Pendurei a guitarra sobre meu ombro, sentindo o típico frio na barriga que todos sentem ao ver uma multidão lhe encarando quando você está sobre um palco. Ainda mais quando alguns garotos lhe gritam elogios como “Woohoo gostosa” e “Ô la em casa, essa guitarrista” devido a sua mini-saia plissada. Somente o fardo de estar na banda mais popular da universidade e de ser da familia do diretor. Tudo bem, eu podia aguentar essa. As garotas estavam fazendo muito pior com o pobre do Len, que mal aguentava em pé junto ao microfone, de tanto suas pernas tremerem. Olhei para Rin, que de seu canto me mandou um beijo como se toda a situação desse a sensação mais confortável do mundo, segurando seu Keypad. Piku, da bateria, já estava rezando o terceiro mistério do terço, o que fazia sua namorada rir.

- Relaxa Utatane, vai dar tudo certo. – Falou, mais calma do que tudo.

- Como você consegue ficar tão calma? – falou, olhando-a alarmado, e fazendo a garota rir mais ainda. Não seria nossa primeira apresentação, e nem sei por quê estávamos tão nervosos. Já havíamos ensaiado tanto a música que já sabíamos de cor. E também não éramos a primeira banda, nem a última a se apresentar naquela noite de dia dos namorados. Mas se posso falar por mim, o fato de ser uma noite de dia dos namorados era o que me incomodava. Principalmente por quê o que eu mais queria ali ao meu lado naquela hora estava querendo a maior distância possível de mim. Havíamos brigado e eu nem me lembrava do motivo, mas ele insistia que nunca mais queria me ver na frente dele, nem que estivesse pintada de ouro. Credo! Muito menos pintada de ouro! Eu sabia que pra todos os efeitos, Len estava ali. O vocalista da banda, o irmão da minha melhor amiga, o Kagamine mais bonito da família (e se a Rin me escuta dizer isso, eu estou morta). Aquele que era lindo, delicioso, gostava de mim e merecia alguém muito melhor do que eu. A vadia apaixonada pelo garoto que não lhe dava valor (e não tinha nenhum mesmo, não é?). Lembrei-me por uns instantes dos momentos em que passamos escrevendo aquela música. Eu havia dito pra Len que era de minha autoria, mas eu sabia que não era assim. O Kaito havia contribuído o bastante pra que eu pudesse dizer que era só dele. Mas se dissesse nós não estaríamos tocando ela naquela noite, e eu precisava que ele a ouvisse de novo. Que ouvisse o que ele mesmo cantou pra mim. Na tentativa de que se lembrasse de que somos muito mais do que o que uma briga pode acabar. Tinha combinado com sua irmã, meu irmão e meu melhor amigo (todos meus fieis aliados) que convencessem ele e os seus amigos a aparecerem na bendita festa, mas não sabia se eles tinham conseguido. Não sabia se ele tinha descoberto nossa participação na festa. Não sabia de mais nada. Senti uma gota escorrer pelo meu rosto, e torci pra que fosse suor provocado pelos holofotes, e não a lágrima primogênita. Recebemos o aviso de que íamos começar em um minuto, mas eles ainda não haviam chegado. As pessoas se acomodavam confortáveis, mas eu só queria sumir dali. O Len assumiria a guitarra e todos ficariam bem. Sim! Eu havia arrumado uma solução, era isso que eu ia fazer. Corri para detrás das cortinas, me encostando na parede e ouvindo as pessoas comentarem e algumas até vaiarem. Tirei a guitarra e coloquei sobre os degraus do palco para que Rin a pegasse e entregasse pra seu irmão, mas não consegui mais segurar o choro.

- Então você é mesmo tão fraca quanto eu pensei. – Falou Miriam (A vaca), soltando risinhos afetados. Como eu odiava aquela puta!

- Cala essa boca...

