Into You

2 A título de curiosidade


Notas iniciais
Depois de começar a fazer esta original, preciso concordar com Cath (Fangirl): é muito melhor escrever sobre personagens que já "existem". ~

A terceira aula estava sendo vaga, graças ao senhor Barry, que havia ficado doente e não conseguiu ninguém para substituí-lo a tempo. Apesar de fisíca ser sua matéria favorita, Simon não estava muito desapontado.

Nesses últimos três dias, ele estava aéreo e inquieto. Sua mente parecia não conseguir focar em nada e seu humor estava tão ácido que mesmo os pais lhe evitavam. Apesar de fingir não saber qual era o motivo disso, Simon sabia bem o que era. Meio impossível quando o tronco largo do objeto em questão estava bem à frente de seus olhos. Poderia continuar mentindo para si e alegar que sua atenção para com ele era por causa dos rasgos profundos e a terra na jaqueta amarela berrante do time de futebol — sempre tivera uma dose leve de TOC, alguns diriam que era porque tinha sol em virgem. Se era coincidência ou não, tinha pouca relevância.

O cheiro de ferrugem e pimenta tinha preenchido seus sonhos todas as vezes que fechara os olhos, e o cenário de fundo era uma praia de um azul tão límpido, na água e no céu, que não existia a menor possibilidade de ser nos E.U.A. Na verdade, parecia com alguma região mexicana que estudara durante o primeiro ano. Temeu o que isso significava e se perguntou se estava se tornando um daqueles loucos obsessivos, pois não tinha condição disso ser a chamada “paixão adolescente”.

Sempre tinha sido atraído por Matheus, desde que pensara nele apenas como o garoto moreno de olhos bonitos, dentes brancos demais e corpo muito desenvolvido para alguém de dezesseis anos. Até mesmo quando ele se revelou imprudente, fingindo ter se associado a uma das mais perigosas gangues latinas para parar de ser perseguido depois que o escândalo da sua família veio à tona. Tentara conversar muitas vezes com ele, e a única coisa que conseguira fazer foi colocar balas infantis no armário dele durante os dias de treinos. Patético, sim.

E se não tinha deixado de gostar dele ao virar um alvo de piadinhas sem graça, nada demais, não deixaria de gostar nunca. Argh, isso soou dramático. E as trocas de provocações eram parte do charme.

Enfim, Simon não sabia mais como agir. Deveria continuar trocando provocações, recomeçar a esconder balas, interpretar aquele momento como um início de uma amizade ou o quê? Sentia que algo havia mudado entre os dois, só que vai que fosse pagar um mico e sua mente afobada tivesse criado metade de sua percepção sobre aquela conversa?

Até suas busca no navegador tinham mudado: deixou de procurar artigos para estudar para procurar cães e gatos disponíveis para adoção. Embora achasse que a universidade seria um bom lugar para encontrar pessoas com interesses em comum e amigos, ainda estaria um pouco sozinho. Seus três únicos amigos tinham passado para um programa no exterior, o qual ele não tinha se escrevido, e mandavam regularmente fotos e vídeos, contando as novidades. Era legal, mas não podia não sentir um pouco de inveja e frustração por não ter ligado na época. Um cachorrinho poderia ser a solução para seus problemas, e não é como se seus pais não pudessem bancar esse pequeno luxo.

Então Simon lembrou da diferença de realidades entre Matheus e ele e se sentiu mal por esbanjar sem nenhuma culpa. A sociedade era mesmo uma pequena merda.

Seu celular vibrou com um anúncio sobre um jogo para celular que estava querendo tinha sido lançado, assim conseguiu se distrair o resto da aula baixando-o e resmungando sobre falhas técnicas óbvias demais. Passou o restante do dia fingindo estar prestando atenção na aula e reclamando nos fóruns.

O corredor parecia mais abarrotado do que de costume, com pessoas indo e vindo rapidamente, gritos e vários instrumentos musicais sendo testados.

Quando finalmente conseguiu se sentar no banco para pegar o ônibus, deu graças ao céu. Pegando sua garrafa, tomou longos goles de água quente para espantar um pouco do frio e friccionou as mãos, praguejando a falta de interesse público no bem estar dos cidadãos. Não custava nada climatizar ali, né?

Alguém parou bem à sua frente.

Matheus lançou-lhe um olhar de simpatia, fazendo com que se assustasse.

— Sawyer, seu carro ainda não está pronto?

O sotaque carregado dele ficou mais e mais pronunciado à medida em que terminou a frase, causando-lhe um arrepio na espinha.

Tocado por ele ter se preocupado a ponto de lhe procurar, devolveu o sorriso e respondeu, tentando ocultar sua súbita felicidade:

— Só vai ficar pronto em dez dias.

