecido mais grosso.
– Edward, estamos numa igreja!
– Obrigado pela informação, Srta. Óbvio. – Ironizei.
– Você está tentando ir pro inferno? E pior, ainda vai me levar junto como cúmplice!
– Se me lembro bem, Jesus disse para amar o próximo e não para deixá-lo congelar até a morte. – Estendi meu suéter para ela. – Por mais que essa seja minha vontade quando o próximo não para de resmungar e é incrivelmente teimosa.
– Edward, ponha essa camisa de volta!
– Não, obrigado. Se você não quer se enxugar não é problema meu, mas não vou voltar para essa roupa molhada e ficar com frio.
Ela me olhou atravessado por um instante, depois para o suéter que eu ainda estendia em sua direção, por fim pareceu se decidir e aceitou a peça de roupa.
– Obrigada. – Sussurrou.
Primeiro ela passou o tecido no rosto, secando-se, depois pelos braços, mesmo por cima das mangas de sua blusa molhada; por fim, desistiu de se secar e acabou vestindo minha camisa por cima da sua.
– Está melhor agora? – Perguntei e ela apenas assentiu.
Me aproximei dela e passei minhas mãos por seus braços, repetidamente subindo e descendo para ajudar a aquecê-la. Depois a trouxe para o meu peito, aproveitando o abraço para me manter quente também. Por um instante, permanecemos daquele jeito, abraçados de pé diante do altar de uma igreja, apenas aproveitando o calor que emanava do corpo um do outro e do aquecedor na parede mais próxima.
– Se eu fosse você não me olhava assim. – Adverti, notando seu olhar focado no meu rosto.
– Assim como?
– Como se tivesse algo de admirável em mim.
– Talvez tenha.
Seu olhar era penetrante em mim e eu não conseguia desviar o meu. Havia algo ali, um brilho que me desarmava e me deixava vulnerável. Permanecemos presos naquela conexão por vários segundos, até que eu já não conseguisse pensar em mais nada, apenas em Bella nos meus braços.
Quase sem que eu percebesse, minha mão subiu passando pela lateral do seu rosto, retirando uma mecha de cabelo que estava grudada e a colocando atrás de sua orelha. Ao sentir meu toque, ela fechou os olhos, como se aproveitasse o momento.
Não pude mais resistir e me curvei pousando meus lábios sobre os dela. Bella correspondeu se esticando nos meus braços para estreitar ainda mais nosso contato.
Era inevitável pensar que, depois de 17 anos, eu estava beijando Bella outra vez. A sensação de novidade era quase a mesma, mas com a diferença que daquela vez eu sabia exatamente o que esperar. E eu estava ansioso pelo que estava por vir. Sem poder mais me conter, aprofundei nosso beijo, sentindo seu gosto por completo e movendo minha língua junto da sua.
Com uma mão enlaçada em sua cintura a trouxe mais para perto, colando seu corpo ainda mais ao meu. Movi a outra mão para seus cabelos soltos pelas costas e os agarrei com força. Bella gemeu contra meus lábios e eu senti um prazer imensurável com aquele som. Suas mãos subiram pelos meus braços, sua pele em contato com a minha, exposta pela camiseta regata. Um arrepio correu pelo meu corpo e eu a queria ainda mais perto de mim. Ignorando as leis da física, meu desejo era que nossos corpos ocupassem o mesmo lugar no espaço.
As mãos dela foram dos meus ombros para minhas costas e suas unhas cravaram na minha pele. Minha mão, que estava em sua cintura, desceu pela sua lombar até alcançar a bunda dela, onde a apertei mais uma vez contra mim. Bella gemeu novamente e eu me senti viril. Ela brincou com os dentes no meu lábio inferior e o mordeu de leve, ao mesmo tempo que suas mãos se infiltraram nos cabelos em minha nuca. Foi minha vez de praticamente urrar de prazer no meio do nosso beijo.
Interrompemos minimamente nosso contato, apenas para respirar um pouco, permanecendo com os rostos colados.
– Definitivamente, nós vamos para o inferno. – Declarou com a voz fraca, quase contra meus lábios ainda.
– Prefiro pensar que Deus está nos abençoando, unindo nossos caminhos aqui nesta igreja. – Rebati sem ousar sequer abrir os olhos, com medo de perder a magia daquele momento.
Voltei a colar meus lábios nos dela, daquela vez com mais calma, apenas sentindo o toque, tentando transmitir todo o carinho que eu tinha por ela. Também tornei meus toques mais suaves e gentis, meus dedos mal tocando sua pele conforme se moviam. Fui correspondido com a mesma ternura por parte dela.
Beijar Bella era bom. De qualquer forma era bom. Com desejo, com volúpia, com carinho e com leveza. De todas as formas, era uma experiência única e sempre me deixava desejando mais, como se ela fosse algum tipo de droga muito viciante.
Interrompemos o beijo ofegantes, mas permanecemos abraçados como antes. Bella descansou a cabeça no meu peito e mais uma vez eu subi e desci minhas mãos pelos braços dela para mantê-la aquecida, embora eu duvidasse que naquele momento ela precisasse de mais calor. Fechei meus olhos e apoiei minha cabeça no topo da sua, apenas aproveitando o momento e como nós parecíamos nos encaixar um ao outro.
– Tem alguém aí? – Uma voz masculina rompeu nossa bolha e fez Bella se afastar dos meus braços como se tivesse levado um choque.
Apenas um segundo depois, o dono da voz, possivelmente o pastor daquela igreja, apareceu numa porta lateral.
– Pastor Weber! – Bella saudou, com a voz levemente histérica.
– Espera, eu conheço você. É amiga da minha filha, não é?
– Sim, eu e Angela estudamos juntas desde criança.
– Faz tempo que não a vejo.
– Sinto muito, não tenho tido tempo de frequentar os cultos.
– Temos que fazer da congregação uma prioridade nas nossas vidas, afastar-se da igreja é como se afastar da própria fé.
– É culpa do trabalho. Eu sou dona da padaria aqui perto e domingo pela manhã é sempre movimentado, é um dia que as pessoas gostam de comer fora.
– Sabe que quando quiser voltar será bem-vinda… – A voz do pastor foi morrendo conforme nos observava com mais atenção.
Ele olhou primeiro para mim, vestido apenas com uma regata, depois para Bella, com uma camisa com certeza muito maior que seu tamanho.
– O que vocês dois estavam fazendo aqui?
– Fomos pegos de surpresa pela chuva, estamos aqui para nos proteger.
– E o que há de errado com as suas roupas? – Nos olhou atravessado.
– Minha blusa ficou completamente molhada, Edward gentilmente me ofereceu a dele para me aquecer. – Bella respondeu, corando levemente.
– Tem roupas nas doações para os necessitados no meu gabinete. Venha comigo, vamos encontrar algo seco do seu tamanho.
Bella assentiu e seguiu o pastor, que já se retirava pela mesma porta que entrou.
Sentei-me na primeira fileira de bancos da igreja e encarei a enorme cruz que pendia sobre o altar. Que caminhos tortuosos me trouxeram até aqui? Refleti.
Me desliguei por completo do restante do mundo, imerso nos meus pensamentos, enquanto encarava aquele altar.
Será que Bella sempre esteve no meu caminho e eu não percebi? Parecia que algo estava me trazendo de volta à ela. E, como eu tinha dito, era como se o próprio Deus tivesse abençoado esse reencontro, o fazendo acontecer dentro de um templo.
– Obrigada pelas roupas, pastor. – Ouvi a voz de Bella e os passos dos dois retornando à nave da igreja. – Prometo que venho logo para devolvê-las aos donativos. E também vou separar algumas das minhas roupas para doação.
– Saiba que sempre que quiser aparecer a senhorita será muito bem-vinda. As portas da nossa igreja estarão sempre abertas.
Ela assentiu e veio em minha direção, enquanto o homem deu meia volta e sumiu novamente no corredor além da porta.
– Seu suéter. – Me estendeu a blusa dobrada em sua mão.
– Obrigado.
– Na verdade, eu que agradeço.
Vesti a camisa de volta.
– Parece que a chuva está diminuindo. – Ela olhou para as portas duplas abertas atrás de mim. – Então, podemos ir.
Assenti e caminhamos até a saída da igreja.
– Acho que é melhor você ir para sua casa agora. – Ela sugeriu.
– Certo. Então, acho que vejo você na quinta.
– Claro, tem a entrega semanal de croissants da sua irmã.
Assenti.
– Bem, então é isso, vejo você depois, Bella.
Ela acenou um tchau e partimos para lados opostos.
~*~
Na quinta-feira, como prometido, Bella estava de novo na casa dos meus pais, com a encomenda semanal de croissants. Naquele dia, eu fiz questão de não sair para caminhar como nos outros dias, com medo de perder sua visita. Quase não consegui me conter quando finalmente a campainha tocou. Levantei-me do sofá num pulo e em segundos a porta estava aberta.
– Você chegou! – Não pude evitar sorrir.
– E trouxe os croissants. – Exibiu a caixa da padaria, igual da semana anterior.
– Bella, vem ver meus brinquedos. – Lizzie surgiu do nada e agarrou a mão dela, a arrastando para dentro de casa.