- Não é surpresa que não tenha conseguido segurar o Kaito. É necessário muito mais que isso pra conquistar um cara daqueles. – Me ridicularizou, segurando meu rosto e depois o jogando pro lado. – É uma pena. Eu adoraria uma concorrente a altura, só pra variar... – Falou, passeando pelos bastidores.

- Cala a boca, ridícula... – Sussurrei, ouvindo Rin me chamar baixinho. As luzes se apagaram. Miriam gargalhou.

- Eu sou ridícula? Quem é a criancinha que está sentada no chão, chorando por que sua paixão platônica não veio? – E riu de novo. – Se toca garota. O mundo não é um show de marionetes. Ninguém vai tomar atitudes por você, sua inútil. – Levantei num pulo, nivelando meu olhar no dela.

- Cuidado com o que você pede, Miriam. Pediu alguém forte, e terá alguém forte com quem concorrer. Vadia. — Me virei de costas, pegando a guitarra que ainda estava ali e fazendo o rosto de Rin e de Piku se iluminarem de alegria. – E muito obrigada, se não fosse por você, eu não conseguiria. – Deixei-a pra trás, grunhindo de raiva, e comecei a tocar, fazendo as pessoas gritarem em aprovação e ouvindo Len começar a cantar uma das poucas partes que eu escrevi. Olhei pra plateia. Algumas garotas gritavam por Len, e uma quantidade menor por Piku, já que tinha namorada (na banda!) e era na maioria das vezes só o baterista. Os garotos que gritavam elogios agora dançavam com outras garotas menos fanáticas, e ao longe, perto da porta, avistei as pessoas que eu esperava, tentando evitar que Kaito fosse embora com seus amigos. A vontade de chorar voltou, mas me esforcei pra prestar atenção no que Piku começara a cantar. Era tão romântico como ele olhava pra Rin enquanto cantava, que novamente eu não pude segurar as lágrimas, nostálgica. Olhei pra quem eu tanto esperei e reparei que tinha parado de lutar contra os outros e era carregado até uma das mesas mais próximas, em transe, prestando atenção na música. Eu tocava olhando pra ele, e ele apertava seus olhos, indecifrável, olhando pra mim. Meu amigo sorria, abraçado a sua namorada, assim como a irmã de Kaito. Meu irmão não estava á vista, devia ter ido buscar alguma garota com os amigos de Kaito. Mas não importava, nada importava, só ele e o modo como estava me deixando perdida só de olhar pra mim. Miriam havia descido então, e tentava tomar a sua atenção só pra ela, até conseguindo por alguns instantes, me olhando vitoriosa. Mas algo inexplicável reatraía nossos olhos, como se ele tentasse decodificar cada uma de minhas lágrimas. As mascaras haviam sido tiradas. Miriam bateu o pé no chão, sentou-se de pernas abertas sobre o colo dele, mas nada o impedia de me observar. Isso me deixaria feliz se o mesmo não parecesse ele mesmo um muro, indecifrável, frio. Cantei baixinho junto de meus dois amigos, botando minha vida naquilo, junto a toda a minha sinceridade. Aquilo era tudo de mim, tudo o que eu queria e precisava dizer. Eu precisava saber o que o identificava naquilo tudo que eu estava sentindo e se ele sentia também. Eu precisava dele naquele instante, e precisava saber se ele também necessitava de mim mais do que necessitava da puta no colo dele. Eu era sua marionete, agiria de acordo com o que ele pensasse, com o que ele quisesse. Eu era toda eu, nas mãos dele. Ele tinha de ceder, por quê eu já havia me cedido toda. Os meninos continuaram a repetir o refrão, e eu toquei, robótica, como uma gravação. Pois era tudo o que eu podia fazer a ter saber os pensamentos dele. Kaito tirou Miriam de seu colo, saindo com a mão na cabeça, como se estivesse perturbado. Na direção do que pensei ser o bar, sendo seguido por seus amigos que apareceram cada uma com uma garota, logo depois, me olhando de relance. O Show acabou e a plateia pediu bis, mas ainda haviam bandas pra se apresentarem, nós não tínhamos tempo. Deixaram nosso CD tocando no intervalo, e descemos do palco, mortos, suados, realizados como sempre estávamos depois de nossos shows.