— Imagino que tenha dado para salvar o motor, então.

— Por pouco, mas deu.

— Que bom, isso poupa uma boa grana! Você está pegando o ônibus agora?

— Novamente. E eu não lembrava que os assentos eram tão duros — comentou, franzindo o nariz.

Matheus riu um pouco, e logo ficou sério, encarando-lhe com uma expressão indecifrável.

— O quê? — Colocou a mão no rosto, procurando alguma sujeira.

— Você está com algo meu — respondeu-lhe com uma voz duas oitavas mais grossa.

Simon apenas piscou, tentando decidir se ele estava brincando ou não.

— E isso seria…?

— Minha caneta, dã. A última do meu estojo estourou e eu não vou comprar outra se você tem uma minha ai.

É claro que ele não viria atrás de si só para saber do carro. Como você é tolo, Simon, pensou sem vocalizar.

— Ah, claro.

Simon pegou sua mochila e vasculhou por alguns minutos, sem nem encontrar o rastro dela. Em um dado momento, Matheus começou a batucar os pés no chão, impaciente, fazendo com procurasse mais depressa ainda.

— Dios mio, Sawyer, essa sua bolsa tem o que tanto?

Como resposta, enviou para Matheus um olhar meio envergonhado e meio exasperado.

— Eu vou te dar uma minha e depois, quando achar a sua, a gente destroca.

— Obrigada, mas dispenso suas canetas em gel.

— Como você…?

— Sentei atrás de você praticamente todas as aulas no ano passado e no ano retrasado. Ainda sento em algumas esse ano também.

— Então você vai ter que esperar eu achar — devolveu com um pouco de brusquidão.

Detestava ser pressionado.

— Minha bunda tá congelando aqui.

Eu adoraria descongelá-la, seria um prazer.

— Ainda não tenho como mudar o clima.

— Não seja tão azedo. Você que pegou minha caneta... Já sei! Vamos lá no meu carro, eu ligo o aquecedor e aí dá pra tu procurar com calma.

No carro dele? Naquele espaço tão apertado…?

— Qual a dessa cara, Sawyer?

— Hã? — Pestanejou copiosamente antes de responder. — Nada.

— Está com medo de ser atacado?

O sorriso de Matheus tinha ficado malicioso. Ele também fez um “clap” com a língua, deixando ela passar lentamente de uma extremidade à outra, fazendo sua imaginação correr solta.

Para esconder seu rosto quente — o que era quase impossível —, concentrou-se em fechar o zíper e concordar:

— Vamos lá, também estou com frio.

O vento estava cruel e barulhento demais para que fizessem algo a mais do que se encolher e apressar o passo. Quando, por fim, se sentaram no carro congelante e decadente, e Matheus ligou o aquecedor, ambos soltaram um suspiro de alívio.

Ele estava com o mesmo cheiro pungente que preenchera seus sonhos.

Para evitar ainda mais constrangimento, recomeçou a busca pela caneta. Matheus ligou outra música dançante e pegou uma bebida de caixinha, começando a tomar no canudinho infantil. Por algum motivo, sentiu vontade de sorrir da cena estranha.

— Você quer?

Imaginando que ele estava oferecendo a que estava tomando, negou.

— Tô bem, valeu.

O problema é que o cheiro de pêssego fez sua barriga se retorcer em protesto à falta de comida. A última vez que havia feito uma refeição… foi pouco antes da terceira aula. Para aumentar seu constrangimento, a sua barriga fez um barulho alto.

Simon viu o esforço vão de Matheus em tentar não rir. Poderia ter ficado mais chateado se a imagem dos olhos escuros formando pequenas rugas não fosse tão acalentadora, todavia, ainda sim afundou a cabeça no pequeno espaço da mochila, para não parecer um tolo constrangido e cheio de amor.

Sentiu uma mão lhe cutucando uma, duas, três… até que foi impossível ignorar.

— O quê? — resmungou de mal-humor.

— Pegue.

Quando levantou a cara, viu um saco de pipoca gigantesco — sério, era muito grande. Tipo como se tivesse um quilo — e um suco de caixinha. Seu estômago comemorou a cena com entusiasmo.

Ainda desconfiado, pegou um punhado de pipoca avermelhada da embalagem e furou a caixinha, sorvendo um longo gole antes de agradecer:

— Obrigada. Eu não comia faz um tempo…

— Disponha.

A pipoca era picante. Não a ponto de lhe fazer querer tomar um tonel d’água, mas deixava um certo ardor na língua.

— Todas as comidas mexicanas têm pimenta?]

— Eu poderia dizer que é mais um esteriótipo, só que acho que é mais uma coisa de preferência. Crescemos comendo muitos molhos picantes, então é natural… acho.

— Ah… — Pensou em alguma coisa inteligente para dizer. — As comidas daqui são sem gosto pra você?