– Um instante, Lizzie, eu preciso entregar a encomenda da sua tia. – Mostrou a caixa.
Minha filha tomou da mão dela e a colocou sobre a mesa de centro, voltando a puxá-la na direção da escada.
– Hoje é aniversário da minha boneca e nós temos que ir para a festa.
– Aniversário da boneca? Parece que eu adivinhei! Hoje, além de croissants, tem um pequeno bolo dentro daquela caixa.
– Um bolo? – Os olhos de Lizzie brilharam.
– Um bolo de verdade no aniversário da boneca? Acho que você acabou de se tornar a heroína dela. – Sussurrei perto do ouvido de Bella, que sorriu.
Não me passou despercebido sua pele ficar arrepiada.
– Podem subir, eu levo o bolo daqui a pouco. – Sugeri.
Minha filha arrastou Bella até o quarto, e ela foi de bom grado, parecendo feliz com o entusiasmo da minha pequena.
Enquanto isso, peguei a caixa na mesinha e a levei para a cozinha, retirando o pequeno bolo de chocolate de dentro. Procurei nas gavetas uma vela e encontrei uma perfeita, pequena e com glitter. Coloquei-a no topo do bolo, peguei um isqueiro, o bolo e subi, indo em direção ao quarto da minha filha.
– Um bolo com vela e tudo! Isso é perfeito! – Lizzie praticamente gritou, pulando e batendo palmas de empolgação.
Tiramos o bolo de massinha de modelar, que Lizzie sempre fazia para suas bonecas, e substituímos pelo de verdade no centro da mesa infantil.
– Temos bolo, vela e agora só faltam mais convidados – Bella insinuou.
– Quem mais poderia vir?
– Outras bonecas? — Bella sugeriu.
– Sim, podemos deixar essa festa ainda melhor! – Completei.
A ideia pareceu animar ainda mais Lizzie. Ela correu até a prateleira de bonecas com Bella a seguindo e, juntas, elas pegaram várias bonecas e ursos de pelúcia.
Pela próxima hora, brincamos juntos, cantamos parabéns, cortamos o bolo e comemos, nos deliciando com o sabor divino de tudo que Bella fazia. Lizzie fez uma enorme sujeira ao tentar fazer seu ursinho comer um pedaço de bolo e eu e Bella rimos juntos, recebendo um olhar contrariado dela.
Por um momento, me perdi observando a cena e o quanto nós três, brincando e nos divertindo juntos, pareciamos nos encaixar. Era como se Bella nos completasse, como se fosse uma peça fundamental da nossa pequena família. A percepção disso me trouxe sentimentos agridoces, era bom e parecia certo, mas ao mesmo tempo parecia uma ideia precipitada.
– Eu me diverti muito, Lizzie, mas agora eu preciso mesmo ir.
– Precisa? – Fez um biquinho triste.
– Sim, mas prometo que volto outro dia para brincar mais, o que você acha?
– Sim! – Ela pulou no colo de Bella e a abraçou, feliz com a menção de brincar mais.
Pedi que Lizzie guardasse os brinquedos, enquanto eu levava Bella até a porta.
– Obrigado por isso, por entrar na brincadeira.
– Não precisa agradecer, Edward. Eu adoro brincar com ela.
O sorriso de Bella me fez ficar focado por tempo demais em seus lábios. Dei uma olhada rápida para dentro de casa, para verificar se Lizzie não tinha descido escondida. Ao encontrar a sala vazia, me virei para ela e me aproximei, testando seus limites. Quando constatei que não ela não oferecia nenhuma resistência, depositei um beijo em seus lábios. Um beijo calmo, lento e que acabou mais rápido do que eu gostaria.
– Você não tem medo que sua filha nos veja? – Disse baixinho.
– Ela está ocupada e eu não pude resistir a você me tentando.
– Eu não estava te tentando.
– Estava sim, você só não faz ideia do quanto.
Ela sorriu timidamente.
– Tchau, Edward.
– Tchau!
A observei entrar em seu carro e partir, refletindo o quanto eu não queria ter que esperar mais uma semana para poder vê-la novamente.
~*~
No sábado seguinte, tomei café da manhã com Alice e Lizzie, mas após aquela refeição minha irmã desapareceu em seu quarto, me deixando assistindo filmes infantis sozinho com minha filha na sala.
– Edward, tudo bem se eu não ficar para almoçar com vocês hoje? – Alice perguntou descendo as escadas toda arrumada, colocando brincos elegantes na orelha.
– Por quê? Para onde você vai? – Fiquei de pé, me afastando do sofá onde estava aconchegado com Lizzie.
– Jasper vai me levar para almoçar num restaurante em Seattle. Hoje é nosso aniversário de namoro.
– E eu vou ficar abandonado aqui?
– Não seja dramático, não combina com você. E no mais eu vou estar de volta para o jantar.
– Mas o que eu vou fazer sozinho o dia inteiro?
– Você é inteligente, eu sei que vai pensar em algo.
Ao passar por mim, deu dois tapinhas no meu rosto e em seguida beijou minha bochecha. Depois foi até Lizzie, abraçou e beijou a sobrinha, nos disse tchau e saiu.
– Parece que somos só eu e você hoje. – Falei para minha filha.
– Podemos chamar a Bella?
Na verdade, ela me deu uma ótima ideia. Peguei o celular achando com facilidade o contato salvo recentemente.
“Ei, Bella, está livre?” Escrevi para ela.
“Estou terminando de preparar algumas massas na padaria, mas daqui a pouco estarei livre. Por quê?”
“Alice saiu para almoçar com Jasper e não sei se estou pronto para voltar a comer minha própria comida.”
Ela enviou uma mensagem rindo.
“Já que você entende de comida boa, pensei em pedir indicações de lugares para almoçar.”
“Meus amigos da reserva quileute disseram que tem um bistrô novo em La Push muito bom, mas eu ainda não conheço pessoalmente.”
“Ótimo, então você vai com a gente.”
“Não precisa, não quero atrapalhar vocês.”
“Não vai atrapalhar, muito pelo contrário, Lizzie vai amar!”
“E eu também.” Completei em seguida.
“Neste caso, fico lisonjeada com o convite.”
“Que horas posso te pegar?” Perguntei.
“Eu ainda sei dirigir.”
“Meio dia soa ótimo para mim!” Ignorei seu protesto.
Primeiro, ela respondeu com uma figurinha revirando os olhos, depois digitou:
“Está bem, estarei te esperando ao meio dia, na minha casa.”
Comecei a arrumar Lizzie imediatamente para que não nos atrasássemos. E, ao meio dia em ponto, estávamos parando o carro na frente da casa de Bella. Assim que ouviu o motor, ela apareceu na varanda da casa, trancando a porta em seguida. Desci do carro e abri a porta do carona para esperá-la.
– Obrigada. – Agradeceu, levemente corada.
Dei a volta no carro e sentei-me novamente no banco do motorista. Enquanto eu dirigia, Bella dividia sua atenção entre guiar nosso caminho até o restaurante e responder as milhares de perguntas de Lizzie.
Ela estava certa, o bistrô era maravilhoso, com uma vista linda para a praia e tivemos uma refeição deliciosa. Depois do almoço, decidimos caminhar um pouco na praia, sem estarmos prontos ainda para encerrar aquele passeio agradável.
– Olha, papai, conchinhas! – Lizzie apontou na direção do mar. – Posso pegar?
– Pode, mas cuidado para não se molhar, está muito frio.
É claro que meu aviso seria inútil se tratando de uma criança de 4 anos, mas como pai eu precisava tentar. Lizzie correu pela areia, se abaixando vez ou outra para colher conchinhas que lhe chamavam a atenção.
Bella se aproximou de mim e seu braço roçou no meu. Tomei coragem e segurei sua mão, entrelaçando nossos dedos. Era estranho, mas com ela eu me sentia um adolescente de novo, sempre nervoso como meus gestos seriam recebidos por ela, com medo de ser rejeitado pela garota que estava interessado.
No entanto, ela jamais frustrou minhas expectativas, sempre me correspondendo de bom grado. E, quase como para ilustrar meus pensamentos, ela apoiou a cabeça no meu ombro enquanto caminhávamos pela praia.
– Ela é uma garotinha muito especial. – Bella comentou, olhando Lizzie correr a uns metros de distância de nós. – Você tem muita sorte de tê-la.
– Eu sei… – Comentei reflexivo.
– Alice contou que sua mulher morreu. Como foi para você?
– A gente já estava separado quando aconteceu. Mesmo assim, foi difícil, por causa da Lizzie.
– Você ainda a amava?
– Para ser sincero, não sei se algum dia cheguei a amá-la. Nós confundimos a paixão com outro sentimento mais profundo, acabamos casamos por impulso e foi por isso que durou tão pouco tempo. Mas ela era uma boa pessoa e nós mantivemos um relacionamento amigável para criar Lizzie juntos, foi um baque da mesma forma perdê-la.
– Sinto muito.
– Está tudo bem. Como você disse antes, é o ciclo da vida.
– Mesmo assim, foi muito precoce. E eu sinto muito por ela. – Suspirou, encarando Lizzie na beira do mar. – É uma pena ver uma garotinha como ela crescer sem a mãe.