- O CD vai vender como banana! – Falou Utatane e eu sorri de lado. Len me abraçou, mais feliz do que pudesse dizer com palavras e como num passe de mágica, os outros dois desapareceram. Malditos! Escolheram a morte certa nas minhas mãos.

- Por quê ta tremendo, Miku? – Ri fraco, procurando uma resposta digna, mas só conseguindo pensar em uma coisa.

- Excesso de energia. – Rimos e ele me abraçou mais uma vez. Era tão confortante que eu podia ficar ali pra sempre. Mas tinham de me tirar isso também.

- Vem aqui, Miku! Tem gente querendo autógrafo! – Meu melhor amigo falou, gargalhando em seguida e surgindo com pelo menos cinco garotos e uma garota. Ele sempre me apoiou nos meus planos pra ter Kaito de volta, mas nunca concordou, realmente. O achava um idiota. Meu rosto ainda estava vermelho e levemente molhado. Inclusive meus olhos brilhavam de tantas lágrimas retidas.

- Pra que chorar, gracinha? Seus fãs estão aqui. – Um atrevido falou do meio do grupo, avançando e passando a mão no meu rosto, mas eu recuei.

- Autógrafos, né? Aonde? – Cada um estendeu um CD, provocando um sorriso involuntário no meu rosto. Rin passou gritando algo como “É isso ai!” e autografando um, e rabisquei o mais rápido que pude outros três, mandando a garota pra Len (fazendo ele me fuzilar) e outro garoto pra Piku. Me afastei de todos, avistando de longe meu irmão agarrado com uma garota, assim como a irmã de Kaito com seu namorado, do outro lado da quadra. Queria tanto que a irmã dele estivesse com meu amigo! Seria perfeito. Já haviam estado juntos antes, mas como ele parecia feliz com sua namorada agora, preferi não interferir. Caminhei freneticamente na direção em que tinha visto Kaito ir com os amigos, chegando perto o suficiente para ver que estava á sós com o barman e um copo com um liquido azul, mas não tão perto pra que Len não pudesse me puxar pra longe. Não sabia se ficava feliz por ele ter feito isso ou se reclamava, mas resolvi escolher a primeira opção. Suavemente fui encostada na parede mais próxima e beijada tão devagar quanto eu precisava. Senti todas as minhas preocupações irem embora, pelo menos até ele se afastar, com um olhar tenso e a testa franzida.

- É o meu último ano aqui Miku... – fez carinho no meu cabelo, e eu não tinha resposta. – Vocês precisam achar um novo vocalista, eu vou embora esse ano para meu intercâmbio nos EUA... – De repente meu chão sumiu. Eu ainda não havia parado pra pensar profundamente naquilo, e de repente me pareceu que eu podia estar correspondendo ao sentimento que ele tinha por mim havia tanto tempo. Um nó se formou em minha garganta, e isso piorou minha situação de fala. – E me desculpe por... – Me beijou novamente, dessa vez mantendo suas mãos em minha cintura. – Isso, mas era algo que eu precisava fazer. – Fui puxada pra dois pufes próximos a nós, e levada a me escorar sobre seu ombro. Manteve seus olhos fechados por alguns segundos, respirando fundo. – Eu sei que durante todo esse tempo você nunca... – respirou novamente – gostou de mim do modo como eu gosto de você. Mas quero que saiba que pra mim, esse foi o melhor dia dos namorados que eu já tive, só de estar ao seu lado. – Assenti com a cabeça, compreensiva, mas querendo interromper. Len me beijou outra vez, e mais uma, e mais outra. Eu não me lembrava de mais nada nem de mais ninguém quando vi Kaito olhando pra mim, indignado. Oh, merda! – E agora, se você quiser ir embora, eu vou entender... – Olhou pra mim e, não, eu não queria ir embora. Por quê essas coisas só acontecem comigo? Dei-lhe um selinho e me afastei na direção em que Kaito estava antes, deixando-o pra trás com a cabeça apoiada nas mãos e os cotovelos sobre os joelhos. A última coisa que eu queria ter feito era ele sofrer, mas isso já tinha ido longe demais. Sai da festa, encontrando o garoto sentado sobre a grama, encostado na parede com uma garrafa. Parei a sua frente, mais fraca do que aparentava.