Pelo que recordava, sua mãe colocava apenas sal e cebola como tempero em quase todas as refeições.

Matheus deu uma risadinha.

— Parecia que eu tava comendo papel no começo. Eu comecei a comer fast food quando vim pra cá. Minha mama não gosta da ideia de não saber o que tem dentro do que come. Ela chama o Mcdonald's de lixo comestível.

— Acho que minha mãe pensa a mesma coisa.

— Por isso você sempre tá comendo coisa verde?

— Eu poderia perguntar a mesma coisa — devolveu com a boca cheia, para o próprio horror.

Tomando outro longo gole, rezou para que Matheus não tivesse visto a comida triturada dentro de sua boca.

— É verdade que até os remédio no méxico têm gosto de pimenta? — Quando recebeu um olhar incrédulo como resposta, justificou-se. — Eu não tenho como saber! E nós temos remédio com gosto de cookie.

— É porque vocês são doentes.

— Isso parece muito lógico quando você pensa que é para crianças!

— Gosto de frutas, okay. Mas cookie? Bizarro.

— Isso é pura convenção social. Se é tudo aromatizante e químico, qual a diferença? Parece hipocrisia.

— Não importa. Ainda é bizarro.

Simon balançou a cabeça, sorrindo. Era como argumentar com uma parede, sabia.

— Qual sua comida americana favorita, então?

Matheus terminou de engolir de vez e engasgou, precisando de alguns segundos para se recompor.

— Pizza.

— Pizza não é daqui!

— Hambúrguer também não.

— Ué, e é de onde se não for daqui?

— Alemanha, é claro.

O tom de deboche dele foi enervante.

— Como assim?

— Uau, Uau. Americanos adoram tomar os créditos indevidos.

— Nós só fizemos isso uma vez ou duas.

— E o negócio do avião?

— Todo mundo sabe que foram os irmãos Wright!

— Só vocês. O resto do mundo sabe que foi um brasileiro.

— Claro que não! Óbvio que não.

— Ah, tá.

Simon sentiu todo o seu nacionalismo aflorar.

— Existe alguma prova?

Matheus lançou-lhe um olhar irônico.

— Eu posso te dar muito mais que uma. Amanhã trago.

— Estarei esperando!

— E sobre a fórmula indie? Uma cópia descarada da F1. E o futebol americano? Me polpe.

— Ué, não podemos reformular algumas coisas?

— Algumas coisa? Puft!

Apesar do tema um pouco delicado, não parecia nada sério. Um jogo de provocações muito mais proveitoso, talvez.

— Estarei esperando todas essas provas.

— Droga! Meus dedos vão ficar doendo depois.

Simon riu e comeu mais algumas pipocas. Seus dedos estavam laranjas quis lambê-los para que ficassem limpo, mas sentiu-se um pouco perturbado em fazer isso perto de Matheus.

— Quer um doce?

— Hum?

— Tenho algumas balas aqui. Sempre gosto de comer algo doce depois de qualquer refeição.

— Não gosto muito de coisas doces.

— Quê?

— Eu só não gosto.

Sempre era engraçado a reação das pessoas ao descobrir seu desafeto por doces. Realmente não entendia pessoas que precisavam de doce e por que ele era tão atrativo. Talvez suas papilas gustativas tivessem vindo com defeito de fábrica.

Escutou Matheus resmungar alguma coisa, ainda pasmo, colocando uma bala granulada de açúcar.

— Pelo menos eu não vou morrer de diabetes.

— Prefiro morrer feliz e diabético.

— Estou começando a me perguntar se você tem prazer em ignorar a lógica ou se tem uma própria.

— Um pouco dos dois, eu acho.

— É claro.

Simon trocou um olhar profundo com ele, não o ah-céus-estou-tão-constrangido, mas uma compreensão mútua. Leve.

Recomeçando a busca pela caneta, vasculhou todos os locais possíveis e nenhum sinal dela. Ou seja, de duas, uma: ou havia perdido (em casa?) ou a acharia quando menos precisasse. Só que, para falar a verdade, não é como se estivesse tão irritado assim por isso, o que era incomum.

Entretanto, ficar tão perto assim de Matheus, em um clima tão gostoso, parecia tão bom que esperava que não fosse mais um sonho. Seu celular piscou com uma mensagem. Era Drew mandando outra foto do intercâmbio e falando sobre levar um pouco de uma bebida para ele provar.

Simon percebeu, com certa curiosidade, que Matheus havia começado a olhar pela janela, como se quisesse lhe oferecer um pouco de privacidade no ambiente minúsculo.