– Você também cresceu sem a sua, não é? – Relembrei com cautela, sem saber se tinha liberdade para tocar no assunto.
Bella suspirou outra vez.
– Pelo menos ela vai saber que a mãe dela não teve escolha, que não a deixou por querer.
– Sua mãe ter ido embora e nunca mais ter te procurado te machucou muito, não é?
– Sim, uma mãe faz falta para uma menina. – Apesar da situação ser diferente, como ela mesma tinha pontuado, me senti mal pela minha filha, por mais que eu tentasse ser suficiente para ela, nunca seria sua mãe. – Pelo menos, tia Molly sempre foi presente na minha vida. – Citou a mãe de Emmett. – Imagino que Alice e sua mãe também vão ser bem importantes no desenvolvimento de Lizzie.
– Você tem razão. – Me peguei pensando em quanto Lizzie parecia mais plena com Alice, desde que chegamos à Forks. Mais uma vez, percebi o quanto eu errei demorando tanto em vir visitar minha família.
– Me desculpe. – A voz de Bella me tirou dos meus pensamentos. – Toquei num assunto muito delicado.
– Está tudo bem, eu só estava pensando. Acho que você a entende melhor do que ninguém.
– Talvez por isso a gente se deu tão bem desde o princípio.
– Ela realmente gosta de você, nunca a vi tão confortável com alguém que não fosse da família.
– Eu também gosto muito dela.
Caminhamos mais um pouco em silêncio pela praia.
– Você quer sentar um instante? – Apontei para um tronco caído na areia e Bella assentiu.
Andamos até lá em silêncio e ficamos algum tempo sentados sem dizer nada, apenas observando Lizzie colher conchinhas na areia, até que senti Bella estremecer ao meu lado.
– Está com frio?
– Não exatamente, mas o vento me incomoda um pouco.
– Venha aqui. – Soltei sua mão e passei meu braço por seus ombros, trazendo ela mais para perto do meu peito.
Ela se aconchegou contra mim.
– O que você acha se ela nos vir assim?
Olhei para Lizzie agachada na areia, de costas para nós.
– Estamos apenas abraçados.
– Nós nunca ficamos tão íntimos assim na frente dela.
Então ela percebeu. Eu tomava aquele cuidado para não confundir a cabecinha da minha filha. Não sabia como ela iria reagir se soubesse que havia mais uma pessoa na minha vida. E sinceramente, havia? O que eu e Bella éramos um para o outro? Quanto tempo iria durar aquilo que estávamos tendo? Valia a pena envolver Lizzie e essa relação não ir a lugar algum?
– Ela está acostumada a te ver namorando? – Bella perguntou de repente, cautelosa.
– Não. – Fui sincero. – Desde o divórcio, antes mesmo de ser só nós dois, eu nunca me envolvi romanticamente com mais ninguém. Estava focado demais em ser um bom pai para ela, acabei deixando o romance de lado na minha vida.
– Se você quiser, podemos continuar sendo cautelosos diante dela, agir como apenas velhos amigos.
– Se tivéssemos que explicar para ela o que nós temos, você se incomodaria de me ajudar com isso?
– É claro que não! Eu adoro sua filha. Só acho que eu não saberia dizer o que está acontecendo entre nós ainda.
– Não é estranho a gente estar aqui agora, juntos, depois de tantos anos? – Refleti.
– Quem diria, não é? – Sorriu.
– Será que estávamos destinados a isso desde sempre?
– Você acredita mesmo nessa coisa de destino?
– Não sei, para falar a verdade. Mas se realmente existir, me sinto meio estúpido de te conhercer há tantos anos e ter perdido tanto tempo me desviando do caminho. Quando penso nisso, queria poder pegar todos os anos perdidos e entregar a você.
– Deixa de bobagem. A gente nunca teria dado certo se tivesse tentado isso antes. Tudo o que a gente viveu foi preciso para estarmos aqui hoje. Se a gente tivesse ficado juntos desde a adolescência você não teria Lizzie. Você se arrepende dela?
– Não, de jeito nenhum!
– Exatamente, foi o que eu pensei. E acho que até ela foi importante para nos unir aqui neste dia. Não sei se me sentiria da mesma forma em relação a você se não tivesse visto o pai amoroso que você é.
– Eu não pensei por esse lado, mas faz sentido. Obrigado por me ajudar a enxergar.
– Quer dizer, nós dois nos conhecemos desde crianças e nunca sentimos esse desejo de ficar juntos como agora, então tudo aconteceu exatamente quando deveria.
– Você não sentia nenhuma atração por mim naquela época?
– Bem, eu senti. No seu último ano na Forks High School, mas você estava prestes a ir para a faculdade, ia conhecer mulheres mais velhas e mais interessantes do que eu, que era só uma garota boba ainda.
– Só no meu último ano?!
– Sim. Por quê? Você sentiu alguma atração por mim antes disso?
– Logo depois do nosso primeiro beijo.
– Uau! Isso foi anos antes.
– Sim, foi. Eu passei anos desejando você platonicamente e você nem me notava.
– Acho que você só começou a ficar interessante no final do ensino médio. – Ela me provocou e eu ri.
– Você não faz ideia o quanto eu pensava em você naquela época.
– Não fazia mesmo! Eu achava que aquele beijo tinha sido só uma experiência mal sucedida para você.
– Foi bem ruim, não é? – Fiz careta.
– Não foi ruim. – Me contradisse. – A gente só era bem inexperiente na época.
– Mas acho que agora melhoramos um pouquinho.
– Somos muito melhores agora!
Olhei furtivamente para Lizzie, vendo ela ainda de costas para nós, e roubei um beijo de Bella. Mas sinceramente, se ela nos flagrasse, eu me sentia um pouco mais preparado para enfrentar seus questionamentos, agora que sabia que não estaria sozinho.
O beijo foi calmo, não muito longo, ainda assim foi cheio de significado, talvez até mais do que os anteriores. Eu podia sentir ali compreensão, aceitação e, surpreendentemente, carinho. De certa forma, eu sabia que também transmitia sentimentos semelhantes. Aquela conversa foi um divisor de águas, era claro que depois dela estávamos nos envolvendo mais a sério.
– Acabou que não pedimos sobremesa no restaurante. Acho que eu queria algo doce. – Comentei de repente.
– Eu tenho torta de chocolate em casa, se você quiser.
– Você me ganhou com o chocolate.
– Então vamos. – Riu.
Nos levantamos do tronco e batemos a areia das nossas roupas.
– Lizzie! – Gritei para ela, que apenas olhou para mim. – Venha, vamos embora.
– Não! – Retrucou e voltou sua atenção para as conchinhas na areia.
– Elizabeth! – Repreendi, mas ela nem sequer voltou a olhar para mim.
– Lizzie, estamos indo comer torta de chocolate na minha casa! – Bella interveio e atraiu a atenção da garotinha, que se pôs de pé rapidamente e correu até nós.
– Você sabe como ter ela nas suas mãos. – Acusei, mas em tom brincalhão.
Nós três voltamos ao carro e eu dirigi de volta até a casa de Bella.
– Olha só para você, está toda suja! – Observei Lizzie sob a luz da varanda, enquanto Bella destrancava a porta.
Tirei os sapatos de Lizzie e os deixei junto da entrada, para evitar que espalhasse areia da praia por toda a casa.
– O banheiro fica lá em cima, se quiserem se lavar. – Bella ofereceu.
– Acho que vai ser melhor, essa mocinha está toda molhada e coberta de areia.
Ela nos guiou ao primeiro andar, onde havia um corredor com 3 portas. Indicou que o banheiro ficava atrás da porta em frente à escada e Lizzie correu até lá.
– Melhor eu ir ajudar, para evitar que ela faça bagunça. – Anunciei.
Optei por tirar a meia calça dela e deixá-la apenas de short, estava quente dentro da casa de Bella com os aquecedores e aquela peça também estava cheia de água do mar e areia. A levei para o chuveiro a fim de lavar as pernas, mas fiquei para ajudar e garantir que não molhasse as roupas de novo, ela não tinha outras para trocar. Porém, é claro que Lizzie conseguiu fazer uma bagunça enorme e quase me derrubou debaixo do chuveiro. No fim, ela estava minimamente limpa e com as roupas milagrosamente secas, mas quando voltamos ao corredor, onde reencontramos Bella, eu estava com a camisa encharcada.
– A ideia era evitar que ela fizesse bagunça, mas eu que acabei todo molhado. – Olhei minha camisa e ela riu.
– Talvez eu tenha alguma coisa que sirva em você. – Ela desapareceu por uma das outras duas portas no corredor do andar de cima e depois retornou com uma peça dobrada nas mãos. – Aqui. – Me entregou e apontou a porta de onde tinha saído – Pode ficar à vontade para se trocar.
Agradeci e ela chamou Lizzie para descer. Entrei no quarto e desdobrei a roupa em minhas mãos, vendo que era um moletom com o nome da cidade de Phoenix, Arizona, estampado na frente. Troquei minha camisa pelo moletom e desci atrás das duas. As encontrei na cozinha, Lizzie já sentada à mesa comendo uma generosa fatia de torta de chocolate. Bella a observava encostada ao balcão, como se estivesse me esperando para poder se servir.