- Kai...

- Ah... Ai está você. – Ironizou, dando um gole em sua garrafa.

- Eu...

- Como você espera que eu reaja á sua armadilha, hm? Você arruma um jeito de me trazer até a sua teia, me envolve com a nossa música... – Uma chama desconhecida se acendeu em mim. – Depois finaliza o seu ato escrevendo o seu “Felizes para sempre” com o Kagamine.

- Ele vai embora... – Me encontrei sem saber o que dizer ou o que fazer.

- E o que eu tenho com isso? Por quê eu tinha que te ver dando a despedida dele? Por quê Miku, Por quê? – Me calei, tendo ele olhando diretamente em meus olhos, já de pé. Duas lágrimas quebraram seu orgulho, e por longos minutos permanecemos ali, conversando pelo olhar.

- Eu... Não... Consigo... – Tentei falar qualquer coisa, mas Kaito me beijou, calando de vez minha boca e só separando-nos quando lhe faltou ar. O gosto da bebida amargou em meu paladar ampliado pela água gaseificada que eu havia tomado depois do show, e o garoto parou, respirando suavemente á menos de cinco centímetros do meu rosto, o olhar fixo em minha boca, nossos corpos colados e mantidos por suas mãos em minha cintura. Começou a chover, e em poucos segundos estávamos completamente molhados. Não resisti, segurando em sua nuca e lhe beijando novamente, completamente bêbada com o seu perfume. Quando nos separamos senti que já não éramos os mesmos. Havia mais vida em cada um, e aquele olhar triste havia adotado um tom sapeca. Ri, encostando minha cabeça em seu ombro. Não parecia real. Era como um grande sonho-pesadelo. – Eu não estou sonhando, estou? – Kaito gargalhou, dando um tapa em minha bunda. Escancarei minha boca, ainda sorrindo, porém indignada.

- Doeu? – Não resisti a ironia e o mordi, fazendo-o gritar.

- Doeu? – Rimos, mais molhados do que nunca.

- Nós não estamos sonhando. – Falou, me dando um selinho. Fechei os olhos, maravilhada.

- E se eu abrir meus olhos agora e não estiver mais aqui, mas na minha cama? – Mantive meus olhos fechados, ouvindo-o me dar uma risada malvada e segurar meu pescoço.

- Então melhor que não saiba. – Senti seus lábios molhados aos meus e fiz a tentativa de abrir meus olhos mais uma vez. Mas tudo tornou-se embaçado e levemente meu corpo foi adormecendo, deixando pra trás meu novo mundo perfeito. Ao longe ouviu-se os aplausos por trás das cortinas, pois havia findado o show de marionetes.

FIM

Notas finais
Nota final: MUAHAHAHAHA Morram de curiosidade querendo saber se foi sonho ou realidade u-----------u! *Eu cheia das rimas* Tanto ele pode ter posto ela pra dormir com um golpe certeiro no pescoço, quanto tudo pode ter sido um sonho. Ou então ele é um psicopata e quebrou o pescoço dela uhaushauhsuahsuah! E então pessoas, gostaram? Se vocês gostaram, comentem. Quem sabe não chega uma continuação por ai, sim (:?

Kisus, Kisus Zeeyo
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