Quando estava prestes a fazer um comentário ácido sobre isso, um vulto amarelo berrante passou por seu olho esquerdo. Demorando cerca de um segundo para raciocinar o que aquilo significava, apenas olhou inexpressivamente para a estrada antes de ficar agitado e gritar:

— O ônibus! O ônibus! Ah, caceta.

Tentou abrir a porta do carro, atarantado, mesmo sabendo que era inútil. Lançou um olhar acusador para Matheus, que observava a cena com uma sobrancelha arqueada.

— Você vai ficar aí parado?! Segue ele, porra!

— Eu não sabia que você fala palavrão, Sawyer. — Seu nome foi dito de forma dramática, cadenciando todas as letras de forma bem separada, em um quase enlouquecedor sotaque latino.

Seu corpo estremeceu de leve, sua mente perdeu um pouco o fio da meada, mas logo devolveu:

— Eu vou cear na casa da minha avó! Não posso me atrasar ou ela vai picotar meu fígado!

— Humm…

Simon imaginou-se estrangulando aquele pescoço. Sabia que estava parecendo um pouco melodramático, porém conhecia sua avó muito bem. Aquela mulher de um metro e meio e olhos meigos tinha uma força dez vezes superior à sua e não tardava em usá-la para puxar orelhas ou socar o bolo até ele ficar tão seco que ressecava. Sem falar no sermão que teria que escutar sobre “só comer, ajudar que é bom, nada”.

— Tudo bem , tudo bem — Matheus disse, dando a partida no carro, fazendo um cheiro de borracha queimada penetrar no ar por conta da arrancada. Alguns alunos que estavam perto riram.

Simon ficou incomodado com aquilo, sentindo uma vontade inexplicável de descer do carro e lhes falar algumas verdades.

— Ufa, ainda bem que a gente já tava no carro, imagina ter que acompanhar depois.

— Não é como se meu carro tivesse a potência de um velocípede para não conseguir alcançar.

— Hã, sim, certo. É que poderia ser mais demorado… e, né...

— Relaxa — ele falou, rindo.

O ônibus parou para alguém descer e, em vez de parar perto dele para que pudesse descer, Matheus apenas o ultrapassou, cantarolando.

— O quê?

— Eu vou te dar uma carona, Sawyer.

Simon engasgou com a própria saliva, sentindo o rosto ficar tão quente que suas bochechas poderiam ferver um ovo. A insinuação era perigosa demais e poderia levá-la no sentido literal.

Matheus soltou uma gargalhada que reverberou por todas as terminações de seu corpo.

— Ha Ha Ha — replicou, estufando o peito para fingir não estar tão constrangido. — Por que você não parou?

Será que ficaria muito machucado se pulasse dali?

Matheus deu de ombro, fazendo uma curva muito fechada com tranquilidade. Uau, nunca tinha reparado como era charmoso ver alguém dirigindo.

— Apenas devolvendo um favor.

— Mas quem pegou sua caneta foi eu.

— Você ainda precisa me entregar ela.

— Argh! Eu vou.

— Onde fica a casa da sua avó?

— Ah, hum… — Sentiu o olhar dele sobre si, antes de responder, ficando um pouco encolhido. — Ridgermoor.

Tinha plena consciência que Matheus não iria falar nenhuma merda sobre isso, porém era desconfortável ficarem comparando a diferença entre suas vidas, desde os aspectos mais básicos, como saúde e segurança.

— Wow, será que vão me deixar entrar lá com a Cruza?

— Seriam louco se não deixassem. Você pode me deixar no centro, é meio longe.

— Nah. Quando eu vou ter outra oportunidade de entrar em um bairro de granfino? Quero mesmo ver se os ricos são de marte.

Simon não conseguiu segurar a risada alta, recebendo um sorriso largo dele.

— Não é como se minha avó fosse o Bill Gates. Estamos em Grand Rapids, pelo amor.

— Simon! — Matheus fingiu estar horrorizado. — Como você pode falar isso? Sabe como deve ser difícil entrar para a nata da sociedade… rapidense?

— Qu…

Explodiu em uma gargalhada tão longa que sua cabeça ficou levemente tonta.

— Vou pedir desculpas para ela — respondeu, depois de se recuperar.

— Mas aí você vai ter que falar o motivo.

— Farei isso por mensagem subliminar.

— Ah, sim? Como?

— Hum…, talvez pedindo desculpas por coisas insignificantes, por partes, até sentir que fechei os cem por cento?

— Inteligente. Costuma fazer muito isso?

Poderia ser impressão sua, mas sentiu que a pergunta era muito mais significativa do que aparentava.

— De vez em quando.

— Interessante.

— O quê?

— O que o quê?

Simon revirou os olhos ante a infantilidade dele.

— Fala sério.

Matheus começou a assoviar algo dançante, e eles ficaram em um silêncio pacífico durante alguns minutos.