– Ficou um pouco curto. – Anunciei, parado na soleira da porta. – Mas deu certo, é só eu não levantar os braços.
Bella riu.
– Onde está sua camisa para colocar na secadora?
– Não precisa ligar uma máquina só para uma peça, a deixei lá em cima perto de um aquecedor, logo estará seca.
Ela assentiu e mudou de assunto.
– Já servi a torta para Lizzie, mas pensei em passar um café para a gente para acompanhar a torta. O que você acha?
– Acho perfeito.
Então ela colocou água para ferver, para fazer um café coado e não de cápsula, como a maioria das pessoas faria. Enquanto esperava, me sentei diante da minha filha, a vendo comer e sujar a cara inteira de chocolate novamente.
– Onde tem guardanapo? – Perguntei quando Lizzie terminou sua fatia e Bella me entregou uma folha de papel. Passei-a pelo rosto da minha filha, tentando reduzir o estrago.
– Papai, eu posso assistir?
Assenti, tirando o celular do bolso para entregar a ela.
– Eu posso colocar na TV, se você preferir. – Bella perguntou, colocando a garrafa com o café pronto sobre a mesa.
– Eu quero. – Lizzie concordou e eu guardei meu celular de volta, enquanto as duas iam até a sala.
Quando Bella retornou, nos servimos da torta e comemos conversando amenidades.
– Você sempre mandou muito bem na cozinha. – Elogiei quando acabamos.
– Obrigada.
– Acho que vou sentir falta de poder comer seus croissants, tortas e bolinhos quando tiver que voltar para Chicago.
– Você poderia voltar para Forks com mais frequência, a padaria vai estar sempre à sua espera. E tenho certeza que sua família ficaria feliz também com isso.
– Você tem razão, eu errei demorando tanto para voltar aqui. Vou tentar corrigir isso. – A verdade é que eu começava a desejar não ter que ir embora.
Nós dois ficamos em silêncio por um segundo, apenas olhando um para o outro.
– Bella! Coloca Bob Esponja. – Lizzie gritou da sala.
– Como se diz, mocinha? – Gritei de volta.
– Por favor!
Bella riu e se levantou da mesa.
– Já volto.
Me levantei também, a fim de levar nossos pratos de torta para a pia, mas fui interrompido quando meu celular tocou, o identificador na tela exibia um número desconhecido. Mesmo assim, atendi para saber do que se tratava.
– Edward? – Era minha irmã do outro lado da linha. Mas por que ela não me ligou do próprio celular?
– Alice? Que número é esse?
– Edward, preciso de você! – As palavras dela eram urgentes, como se algo sério tivesse acontecido, mas sua voz estava estranhamente tranquila, apenas com a agitação de Alice de sempre.
– Onde você está?
– Houve uma confusão no café que eu estava com Jasper, eu fui tentar ajudar e acabei sendo envolvida. Eu fui trazida pelos policiais para a delegacia do distrito sul de Seattle.
– Você o que?!
– Edward, eu preciso que você venha me tirar daqui.
– Alice, eu não posso ir, não tenho com quem deixar Lizzie.
– O que está acontecendo? – Bella perguntou se aproximando de mim.
– Alice foi detida em Seattle e precisa que eu vá em seu socorro. – Expliquei cobrindo o microfone do celular com a mão.
– Quem está com você? – Minha irmã quis saber, do outro lado da linha.
– Eu posso ficar com ela esta noite para você. – Bella ofereceu ao mesmo tempo.
– Bella está aqui. – Expliquei ao telefone. – E ela está se oferecendo para ficar com Lizzie hoje.
– Ótimo! Então venha rápido! – Minha irmã exigiu e desligou a chamada.
Revirei os olhos.
– Tem certeza que não é um problema você ficar com ela essa noite? – Perguntei para a mulher à minha frente.
– Problema nenhum! Apenas vá ajudar Alice.
Assenti e subi para trocar de roupa. Ao descer novamente, parei junto da minha filha, que estava assistindo desenhos no sofá da sala.
– Liz, eu tenho que ir ajudar a tia Alice com uma coisa. Tudo bem para você ficar com a Bella por esta noite?
– Sim! – Ela praticamente gritou, abrindo um sorriso iluminado na direção da mulher.
– Não se deixe enganar por esse sorriso, ela é ardilosa! – Adverti Bella, que revirou os olhos.
– Está tudo bem, Edward.
– Estou falando sério! Não a deixe ficar assistindo desenhos até tarde, no máximo às dez ela precisa estar na cama. – Ela assentiu. – E ela precisa tomar banho antes de dormir, não a deixe te convencer do contrário, porque ela vai tentar!
Elizabeth deu uma risadinha ao meu lado.
– E se ela quiser lanchar antes de dormir você pode dar uma fruta a ela, mas se for banana ela não come as pontinhas, então tem que cortar fora antes de dar a ela.
– Eu sei me virar com uma criança, Edward! Agora vá atrás da sua irmã.
Assenti e beijei o topo da cabeça de Lizzie.
– Seja obediente.
Me aproximei de Bella e lhe entreguei minha chave.
– Se precisar de algo para ela, pode ir na casa dos meus pais buscar.
Assentiu e pegou o objeto. Dei um breve beijo em sua têmpora e saí, rumo a Seattle.
~*~
Na delegacia, descobri que após o almoço Alice e Jasper passearam um pouco pela cidade e depois foram a uma cafeteria, onde houve uma confusão e a polícia foi chamada. Os policiais estavam prontos para levar todos os envolvidos para a delegacia, mas Alice achou injusto e decidiu contar sua versão de quem começou a confusão. Ela, com seu jeito impetuoso, acabou discutindo com os agentes da lei e todos foram levados para a delegacia, até mesmo Jasper, que entrou na confusão apenas para tentar conter a namorada.
Jasper foi liberado após prestar apenas esclarecimentos, mas quando cheguei a Seattle me deparei com uma situação da minha irmã um pouco mais complicada. No processo de defender a pessoa que ela achou que estava sendo injustiçada, Alice acabou discutindo com um policial e foi multada por desacato. Eu precisei pagar para que ela pudesse ser liberada.
Quando saímos da delegacia, deixei Jasper perto da cafeteria onde tudo começou, para que ele pegasse o carro onde estava estacionado. Alice quis voltar para Forks com ele, mas eu não permiti. Mesmo sendo adulta, ela ainda era minha irmã mais nova e tinha sobrado para mim resolver o problema em que se meteu por agir impulsivamente, então eu precisava fazer o sermão de irmão mais velho, sobre pensar mais nas consequências de seus atos.
Foi um longo caminho de volta de Seattle a Forks, assim como a conversa que tivemos. O assunto só se encerrou quando estávamos quase cruzando os limites da cidade.
– Para onde você está indo? – Alice perguntou quando saí da estrada principal, que nos levaria à casa dos nossos pais.
– Lizzie está com Bella, preciso buscá-la.
Ela assentiu e voltou a ficar calada, como estava desde que terminamos nossa discussão.
Já era bem tarde quando estacionei diante da casa de Bella novamente, eu não sabia nem se ela estaria acordada. Mesmo assim, desci do carro e fui até sua varanda, a fim de tocar a campainha, mas antes que eu o fizesse a porta se abriu.
– Como foi lá? – Bella perguntou logo que me viu.
– Correu tudo bem, apesar do estresse. Alice foi multada por discutir com um policial.
Bella arregalou os olhos e tentou ver atrás de mim.
– Ela está no carro. – Expliquei.
– Que bom! – Suspirou aliviada.
– E aqui, como foram as coisas?
– Bem também. Lizzie é uma menina ótima.
– Obrigado por ter ficado com ela hoje, a propósito.
– Não há de que. – Sorriu. – Você não prefere deixar ela passar o restante da noite aqui? Amanhã eu a levo de volta.
– Obrigado, mas já abusamos demais da sua hospitalidade por hoje.
– Não tem problema. E ela está dormindo tão serena, seria uma pena levá-la agora.
– Eu entendo perfeitamente, mesmo assim acho que é melhor irmos agora.
– Bem, ela está no meu quarto.
Bella me levou até o quarto onde troquei de camisa mais cedo. Lizzie estava apagada no centro da cama, parecendo bastante a vontade. Ela também vestia algo diferente, era uma camiseta de Bella, bem maior do que ela. Com cuidado para não acordá-la, peguei no colo e a ajeitei no meu ombro.
– Obrigado mais uma vez por hoje. Por tudo. – Agradeci novamente quando retornamos à porta da frente da casa.
Beijei o rosto dela, com cuidado para não acordar a criança no meu colo, e saí.
~*~
Na quinta-feira, novamente ela apareceu na casa dos meus pais, com a mesma caixa de croissants de sempre. Desde o almoço em La Push, tínhamos nos visto apenas uma vez, quando apareci na padaria pela manhã, mas ela estava ocupada, então nos falamos pouco.
Como de costume, Lizzie exigiu a atenção dela de imediato. Enquanto Alice e eu brigávamos para ver quem ia comer mais croissants. E, exatamente como das outras vezes também, tive que intervir para minha filha liberar Bella para voltar ao trabalho.