Simon começou a analisar as próprias emoções com calma. Sentia um misto de desconforto e familiaridade enervante. Como se alguma coisa lhe empurrasse para uma zona completamente escura e perigosa. No último final de semana tinha pensado criticamente sobre uma hipotética realidade onde seria aberto quanto aos próprios sentimentos e os cenários posteriores à isso. Seus pais iriam ficar muito irritados, mas nada mais que isso. Sua avó seria um pouco mais delicado: ela poderia surtar e nunca mais falar com ele ou simplesmente dizer um “eu já sabia” com certo descaso. Seus amigos poderiam não reagir muito bem, só que sempre teve muita ciência de que eles não iriam ser amigos para a vida toda ou qualquer coisa meio Harry Potter, então tudo bem.

O maior problema era Matheus. Não que ele vivesse perseguindo gays ou nada disso — para ser justo, ele nem lhes designava nada mais do que uma leve olhada de estranhamento —, mas sentia como se ele fosse reagir mal a uma declaração(?) de outro cara. E não é como se fosse querer ganhar um fora e as coisas ficarem realmente estranhas. Não havia muito o que fazer.

— Você vai muito pra casa da sua avó?

Saindo do turbilhão de pensamentos, respondeu:

— Sim, várias vezes por semana.

— Você deve gostar muito dela.

— Minha pessoa preferida no mundo. Seus avós vieram com você, né?

— Sim, meus avós paternos. Do lado da minha mãe só minha avó ta viva, mas ela foi para a Argentina com a minha tia.

Surpreendeu-se com a informação.

— E vocês preferiram vir pra cá?

Matheus fez uma pausa, como se estivesse pensando seriamente sobre o que responder.

— Na verdade, a gente ainda quer ir. Preferimos vir para cá porque era mais perto e um amigo do meu pai tem umas casas. Acho que daqui um ano ou dois.

Simon sentiu o estômago afundar um pouco com a afirmação.

— Mas você não quer ir pra universidade de Washington?

— É o plano, mas Buenos Aires também parece maneiro, se eu não conseguir aqui. E existem outros países que eu gostaria de morar.

— Tipo?

— Itália.

— Você fala italiano? — questionou, um pouco pasmo. Só sabia falar um pouco de francês, mas coisa básica.

— Meu avô é filho de um mexicano com uma italiana. Aí a gente meio que aprendeu.

— Mas você é fluente?

— Hum…, acho meu italiano melhor que meu inglês.

O inglês de Matheus era muito bom. Como um estrangeiro que aprendeu inglês há pouco tempo, ele ainda cometia um erro ou dois, tipo colocar o advérbio/adjetivo depois do substantivo e infinitivo no lugar do gerúndio. Todavia, eram erros muito espaçados e apenas com frases demasiadamente complexas.

— Nossa, deve ser muito bom vir de uma família multicultural.

— É a única que conheço, então não posso comprar muito bem.

— Então você tem direito à nacionalidade, ou não?

— Aham, por isso que é uma possibilidade. E eles dão muitas bolsas e ajuda de custo. Mas penso em Washington porque eu já conheço o sistema de universidades daqui e tal.

— Sim, claro. Nunca pensei em morar fora efetivamente. Já imaginei como seria estudar em Singapura ou em Tóquio, só que nunca foi algo, sabe?

— Eu sempre quis. Meu avô trabalhou lá um tempo, quando era da minha idade e sempre falou coisas boas de lá. Um dia, quero conhecer cada continente.

— Tipo um daqueles mochileiros? Sério? Uau, estou me sentindo um pouco chato agora.

— Não tem vontade?

— A ideia de passar por experiências novas parece legal, mas sou do tipo que planeja até as idas ao banheiro.

— Que exagero!

— Oaky…, digamos que eu não faço o perfil do cara que passa metade do ano viajando. Talvez nas férias.— Simon queria prolongar aquele momento ainda mais, por isso, deu as coordenadas que fariam que ficassem mais dez minutos juntos, em vez de só mais dois. — Vire à direita duas vezes, na primeira entrada do giratorio…, por favor.

Matheus fez exatamente isso. Eles haviam acabado de entrar em Ridgermoor e alguns moradores pareciam curiosos, principalmente quando lhe avistavam ali. Fingiu não vê-los e torceu para que ele fizesse o mesmo.

— Como era o bairro que você cresceu? — perguntou, curioso para saber que tipo de criança ele tinha sido.

— Era bem florido, com um pouco de arte de rua, hum, grafite, sabe? E casas pequenas e cheia de cores.

Simon sentiu um pouco da tristeza que Matheus emanou e ficou arrependido por trazer a questão à tona.

— Eu gostaria de ter crescido em um bairro mais colorido.

— O seu é meio cinza, né?

Achando graça da situação, os dois riram e anuíram em acordo.