Aproveitei que Alice estava cuidando de servir o café da manhã da sobrinha e fui acompanhar Bella até a porta, com a intenção presunçosa de lhe roubar um beijo ou dois na varanda.
– Eu vou sentir falta disso quando acabar. – Comentei ao interrompemos o beijo.
– Como assim? – Ela perguntou, franzindo o cenho.
– Você sabe, quando minhas férias acabarem tudo vai ter que voltar ao normal.
Ela recuou um passo, com a expressão mais magoada que eu já vi no seu rosto em toda minha vida.
– Bella, o que houve?
– Então, quando você está comigo fica pensando em quando vamos terminar?
– Não podemos viver assim para sempre, eu tenho que voltar para minha vida em Chicago.
Ela recuou mais, como se quisesse manter distância de mim.
– Não percebi que estava caindo na mesma armadilha. – Não entendi exatamente o que ela estava querendo dizer. – Eu não sabia que você sempre esteve comigo pensando no nosso prazo de validade.
– Sejamos práticos, é óbvio que as coisas não vão continuar do jeito que estão para sempre. Uma hora eu vou ter que ir embora.
– Não, você está certo. Isso aqui vai ter que acabar mesmo mais cedo ou mais tarde e, neste caso, eu acho até melhor a gente parar por aqui agora mesmo.
– Bella, eu não quis…
– É melhor eu ir logo embora. – Virou-se e partiu, me deixando sozinho na varanda da casa dos meus pais.
Idiota! Briguei comigo mesmo.
Naquela noite, mal consegui dormir. Quando eu fechava os olhos, via a expressão magoada de Bella diante de mim depois do que eu disse. Saber que eu tinha causado aquilo me deixava péssimo. Mesmo em poucas semanas, o bem-estar dela se tornou importante demais para mim e eu precisava garantir que ela voltasse a ficar bem.
Na manhã seguinte, estava deitado na cama, acordado, ainda remoendo os fatos da noite anterior, quando batidinhas soaram na minha porta.
– Entre. – Pedi e Alice colocou apenas a cabeça para dentro do meu quarto.
– Edward, lembra daquela premiação de design que recebemos o convite uns dias atrás? – Assenti. – O evento vai ser esse fim de semana e eu queria saber se você vai comigo. Na verdade, eu queria que você fosse, é uma indicação importante para o escritório e para a mãe, como fundadora. Ela iria querer que a família toda estivesse lá, já que ela não pode. – Ela emendou tudo num fôlego só.
Suspirei. A última coisa que eu tinha na cabeça era um prêmio de design, mas eu sabia que era importante para minha irmã e para minha mãe, como ela tinha dito. Então, eu teria que enterrar meus próprios problemas por algumas horas e estar lá por elas.
– É claro que eu vou, Alice!
– Ótimo! Jasper e eu vamos sair do trabalho mais cedo hoje e já passamos a noite em Seattle. Você vem com a gente?
De repente, uma ideia me ocorreu.
– Alice, posso pedir um favor?
– Do que se trata? – Franziu o cenho.
– Vocês se incomodam em levar Lizzie hoje e eu encontro vocês amanhã de manhã?
– Por quê isso agora?
– Tem algo importante que eu preciso fazer aqui.
– E eu posso perguntar o que é?
– Ainda não. Prefiro manter essa informação só para mim, por enquanto.
– Mas depois você vai me contar?
– Depois eu conto.
– Está bem, nós levamos ela hoje. Só por favor, não perca a premiação amanhã é muito importante para mim e para a mãe.
– Eu prometo estar lá!
Mal pude me conter durante o dia, enquanto arrumava a mochila de Lizzie para ir para Seattle com a tia. No meio da tarde, Alice voltou do trabalho e, assim que a noite caiu, ela e Jasper partiram levando minha filha com eles. Então eu estava sozinho e finalmente livre para fazer o que passei o dia planejando.
Estava parado diante da casa de Bella e precisei respirar fundo uma vez antes de ter coragem para tocar a campainha. Depois do dia inteiro ensaiando a conversa com ela, estava nervoso para começar. Porém era preciso, então finalmente toquei a campainha e esperei ela abrir.
– Edward, o que você está fazendo aqui?
– Nós podemos conversar?
– Onde está Lizzie? – Olhou em volta de mim.
– Viajou com Alice.
– O que? Por que? Para onde elas foram?
– Só por essa noite, será que podemos tentar esquecer tudo além de simplesmente você e eu?
– Isso não é muito difícil, eu sempre esqueço tudo quando estou com você. – Resmungou.
– Como?
– Deixa para lá. Afinal, o que você veio fazer aqui?
– Eu vim me desculpar pela forma como falei ontem.
– Está tudo bem.
– Não, não está. Você ficou magoada com o que eu disse e eu fiquei muito mal com isso, preciso garantir que esteja tudo bem entre nós.
– Por que você está tão preocupado? Vamos apenas deixar para lá.
– Não, eu não quero deixar para lá. Eu sei que nos reencontramos faz pouco tempo e tudo isso é muito novo, mas eu me importo com você e como você se sente.
– O que quer dizer com isso?
– Bella, eu estou começando a gostar de você e isso é muito assustador, porque é um sentimento novo e eu não estava pronto para isso. Sei que vai ser muito complicado porque nós moramos em cidades diferentes, mas eu quero tentar ter algo sério com você, tentar fazer dar certo. – Fiz uma pausa para respirar antes de prosseguir. – E eu não sei exatamente como vamos fazer isso, mas eu estou disposto a descobrir.
– Edward, eu namorei por anos na expectativa de um dia casar e ter minha própria família, até o dia em que meu ex apareceu no meu trabalho dizendo que nunca pretendeu passar o resto da vida comigo. Eu só não quero cair na mesma armadilha.
– Eu sei. Minha experiência foi exatamente o contrário, eu me casei cedo demais e acabamos divorciados. Acho que esse trauma acabou me fechando inconscientemente para outros relacionamentos. Depois fiquei sozinho com Lizzie e passei a me dedicar totalmente a ela. Mas creio que podemos encontrar um meio termo para nós dois, superar as lembranças ruins que temos dos nossos relacionamentos antigos e achar uma forma de fazer dar certo para nós!
– Você mora em Chicago!
– Mas minha família mora aqui e eu pretendo vir mais vezes. Você também pode ir me visitar, eu adoraria te receber. A princípio podemos tentar manter um relacionamento à distância e com o tempo a gente vê se isso vai dar certo ou não.
– Ontem você disse que nossas vidas iam voltar ao normal quando suas férias acabassem.
– Eu sei o que eu disse e eu percebi o quão idiota eu estava sendo no instante que pronunciei aquelas palavras, por isso vim aqui me desculpar. Eu sinceramente não quero voltar para a vida que eu tinha antes, pelo menos não para a parte dela que eu era solitário, sem você do meu lado. Gosto dos nossos beijos, mas também gosto das nossas conversas, da forma que a gente se entende, ou mesmo da maneira que você se junta com Alice para falar mal de mim, gosto da forma com que apenas ficamos juntos, mesmo quando não estamos falando ou fazendo nada específico.
– E como vai ser com Lizzie?
– Você me disse antes que estava disposta a me ajudar a conversar com ela. E eu ia cobrar isso.
– É isso mesmo que você quer?
– É o que eu mais quero, Bella. Só preciso saber se você também quer.
– Ah, Edward! Como se eu tivesse escolha.
– O que está tentando dizer com isso?
– Eu sei que estou começando a me apaixonar por você e isso é totalmente sua culpa! Eu não poderia evitar esse sentimento nem mesmo se eu quisesse.
– Mas você quer evitar?
– Não! – Ela se aproximou e enlaçou meus ombros com os braços. Agarrei sua cintura também.
– Então, Isabella… Qual seu nome do meio mesmo?
– Marie. – Ela riu da minha quebra de clima.
– Isabella Marie Swan, você aceita ser minha namorada?
– É claro que aceito, Edward Anthony Cullen!
– Você se lembra do meu nome completo?
– Eu sei muitas coisas sobre você. Agora será que dá para você ser um pouquinho romântico e me beijar logo?
– Com prazer! – Sorri antes de tomar seus lábios com os meus.
Começamos calmos, como se apenas experimentássemos os lábios um do outro, porém acabamos nos tornando mais urgentes e desejosos durante nosso contato.
– Será que eu posso fazer algo com o que sonhei por muito tempo? – Perguntei quando interrompemos o beijo.
– O que?
Comecei a abrir os primeiros botões de sua blusa, meus dedos roçando suavemente a pele do seu colo. Ela sorriu sensualmente e me olhou por baixo dos cílios. Terminei de desabotoar sua blusa e a deixei cair pelos seus braços.
– Realizado? – Perguntou com a voz levemente rouca.
– Quase. – Respondi, brincando com o polegar na borda do sutiã.
Ela pulou no meu colo, enlaçando minha cintura com as pernas.
– Ainda lembra o caminho para meu quarto? – Perguntou, com os lábios bem próximos dos meus.
Assenti e procurei o caminho para as escadas, enquanto ela voltava a atacar meus lábios.
~*~
Acordei na manhã seguinte com o toque do celular, era uma chamada de vídeo de Alice. Atendi ainda sonolento e fui bombardeado pela energia eufórica da minha irmã.
– Edward, cadê você? Achei que ia chegar cedo aqui, Lizzie já está perguntando por você. Logo vai começar a festa da revista e eu tenho que me arrumar. Vou acabar tendo que levar Lizzie para o salão comigo e se ela quiser ser maquiada eu não vou negar!
– Bom dia, Alice! – Interrompi seu monólogo.
– Onde você está? – Aproximou o rosto da tela, como se tentasse ver melhor algo na minha imagem.
– Oi, Alice. – Bella ergueu um pouco o corpo atrás de mim, aparecendo no vídeo.
Ouvimos um grito estrondoso vindo da minha irmã.
– Bella?! Vocês dois estão juntos? – Perguntou hiperventilando.
– Sim, estamos. – Sorri para a mulher do meu lado. – Mas será que você pode ser discreta? Queríamos conversar com Lizzie primeiro.
– Claro, claro! Ela não está por perto, Jasper a levou para uma volta pelo hotel.
– Bem, nós estaremos logo aí.
– Certo, venham rápido! Eu estou feliz por vocês, mas ainda brava pelo atraso.
E sem dizer mais nada, ela desligou.
– Alice! – Bella e eu dissemos juntos e acabamos rindo.
– Você vem mesmo comigo? – Perguntei.
– Vou sim, a menos que você não queira.
– Eu quero, sempre vou querer. – Peguei sua mão e depositei um beijo no dorso.
A deixei em casa se arrumando para a viagem, enquanto fui rapidamente à casa dos meus pais pegar uma muda de roupas para mim, para passar a noite em Seattle. Depois, voltei para buscá-la.
– Que caminho você está fazendo? – Ela perguntou quando peguei a estrada.
– A estrada norte, é o caminho para Seattle.
– É muito melhor ir pela estrada sul.
– Por quê?
– Para evitar os buracos da estrada norte.
– Eu não sei ir pela estrada sul, sempre fui pela norte.
– Não tem erro, é melhor pegar a estrada sul.
– Então, vamos para o sul.
Fiz o retorno, seguindo sua dica. E foi assim que acabamos perdidos. Fazia horas que estávamos no carro, era para estarmos pelo menos perto de Seattle, mas ainda estávamos na estrada no meio do nada, com apenas vegetação às margens.
– Bella, tem certeza que ainda estamos no caminho certo?
– Não sei.
– Mas foi você que me convenceu a vir por aqui.
– Eu sei, mas eu nunca dirigi até Seattle.
– E por que você parecia tão convicta que este era o melhor caminho?
– Porque é o caminho que eu sempre fiz com meu pai.
– Bella!
– Eu não me lembro dessa parte da estrada.
– Sim, porque estamos perdidos! – Eu estava ficando irritado.
– E o que fazemos agora?
– Eu não posso parar o carro, essa estrada não tem acostamento. Você podia ver no mapa onde nós estamos e como fazemos para voltar para a rota correta.
– Certo. – Pela visão periférica, vi ela pegar algo na bolsa e começar a abrir.
– Bella, o que você está fazendo?
– Olhando no mapa, como você pediu.
– Isso é um mapa de papel!
– E daí?
– Por que você está olhando um mapa de papel? – Esbravejei.
– O que você esperava?
– Que você abrisse o GPS como qualquer pessoa normal faria.
– Qual o problema do meu mapa?
– Ele não indica onde exatamente nós estamos em tempo real? – Era para ser uma afirmação, mas acabou soando como uma pergunta.
– Eu sempre usei esse mapa quando viajava com meu pai. Nunca falhou.
– É por isso que estamos nesse buraco, para começo de conversa!
E, ao mesmo tempo que fiz aquela metáfora, o carro balançou ao passar por um buraco na estrada. Buracos que, teoricamente, era o que estávamos tentando evitar pegando aquele caminho alternativo.
Então, ela começou a rir. Eu não entendi nada. Reduzi a velocidade para poder olhar para seu rosto de relance. Bella gargalhava como se realmente estivesse se divertindo.
– O que foi?
– Essa é a nossa primeira briga de namorados? Por causa de um mapa?
Dessa vez, eu ri com ela. Era a primeira vez que ela falava em voz alta que éramos namorados e eu não podia descrever o prazer que senti em ouvir aquilo.
– Acho que sim. – Soltei uma das mãos do volante para capturar a sua e trazer até os meus lábios. – Dizem que nenhum relacionamento sobrevive sem brigas… Então acho que, pelo menos no amor, estamos no caminho certo.
Rimos ainda mais pelo trocadilho.
– Bem, mas nós ainda estamos perdidos. Será que você pode, por favor, abrir o GPS agora? – Perguntei com mais suavidade.
– Está bem. – Concordou, finalmente desbloqueando o celular.
Conseguimos chegar a Seattle em cima da hora do evento, depois de dar tudo errado. Passei o dia inteiro ensaiando como contaria para Lizzie que estava namorando com Bella, mas nada saiu como planejado. Nos atrasamos, pegamos a estrada errada, tivemos que nos arrumar para a premiação no banheiro de um restaurante na estrada e quando chegamos à Seattle, Alice, Jasper e Lizzie já estavam na festa. Tivemos que ligar para minha irmã para ela levar nossos convites até a portaria. Quando finalmente entramos, a atenção de Lizzie foi atraída direto para nossas mãos unidas, como se tivesse um holofote sobre nós dois.
– Papai, Bella! – Correu até a gente. – Vocês estão namorando? – Perguntou virando a cabeça levemente de lado, confusa
Trocamos um olhar surpreso, acho que nenhum de nós dois imaginou que a notícia seria dada assim, de maneira tão direta. Mas quando se tratava de uma criança, tudo era muito espontâneo, nenhuma conversa acontecia dentro do planejado.
– Sim, nós estamos. – Decidi ser sincero e não fazer rodeios.
Eu queria conversar melhor com ela, perguntar como se sentia, mas sua avalanche de perguntas veio mais rápida do que meu raciocínio, assim que confirmei a informação.
– Vocês se beijam?
Bella deu um aperto nervoso na minha mão.
– Sim, nós nos beijamos. – Confirmei.
– E o que mais?
Bella teve uma crise de tosse ao meu lado. Dei leves batidinhas em suas costas e a abanei com a mão para ajudá-la a respirar.
– Nos abraçamos e pegamos na mão. – Respondi, quando minha namorada se recuperou.
– E vocês dormem juntos? – Foi minha vez de engasgar.
Alice, atrás de Lizzie, riu alto.
– Às vezes, princesa. – Ela mesma respondeu a sobrinha, uma vez que eu não estava em condições.
– Bella, o que você é minha agora?
– Madrasta, eu acho. Bem, ainda não é oficial porque não somos casados, mas acho que você pode chamar assim. – A própria conseguiu responder.
– Como você se sente com isso, princesa? – Finalmente consegui perguntar.
– É legal, Bella é minha madrasta! – Respondeu com uma simplicidade absurda.
Passei tanto tempo me preocupando como minha filha receberia a notícia de um novo relacionamento meu e, no fim das contas, aquela conversa foi muito mais fácil na vida real do que em todas as vezes que eu a imaginei. Lizzie estava apenas feliz em receber Bella na nossa família.
~*~
Na semana seguinte, eu tomei uma decisão. Aproveitei que Alice teve que ir ao escritório pela manhã e Lizzie estava bem brincando sozinha em seu quarto, para tomar algumas providências.
No mesmo instante em que terminei de resolver tudo, ouvi o carro de Alice parar diante de casa. Permaneci sentado na mesa de jantar, como estava, apenas fechei a tela do notebook e alonguei os braços, vendo ela entrar e pendurar o casaco no gancho perto da porta.
– Você estava certa, Alice.
– Eu sei. Normalmente eu estou. – Deu de ombros simplesmente. – Mas quanto ao quê dessa vez?
– Sobre ser hora de voltar para casa.
– Edward, você já está aqui há quase um mês e só se deu conta disso agora?
– Não é disso que eu estou falando, eu quero dizer que é hora de voltar para casa, definitivamente.
– Você está falando sério? – Me encarou surpresa.
– Sim. Eu acho que a cidade está fazendo muito bem para Lizzie, vai ser bom para ela crescer numa cidade pequena e calma, tem experiências que ela nunca vai poder viver num lugar como Chicago. Outro dia, por exemplo, a vi correndo atrás de um esquilo no quintal, isso jamais seria possível morando num apartamento.
– Eu também acho que a cidade tem feito muito bem para ela, mas morar aqui é uma mudança muito grande. Você tem certeza que está pronto para isso?
– Sim. Ano que vem, Lizzie vai começar na escola e acho bom que seja aqui. Ela vai poder ir andando pra aula quando for mais velha, vai fazer amizades e todos eles vão morar perto. Além disso, eu provavelmente vou conhecer a família de todos os amiguinhos dela, exatamente como nossos pais conheciam os pais de Emmett e o chefe Swan.
– E o seu trabalho?
– Eu vou pedir demissão e começar a procurar vagas por aqui.