— Poderia ter um pouco mais de marrom.

— E verde.

— E vermelho.

— Vermelho?

— Sim, tipo aquelas casas de tijolinho.

Cerca de cinco crianças bem pequenas surgiram do nada, fazendo Matheus ficar um pouco assustado e frear, fazendo com que o carro morresse e a turminha soltasse pequenos gritinhos, alguns assustados, outros engraçados. Elas logo foram embora, agitadas.

O seu coração palpitou um pouco com a situação inesperada, e a adrenalina esvair de seu corpo com a mesma rapidez, deixando um rastro de tontura.

Matheus estava um pouco branco, principalmente nos nódulos dos dedos, que apertavam a direção com força.

— Está tudo bem? — Simon indagou em tom suave, temendo piorar ainda mais a situação.

Ele demorou alguns segundos para responder, respirando fundo algumas vez.

— Apenas surpreso.

Sem saber o que dizer, apenas concordou.

— Acho melhor a gente tomar um pouco de água com açúcar.

Matheus lançou-lhe um olhar incrédulo, antes de desabar na risada.

— Nossa, obrigado pelo tratamento vip.

— É o que minha mãe me dava quando eu tomava um susto — defendeu-se.

— Exatamente. Acho que, no final, mães são mães.

Ele deu partida, mas o carro apenas protestou. Tentou mais duas, três, quatro vezes.

— O carro também tá com problema no motor?

Só poderia ser uma ironia do destino.

— Acho que é a bateria.

— E agora? — Assim que acabou de perguntar, deu-se conta que estava repetindo a mesma coisa de quando o próprio carro tinha dado o prego.

Ele também tinha percebido, pois tentava esconder uma risadinha.

— Precisamos… UHmm. Hã. — Matheus caiu na risada, fazendo com que ficasse amuado.

— O quê?

Ele colocou a mão o nariz, fingindo estar se concentrando.

— Você pode dirigir enquanto eu empurro? Antes, eu vou abrir o motor e dar uma olhada pra ver se é isso mesmo.

Simon apenas abriu a boca e fechou, como um peixe. Não tinha ideia de como dirigir um carro manual, mas apenas confirmou. Não é como se fosse bater, certo?

— Certo!

Matheus saiu do carro de um modo animado demais para a situação e, quando passou para o banco do motorista — que estava muito, muito quente, diga-se de passagem —, conseguiu vê-lo flexionando os braços fortes. Se estivessem besuntados, começaria a se perguntar se não havia caído naquelas pegadinhas de TV.

— Engata a primeira.

Simon olhou para o câmbio, mais precisamente para o número um.

Tudo bem, é só empurrar na direção correta, pensou nervosamente. Foi um pouco duro e estranho colocar a marcha, porém logo o motor rugiu e ele, então, pisou no acelerador até o máximo, provavelmente com força demais, pois Matheus xingou algo.

Matheus reapareceu com uma expressão de resignação e cheio de graxa. Graxa da cabeça aos pés. Oh, certo, não era uma mancha gigante que o tornava irreconhecível, mas por pequenos respingos, que seriam difíceis de sair.

— Era apenas para pisar no acelerador, não encarnar o espírito da fórmula1, e só depois que eu parasse de olhar o motor — ele resmungou sarcasticamente, rabugento.

— Foi mal, acho que me empolguei.

Matheus apenas balançou a cabeça e fez sinal para que recomeçasse, voltando-se para o motor e fechando o capô.

— Dá ré agora.

Simon poderia até ter conseguido colocar a marcha no carro, mas a ré estava se provando mais difícil. Por mais que colocasse o câmbio na posição certa, não conseguia ligar. Sem contar que a imagem de Matheus fazendo força para empurrar o carro era uma distração. Muita coisa para lidar de uma só vez.

— Pode acelerar agora! — ele gritou.

Tentou outra vez. Nada.

Começou a ficar alvoroçado, tentando pensar racionalmente e com calma. Pôde, então, apenas observar Matheus parando ao seu lado com uma expressão questionadora.

— Qual o problema?

— Não sei dirigir um carro manual? — Se tom de voz saiu duas oitavas mais fino e esganiçado do que o habitual.

— E como tirou a carteira?

— Eles não pedem pra aprender em carro manual!

— Argh, você deveria ter falado antes.

Ele colocou a cabeça no nível da sua, entrando um pouco pela janela. As bochechas estavam vermelhas devido ao frio e arfava um ar gelado com cheiro do pêssego de mais cedo. Simon sentiu a boca secar, ficando ainda mais nervoso com a aproximação. E como o ar-quente havia desligado, não poderia dizer que estava quente demais dentro do carro.