– Você sabe que em Forks não temos museus como o que você trabalha para que você continue com seu cargo, certo?
– Eu amo meu trabalho em Chicago, mas acho que o desenvolvimento de Lizzie é mais importante agora. E eu vejo o quanto ela está mais livre desde que chegou aqui. Além disso, pude ver que ter figuras femininas por perto pode ser muito benéfico para ela.
– Isso tem a ver com a Bella?
Não precisei pensar muito para responder.
– Não. É claro que vai ser ótimo estar mais perto dela, mas é apenas um bônus. Eu aprendi minha lição no passado, não vou apressar as coisas dessa vez. Nós estamos juntos e estamos bem, mas estamos nos conhecendo como namorados, não vou tomar nenhuma atitude precipitada e mudar minha vida inteira por causa dela, pelo menos não agora, principalmente quando isso pode impactar a vida da minha filha.
– E qual o seu plano?
– Eu acabei de me candidatar a uma vaga de professor adjunto numa faculdade comunitária de Port Angeles. Se der certo, poderei morar aqui e duas ou três vezes por semana terei que enfrentar uma viagem de carro até Port Angeles para dar aulas de história da arte para universitários, mas creio que estou fazendo o melhor para minha filha. Eu também posso continuar escrevendo remotamente artigos freelancer para jornais e revistas especializados em arte, para complementar minha renda.
– Então, você está mesmo decidido?
– Sim. – Respondi com convicção. – Acho que vai ser o melhor para nós.
– Então eu estou muito feliz por você, irmão. Seja bem-vindo de volta ao lar! – Me abraçou.
– Obrigado, Alice.
– Vai ser bom ter você e Lizzie por perto.
– Na verdade, eu tenho um favor para te pedir.
– Estava demorando…
– Eu preciso voltar a Chicago para entregar o apartamento na imobiliária, deixar meu emprego e trazer o restante das nossas coisas. Mas Lizzie já está tão bem instalada aqui, não queria ter que levá-la de volta só para deixar nosso antigo lar. Quero poupá-la dessa despedida. Então, ela pode ficar com você enquanto eu cuido da mudança?
– Claro! É sempre um prazer cuidar da minha sobrinha. Além disso, nossos pais voltam de viagem em 3 dias, duvido que a mãe vá deixar sobrar um pouquinho sequer da neta para mim.
– Bem, eu quero ir o quanto antes e resolver as pendências no meu trabalho, para estar livre caso a vaga em Port Angeles dê certo.
– Está tudo bem, pode ir tranquilo que eu seguro as pontas por aqui.
– Obrigado, Alice. Você é a melhor irmã do mundo! – A abracei outra vez.
– Eu sou sua única irmã! Mas vou aceitar seu elogio. – Rimos juntos.
~*~
Acabei não cumprindo a promessa que fiz para minha mãe, eu não estava em casa quando ela voltou de viagem. Por outro lado, eu estava em Chicago cuidando da minha mudança definitiva para Forks e Lizzie estava lá com Alice, esperando os avós voltarem de viagem, possivelmente isso iria amansar o coração da minha mãe e garantir que eu fosse perdoado.
Dias atuais
– Então aí estão vocês. – Bella se materializou na soleira da porta da cozinha, com nossa caçula no colo.
– Ei, você não foi acordar a mamãe, não é, mocinha? – Perguntei para Nessie, a pegando dos braços da mãe. Ela veio para meu colo mas de cara fechada, com o mau humor matinal que certamente herdou de mim, Bella era uma pessoa totalmente matutina.
– Bem, ela fez o que vocês dois deveriam ter feito. – Acusou a mim e a Lizzie. – Agora estou atrasada para o trabalho.
– Essa é a vantagem de ser a chefe.
– Por isso mesmo que eu devia ser a primeira a chegar e dar o exemplo.
– Mas ninguém vai te demitir por isso.
– E você adora passar isso na minha cara.
Lizzie deu uma risadinha
– Papai disse que você precisava descansar. – Me entregou.
Minha esposa me lançou um olhar duro, como se questionasse o que exatamente eu tinha dito a ela. Tudo bem, às vezes eu era culpado de falar besteira na frente das meninas e ela sempre tinha que me repreender. Mas daquela vez eu era inocente, não tinha falado para Lizzie nada sobre o que nós dois fizemos a sós no nosso quarto de madrugada. Meneei a cabeça na direção de Nessie, dizendo silenciosamente para Bella que eu só tinha falado sobre ela e vi minha mulher relaxar sutilmente.
– Sim, sua irmã nos deu uma noite complicada ontem. – Bella reforçou o que eu tinha dito mais cedo.
– Eu queria ter te dado um beijo, Bella, mas papai não deixou.
– Ah, então agora eu sou o carrasco? – Me fiz de ofendido. – Eu só queria deixar Bella dormir mais um pouco.
– Tudo bem, princesa, eu estou aqui agora. – Minha mulher se aproximou da enteada, sentada em sua banqueta, e a tomou nos braços, depositando um beijo no topo de sua cabeça e recebendo outro beijo de volta. – Estou aqui e estou atrasada para o trabalho. – Me lançou um olhar acusatório.
Revirei os olhos.
– E por falar em atraso; Lizzie, você terminou de comer? – Ela assentiu. – Então vá escovar os dentes e pegar sua mochila que eu vou te levar na escola hoje.
– Ah, querida, eu recebi uma mensagem do balé, sua professora ainda está doente, então depois da escola você vai ficar comigo na padaria, está bem?
– Aham! – Ela assentiu, parecendo animada com aquela opção.
– Certo, então vá escovar os dentes antes que você e seu pai se atrasam também.
Bufei. Lizzie saiu em disparada da cozinha e Bella veio pegar Nessie de volta dos meus braços, para que eu também pudesse me aprontar para sair.
– Tem certeza que dá conta de ficar com as duas na padaria? – Perguntei, aproveitando a proximidade para puxar ela pros meus braços.
– E se eu disser que não dou conta, que solução mágica você vai arranjar? – Rolou os olhos. – Vai abandonar suas aulas e vir me ajudar?
– Eu não posso deixar minhas aulas, mas se eu ligar para minha mãe dizendo que preciso de ajuda com as meninas tenho certeza que ela vai dar um jeito de pegar um voo na mesma hora e chegar aqui antes da aula de Lizzie acabar.
– Pare de ser bobo, Edward. Deixe seus pais curtirem as aposentadoria deles! Além disso, Emmett vai estar lá também.
– É isso que me preocupa. Você vai dar conta de Vanessa, Elizabeth e Emmett?
– Não seja maldoso, amor! – Ela deu um tapinha no meu peito mas riu.
Levei meus lábios de encontro aos dela, num beijo suave. Bella correspondeu de bom grado, mas não aprofundamos nosso contato. Vanessa, ainda no colo da mãe, logo começou a puxar meus cabelos. Nos separamos rindo e ela me ajudou a me livrar das mãozinhas ágeis da pequena.
– É melhor você ir, antes que você e Lizzie se atrasem também. Já que eu não tenho mais esperança de chegar na hora.
– Você não vai parar de falar disso?
Ela riu. Selei mais uma vez nossos lábios e deixei a cozinha, a fim de escovar os dentes e sair.
1 ano atrás
Depois de quase um ano visitando casas à venda em Forks, nenhuma parecia ser a certa para mim e para Lizzie. Assim, quase um ano depois, ainda estávamos hospedados na casa dos meus pais. Eles eram bastante hospitaleiros, mas o sentimento de estar no seu próprio canto era diferente, mais reconfortante.
O mercado imobiliário de Forks não era exatamente agitado, então às vezes era preciso esperar semanas até que um novo imóvel estivesse disponível. Então, quando eles apareciam, nós íamos visitar, mas nunca pareciam ser o lugar certo para nós. Ou eu não gostava, ou não parecia uma casa segura para uma criança, ou Lizzie não parecia à vontade lá, sempre havia algum problema.
Após meses daquela busca frustrada, decidi convidar Bella para fazer parte dela. Nosso namoro estava firme como uma rocha e estávamos passando cada vez mais tempo juntos, então comecei a pensar que ela devia fazer parte daquele lar também. Não era um plano imediato, mas seria útil se a casa parecesse um bom lar para ela também.
E foi só ela se unir a nós que o lugar perfeito apareceu. Foi preciso apenas uma visita para saber que todos nós tínhamos amado. Bella ficou encantada pela casinha charmosa e recém reformada de apenas um andar e três quartos. Lizzie amou o espaço ao ar livre para brincar, distante de quaisquer vizinhos. E eu apreciei o fato de ficar perto dos meus pais, além de ser bem próxima da estrada norte de Forks, caminho que eu teria que enfrentar com frequência para ir dar aulas em Port Angeles. Somado a tudo isso, o preço anunciado parecia justo e tinha um financiamento que eu podia arcar.
Enfim, tínhamos encontrado nossa casa perfeita. Então, a ideia de trazer Bella para junto de nós começou a rondar a minha mente. Eu tinha medo, fui apressado uma vez no passado e estraguei tudo. Confundi paixão e desejo com amor verdadeiro e acabei com um casamento fracassado em pouco tempo. Eu queria acertar daquela vez, ir com calma, experimentar e conhecer melhor minha parceira. Por outro lado, eu sabia que queria dividir a vida com ela e parecia certo.