— Tá vendo a ré? — Esperou até que concordasse. — Você precisa colocar a mão na parte redonda e puxar para baixo primeiro, depois para cima, aí vai pegar. — Simon arregalou os olhos com as instruções, abriu a boca para soltar uma piadinha ácida, todavia, Matheus foi mais rápido. — Também serve para sua punheta.

A piscadela fez seu sangue ferver.

— Diga por você.

— Eu estou dizendo, querido.

Assim, foi inevitável que sua mente não enchesse de imagens lascivas. Remexeu as pernas.

— Não me admira que você só fique nela, nesse caso.

Matheus riu alto.

— Vamos mesmo entrar em detalhes? — Seu olhar malicioso estava cheio de promessas, embora tudo, em tese, não passasse de uma brincadeira.

— Eu empurro — respondeu, abrindo a porta do carro antes que suas pernas ficassem bambas demais.

Você?

— O que isso significa?

Ele deu de ombros. Simon sentiu a raiva se misturar com a paixão.

— Bem, apenas observe!

Talvez não tenha sido uma boa ideia, esse foi o primeiro pensamento que teve ao empurrar o carro com toda força que possuía e ele não se mexer um centímetro sequer. Colocou ainda mais força, sentindo os músculos tremerem.

Matheus pisou no acelerador, com uma cara zombeteira, e deu uma joinha com o dedo.

Depois de alguns minutos horríveis e de ficar suado — agora por esforço —, o carro deu sinal de vida, e saiu andando para trás, quase lhe deixando ali. Simon precisou correr e abrir a porta dele em movimento! Sentiu-se como um daqueles descolados dos filmes de ação.

Rindo alto, exclamou:

— Aprendeu?

Matheus curvou os lábios, assentindo.

— Muito bom pra quem tem preguiça até de caminhar para o refeitório, você fez bem.

Simon deu de ombros, achando melhor não mencionar todas as vezes que correu como um louco à noite, para ficar cansado demais e evitar certos sonhos. Pediu a garrafa d’água com um gesto e, depois de tomar generosos goles, falou:

— Volte no giratório e vire esquerda, depois siga em frente.

— Eu posso levar você na sua…

— Você vai.

Sentiu o olhar confuso dele sobre si, mas apenas fingiu fechar a mochila. Não seria legal se o carro desse problema outra vez, então teria que passar a vergonha. Entretanto, não previamente.

Matheus fez a volta, andando ainda mais devagar.

— Já tá um pouco tarde. Acho que cê tá atrasado.

— Céus, vamos fingir que não.

— Ela não pode ser tão brava.

Simon soltou uma risada um tanto histérica.

— Vai nessa.

— Ela faz o quê? Te bate? Ahhh! Já sei. Grita na frente de todo mundo?

— Minha vó faz pior. Quando a gente entra em casa, ela pega na orelha e a torce, e depois, ela faz doer de outra forma: falando a mesma coisa o dia inteiro. Colocando comidas que eu não gosto, minhas sandálias para lavar.

Matheus riu gostosamente.

— Nossa.

— Pois é. Tá vendo aquela casa branca? — Apontou para uma casa no final da rua. — Você pode parar lá.

Ele assoviou.

— Acho que eu não sairia de casa se vivesse aqui.

— Ué, você não é o proativo?

Sabia que ele percebido que tinha falado o caminho mais longo. Matheus, no entanto, não comentou nada, para seu alívio.

— Apenas por necessidade.

— Ficaria tentando melhorar suas técnicas de masturbação?

Simon arrependeu-se em seguida, sem nem imaginar por que tais palavras saíram de sua boca. Esse não era um território seguro para conversar.

— Quanta curiosidade, Sawyer. Quer que eu mande um vídeo pra você aprender?

Sim, por favor. Com o máximo de urgência possível.

— Ha Ha Ha. Eu morreria de desgosto.

— Morreria de outra coisa.

Outro sorriso ladino. Sentiu as bochechas ficarem quentes, mas não recuou. Afinal, tinha começado.

— De decepção por você ser ainda menor do que eu imagino? Você sabe o que falam dos malhados.

— Ouch! E eu imaginando que você me achava superdotado.

— Nos seus sonhos.

— Bem, eu sei que você parece uma lombriga de tão fino. E não sei se você sabe, mas a espessura é o que importa.

— Então você admite que é pequeno? Uau, queria ter sua confiança.

O que mais gostaria de fazer seria puxar as calças deles para baixo e acabar com as suposições, só que não parecia muito apropriado em plena luz do dia em um espaço aberto.

— Você apenas supõe que eu sou pequeno, eu sei que você é fino.

— Você sabe?

Eles estavam tão absorvidos na conversa que não notaram a pequena mulher do lado de fora do passageiro, até que era tarde demais.

Simon tomou um susto tão grande que derramou um pouco de água no colo.