Após muito remoer entre o medo e o meu desejo, cheguei à conclusão de que não faria mal fazer o pedido. Então, comprei um anel e, no nosso jantar de aniversário de 1 ano, ficamos noivos. Eu disse a ela que não precisávamos ter pressa para escolher uma data e que poderíamos levar o tempo que ela preferisse para fazer aquilo direito.
Porém, Bella parecia estar na mesma página que eu. Ela quis começar a planejar o casamento imediatamente. A gente também conversava sobre ter filhos e ela sempre dizia como queria que Lizzie não fosse muito mais velha que os irmãos mais novos. Eu a amava ainda mais por sempre pensar na minha filha e a incluir em seus planos. Então, decidimos parar com os anticoncepcionais e deixar as coisas acontecerem, enquanto planejávamos o casamento paralelamente.
Seis meses depois, nos casamos na mesma igreja em que demos nosso primeiro beijo depois do nosso reencontro. Emmett e Alice foram nossos padrinhos, duas pessoas que conhecíamos e que não sairiam das nossas vidas. Também tive meus pais na primeira fileira de bancos, com minha mãe chorando emocionada a cerimônia inteira, como ela sempre sonhou. Depois tivemos festa e viagem de lua de mel, tudo conforme as tradições.
Ainda na lua de mel, começamos a desconfiar da gravidez, mas esperamos voltar para casa para poder fazer o teste que confirmaria aquilo. E a certeza veio, iríamos ter um bebê juntos!
– Edward?
– Sim?
Era sábado, um dia depois que fizemos o exame onde descobrimos que íamos ser pais de uma menina. Tínhamos saído para almoçar com Lizzie, agora com 6 anos, e contar para ela sobre a irmã. Quando voltamos, ela caiu no sono e nós dois aproveitamos para deitar um pouco também. Ficamos apenas abraçados em silêncio em nossa cama, curtindo os braços um do outro, enquanto eu fazia carinho na barriga de grávida da minha esposa.
– Estou preocupada com Lizzie. – De todas as coisas que Bella poderia ter dito naquele momento, aquela era uma das que eu menos esperava.
– Por quê? – Ergui um pouco o tronco do colchão para encarar seu rosto.
– Ela tem reagido muito bem até agora, mas eu sei que as crianças costumam ter ciúmes quando ganham irmãozinhos novos. Estou preocupada que ela se sinta rejeitada. Quer dizer, por muito tempo foram apenas vocês dois, agora tem eu e um novo bebê, não quero que ela se sinta trocada.
– Pode ficar tranquila, farei o que for preciso para que Lizzie saiba que é amada. – Beijei minha esposa para selar a promessa que estava fazendo.
Fomos interrompidos por batidinhas leves na porta do nosso quarto.
– Posso entrar? – Elizabeth colocou apenas a cabeça para dentro do quarto.
– Venha, querida! – Bella convidou e eu voltei a deitar no colchão.
Cuidadosamente, Lizzie passou por cima das pernas da madrasta e se enfiou entre nós na cama, com a cabeça apoiada sobre o estômago dela.
– Bells?
– Sim?
– Agora que vai nascer um bebê da sua barriga, você vai deixar de gostar de mim?
– É claro que não, princesa! Eu vou continuar amando você do mesmo jeito e vou amar sua irmã o mesmo tanto.
Precisei me segurar para não rir e cortar aquele momento. Minha esposa estava preocupada que minha filha se sentisse trocada por mim com a chegada do novo bebê, mas a verdade é que Lizzie estava com medo de perdê-la. A situação chegava a ser irônica!
Dias atuais
No fim do dia, acelerei meus afazeres na universidade para conseguir sair cedo e enfrentar o trajeto de mais de uma hora de Port Angeles até em casa, a tempo de buscar minha esposa e filhas na padaria no final do expediente.
Vinha dirigindo com Bella em silêncio ao meu lado, Nessie estava na cadeirinha no banco atrás da mãe e Lizzie cantava uma musiquinha infantil para a irmã, no banco atrás de mim. Era por momentos tranquilos e rotineiros como aqueles que eu vivia. Enfim encontrei tudo que procurei por minha vida inteira.
Estacionei diante da nossa casa e entreguei minha chave para Lizzie, que adorava ser a primeira a entrar. Ela saltou do carro correndo, enquanto eu tirava nossas bolsas e Bella pegava Nessie na cadeirinha.
Entramos juntos em casa e minha esposa foi até o tapete da sala de estar com as meninas, onde as duas tinham deixado diversos brinquedos espalhados, e sentou-se com elas. Isabella começou a organizar os brinquedos e as almofadas de uma forma segura para deixar nossa bebê sentada.
– Amor, pode ficar com as meninas que hoje eu faço o jantar. – Ofereci.
– Não precisa, eu cuido disso.
– Você trabalhou o dia inteiro e ainda cuidou delas, deve estar casada.
– E por isso você vai nos torturar com sua comida?
– Ai, isso doeu, meu amor. – Me fiz de ofendido e Lizzie riu.
– Sua comida é mesmo ruim, papai.
– Então isso agora é uma conspiração? Todas contra mim?
– São apenas os fatos, amor. – Bella rebateu rindo. – Me dá só um instante que eu já vou preparar.
– Não precisa, eu cuido disso. – Insisti, já me encaminhando para a cozinha.
– Edward, deixa que eu faço!
Eu ia rebater mas uma vozinha delicada interrompeu nossa discussão.
– Mamã.
Congelei no lugar, no meio de uma passada. Aquela tinha sido a primeira palavra de Nessie? Virei lentamente na direção delas, com medo de qualquer movimento brusco desmanchar a cena atrás de mim.
De pé, ainda no tapete, ao lado das duas meninas, Bella estava congelada com uma expressão parecida com a minha no rosto. Sentada ao lado dela, Lizzie também parecia impressionada, com o olhar preso em Bella. E Nessie, olhava para nós 3 como se todos fossemos malucos.
– Ela disse mamãe? – Lizzie foi a primeira a quebrar o silêncio, parecendo maravilhada com o que acabara de ouvir.
– Mamã! – Nessie repetiu, prestes a perder a paciência e cair no choro se não tivesse logo o que queria.
– Oh, minha linda! – Bella praticamente se jogou sobre ela e a pegou nos braços. – Eu estou aqui, a mamãe está aqui. – Entoou, emocionada.
Desisti do que estava indo fazer, àquela altura nem me lembrava mais o que era mesmo, e fiquei assistindo aquela cena. Porém permaneci parado onde estava, com medo de invadir demais o espaço pessoal de mãe e filha.
– Lizzie, está tudo bem? – Até Bella falar, eu não tinha notado minha primogênita recuar até estar encostada no sofá, cabisbaixa, brincando com um fiapo do tapete.
Ela assentiu, mas não disse nada, também não levantou os olhos. Parecia estar lutando contra o choro. Pensei em intervir, mas minha esposa parecia ter a situação sob controle. Ela moveu-se para perto da enteada e a acolheu nos braços, junto com Nessie, que ainda estava em seu colo.
– Querida, seja o que for, você pode contar para nós.
– Eu… – Lizzie engasgou, com a voz levemente embargada, mas Bella esperou pacientemente que ela estivesse pronta para continuar. – Eu queria que você fosse minha mãe também.
– Eu também adoraria ser sua mãe, meu bem. – Falou com uma voz gentil, fazendo carinho nos cabelos dela. – Mas você teve uma mãe e eu não quero que se esqueça disso jamais.
– Eu sei, eu não vou me esquecer dela. Quer dizer, eu não me lembro muito dela, mas eu me lembro das fotos e do que o papai conta. Mas eu queria que você fosse minha mãe de agora. Minha mãe Bella e eu tive minha mãe Tanya.
Bella me olhou, quase com um pedido de permissão nos olhos, e eu assenti levemente.
– Eu adoraria ser sua segunda mãe.
– Então eu também posso chamar de mamãe? – Lizzie perguntou emocionada.
Bella olhou para mim de novo rapidamente e assentiu.
– Sim, você pode, querida! Eu vou amar isso!
As duas se abraçaram, com Nessie envolvida porque ainda estava nos braços da mãe. Senti uma lágrima rolar pelo meu rosto, estava emocionado com a cena da minha família que vi acontecer bem diante dos meus olhos.
Bella ergueu o olhar para mim e me estendeu a mão. Dei dois passos na direção delas e alcancei sua mão. Então ela me puxou, para me incluir no abraço também.
– Estou muito feliz por vocês! – Sussurrei para elas.
– Eu também. – Lizzie concordou.
– Eu fui chamada de mamãe pela primeira vez duas vezes hoje. Vocês não podem imaginar o que eu estou sentindo! – Bella falou e nós rimos juntos.
Então eu soube, era para aquilo que eu tinha vivido minha vida inteira. Todos os caminhos tortuosos que peguei, todos os desvios, todos os obstáculos da estrada da vida, me guiaram para aquele momento, para os braços amorosos da minha mulher e da minha família. Eu finalmente tinha chegado exatamente onde deveria estar.
Fale com o autor