Sua avó deveria ter escutado alguma coisa, já que o motor estava desligado e as sobrancelhas dela estavam arqueadas em interesse e divertimento. Sentiu-se um pouco apavorado por ela ter presenciado uma conversa tão íntima. Não apenas por isso, já que a senhora Sawyer era até progressista, mas, principalmente, por o tom de flerte presente.

O quanto ela teria escutado?

Ela abriu a porta dele e sorriu gentilmente, o que deu ainda medo.

— Desculpem atrapalhar a conversa, garotos, mas é que o jantar está esfriando.

Seu corpo estremeceu ante o olhar gelado dirigido à si.

— Eu perdi o ônibus e meu amigo veio me trazer — explicou-se.

— Hummm. Obrigada por trazer meu neto, jovem. — Sorrindo de modo doce e maternal, perguntou. — Como é seu nome?

Matheus parecia um pouco verde.

— Matheus, senhora.

— Matt-iws?

— Matheus. É um pouco complicado de ser pronunciado, afinal, é um nome hispânico, né.

Ele parecia tão nervoso que divagou, gaguejando.

— Ah, sim. É uma língua muito bonita. Sempre me arrependi por não ter aprendido. Você não quer entrar?

— Ah, não. Obrigada. Minha mãe está me esperando e eu não posso demorar.

Simon afundou no assento, querendo desaparecer. Sua avó estava tramando alguma coisa, restava saber o quê. Na verdade, a única coisa boa ali foi ter visto o constrangimento de Matheus por sua causa, mesmo que indiretamente. Era bom variar.

— Mas eu não posso deixar você ir embora depois de ter trazido meu neto aqui, tão longe da escola. Sua casa é longe daqui?

— Que isso, dona. Não foi nada. E eu moro um pouco longe, sim.

Ela bateu palmas, animada, como se já tivesse resolvido tudo.

— Ótimo. Eu vou preparar então, um lanche para você comer. É o mínimo — ela continuou, vendo que ele iria protestar. — Não vai demorar nem cinco minutos. E você pode sentar ali com o Simon, por enquanto. Ou pode entrar.

Ela mostrou os bancos de madeira debaixo de um pergolado e a entrada da sala. E saiu. Puft.

Engolindo a saliva audivelmente, saiu do carro.

— Vamos.

— Eu não. Vou pra casa.

Matheus olhou-lhe como se questionasse sua sanidade.

— Vai ser pior. Não duvido que ela vá bater na sua casa se você sair. É sério!

Com um suspiro cansado, ele saiu.

Sentaram-se no banco, e tentaram ignorar o frio, que nem o sol parecia conseguir atenuar.

— Você acha que ela escutou?

Simon apenas revirou os olhos.

— Contanto que ela não venha dar uma aula de sexualidade, não tem problema.

— Ah.

— Você fica tão bonitinho envergonhado. Wonn.

— Vai se fuder.

— Acho melhor a gente não voltar pra esse assunto perto da minha avó.

Estava mais desinibido. Seu nervosismo por não saber o que falar diminuía a cada minuto perto de Matheus.

— Engraçadinho.

— Tá com frio?

O casaco dele era bem mais fino que o seu.

— Óbvio.

— Quer que eu pegue uma manta?

— Não, valeu. Você vai dormir aqui?

— Aham. Acho que vou passar uns dois dias aqui.

Sua avó retornou com uma bandeja na mão.

— Eu não sabia se você quer comer aqui ou depois, então trouxe uma sacola.

— Acho melhor ir comendo no caminho. Muito obrigada, senhora. — Ele levantou-se e foi para perto dela, que deu outro sorriso amável.

Ela minimizou com as mãos e entregou à sacola para ele.

— Mas não deixe de vir aqui um dia, sem tanta pressa. E tome cuidado.

Matheus pareceu desconcertado com o convite. Tão fofo.

— Ah, sim. Sem dúvidas.

— Tchau!

— Tchau, senhora. Tchau, Simon.

— Até amanhã.

Ele entrou no carro, acenou mais umas três vezes e partiu.

Simon ficou triste, mesmo sabendo que iria vê-lo o dia seguinte.

Sua avó apenas ficou parada algum tempo, pensativa, antes de entrar.

— Vamos, Momon, não quero pegar um resfriado.

Ainda incrédulo com os acontecimentos do dia, assentiu distraidamente, antes de notar que sua avó só queria saciar a própria curiosidade.

Gemendo, sofreu antecipadamente pelo interrogatório que estava por vir.

Notas finais
♠ Natália, perdão pela demora. Eu tive que dividir esse aqui em dois, e colocar um "final" razoável, para que a estória não fique muito sem pé nem cabeça. Espero que ainda esteja do seu agrado. ♠ Capítulo não betado. Em caso de erros, por favor, me avisem.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.